Mostrar mensagens com a etiqueta Richard Morgan. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Richard Morgan. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 21 de junho de 2017

FORÇAS DO MERCADO


Autor: Richard Morgan

Título original: Market forces




Sinopse: Um clássico da ficção científica moderna sobre os perigos do capitalismo selvagem Richard Morgan convida-nos a mergulhar num futuro tão horrendo quão certo de estar já ao virar da esquina. Com o povo definitivamente afastado dos centros de decisão e as grandes corporações a controlar o mundo, a globalização é brutal e não há separação entre as salas de reunião e o sangue nas ruas. Chris Faulkner é um executivo em ascensão no negócio dos Investimentos em Conflitos, onde as decisões são tomadas com duelos até à morte.



Ricard Morgan é conhecido pelas suas histórias originais, bastante futuristas e com sociedades baseadas em conceitos que nos arrepiam. Aqui Morgan não foge à regra e cria um mundo baseado no extremo a que ganância, globalização e influências podem chegar. Tudo com o objetivo de se ter mais dinheiro. Agarrando este conceito, o autor explora o lado negro da sociedade e das corporações que a sustentam.

O livro começa com um ritmo morno e durante algum tempo não percebi para onde o autor me estava a tentar levar. A introdução do conceito é feita com calma e deixando algumas perguntas sem resposta. A partir de meio do livro nota-se que o autor começa a acelerar, e se por um lado o livro perde porque o mundo nunca é totalmente sustentado, por outro ganha na intensidade. Com isto existe sempre a sensação de que o autor poderia ter explicado melhor este mundo que criou, mas por outro lado tal levaria a que o livro se tornasse demasiado lento.

O enredo é inteligente, encaixando bastante bem no mundo criado pelo autor, mesmo existindo momentos em que sentimos um forçar de certos diálogos para quer certas perguntas não sejam feitas naquele momento para aumentar as dúvidas.

Com o ritmo a aumentar e as personagens a começarem a revelar-se, os motivos de cada personagem são um dos trunfos do livro, misturando objetivos pessoais e crítica social bastante forte. O resultado final é um livro que nas últimas páginas surpreende com vária revelações, mas que se tornam bastante coerentes com todas as pistas que o autor deixou durante todo o livro.

De forma global, o autor tem aqui uma história bem pensada e um mundo com uma ideia base muito bem conseguida. O facto de o livro ser bastante intenso retira espaço a algumas explicações que gostava de ter tido e devido à sua forte e direta crítica social, talvez não seja um livro para qualquer leitor. No entanto, gostei bastante desta leitura, principalmente pela sua originalidade e pela forma como explora a mente humana, as suas virtudes e defeitos. Uma leitura muito boa para quem gostar do género e do tipo de história.

 Luís Pinto

 

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

CARBONO ALTERADO


Autor: Richard Morgan

Título original: Altered Carbon



Sinopse: No século XXV é difícil morrer para sempre. Os humanos têm um stack cortical implantado nos corpos onde a consciência é armazenada, podendo ser feito um download para um novo corpo se necessário. E enquanto o Vaticano tenta banir essa actividade para os católicos, o secular multimilionário Laurens Bancroft contrata Takeshi Kovacs para descobrir quem assassinou o seu último corpo. A polícia diz que foi suicídio, mas Bancroft sabe que nunca se mataria. A consciência de Kovacs, cujo último corpo acabara de ter uma morte violenta a muitos anos de luz da Terra, é inserida no corpo de um polícia para investigar este estranho caso. E, para o resolver, Kovacs terá, entre outras coisas, de destruir alguns inimigos do passado e lidar com a atracção que sente por Kristin Ortega, a mulher que amava o corpo onde ele agora se encontra. Num mundo onde a tecnologia já oferece o que a religião apenas promete, onde os interrogatórios em realidade virtual significam que se pode ser torturado até à morte e depois recomeçar de novo, e onde existe um mercado negro de corpos, Kovacs acaba de descobrir que a última bala que lhe desfez o peito é apenas o começo dos seus problemas…

Enquanto humanidade temos de nos mentalizar de uma coisa: um dia, o poder tecnológico deitará por terra todos os valores morais, porque um dia, a tecnologia irá oferecer-nos mais do que entretenimento, conforto ou facilidade no trabalho... um dia a tecnologia irá oferecer o que agora a religião promete: uma vida eterna cheia de possibilidades onde os sonhos se concretizam. E contra tal oferta, nenhuma questão moral terá poder.
A sinopse convenceu-me a ler esta obra. Richard Morgan alcançou um sucesso quase imediato com este livro, conquistando um grande grupo de fãs e a possibilidade de ver a sua saga adaptada para o cinema. Em Portugal a ficção-científica não tem grande mercado e por isso, muitas vezes, passamos ao lado de grandes obras. Este é um desses casos.
O ritmo varia bastante entre o muito rápido e o mais lento, onde o autor nos ajuda a perceber o mundo onde o enredo se desenrola, mas também o passado de Kovacs, mas gostei bastante da "mistura" entre descrições e desenvolvimento que o autor conseguiu, nunca me quebrando o entusiasmo. A escrita é simples, forte e objetiva, tendo como pontos fortes as cenas de ação, com destaque ainda para a forma "crua e dura" com a qual o autor explora o mundo empresarial do sexo, mas também os desejos numa era onde tudo é possível graças à realidade virtual. Todavia, devo destacar principalmente a forma simples como o autor nos explica o seu mundo. Este é um dos pontos que mais gostei: por vezes autores apresentam excelentes ideias mas depois não as conseguem explicar com a simplicidade necessária a quem começa a ler a obra. Morgan consegue-o facilmente e aos poucos começamos a perceber como se sustenta este fantástico mundo.

O mundo é o grande trunfo deste livro, de tal forma bom que todo o enredo policial passa para segundo plano quando olhamos para o livro de forma crítica. É com a sua ideia de imortalidade, a partir da tecnologia, que chegamos a um mundo que apesar de não ser totalmente inovador (há sempre algo que é inspirado em algo), a complexidade deste mundo está entre o melhor que já li. É verdade que existe neste livro um toque de Blade Runner (Do Androids dream of electric sheep?) mas, em vez de vermos um enredo que nos leva para questões filosóficas mais viradas para as personagens, aqui o que realmente o leitor deve questionar relaciona-se com a sociedade enquanto um todo.

Questões como "qual é o valor da vida?" fazem a base deste livro. Será um valor moral, divino, monetário? Quando deixaremos de ser um ser vivo, e passamos a ser mercadoria? Será que já o somos? Quando o nosso corpo deixar de ser exclusivamente nosso, poderá ter valor comercial? Este conceito de transferência da consciência já foi explorada por outros autores, e alguns deles com questões muito interessantes, mas a forma como Morgan explora certos temas é única. Seremos nós, no presente, culpados das nossas ações futuras? As várias questões que o livro impõe, sempre indiretamente, não irei aqui explorar para não revelar nada, mas é preciso dizer que encaixam perfeitamente com o livro. O autor cria à sua volta um mundo credível e amplo. Sociedade, religião, polícia, política, mercados financeiros, seguradoras, inteligência artificial, realidade virtual... tudo está presente e bem explorado sem nunca ser confuso. Fiquei realmente espantado.

As personagens são boas, apesar de Kovacs ter todo o protagonismo, pois é a única que realmente chegamos a conhecer em profundidade. O seu humor e a sua forma de pensar dão um toque de qualidade ao livro ao mesmo tempo que o autor nos tenta demonstrar que estamos perante indivíduos que, graças à tecnologia, apresentam uma capacidade sensorial acima da média, e com isso, sentimos que ficamos sempre para trás na investigação... mas no fim tudo encaixa perfeitamente e somos surpreendidos.

Dentro do seu género, Carbono Alterado é um dos melhores livros que já li. É inteligente, viciante e credível. Explora temas difíceis, faz-nos pensar e deixa-nos na escuridão até ao último momento enquanto nos dá uma visão sobre um futuro que tem tanto de glorioso como de aterrador, e talvez, o nosso não seja assim tão diferente em alguns aspetos. O final é fantástico e algumas decisões de Kovacs ficam na nossa memória se pensarmos nas suas ações como um todo, principalmente no fim. Totalmente recomendado a quem goste de FC ou policiais, percebe-se o porquê de tantos prémios e enorme sucesso do livro! Próximos livros de Kovacs a serem lidos assim que possível!

Luís Pinto