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terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

AS HORAS INVISIVEIS


Autor: David Mitchell

Título original: Bone Clocks



Sinopse: Holly Stykes foge de casa dos pais para viver com o namorado. Embora pareça uma típica adolescente inglesa, é propensa a fenómenos paranormais. Durante a fuga, conhece uma mulher estranha que a alicia com um gesto amável em troca de asilo. Décadas depois, Holly compreende por fim que espécie de asilo a mulher procurava…
Este é um thriller empolgante de David Mitchell, aclamado autor de Atlas das Nuvens que acompanha a vida atribulada de Holly numa série de eventos. Estes cruzam-se por vezes de maneira indizível, pondo-a no centro de uma perigosa jogada nas margens do mundo e da realidade.
Dos Alpes suíços da Idade Média ao interior australiano do século XIX, culminando num futuro próximo distópico, As Horas Invisíveis é um romance caleidoscópico que nos oferece uma alegoria do nosso tempo.



Tal como o seu mais famoso livro "Cloud Atlas", também este não é um livro fácil, mas é um bom livro. Dave Mitchell começa lentamente a preparar o leitor para o que está a chegar e aos poucos entrelaça realidades e conceitos que nos obrigam a alguma concentração. As ligações são muitas e aparecem quando menos se espera, dando uma sensação de universalidade e realismo a um enredo paradoxal. Preparem-se para algum esforço cerebral.

No entanto, este é um esforço recompensado para os que continuarem nesta aventura. Mitchell não poupa o leitor ao dar uma visão global e quase cósmica do mundo que cria. As implicações estão presentes e o leitor deverá questionar o que está a acontecer, principalmente para perceber o que lê. Como tal, o que se deve de imediato dizer é que se procuram um livro rápido e simples, este não é o livro que desejam. 

Mitchell leva-nos numa aventura quase paradoxal entre vários momentos e locais da história da humanidade, obrigando o leitor a ligar os pontos narrativos, as ações das personagens e o resultado dessas mesmas ações. No fim, o desenlace aparece forte e abrupto, mas se estiverem atentos irão antecipar o que o autor nos preparou. Este é, tal como Cloud Atlas, um livro para os que gostam de refletir, para os que gostam de filosofia e metafísica. O que nos une, o que deixamos quando morremos, as ligações que criamos com quem nos rodeia. Tudo isto são temas explorados e que tentam alterar as ideias preconcebidas que temos do universo.

Com boas personagens e bons diálogos, o enredo é consistente apesar de não ser fácil de compreender. O ritmo lento pode afastar alguns leitores mas também ajuda à compreensão dos que continuarem. Existiram alguns momentos que me pareceram demasiado esticados na sua duração mas que acabam por fazer sentido, uma vez mais, de um ponto de vista filosófico. No entanto, este livro não consegue ter o impacto emocional que tem Cloud Atlas talvez porque é um livro mais difícil de acompanhar na sua totalidade.

Original e ambicioso, este é um livro de grande qualidade mas que não agradará a todos. Muitos ficarão a meio, muitos irão adorar. Eu gostei bastante apesar de não me ter marcando tanto quanto Cloud Atlas. Mas mesmo assim, é um livro que recomendo a todos os que apreciem o género!

Luís Pinto


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

CLOUD ATLAS - Atlas das Nuvens


Autor: David Mitchell

Título original: Cloud Atlas


David Mitchel diz-nos que cada um de nós é uma gota no oceano. Mas não é um oceano, um conjunto de gotas? Então estamos todos ligados...
6 pequenas histórias... O primeiro ponto a focar é o esquema do livro. 6 histórias são lidas cronologicamente (da 1ª até à 6ª) e interrompidas as primeiras cinco, deixando o leitor apenas a conhecer a 6ª história até ao seu fim. Depois, vamos regressando ao passado (da 6ª à 1ª) e, consequentemente, o livro acaba na mesma pequena história onde começou.

Cloud Atlas é um livro único. A sua mistura entre ciência e filosofia faz com que cada pessoa tenha a sua interpretação, pois a carga filosófica e científica é tão marcante, que ficamos perante um enorme conjunto de razões possíveis para o que acabámos de ler. Mas a mensagem inicial, aquilo que liga as seis histórias e consequente razão do qual o livro trata, essa é universal... é a ligação entre a matéria, viva ou morta. É a ligação que torna tudo eterno? Aquilo que agora compõe o meu corpo, já antes esteve noutro ser vivo e voltará a outro depois de mim... mas poderá transmitir algo mais do que "massa"? poderá transmitir sentimentos ou conhecimento? Ou será a alma o fator eterno que nos molda e define?

Quando acabei esta obra, pensei que não há nada igual ao trabalho que este autor deixou nestas páginas. As 6 histórias apresentam-se em diferentes eras, desde o nosso passado até um futuro distante e nada risonho, e enquanto viajamos pelo tempo e espaço, a narrativa muda, tornando esta obra num conjunto de 6 livros que apresentam géneros diferentes. Thriller, ficção-científica, comédia, etc... David Mitchell acaba por criar um género ousado e que será, certamente, ligeiramente copiado no futuro.

Num olhar científico, a Terceira Lei de Newton diz-nos que para qualquer ação, existirá sempre uma reação de igual força. Num olhar filosófico, Descartes diz-nos "Penso, logo existo"... o fantástico deste livro é a forma como, ao mesmo tempo, apoia e destrói estes dois olhares. E a partir daqui, cada leitor terá uma experiência única e que deve ser lida.

Não é um livro fácil e pede-se algum ritmo na leitura. Se olharmos com atenção, há muitos momentos que são iguais nas várias histórias, pequenos pormenores que mostram a ligação, e estes momentos serão mais facilmente descobertos se lermos o livro a uma boa velocidade. Também não será um livro que agrade a todos, mas é preciso termos consciência para o que iremos ler. Este livro é, como já disse, científico, filosófico, e nada definitivo. Mas é também um livro sobre a ganância pessoal e empresarial que poderá destruir a moralidade que muitos lutaram para construir.

Posto isto é óbvio dizer-se que o conjunto das seis histórias é muito mais do que cada uma individualmente, pois é a ligação que faz a diferença. E no fim perguntamos o que é uma ligação? O que é existir? O que é um sentimento? O que é sonhar?


Muitos leitores não irão apreciar, outros irão adorar. No meu caso: um dos melhores livros que li este ano, e que um dia voltarei a ler, encontrando, certamente, novos significados.

Para os interessados deixo o link da editora e também o do livro, com mais informações e o trailer da adaptação cinematográfica.