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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

OBJETOS CORTANTES


Autor: Gillian Flynn

Título original: Sharp Objets




Sinopse: Recém-chegada de um internamento breve num hospital psiquiátrico, Camille Preaker tem um trabalho difícil entre mãos. O jornal onde trabalha envia-a para a cidade onde foi criada com o intuito de fazer a cobertura de um caso de homicídio de duas raparigas.
Há anos que Camille mal fala com a mãe, um mulher neurótica e hipocondríaca, e quase nem conhece a meia-irmã, uma bela rapariga de treze anos que exerce um estranho fascínio sobre a cidade.
Agora, instalada no seu antigo quarto na mansão vitoriana da família, Camille dá por si a identificar-se com as vítimas. As suas pistas não a conduzem a lado algum e Camille vê-se obrigada a desvendar o quebra-cabeças psicológico do seu passado para chegar ao cerne da história. Acossada pelos seus próprios fantasmas, terá de confrontar o que lhe aconteceu anos antes se quiser sobreviver a este regresso a casa.



Gillian Flynn é mundialmente famosa pelo seu "Em parte incerta", que há pouco tempo foi adaptado para o cinema. No entanto, será difícil escolher qual o melhor livro da autora. Facilmente percebemos que a base é sempre algo de perturbador, quer seja a personagem principal ou as relações entre alguém. Neste caso, o nosso olhar estará sob a personagem principal, uma mulher com o passado complicado e que aqui irá chocar qualquer leitor.

No aspeto psicológico, este é o livro mais forte que li de Flynn, com momentos verdadeiramente complicados para o leitor digerir, levando a que a atmosfera seja sempre pesada e macabra. Este é, provavelmente, o grande trunfo de Flynn nos seus livros: a capacidade de criar um ambiente perturbador mas do qual não queremos fugir. Queremos saber como tudo irá terminar. Neste livro em particular, é interessante ver como a própria investigação que se vai desenrolando parece ser apenas secundário quando comparada com a relação que Camille tem com algumas personagens, e que nos leva a querer saber como tudo irá terminar. Muito poucas vezes li sobre uma personagem tão psicologicamente destruída em alguns aspetos, talvez aumentado pelo facto da autora não se inibir a descrever momentos perturbadores.

No global o enredo é bastante bom, levando-nos a ler sem parar e a tentar adivinhar o final. No meu caso, as revelações dos últimos momentos levam-me a aplaudir a coragem da autora e a forma como escondeu alguns pormenores mesmo tendo construindo tão bem as personagens mais importantes. Escrito de forma inteligente e sem momentos mortos, este é um livro que impõe um ritmo forte ao leitor, mas também é um livro que devido a alguns momentos, quase que nos leva a querer parar a leitura. E é nesta montanha russa de vontades que continuei a ler, pois a qualidade da autora é notória a cada página.

Camille é uma personagem que não se esquece. A sua forma de pensar atropela-nos em alguns momentos devido à narrativa imposta. Talvez por essa força, a investigação não tem o peso que tem noutros policiais, mas é essa carga psicológica que marca sempre os livros de uma autora que consegue criar personagens bastante perturbadores, mas credíveis. Todavia, este não é um livro para todos os leitores, pois é forte e macabro em alguns momentos, o que me leva a recomendar esta obra apenas a quem se sinta confortável em cenários fortes.

É difícil dizer se em termos de qualidade este livro está ao nível de Em parte Incerta. Pessoalmente, acredito que a qualidade mantém-se, mas de forma diferente, sendo um livro menos abrangente, mais acutilante ... quer na sua história, quer na forma como enfrenta o próprio leitor. Devido a isso, talvez não seja um livro tão viciante como Em parte incerta, mas que é muito bom, isso não há dúvidas, mesmo com alguns momentos mais forçados que possam existir. Todos os seus defeitos se esquecem perante outros momentos de qualidade. Se gostam da autora, ou se gostam deste género, então este livro tem de estar na vossa prateleira, ser lido, regressar à prateleira e um dia voltar a ser lido... e voltará a surpreender.

Luís Pinto

terça-feira, 18 de novembro de 2014

EM PARTE INCERTA


Autor: Gillian Flynn

Título original: Gone girl


Sinopse: Uma manhã de verão no Missouri. Nick e Amy celebram o 5º aniversário de casamento. Enquanto se fazem reservas e embrulham presentes, a bela Amy desaparece. E quando Nick começa a ler o diário da mulher, descobre coisas verdadeiramente inesperadas…
Com a pressão da polícia e dos media, Nick começa a desenrolar um rol de mentiras, falsidades e comportamentos pouco adequados. Ele está evasivo, é verdade, e amargo - mas será mesmo um assassino?
Entretanto, todos os casais da cidade já se perguntam, se conhecem de facto a pessoa que amam. Nick, apoiado pela gémea Margo, assegura que é inocente. A questão é que, se não foi ele, onde está a sua mulher? E o que estaria dentro daquela caixa de prata escondida atrás do armário de Amy?

Há muito tempo que estou para falar sobre este livro, mas apenas agora surgiu oportunidade. O livro que conquistou a crítica mundial e que se tornou num grande filme, é forte, é angustiante, é a imagem de uma vida que nenhum de nós quer ter, mas que nos rodeia a cada dia.

Quando conhecemos alguém, sabemos como agir, o que dizer... Quando estamos no funeral de alguém, sabemos o que dizer, como agir... Quando estamos embaraçados, sabemos o que dizer, o que fazer... Qual a percentagem da nossa vida em que deixamos de ser nós mesmos e agimos e falamos tal como a sociedade impôs?

Flynn consegue neste livro um perfeito equilíbrio entre o thriller e a crítica social, e nos dois temas, consegue atingir uma qualidade que não está ao alcance de todos. Com um ritmo muito forte e uma narrativa intesa a cada página, a autora explora a personalidade de Nick com grande mestria porque dá-nos as duas faces da moeda de um homem dividido e que tem muito a esconder. Enquanto, mal começamos a ler, somos assaltados por várias dúvidas que a autora fará o favor de alimentar, percebemos que a base deste enredo está no facto de nunca conhecermos realmente uma pessoa.

Comecemos pela crítica social, aqui muito bem montada. Qual é o poder que os media têm na nossa opinião? Até que ponto somos manipulados pelo que vemos, pelo que ouvimos de outras pessoas que comentam na televisão, por vezes sem qualquer conhecimento da matéria, quer nossa, quer deles? Gostei bastante da forma como a autora explora o poder dos media sobre a opinião comum. A grande maioria das pessoas apenas recebe informação da televisão e aqui este aspeto é fulcral para vermos como tudo se desenrola. Nick é a imagem de um "produto" que é elogiado ou criticado pelos media e todo um país vai atrás do que recebe dos comentadores e jornalistas... isto é poder, e Flynn sabe-o.

Voltando ao thriller psicológico que este livro é, a forma como nos agarra é inegável. Facilmente queremos saber mais sobre Nick, cada vez temos mais dúvidas, mas ao mesmo tempo percebemos que algo está mal. Conseguirá Nick safar-se? O que torna este livro melhor do que a maioria é a sua coerência e coesão. A autora aborda media, advocacia, família e fãs obcecados... mistura tudo e sai um grande enredo em que uma personagem se destaca e que ficará na vossa memória para sempre.
E é a partir desse thriller psicológico que voltamos a pensar... quanto da nossa vida é feito apenas por imagem? O que estamos dispostos a sacrificar por uma melhor aceitação social? Poderá um casamento manter-se apenas pelo estatuto que oferece? Pela segurança emocional que transmite a quem vê por fora? Do que somos escravos... afinal?

Estas são algumas das perguntas que podemos fazer quando o livro acabar, porque há sacrifícios que não conseguimos compreender até os vivermos.

Gillian Flynn criou um fantástico livro e um dos melhores que já li dentro do seu género, porque é intenso, é inteligente, mas acima de tudo... é perturbador, porque, infelizmente, é mais real do que pode parecer. Totalmente recomendado.

Luís Pinto