sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Espaço Leitor: Memória de Elefante



Hoje apresento mais um "Espaço Leitor", com um texto da Margarida Contreiras, autora do blog "Pensamento a cores" que aconselho todos a visitarem!

Espero que gostem, e se quiserem submeter as vossas opiniões literárias, estejam à vontade!

Autor: António Lobo Antunes



Psyché é uma palavra de origem grega que se traduz na linguagem atual para mente. É neste tronco terminológico que encontramos as ramificações para os termos psicologia, psiquiatria, psicose, psicanálise, psicoterapia, todos eles viventes nas páginas deste livro. Na verdade, toda a história é contada com a objetiva presa à psyché de um médico, obrigando-nos a captar a realidade filtrada pelo seu olhar. Por isso, este é um livro peculiar.

O médico que protagoniza a história é um psiquiatra de um hospital lisboeta, cuja mente carece ela mesma também de terapia. A ação nasce na fonte sensorial e sentimental do protagonista e desenvolve-se à luz do sua experiência de vida e da consequente visão denegrida que tem do mundo. Ao virar as primeiras páginas, apercebemo-nos imediatamente que esta deturpação está profundamente ligada a uma distanciação familiar que revela, simultaneamente, necessidade de afastamento e aproximação. É por isso que as grandes sensações que fazem este livro são a frustração, a cobardia e o conformismo.

O narrador não corresponde à personagem principal por não encarnar assumidamente a sua alma, no entanto a consciência dos dois está tão próxima que podemos questionar se a narrativa se tratará de um autorretrato na terceira pessoa. Por outro lado, as personagens secundárias são praticamente inexistentes, surgindo apenas pontualmente e como voz da consciência alternativa ressonante na cabeça do psiquiatra e atuando também elas como psiquiatras através dos seus juízos de valor. Existem sim muitos figurantes que passam pela ação da história como meio de ilustração corroborante do pensamento da personagem principal e que se traduzem, na narrativa em si, como resultado de uma observação reprovadora. Normalmente, estes figurantes agem com indiferença perante o protagonista, em movimentos frios como os dele mesmo.

O desenrolar da história é feito com marcada lentidão, concentrando-se no decorrer de apenas dois dias, e o enfoque da ação é centrado mais na descrição sensorial do que no desenvolver de acontecimentos. Esta descrição é extremamente particular: o autor descreve-nos, não a realidade com as suas cores e relevos, mas através das sensações que essas cores e relevos (eventualmente existentes) provocam no protagonista da história. Por outras palavras, o autor diz-nos o que aparenta ser em vez do que é, indicando-nos a consistência dos acontecimentos num entrançado de emoções e pensamentos, todos eles desembocando na distante memória da mulher e das filhas que nunca chegamos a perceber se é longa ou curta no tempo. A visão do protagonista através da qual assistimos à narrativa mostra uma perspetiva negra do mundo, em que é dada especial referência aos distúrbios e anomalias do âmbito da sexualidade: jovens mulheres seduzem homens velhos por interesse, prostituição, pedofilia, entre outros, embora estes sejam assuntos abordados apenas para uma representação de quimeras de um mundo simultaneamente real e abstrato e não porque sejam importantes para a ação central.

Lobo Antunes apresenta-nos uma escrita erudita e extremamente sensorial num livro que se lê sobretudo para o desfrute da palavra e da descodificação de uma mente turbulenta. Esta obra pode ser lida pelo leitor comum familiar com o mundo literário, no entanto, as suas potencialidades disparam até aos campos mais profundos da psicologia. O final será dificilmente conclusivo para um trivial leitor, convidando a uma análise desta memória de elefante que deverá ser feita de olhos semicerrados e mente aberta.

Nota: O "Espaço Leitor" é um pequeno espaço onde qualquer leitor pode deixar a sua opinião a um livro. Novamente, muito obrigado à Margarida Contreiras pelo seu fantástico texto.

2 comentários:

  1. Parabéns à Margarida pelo texto de grande qualidade a um livro também muito bom. Já o li e gostei bastante. Também concordo com muito do que está aqui escrito.

    Luís, continua com esta iniciativa. eu até enviava um texto, mas não tenho mesmo jeito.

    Abraço

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  2. A par de "CONHECIMENTO DO INFERNO" e "OS CUS DE JUDAS", este é um dos três (os seus primeiros) livros do ALA que se conseguem ler, todos os outros são absolutamente ilegíveis!

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