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quarta-feira, 8 de outubro de 2014

MENTIRAS NO DIVÃ


Autor: Irvin D. Yalom

Título original: Lying on the couch



Sinopse: Depois do sucesso dos best-sellers internacionais Quando Nietzsche Chorou e A Cura de Schopenhauer, Irvim D. Yalom regressa com uma história ambiciosa sobre as virtudes e os princípios da terapia. Neste provocador romance de ideias, Yalom disseca a complexidade das emoções humanas através do relacionamento de três terapeutas e dos seus pacientes. Num romance tocante e angustiante, Yalom estuda as delicadas fronteiras entre terapeuta e inquisidor, confidente e amante.Seymour, um terapeuta de renome e ex-presidente da Associação Psiquiátrica Americana, é adepto de técnicas pouco ortodoxas e inicia um jogo erótico com uma paciente quarenta anos mais nova. Este tratamento alternativo parece tirá-la de uma rotina de promiscuidade e autoflagelação. Lash é um jovem psicanalista com uma fé inabalável na psicanálise e esconde o seu fanatismo sob a máscara da responsabilidade. Na busca do seu caminho, inventa uma radical abordagem para as suas sessões: honestidade brutal entre analista e analisado. Os resultados são tão inesperados como perigosos. E vê-se na situação de ser vitima da sua própria cura. Explorando os jogos de poder, Mentiras no Divã é uma história intensa, eloquente e bem-humorada, em que os dilemas da lealdade se apresentam com clareza e vigor. Um livro brilhante, inteligente e apaixonante. 


Irvin Yalom é um dos escritores mais constantes que já li. Todos os seus livros, sem exceção, são de uma qualidade muito acima da média e mesmo não sendo este um dos seus melhores livros, é mais uma grande leitura. 

Olhando de forma geral para este livro, não ficamos perante um romance dentro do que estamos habituados, mas sim perante uma leitura que, tendo uma história (que é o catalisador e que apresenta muitos diálogos interessantes), tem como objetivo ser didático. Trata-se de um livro para ensinar, que nos faz pensar, e que quase relega para segundo plano o enredo, porque o essencial é o que iremos aprender e o que iremos questionar. O enredo foca-se em duas histórias paralelas, sobre dois casos onde existem três ideias bases: a primeira é que o psicólogo também é um ser humano, a segunda é que nada garante ao psicólogo que esteja a ouvir a verdade do seu paciente, e a terceira prende-se com a questão, que tanto psicólogo como o leitor terão, que é a dúvida se a forma como o psicólogo decide conduzir o tratamento é, ou não, o mais indicado e produtivo.

Olhando primeiro para o facto de o psicólogo, ser, inevitavelmente, um ser humano com os seus próprios problemas pessoais, é preciso louvar a facilidade com o que Yalom expõe as suas personagens. Todas elas com problemas, com segredos, com mentiras e vergonhas, capazes de rivalizar com os problemas dos seus próprios pacientes, tornando este enredo em algo incrivelmente realista. 

Por outro lado temos os pacientes, que de forma consciente, ou não, mentem. Este será, provavelmente (isto vendo de um ponto de vista de quem não percebe nada do assunto, eu), um dos problemas da própria terapia: se um paciente não for sincero, como poderá o psicólogo ter, na fase inicial, a melhor abordagem? E num mundo de mentiras, poderá o psicólogo alcançar, em algum momento, a totalidade do problema do seu paciente? Esta é, inevitavelmente, uma relação de confiança e sinceridade, sem aproveitamentos, sem segundas intenções... Yalom explora aqui essas necessidades e as falhas que podem acontecer nestas relação entre psicólogo e paciente.

Com personagens muito bem construídas, Yalom apresenta o seu estrondoso conhecimento sobre o tema, levando-nos a perceber conceitos com facilidade numa linguagem que por vezes foge da normalmente encontrada num romance, para se tornar numa escrita que é simples, mas também académica em alguns momentos. E aos poucos, sem que tivéssemos conscientes no início, o enredo transforma-se num thriller psicológico sob o olhar do psicólogo para com o paciente, aumentando o ritmo da narrativa, colando-nos às páginas até ao surpreendente final em que o último parágrafo ficará na nossa memória durante algum tempo.

Apesar de não ser, tal como já disse antes, o melhor livro de Yalom (para mim é difícil bater A Cura de Schopenhauer), este é mais um grande livro do autor. Não é para todos os leitores, é preciso gostar do tema, mas aqui Yalom tem um enredo mais abrangente, porque existe uma mistura em que o thriller psicológico ganha peso. Falar mais sobre este enredo, com excelentes diálogos, é retirar à leitura momentos que o leitor deve ter e descobrir, sempre tendo como base que nada impede doutor ou paciente de mentir. Faz parte da natureza humana, e sempre fará, em qualquer momento.

Como sempre, uma leitura muito agradável e muito inteligente.

Luís Pinto


sábado, 22 de março de 2014

A PSICOLOGIA DO AMOR


Autor: Irvin D. Yalom

Título original: Love's Executioner



Em 2013 este autor espantou-me com o fantástico "A cura de Schopenhauer", que considerei o melhor livro que li nesse ano. Agora este "A psicologia do Amor" promete lutar por esse "prémio" no fim do ano. Ainda só estamos em Março e a pergunta é: irei, até ao fim do ano, ler um livro melhor do que este?

A evolução que a humanidade tem assistido ao nível do conhecimento é incrível. A cada instante há algo mais que descobrimos, que verificamos, que compreendemos. Provavelmente, um dia o nosso conhecimento, sobre nós e o que nos rodeia neste universo, será bastante vasto... mas acredito que nunca iremos perceber o que é o amor.

O amor, seja ele o que for, é "aquilo" que faz o nosso cérebro descontrolar-se. É o que nos faz sonhar e encontrar forças onde não existem. É o que nos faz voar, mas também cair. É o que nos faz levantar, mas também desistir. O amor é o essencial, é o invisível, e é a razão por cima de qualquer razão. É isto, e muito mais. É aquilo que já foi dito, e aquilo que se dirá. Yalom não tem como objetivo definir o amor nem compreender de forma científica o que acontece no nosso cérebro para que todos aqueles neurónios comecem a trabalhar de forma diferente e imprevisível. O que Yalom mostra no seu livro é o que o amor nos pode dar ou tirar, e como devemos enfrentar tudo o que daí advém.

Com este livro, Yalom mostra-nos dez casos de pacientes seus, e é perturbador os diferentes problemas que este homem irá enfrentar, tentando ajudar aqueles que no início são sempre desconhecidos. Esta obra é, ao mesmo tempo, um grito de esperança e uma imagem aterradora do que o amor nos pode fazer. Explorando estas dez histórias, Yalom toca em vários temas diferentes que são a base de cada caso, passando pelo luto do qual não se consegue sair, a insegurança que nos afasta de quem amamos ou o desespero de não conseguirmos esquecer quem nos deixou.

Com uma escrita objetiva e acessível, Yalom desvenda bastante sobre a relação que tem com os seus pacientes e a forma como estrutura a sua aproximação, sendo essencial conseguir descobrir se o paciente está realmente disposto a ser ajudado e, mais importante, se acredita que o poderá ser. Aliás, olhando para estes dez casos como um todo, acredito que a grande mensagem que este livro nos deixa é que somos nós a peça principal para nos curarmos. Somos nós quem deve dar o primeiro passo para melhorar e acreditar que tal é possível, e só assim alcançaremos o sucesso.  

É curioso como nos ligamos rapidamente as estes casos, sentido alguma da dor destas pessoas e ganhando uma preocupação, que é a mesma de Yalom, e o autor consegue passá-la facilmente ao leitor, principalmente porque sentimos que estamos a ler algo real, algo que já aconteceu e voltará a acontecer com outras pessoas. O amor tem os seus riscos, tal como tudo, e saber enfrentá-lo, para o bem ou para o mal, é um dos objetivos deste livro. Em vários aspetos, este é um dos livros mais fascinante que já li, e fazer uma análise mais profunda sobre cada caso só iria estragar a surpresa que os leitores devem ter. No entanto, esta é uma obra tão rica em relação a ideias sobre amor e relações, que poderia estar várias horas a escrever sobre ele. E são estas visões singulares, que cada paciente tem, em oposição às de Yalom, que devem ser lidas e analisadas, pois este é um livro que pede para ser estudado e interiorizado. 

Não querendo alongar-me mais nesta análise, devo concluir dizendo que este livro é fantástico ao ponto de o recomendar a todos os leitores que, de alguma forma, estejam interessados no tema. Yalom oferece-nos um livro que deve ser lido e relido alguns anos depois, e acredito que continue a ser fascinante e, provavelmente, interpretado de forma diferente. No fim do ano estará, certamente, no topo dos melhores que li em 2014 e acabo esta crítica acreditando que qualquer coisa que escreva, não demonstra, nem de perto, a qualidade do livro, porque o amor é algo que cada um de nós irá sentir de maneira diferente. Irá levar-nos por caminhos únicos e faz-nos rir ou chorar de formas que nunca antes tínhamos feito, e Yalom dá-nos uma visão impressionante com estes dez casos. Totalmente recomendado.

Luís Pinto




quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O PROBLEMA ESPINOSA


Autor: Irvin D. Yalom

Título original: The Spinoza problem



Sinopse: Quando o jovem de dezasseis anos, Alfred Rosenberg, é chamado ao diretor devido a comentários antissemitas no liceu, é obrigado a estudar passagens sobre Espinosa. Rosenberg fica espantado ao descobrir que Goethe, o seu ídolo, era um grande admirador do filósofo português Bento Espinosa. Um judeu. Mais tarde na sua vida, Rosenberg continua a ser perseguido por esse «problema Espinosa»: Como poderia o génio Goethe inspirar-se num membro de uma raça inferior, uma raça que ele estava determinado a destruir?

Espinosa, um judeu português refugiado na Holanda, viveu uma vida de castigo e isolamento. Devido aos seus pontos de vista, foi excomungado da própria comunidade judaica de Amesterdão, e banido do único mundo que sempre conhecera. Apesar de viver com poucos meios, Espinosa produziu obras que mudaram o rumo da História. Com o passar dos anos, Rosenberg tornou-se um ideólogo nazi eloquente, fiel servidor de Hitler, e principal responsável pela política racista do Terceiro Reich. Todavia, a sua obsessão por Espinosa continuava a afetá-lo
.

É o 3º livro que leio deste autor e, uma vez mais, foi uma leitura fantástica. É difícil, pelo menos para mim, conseguir criar uma análise que consiga explorar todos os temas que o escritor aborda. 

Uma vez mais, tal como nos seus livros anteriores, Yalom oferece-nos uma narrativa que se torna numa luta entre duas personagens, neste caso Espinosa e Rosenberg. É uma luta intelectual, uma oposição de ideias, de formas de ver a vida, a sociedade e o valor do que nos rodeia. E, tal como nos anteriores livros, Yalom cria duas personagens de tal forma credíveis, tanto em termos psicológicos com em termos históricos, que acabamos no fim por reparar que nenhuma delas tem a totalidade da razão. É preciso sempre ver os dois lados. À partida podemos pensar que Rosenberg, um dos grandes nomes do Terceiro Reich, estará inevitavelmente errado, mas a verdade é que não o está totalmente numa ou noutra questão, tal como não existe alguém totalmente mau ou bom, nem totalmente sábio ou ignorante.

Com um realismo bem vincado nas suas personagens, principalmente na forma como o autor recria Espinosa a partir das suas ideias, vemos o choque da mentalidade criada por imposição contra a mentalidade recriada pelo pensamento e estudo. Mas não só. A diferença entre estes dois homens é o marco do livro, chegando a um ponto de qualidade só igualmente atingível pelo momento em que estas duas personagens percebem (tal como nós, leitores) que em certos aspetos são tão parecidos.

Outro aspeto bem presente neste livro e um dos maiores trunfos na escrita de Yalom, está na forma como molda a vida destas personagens por forma a nos mostrar, com ações, um pouco mais das suas personalidades. A disparidade com que cada um avança na sua vida, um isolado para uma maior compreensão, o outro necessitado de afeto e da presença de alguém que o enalteça, é, quase inexplicavelmente, suficiente para criarmos um esboço psicológico caso não o tenhamos feito ainda.

Em termos de história, é sempre interessante começar um enredo por algo verídico e aqui Yalom explora muito bem um certo momento. Mas, o que fica vincado, tal como nos anteriores livros do autor, é o seu conhecimento do trabalho de alguns filósofos, e com esse conhecimento cria uma personalidade, uma vida... e deixa uma mensagem a todos os leitores. A forma como o autor explora a mente humana é ímpar, pelo menos para mim, e alia a tal facto a capacidade de criar uma narrativa que não satura, pois tudo é explicado aos poucos de forma a criar um enredo ao mesmo tempo complexo mas de fácil compreensão.

Yalom oferece mais um excelente livro. Para mim, não está ao nível de "A cura de Schopenhauer" (opinião aqui), mas é mais um livro de grande qualidade, que fará qualquer leitor questionar várias visões numa das mais marcantes épocas da nossa humanidade. Yalom leva-nos a questionar a forma como olhamos para algo diferente, a diferença como ouvimos alguém "abaixo" por comparação a alguém "acima" de nós, e o valor que damos ao que ouvimos... mas muito mais. Todos nós, numa esmagadora maioria, deixaremos algo neste mundo, quer seja bom, quer seja mau. Pode ser uma ideia, um simples ato, mas a nossa presença, por muito curta que seja, não é apagada. A presença de Espinosa e as ideias que deixou, ainda fazem eco, e a forma como Yalom expõe tal noção, é realmente impressionante.

Luís Pinto

quinta-feira, 13 de junho de 2013

QUANDO NIETZSCHE CHOROU


Autor: Irvin D. Yalom

Título original: When Nietzsche wept


Quando há uns meses li "A cura de Schopenhauer" fiquei convencido que teria de voltar a este autor. Irvin Yalom tem neste livro a sua obra mais famosa, e apesar de não me ter marcado tanto quanto "A cura de Schopenhauer", é uma obra de inegável qualidade.

Neste livro temos a participação de três personalidades que marcaram o seu tempo: Freud, Breuer e Nietzsche. Sendo assim, acredito que uma das maiores preocupações de um autor que "invoca" tais personalidades é torná-las coerentes. Neste caso o autor não teria tarefa fácil, principalmente para criar um Nietzsche que estivesse ao nível intelectual e filosófico que seria exigido, e o autor não falhou. 

Aliás, um dos grandes trunfos do livro é o grande conhecimento de Yalom sobre a filosofia de Nietzsche, e com ela molda toda a sua personalidade. A partir dessa definição, o autor dá-nos um filósofo perto de atingir o desespero que o poderá levar ao suicídio, e vemo-nos como espectadores de uma conversa terapêutica onde Breuer e Nietzsche irão perceber como uma conversa pode ser uma simples forma de encontrarmos respostas sobre nós mesmos. 

Com estas duas personagens perto de perderem o rumo da vida, ou pelo menos, o suposto rumo, somos inundados por um conjunto de diálogos onde sentimos a mestria do autor. É verdade que existe um ou outro momento onde o rumo da conversa parece algo forçado, mas rapidamente esqueci esse detalhe graças à qualidade das falas destes dois homens. 

Todos nós temos segredos. Manter um segredo sobre um pessoa não é falta de amor por essa pessoa, por vezes nem falta de confiança na mesma. Talvez seja vergonha, talvez seja falta de amor próprio.. não é isso que está em causa. O que é real, é que todos escondemos algo, por vezes eternamente, por vezes até de nós próprios. E por isso pergunta-mo-nos: quão libertador pode ser olharmos um amigo, destruir todas as barreiras e falarmos sem segredos, sem medos, sem vergonha? É isso que estes dois personagens tentam fazer, e com eles vemos a importância da amizade, da compreensão e da vontade de ajudar alguém.    

É verdade que existem outras personagens interessantes neste livro, como por exemplo Freud, mas a força narrativa de Breuer e Nietzsche tornam o livro muito focado nos seus problemas. Vemos como a psicologia pode ajudar a filosofia, e vice-versa, mas principalmente vemos como a honestidade, o amor e a amizade podem construir algo que nada possa derrubar. Claro que não é fácil, e cada um terá o seu caminho, mas se fizermos o que estas personagens fazem, poderemos aprender algo com esta leitura... para isso temos de olhar para nós mesmos, vermos o que está escondido, o que quase foi esquecido mas ainda nos influencia. E quem sabe, talvez nos libertemos das obsessões ou medos que prendemos dentro de nós... Solidão, rotina, insucesso... tudo isto mata, só que muito devagar.

A quantidade de ideias que este livro nos oferece daria para várias horas de discussão. Algumas são sábias, outras radicais, mas a grande maioria são atuais e levam-nos a questionar não só a natureza humana, mas também algumas definições, como por exemplo o que é o sucesso. Teremos a capacidade de ter a nossa própria definição ou seremos levados pela construção cultural?

Para finalizar digo o seguinte: este é mais um grande livro deste autor. Não me marcou tanto quanto "A cura de Schopenhauer", o que era realmente difícil, mas é um livro que deve ser lido por quem gostar do género. É uma obra de grande qualidade, sólida, coerente e que me agarrou com facilidade. Mérito ainda do autor em colocar no fim uma explicação sobre o que é facto e o que é realidade, tornando tudo ainda mais interessante. 

Luís Pinto

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A CURA DE SCHOPENHAUER


Autor: Irvin D. Yalom

Título original: The Schopenhauer Cure


Há uns anos li um livro de Schopenhauer chamado "O Mundo como Vontade e Representação" e fiquei a conhecer um pouco as ideias deste filósofo. Porque o fiz? Primeiro porque acabara de ler "Clube de Combate" e algumas das ideias da personagem Tyler Durden sobre o materialismo humano vinham de Schopenhauer. O mesmo acontece com a filosofia Jedi (Star Wars) que apresentam alguns traços da visão deste autor, juntamente com a visão de algumas religiões em relação à interacção com outras pessoas.


Agora, finalmente, comecei a ler Irvin D. Yalom, e ao iniciar-me nas suas obras com este livro, imediatamente recordei muito das ideias que Schopenhauer tentou ensinar à humanidade, mas o facto de já ter lido sobre o filósofo não se mostrou importante, pois Yalom escreve um livro onde a história principal e a história da vida de Schopenhauer são dadas de forma intercalada. A história principal é obviamente mais interessante, mas saber como foi a vida de Schopenhauer ajuda a percebermos o porquê das suas decisões e forma como viu a vida, e a morte.

Este é o primeiro livro que leio em que filosofia e psicanálise se misturam de forma tão acentuada, sendo aliás, o mecanismo que faz todo o enredo avançar.
A história começa quando Julius, um terapeuta de sucesso, descobre que tem um cancro, e apenas um ano de vida. Este primeiro contacto direto com a morte, leva o terapeuta a procurar Philip, um dos poucos homens que não conseguiu ajudar.

Confesso que no início, a história pareceu-me assente em algo "banal": um terapeuta às portas da morte tenta redimir-se, ajudar alguém, dar um novo significado aos poucos meses que tem de vida. No entanto o livro tornou-se em algo muito melhor. A batalha entre Julius e Philip é a diferente visão da vida, e se um necessita de companhia e amor, e sem isso a vida não faz sentido, Philip segue as palavras de Schopenhauer, onde precisamos de nos libertar de tudo o que tememos perder, para não sofrer no futuro.

Esta batalha tem como cenário um grupo de terapia liderado por Julius, onde encontraremos pessoas com os mais variados problemas humanos: problemas sexuais, de relacionamento, bebida, afirmação social, raiva, incapacidade para perdoar, angústia perante a velhice...
E quase todo o desenvolvimento do enredo se passa nestas sessões. Parece estranho, mas na realidade é fantástico como Yalom conseguiu criar um livro assim, que seja tão bom!

O grupo é dinâmico, com regras próprias e a intereção entre elementos resulta em diálogos realistas e que demonstram o avanço ou retrocesso das personagens. E no final podemos dizer que todas as personagens evoluíram lentamente e com uma grande carga emocional, levando-me a afirmar que o autor criou um enredo realista com personagens, que apesar de não conhecermos fora das sessões, conseguem mostrar-nos muito do que é a vida humana no mundo em que vivemos... cheia de obrigações, expectativas e condicionalismos sociais.

Philip, homem que tenta passar a linha que separa o banal do brilhante, é a grande personagem desta obra, pois é ele quem terá de ser quebrado por um grupo cheio de problemas. E há sempre alguém, ou algo, que nos consegue quebrar... ninguém é um livro aberto, e por vezes, escondemos demasiado fundo os nossos problemas, mas eles estão lá... atormentam-nos.

Este livro, é um amontoado (no bom sentido da palavra) de ideias sobre a vida, a morte e a necessidade de sermos felizes. E mais do que a história, é isto que torna o livro bom. As suas ideias...
Entretém, vicia e ensina a cada página, o que é raro. Fará qualquer pessoa pensar, e muitas vezes irá atingir-nos com a realidade da condição humana, mas também com a tentativa de deixarmos algo com significado. Quando conhecemos a nossa hora, tudo se altera. O que pensa um homem que sabe ter alguns meses de vida? O que mais lhe custará deixar? O que quer concluir na vida? O que pensa nas noites em que permanece acordado?

A Cura de Schopenhauer é algo que nos faz abrir os olhos, perceber que quem possui o amor é quem ama, e não quem é amado, e que quem nunca amou nem foi amado, terá um vazio demasiado grande para ser suportado.

Antes de morrermos devemos perguntar: "estarei disposto a repetir esta vida eternamente, vezes e vezes sem conta?" Devemos agora fazer tudo para que a resposta seja "sim"

Irvin D. Yalom convenceu-me à primeira. Arrepiou-me, e agora percebo porque tantas pessoas me aconselharam este livro e porque é um autor com tão grande sucesso. Uma excelente obra sobre as formas como podemos enfrentar a morte, mas também a dor que a vida nos poderá causar e como nos devemos curar das feridas do passado. Um livro que educa e que faz pensar...


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