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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A TOUPEIRA


Autor: John le Carré

Título original: Tinker, Tailor, Soldier, Spy


O primeiro livro da trilogia de Smiley contra Karla, a série que o tornou famoso em todo o mundo e consagrou John le Carré como um dos grandes mestres da literatura de espionagem.
Smiley e a sua gente deparam-se com um extraordinário desafio: uma toupeira, um agente duplo dos soviéticos conseguiu infiltrar-se e ascender ao mais elevado nível dos Serviços Secretos britânicos. A sua traição comprometeu já algumas operações vitais e as melhores redes.
A toupeira é um dos seus. Mas quem?


Sou um fã de espionagem, o género que leio mais a seguir a literatura fantástica. Sendo assim o nome de John le Carré estará sempre entre os meus autores favoritos, até hoje nunca me desiludiu e tenho o seu livro "O Espião que saiu do Frio" como um dos melhores livros que alguma vez li.
Neste livro, um dos seus mais aclamados, e o início da trilogia que coloca “frente a frente” Smiley e Karla, Carré mantém o seu estilo e ambiente característicos. Aqui os agentes secretos não são vistosos, não usam potentes carros, não existem bond girls. Não há tiroteios desenfreados, nem fantásticas perseguições… aqui a espionagem não é feita com tiros. É feita com palavras, com olhares, com enormes e subtis jogos de interesses… entrando neste “tipo” de espionagem, o oposto da vulgarmente vista nos filmes, Carré dá-nos uma atmosfera perfeita da Guerra Fria enquanto descreve de forma detalhada, e não cansativa para quem goste do género, as acções das personagens, pensamentos, receios e truques do mundo da espionagem. Posso mesmo dizer que se aprende com os livros de Carré. 

“The more identities a man has, the more they express the person they conceal.”

Com um ritmo que começa lento e acelera de forma constante até ao fabuloso final, Carré tem uma escrita que nos oferece tudo, mas nem sempre nos diz que devemos tomar atenção, e então falta-nos a capacidade para ver o detalhe que faz a diferença, porque aqui tudo conta. O ritmo lento faz-nos pensar, é bem conseguido e promove o mistério de cada personagem, e esse é um dos grandes trunfos de Carré. Cada personagem consegue ser misteriosa. Nós sabemos que existe ali um segredo!
Pelo meio um conflito amoroso que se torna em algo que tenta destruir o interior de uma pessoa, numa história que ajudou a redefinir a literatura deste género, ajuda a aprofundar ainda mais o nosso conhecimento da mente de Smiley, que se mostra como um homem fascinante e na personagem mais marcante de um excelente trilogia.

“Survival...is an infinite capacity for suspicion.”

Um livro cheio de amizade, amor, traições e receios. Um medo que se consegue cheirar, a incrível sensação que nunca estamos seguros. Há sempre alguém a ver… um enredo inteligente, cheio de classe… este livro é uma fantástica e lógica partida de xadrez. Uma obra que poderá afastar quem desejar um ritmo alto na leitura, mas que será certamente um livro marcante para quem o leia.
Mais um excelente livro de um dos melhores autores do nosso tempo e que apesar de ser o primeiro livro de uma trilogia, trata-se de uma obra que se lê sem necessidade de continuação. Cada livro de Carré conta uma história e não existe uma necessidade óbvia de ser ler os outros livros nem de forma cronológica.

“God is in his Heaven and the first night was a wow.”

sábado, 15 de outubro de 2011

O FIEL JARDINEIRO

Autor: John le Carré

Título original: The Constant Gardener


Nas margens do lago Turkana, no Quénia, um a mulher jovem e bela, Tessa Quayle, é brutalmente assassinada. O seu suposto amante e companheiro de viagem, um médico sul-africano, desapareceu sem deixar rasto. Justin, o marido de Tessa, ambicioso diplomata da Embaixada Britânica em Nairibi, o grande amante da jardinagem, não aceita a versão oficial do crime e empreende, por sua conta e risco, uma busca pessoal em perseguição dos assassinos de sua mulher.


Quanto vale a vida de uma pessoa? E a de uma pessoa que a estatística diz estar quase a morrer? Pode esse valor ser medido pelos parâmetros que estamos habituados? Dinheiro? Fama? Bem-estar?
Este livro faz-nos estas perguntas indirectamente, não nos dá a reposta, mas dá-nos um caminho para a alcançarmos. A resposta é simples: cada pessoa dá um valor diferente à vida, tanto à sua como à de outras pessoas. algumas, não dão valor.
Num livro bem diferente da atmosfera em que le Carré costuma escrever (deixando para trás a espionagem pura em que o personagem principal é um operacional), este magnífico escritor leva-nos até ao Quénia, e a uma história onde a base é o amor. Mas conseguiria le Carré, o autor de O Espião que saiu do frio ou A Toupeira, escrever um livro onde a base é o amor? A resposta é “sim”. John le Carré é um dos melhores escritores da actualidade, escreve como poucos e sabe o que escreve.
Desta vez encontramo-nos em África e seguimos os passos de Justin Quayle na busca pela verdade da morte da sua mulher. Um livro que começa lentamente, mais do que o normal em le Carré, poderá desanimar alguns leitores, mas para mim o selo de qualidade está no nome do autor, e como tal continuei. No fim o sorriso nos lábios por ler mais um grande livro, com um final arrebatador num romance que não foi feito para ser cor-de-rosa, mas sim realista, duro.
Um dos factores que mais gostei neste livro é a gradual mudança da personagem principal que começa por ser um resignado e acaba um fervoroso lutador pelos direitos humanos. Carré escreve uma obra que consegue mostrar a natureza humana, aquela capacidade que todos tempos de ver a desgraça alheia, sofrer por momentos, olhar para o lado… e já esquecemos. No caso de Justin, a busca pelos culpados da morte da sua mulher leva-o a esta mudança de atitude enquanto se apercebe de como não conhecia a mulher quando esta estava viva, para agora a entender melhor, ao ponto de se tornar mais compreensivo com as suas atitudes passadas, ao ponto de as aceitar e adoptar, e aquele casal insólito com duas personagens tão distintas, afinal não o eram assim tanto, a vida apenas os moldara de formas diferentes.
Este livro marca ainda por conseguir mostrar a frustração de quem tenta ajudar, de quem sacrifica a única vida que tem para ajudar o próximo, e poucos actos poderão ter tamanho valor, mas no fim o que vemos é sacrifício e riscos para quem ajuda e lucro para quem faz de conta que ajuda. Num continente esquecido por Deus, o Homem mata apenas para ter mais (dinheiro, poder ou outra coisa qualquer que para eles tenha valor), mas para quê querer mais se o que tinham já chegava? Natureza Humana…
No fim os olhos fecham-se, a corrupção move tudo, consegue tudo.
Le Carré dá-nos um livro inteligente, e isso nota-se nos diálogos e também por apenas nos dar a conhecer aos poucos, nos momentos certos, o que realmente se está a passar, deixando-nos a princípio tão cegos quanto o personagem principal. Nota-se ainda um enorme estudo por parte do autor sobre África, os interesses de quem tem poder, o que move quem ajuda e quem finge que ajuda apenas para benefício próprio.
Este não será certamente o melhor livro de John le Carré, mas é certamente muito bom. Um livro diferente do que nos habituou mas que não deixará ninguém indiferente, pois consegue ser belo e sonhador, cruel e angustiante.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O ESPIÃO QUE SAIU DO FRIO

 Autor: John le Carré

Título original: The Spy who came in from the cold

Têm sido muitos os autores que tentam escrever sobre espionagem. Não é um género fácil. Há que perceber aquele mundo, o que realmente envolve, o que realmente se faz e o porquê de o fazerem. Raramente a espionagem é feita de tiros, carros desportivos, etc… Talvez por isso os grandes escritores de espionagem do último século tenham sido homens com experiências reais em serviços de espionagem. Aquele que será não só o mais famoso mas aquele que nos trouxe os melhores livros, foi John le Carré, ficando à frente de outros nomes famosos como Graham Greene, Ian Fleming ou Tom Clancy.
Com mais de vinte livros, O espião que saiu do frio foi o livro que lhe deu a projecção que tem hoje. O próprio autor confessou que depois do êxito do livro decidira dedicar-se inteiramente à escrita deixando o trabalho que exercia. Escrevera-o em apenas cinco semanas numa onda de entusiasmo e inspiração. Com um trabalho tão vasto no mundo literário, com grandes clássicos como “O Fiel Jardineiro”, “Casa da Rússia”, “Um espião perfeito”, entre outros, decidi ler “O espião que saiu do frio”. De seguida li outros livros de espionagem, e mais outros, até regressar a este. Escrevo hoje sobre ele porque o considero o melhor que li.
Alec Leamas é a personagem principal desta história passada logo após o erguer do Muro de Berlin. Homem céptico e quase depressivo, Alec é tudo aquilo que James Bond não é: deselegante, por vezes rude, fisicamente nada atractivo e um operacional em fim de carreira, deixa para trás a grande maioria dos sentimentos que muito raramente o seu corpo é capaz de produzir. Continua as suas missões porque considera que os serviços de informações têm sempre uma lei moral com base em resultados e que depois a balança os julgará. E assim somos levados para o mundo de espionagem mais cinzento e traiçoeiro que já li, pois o mundo que vemos é pelos olhos de Alec, mesmo que indirectamente, e como ele está farto daquele mundo dividido por uma muralha.
A história leva-nos lentamente, sem grande espectáculo em descrições ou acontecimentos, para um mundo de comunismo, de encenações de todas as personagens, onde os bons e os maus se fundem tal como a própria lógica na guerra do bem contra o mal.
É um livro morno e que não cativará muita gente na sua primeira metade. É na segunda metade que este livro se torna fabuloso. As suas revelações tornam este mundo ainda mais negro e acabamos por não saber de que lado está cada um dos intervenientes, acabando num final arrebatador que não esquecerão tão cedo.
No entanto é na segunda vez que lemos este livro que percebemos que estivemos perante uma obra-prima. Ao sabermos agora as verdadeiras intenções de cada um, percebemos o que antes nos falhara, quer seja nos diálogos, quer seja em pequenas acções. Mais não revelarei porque este é um livro que vale pela sua história e intriga.
Uma nota ainda para a personagem principal, que acaba por nos cativar, contra qualquer probabilidade, ao desvendar do seu passado e suas convicções. Inteligente, com pensamento perspicaz, Alec quase que nos ensina espionagem sem querer.
Um livro a não perder. Pode não ser o mais apelativo e o mais entusiasmante dos livros de Carré, mas é uma verdadeira lição do mundo de espionagem onde os resultados valem muito mais que pessoas ou moralidade. É rude e cru, um livro marcante para os adeptos do género e que vos farão ler mais deste autor. Imprescindível.