Nota: Quem ainda não tiver acabado as sagas O Senhor dos Anéis e Harry Potter irá certamente ficar desagradado se ler este texto. Parto do princípio que o leitor que continue a ler já tenha acabado estas duas sagas. Usarei estas duas sagas no texto simplesmente porque são as que gostei mais de ler e são possivelmente as mais famosas. Existem ainda spoilers sobre a saga de George R. R. Martin.
Como irá acabar a saga Game of Thrones de George R. R. Martin?
Esta é talvez a pergunta mais frequente da literatura actual. O brutal fenómeno literário (agora galvanizado pela excelente série) agarrou cada leitor e largou-os num universo com mais de mil personagens, numa teia de interesses que parece não ter fim. Mas afinal para onde nos leva Martin? Qual é o possível final de série? Bem, tal resposta ninguém sabe, é a pergunta de um milhão de dólares. Talvez nem Martin tenha mais do que um pequeno esboço na sua mente do que poderão ser as últimas páginas.

Se olharmos para os
livros de literatura fantástica, todos apresentam um objectivo, que é delineado no início da obra. Os objectivos são variados, passando pela sobrevivência, conquista do amor perdido, concretização pessoal, salvar alguém que o personagem principal estima, ama… podia estar aqui o dia todo. O que devemos retirar é que o objectivo é quase sempre global à história/mundo, e é a demanda para alcançar tal objectivo que move o livro. Pensemos em alguns exemplos: olhemos para alguns dos livros/sagas que mais venderam nos últimos anos. Comecemos pelo imortal
O Senhor dos Anéis. Uma vasta teia de movimentações, muitas personagens, povos fantásticos, mas esprememos tudo em relação ao objectivo e vemos como se resume à luta do bem contra o mal. A destruição do Anel Um simboliza essa luta e Frodo concretiza-a. Se olharmos à volta percebemos que
todas as personagens se movimentaram em volta da destruição/salvação do Anel. Objectivo comum.
Olhemos agora para a saga Harry Potter. Esprememos o objectivo e chegamos ao comum. Desde o primeiro livro que tudo se desenvolve para a destruição de Voldemort. Talvez não o percebamos nos primeiros livros, mas quando chegamos ao fim, lá está. Todas as personagens têm como objectivo comum a vitória/derrota de Voldemort, dependendo do lado em que lutam.
LOTR e HP apresentam um objectivo comum a todas as personagens e isso consegue-se porque quase todas estão definidas entre preto e branco. Não há muitas personagens meio-termo, que saltem sobre a linha que divide essa moralidade. Mas uma saga que apresente esse objectivo comum torna-se uma má saga? Não. Devia existir uma Lei Física que impedisse alguém de falar mal de LOTR por tudo o que trouxe de novo, e a saga HP colocou uma geração de PlayStation a ler algo com qualidade dentro do seu género, situação quase impensável. A questão que se levanta numa saga que apresenta esta particularidade é que apenas temos dois finais possíveis, isto se olharmos para o fim da saga de forma global. Em LOTR, por exemplo, ou teríamos a destruição do Anel Um, ou este voltaria às mãos de Sauron. Tudo o que se seguisse seria o resultado desse evento. O mesmo acontece com HP. Ou teríamos a vitória de Harry Potter ou de Voldemort, e qualquer acontecimento seguinte, como por exemplo mortes, seriam o resultado dessa prolongada batalha em que o objectivo comum, do bem contra o mal, choca.

Vejamos LOTR:
livro que é publicado depois de uma grande guerra em que o mundo presencia atrocidades que muitos queriam acreditar inalcançáveis para a mente humana e numa fase em que muitos temiam a vitória do mal. Ao aparecer um livro de fantasia, em que a mente do público era claramente fechada a este tipo de literatura, Tolkien chega ao final óbvio.
As pessoas não queriam ver o mal vencer, queriam ver esperança, queriam ver a força da amizade, ajuda, e Tolkien ofereceu isso ao mundo com a destruição do Anel e a brutal amizade de Frodo e Sam. Se o mal triunfasse em LOTR, o mundo rejeitaria de imediato o livro, por mais qualidade que tivesse. O mundo não está preparado para dar dois saltos de cada vez e se ler fantasia adulta à escala mundial (em que árvores falam, etc…) foi um grande salto para a época, ler fantasia e o mal vencer seria no mínimo impensável. Tolkien estava então preso a esta mensagem de esperança que quis dar ao mundo.
Quem é que não fica abismado com a amizade e o sacrifício do Sam? Quem é que não fica com um nó na garganta ao ler as últimas páginas deste livro?
Claro que depois as mentes dos leitores alargaram-se e agora muitas histórias acabam de forma não tão moralmente desejável, sem que isso retire qualidade à série.
J. K. Rowling estava completamente presa ao que criou. Ao início até pode ser possível que a autora tivesse a ideia de matar o jovem feiticeiro, mas como o poderia fazer depois de todo este sucesso, quando existiam milhões de fãs prontos para a destruir se ela o fizesse? Devido a esse tal objectivo comum (“encarnado” num personagem principal), Rowling só tinha duas hipóteses: ou Harry ganhava, ou Voldemort ganhava. Qualquer final que fugisse a isto era impossível. Imaginem o que seria se morressem os dois e Malfoy ficasse a controlar o mundo… pois. Ou então imaginem que depois de matar Voldemort, Harry Potter acordava e percebia que estava debaixo das escadas na casa dos seus tios… imaginem que passava a mão pela testa e não tinha cicatriz, que tudo tinha sido um sonho… pois. Claro que estou a falar de finais absurdos. Mas agora de forma mais séria, apenas existiam dois finais possíveis. Ou ganhava um ou outro, porque morrerem os dois acabaria sempre por dar vitória a um deles, dependendo da forma como o mundo mágico ficasse, só que sem o sabor da vitória
Agora as diferenças…
Primeiro Martin destrói a segurança psicológica que temos em relação a qualquer personagem principal de um livro. Em LOTR seria impensável Frodo morrer no primeiro livro. Em HP seria impensável o Harry morrer a meio da saga. Com Martin e a sua saga GoT tudo é possível. A imagem de personagem principal a salvo é destruída nos primeiros livros e sempre que achamos “ah, afinal esta é que é a personagem principal”, pois… Martin também nos mata esse pensamento, nem que para tal tenha de matar a própria personagem. O essencial que devemos retirar daqui é que Martin não deixa que uma personagem ser o único estandarte de qualquer “movimento moral”.
Depois com Martin não há só personagens pretas/brancas. Aqui é tudo muito cinzento, uma personagem que parece boa, afinal é má, depois já parece boa novamente. É tudo uma questão de interesses, de sobrevivência e de tudo o que a envolve em certo momento e tudo isto ajuda a destruir esse objectivo comum. O que ao princípio parecia uma possível luta em Westeros entre Starks e Lannisters, ou então uma luta entre humanos e os Outros, afinal não é nada disso. É muito mais complexo. E é isso que torna tudo tão interessante e impossível de prever. E é por causa disto que os fãs não desejam a vitória do bem contra o mal, ou vice-versa, (como acontece noutras sagas), porque gostamos de personagens que achamos estar em “lados” diferentes. E digo “achamos” porque nas próximas páginas Martin pode destruir completamente a nossa noção de uma personagem específica.
Martin preparou os seus leitores para tudo. Matou, deu reviravoltas, tornou personagens asquerosas em homens com uma escondida moral que apreciamos, etc… ainda falta tanto para a saga acabar e nós já estamos preparados para tudo. O objectivo de Daenerys não é o mesmo de Snow, nem o de Jaime é o do Bran, etc… cada personagem tem um objectivo singular, que pode em certos casos ser semelhante ao de outra personagem, mas nunca igual, nunca comum. Aqui não há a luta entre o bem e o mal, porque na verdade ninguém consegue perceber onde muitas delas encaixam.
Este facto, por um lado, mostra o brilhantismo de Martin, enquanto demonstra que qualquer final que escreva (desde que não seja absolutamente parvo) será sempre mais ou menos coerente com a saga. Se cada personagem tem um objectivo, muitos acabarão por não se concretizar, mas isso leva a um quebra-cabeças avassalador para o autor.
Aqui Martin está enterrado até aos ossos… criou uma saga única, constante na sua imprevisibilidade mas no fim nunca conseguirá agradar a todos os fãs, pois cada leitor irá identificar-se com o objectivo de uma determinada personagem.
Mas é essa a beleza desta saga. Muitas das personagens que gostamos irão morrer, muitas que odiamos acabarão com um sorriso nos lábios… talvez acabem todos mortos e os dragões herdam Westeros. Aconteça o que acontecer, ninguém ficará revoltado se Martin conseguir manter o seu estilo.
A questão é até que ponto Martin conseguirá, com tantos enredos, criar um final que “saiba” realmente a um final.
Posto isto pergunto: Qual é para vocês o final provável? Quais serão as surpresas? Quem sairá vencedor?
Digam-me o que acham e como desejam que esta incrível saga acabe!
E uma vez mais peço desculpa por um texto tão grande, mas quando se fala nesta saga, há sempre muito que fica por dizer.