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terça-feira, 24 de janeiro de 2017

UMA FORTUNA PERIGOSA

ESPAÇO LEITOR

Hoje regressamos ao Espaço Leitor com mais uma opinião da Margarida Contreiras a quem agradeço imenso este texto. A todos os restantes leitores que também já enviaram textos com as suas opiniões, lamento o atraso, mas irei publicá-las aos poucos.



Autor: Ken Follett



Sinopse: Inglaterra, 1866. O verão anuncia-se quente e, numa tarde de maio, um jovem morre afogado numa pedreira inundada de água. O incidente ocorre em Windfield School, uma escola frequentada por rapazes oriundos de classes abastadas, permanece encoberto em mistério conduzindo a uma trágica saga de amor, poder e vingança que envolve sucessivas gerações de uma família de banqueiros.
A história decorre entre a riqueza e a decadência de uma Inglaterra vitoriana, entre a City londrina e colónias distantes. O leitor acompanha a família Pilaster durante o período áureo do império britânico. Ken Follett inspirou-se num caso real de bancarrota ocorrido no século XIX para escrever este romance extraordinário.




Uma Fortuna Perigosa é um romance da segunda metade do século XIX, passado no mundo da banca inglesa. A família Pilaster, proprietária do banco homónimo, era uma das mais bem reputadas de Londres, quer em termos financeiros, quer no contexto da sociedade elitista, cujo seio criava, naturalmente, divergências da mais variada natureza.

Hugh Pilaster, filho de um banqueiro falido e herdeiro dessa desventurosa reputação, é também sobrinho do núcleo familiar mais influente. Sonha tornar-se um dos sócios do banco Pilaster e concentra todos os seus esforços nessa tarefa. Sensato, honesto e trabalhador, Hugh é também quem toma constantemente a posição oposta à maioria, normalmente mais para sua frustração do que contentamento.

Simultaneamente, deriva a lembrança de um crime na juventude de Hugh, no qual ele e os seus amigos estiveram envolvidos, e que assombra a história desde o início. Aliás, a ação do livro alimenta-se também da história dos amigos de Hugh, que acabam, direta ou indirectamente, por se envolver nos negócios do banco, barrando o seu caminho para o consórcio por entre namoricas, jogos, bailes, casas de alterne, trafulhices e até assassínio.

A intriga, sedução e oportunismo de que é feito este livro contam-nos episódios de ascensão e descensão social a par das oscilações da banca londrina oitocentista. Porém, o enredo é demasiado aborrecido para aspirar a uma história surpreendente e não é caricato o suficiente para uma coletânia de episódios de época. Estamos perante uma verdadeiro romance quase ao nível de novela mexicana na medida em que encontramos aqui todas as personagens que já vimos vezes sem conta: a má da fita manipuladora, bela e rica, juntamente com a sua marioneta imbecil, obediente e de fraco punho; o bom da fita honesto, renegado e subestimado que ama a rapariguinha apetecível, boazinha e injustiçada; o mauzão estrangeirado, esperto e sedutor, entre tantas outras personagens enfadonhas cujo nome esquecemos por já terem tido tantos.

Podemos adjectivar esta história de numerosas maneiras, no entanto tudo se resume a uma previsibilidade proeminente que se destaca de forma bastante negativa. Não é necessária muita perspicácia do leitor para saber amiúde o que vem na página seguinte, quer seja porque o autor se denuncia através da demasiada evidenciação de aparentes detalhes, quer porque já lemos esta história algures com outro título.

Como já é hábito em Ken Follett, a pesquisa histórica está de louvar, e não precisamos de ser entendidos na época para o perceber, visto que é evidente o à vontade do autor em abordar destemidamente todos os hábitos, trajes e éticas do espaço e do tempo. Continuamos a ter momentos de suspense bem apimentados que acabam por nos prender ao livro e, em certos excertos, é até possível denotar a tendência do autor para as estratégias de narração típicas dos romances de espionagem que avultam na sua obra. Com efeito, a exposição da história é feita de modo bastante acessível, até porque vamos tendo constantes resumos de poucas linhas que nos permitem acompanhar a narração a bom ritmo.

Para os verdadeiros apreciadores de romances, este é um livro interessante mas não tão notável assim. Não satisfaz as medidas de um leitor de Ken Follett, que espera algo mais insólito. Podemos corriqueiramente dizer que é um livro de ler e deitar fora por ter uma estrutura narrativa bastante coerente, o que torna a história aceitável, mas que não arrisca mais do que isso e que, sobretudo, fica muito aquém do símbolo que se tornou o seu autor.

Entretém mas não surpreende.

Uma vez mais, obrigado à Margarida Contreiras por esta opinião!





sábado, 31 de dezembro de 2016

SILÊNCIO


Hoje apresento mais uma opinião da leitora Margarida Contreiras que por várias me enviou excelentes opiniões a livros que não tive oportunidade de ler. Obrigado à Margarida por mais este excelente texto!



Autor: Shusaku Endo


Sinopse: Silêncio, cuja acção decorre no século XVII, conta-nos a história de um missionário português envolvido na aventura espiritual da conversão dos povos orientais, o qual acaba por apostatar, após ter sido sujeito às mais abomináveis pressões das autoridades japonesas, para evitar que um grupo de fiéis seja por ordem delas torturado até à morte. 
Antes de chegar ao Japão, a sua viagem leva-o a Goa, depois a Macau e, finalmente, a Nagasáqui e Edo, em etapas que pouco a pouco o transportam a esse Oriente hostil, onde no entanto já se contam alguns milhares de convertidos à fé católica. 
Aí descobre, na luta contra as pessoas e o ambiente adversos, a verdadeira fé, liberta de todo o aparato externo, eclesiástico ou mundano. E aí acaba por experimentar a derradeira solidão, que é o destino daqueles que quebram a comunhão com o que mais profundamente marca a sua identidade.



Aqui conta-se a história de dois jesuítas portugueses que se aventuraram numa desditosa odisseia ao Japão seiscentista. Um deles é o padre Sebastião Rodrigues, que embarcou em busca de cristãos oprimidos para reaproximá-los da imagem de Cristo e dar-lhes algum conforto espiritual. Estamos então na época de um imperador japonês que invertera a política do seu antecessor através da abolição absoluta da religião cristã. Os cristãos japoneses, forçados à apostasia, viviam apavorados com a ideia de serem apanhados na ritualística e torturados caso recusassem blasfemar a Virgem Maria ou pisar os famosos fumies - imagens de Cristo fabricadas com o propósito de serem pisadas pelos apóstatas. 

O livro começa com um prólogo em que o autor nos fala na primeira pessoa  e nos revela a sua própria questão existencial e a sua inquietação espiritual, cuja leitura é essencial a quem procura compreender que profundidade atinge esta história. Com efeito, um dos fatores mais interessantes deste livro é a nacionalidade japonesa do seu autor que nos traz uma novidade no âmbito da ficção histórica existente acerca da Era dos Descobrimentos portugueses: a colisão intercultural vista pelos olhos do povo de além-mar. 

Seguidamente, surge uma compilação de cartas que Sebastião envia para Roma contando as peripécias da sua viagem. Esta é uma forma bastante apelativa de estruturar a narração, já que aproxima o leitor do acontecimento, permitindo-lhe um contacto direto e mais real com a personagem principal criando, ao mesmo tempo, um ambiente de suspense mais elevado, já que o próprio remetente se mostra expectante e receoso no final de cada carta.

Numa terceira e última parte, o discurso passa para o narrador, que apenas sabe o que está na cabeça de Sebastião e nos conta tudo através dos seus olhos. E assim rezamos com este jesuíta, vemos e revemos a sua própria imagem de Cristo, e buscamos com ele o sinal divino da salvação das almas torturadas. Inclusivamente, vivemos com ele o tédio do cárcere, desesperando com ele, mas sem nos entediarmos. Até que, finalmente, com ele respondemos também à mais dramática interrogação deste livro: apostasia ou martírio?

Shusaku Endo encarna nesta história a necessidade intemporal do Homem em recriar a imagem de Deus à sua própria imagem de humano, estando, afinal, a reproduzir um Deus que criou o homem à sua imagem e semelhança. É assim que o padre jesuíta constantemente procura conforto na expressão mais concreta do intangível - a vida de Cristo -, inspirando-se no seu rosto e na sua carne talhada para dar justificação e persistência ao seu sofrimento e tentar redimir Deus pela sua característica menos humana: a omnipresença invisível.

Um dos momentos mais interessantes do livro não é especificamente nenhum episódio da narrativa, mas o momento em que o leitor compreende na totalidade o título do livro, apercebendo-se de que o objetivo desta história é mostrar a dilaceração do coração de um homem que aspira seguir os passos de Cristo, acreditando que é esse o caminho para a salvação de todas as almas, incluindo a sua, e que Deus responde às suas preces desesperadas com um longo, doloroso e cerrado silêncio.

Não há muitos diálogos, até porque há muitos momentos de solidão, contudo, os poucos que lemos são bem estruturados e conseguem terrificar-nos ao constatarmos o poder manipulador da psicologia humana e os seus efeitos nefastos. O cenário compõe-se com poucas personagens, algumas representando claramente a fidelidade a Cristo e a devoção como força motriz da sua vida, enquanto outras representam a soberania japonesa de origens místicas bem diferentes. No meio, encontramos a figuração da cobardia em Kichijiro, da entrega à fé nos martirizados e a coragem nos que por entre eles se aventuram. Contudo, esta não é uma batalha entre o Bem e o Mal. É antes mais uma justificação para a necessidade da História em compor-se de grupos unânimes e a importância da religião para essa homogeneidade. Este livro não é um apelo, mas antes o testemunho de um recôndito subcapítulo do pós-epopeia dos Descobrimentos na sua versão missionária.

A dúvida instala-se implicitamente e vivemos o questionar de um sacerdote para com o seu próprio deus, sentindo-se abandonado por ele enquanto assiste à morte e à flagelação em seu nome. Chegamos, por fim, a um debate de sentimentos e ações sobre qual será o melhor sacrifício e qual a melhor maneira de servir um deus silencioso. Apercebemo-nos de que a fé está em cada um de nós de maneira diferente e, sobretudo, que ela é transparente e vive calada.




quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

O AMOR NOS TEMPOS DE CÓLERA




Espaço Leitor


Hoje tenho o prazer de trazer mais um texto da Margarida Contreiras que já várias vezes nos enviou as suas opiniões sobre livros que vai lendo.


Autor: Gabriel García Márquez




Sinopse: Um livro para toda a vida.Prémio Nobel da Literatura 1982. A estória de amor vivida por Florentino Ariza e Firmina Daza é contada com toda magia do realismo fantástico de Gabriel. É um livro envolvente, que cativa o leitor do começo ao fim e que acaba torcendo pelo final feliz. As reflexoes sobre a vida, o amor e a morte, temas constantes em García Márquez, sao explorados de forma maestral neste livro. Um livro para toda vida!



Florentino e Firmina são os peões desta história de amor presumivelmente passada na Colômbia oitocentista e definitivamente em tempos de cólera.

A história começa com o remate final de uma declaração de amor que quebra a ação, rebobinando-a num flashback de cinquenta anos que vai progredindo até apanhar o momento inicial. Os amantes, quando jovens, são separados pela família, como manda a tradição, e, ao crescerem, pelo amor unidirecional. Surge um terceiro vértice, que cria o triângulo e toda a frustração de Florentino, que tenta, também ele, criar os seus vértices temporários e insatisfeitos. Firmina, indecisa e insegura, delicia-se numa ascensão social em pompa e circunstância que constantemente se sugere ser teatral ou efémera. Entretanto, o leitor vai tentando resolver se está a ler sobre o amor de Florentino por Firmina ou de Florentino e Firmina. 

Há uma certa previsibilidade neste enredo convencional, o que não leva o leitor a abandonar o livro, mas, antes pelo contrário, dá-nos vontade de o querer saborear no presente sem a pressa de querer chegar ao fim. O seu sonante título concretiza-se apenas na primeira parte, já que este amor se passou em tempos de cólera como se poderia ter passado em tempos de qualquer outra epidemia. A cólera e os seus efeitos colaterais servem mais como referência cronológica do que como motor de ação ou impedimento de um caso amoroso, como poderia sugerir o nome do livro. No entanto, a cronologia tem pouco vulto para a história e pouco peso na narração, como atestam as escassas referências espácio-temporais. Com efeito, o espaço e o tempo são pouco explorados, o que dificulta o encaixe da história na encenação imaginária do leitor. Por outro lado, isso enfoca-o na problemática emocional do enredo. 

Um dos temas abordados é a nostalgia, já que as emoções da personagem central estão constantemente condicionadas por locais, cheiros e cores do passado. O próprio livro reflete isso, ao ser composto por um grande flashback. Esta expressão nostálgica remete o leitor para um passado marcadamente remoto, marca dos velhos tempos empoeirados, reforçada pela escassez de diálogos, que nos dá a impressão de folhearmos um velho álbum de fotografias monocromáticas com olhares profundos. 

Evidentemente, o grande tema desta história é o amor ou, mais especificamente, um caminho para o amor não correspondido mas eterno. O leitor sente a angústia de Florentino enquanto ser não amado, quase literalmente abandonado, e desespera por ele, desespera pela sua obsessão semelhante a uma doença em estado terminal interminável. Contudo, as expressões da personagem são muito mais impassíveis do que se poderia esperar, sendo precisamente as suas ações e as consequências delas que nos levam tantas vezes a sentir pena dele. 

O compasso arrítmico da história parece um pouco desajustado. O autor não se apressa em desenvolver a narração pois, mesmo em alturas de maior suspense, como é a reta final da história, introduz um assunto que vem a propósito mas que não acrescenta nada ao enredo, dando-nos a sensação de estarmos a ouvir alguém apenas por boa educação como preço a pagar para ler um livro de qualidade. Por outro lado, em alguns assuntos de desfecho ou causadores de um ponto de viragem, demora-se tão pouco tempo que o leitor só lhes dá a importância devida nos acontecimentos futuros por eles causados ou não lhe dá importância nenhuma e não entende a origem de certas novas atitudes.

A história e a narração são realmente pouco cativantes mas a expressão escrita é tão apelativa que poderá, por vezes, desfocar o leitor do texto para o fazer constatar “que bela escolha de palavras!”. A escrita é incrivelmente íntegra e acessível, embora esteja longe de se considerar simples. Trata-se de uma espécie de linguagem popular projectada num nível erudito, que resulta num discurso que soa bem. Aliás, é a sua complexidade que o torna tão coeso. Contudo, é necessária alguma atenção aos pronomes para compreender se ainda estamos no sujeito ou no seu primo em segundo grau, arriscando-nos a ter que recuar constantemente algumas linhas para retomar a lógica do discurso. 
A descrição crua da natureza humana, em particular no seu pendor sexual não tem romantismo nem pudor, o sexo é longamente descrito em todos os seus fetiches ou estranhezas que não glorificam a beleza humana mas, ao contrário, a ridicularizam. Não quer isto dizer que as acções do mundo íntimo sejam particularmente importantes na totalidade da história e a prova disso é que o autor conta com o mesmo detalhe o entusiasmante momento do primeiro encontro sexual de Firmina com o seu marido e a lista infindável de leques e plumas que ela trouxe da Europa. Curiosamente, ao contrário do que seria de esperar de todo este realismo, o amor nestas páginas de tempos de cólera, é um amor lavrado mais ao jeito do romantismo: único, arrebatador e perpétuo, mas nunca totalmente extenuante. As personagens não são realistas, apesar da crueza com que a realidade é representada: estas são personagens que recitam “versos de amor contra o vento, chorando de júbilo até amanhecer”.

A qualidade deste livro é indubitável. É claro desde o início que estamos perante um escritor com uma expressão escrita totalmente amadurecida e individualizada de quem domina a sua palavra em todos os ângulos. O enredo não é, contudo, o mais empolgante da história da literatura; são antes as suas personagens contrastantes em si mesmas que nos causam a curiosa emoção de simultaneamente nelas nos perdermos e encontrarmos. Este não é um livro para devoradores de livros inexperientes, é um livro para leitores atentos e pensadores. Não é um livro para apreciar unicamente a estória no seu encadeamento de acontecimentos, é um livro para saborear a escorrência da sua narrativa e a palavra de Gabriel Garcia Marques.


Muito obrigado à Margarida Contreiras por este fantástico texto.




segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Espaço Leitor - O último cabalista de Lisboa


Hoje regressamos ao Espaço Leitor para mais uma análise da Margarida Contreiras, que decidiu escrever sobre um livro que me parece bastante interessante. Fica aqui a sua opinião e acredito que um dia também irei ler este livro, e, se possível, falar aqui sobre ele.
Autor: Richard Zimler

Título original:The last Kabbalist of Lisbon



O título sentencia um genocídio, desafiando-nos ao mesmo tempo a pensar quem terá sido o último cabalista de Lisboa. Bastará a leitura de algumas páginas para nos apercebermos de que o sujeito é precisamente aquele que, na primeira pessoa, nos conta esta história: Berequias Zarco – nome próprio e coletivo que representa simultaneamente um homem e um povo. Este livro traz à superfície do tempo as lembranças de vida de um cabalista que intencionalmente nos quer demonstrar a desgraçada vivência das minorias na Lisboa manuelina.

O livro é uma memória.

Com este romance, Richard Zimler compartilha uma lembrança perdida no bairro judeu da antiga Constantinopla e com ela transporta-nos à Lisboa quinhentista, preconceituosa, impiedosa e ignorante. Leva-nos à era dourada dos Descobrimentos, uma epopeia grandiosa o suficiente para nela caber novidade, exotismo, riqueza e extravagância concomitantes e contrastantes com doença, sangue, seca e fumo. Percorremos mais um capítulo da fatídica história do povo judeu, desta vez, conduzidos por um seu congénere que nos convida a visitar o seu próprio trajeto de onde avistamos um holocausto tardo-medieval, capaz de provocar uma espécie de vergonha ancestral até mesmo na bem-aventurada identidade coletiva do povo de Camões.

O elenco enriquece a narração. As personagens conseguem representar simultaneamente valores e faltas, como se cada uma delas ali estivesse para assegurar a predominância do bem e do mal mas recordando-nos constantemente a nossa condição falível de humanos. O protagonista Berequias é a bravura e a força, embora a sua fé seja instável. A personagem que gera a intriga é também a que está mais ausente: mestre Abraão, que cultiva o exemplo da espiritualidade, fraternidade e do bom senso, mas que peca também pela ingenuidade. Por fim, Farid, o mouro que segue todos os passos do protagonista, encarna a lealdade, o amor e o altruísmo.

A obra cativa o leitor muito para além do choque do sadismo criativo, tão comum na abordagem deste argumento. O entusiasmo da própria história é constantemente avivado com laivos de suspense, perseguição e fuga de índole policial, tornando-a num romance multifacetado que faz correr página após página na expectativa do desfecho. É também a limpidez da narração e a entrega da informação ao leitor de forma íntegra, lúcida e verdadeira que nos permite tomar consciência de um realismo inquestionável. A linha do tempo segue a lógica cronológica, salvo pequenos apontamentos de flashback, pelo que o leitor acompanha a história a um ritmo compassado, tornando a leitura agradável e interessante. O rigor histórico projeta-nos violentamente cinco séculos para trás até uma realidade crua, onde também travamos conhecimento com pequenos e grandes recantos da nossa capital varridos pelo grande tremor de terra setecentista. As linhas frias da narração permitem-nos alcançar a assolação do poder opressivo, levando-nos às mais recônditas camadas psicológicas deste povo ferido que, com um novo nome, vestia uma mentira desestabilizadora da sua própria fé. Nesta história, que devemos considerar História, jazem os padecentes da Inquisição. Jazem as suas histórias silenciosas, as suas forças desgastadas e o seu fim ignoto.  

Afinal, quem foram os últimos cabalistas de Lisboa? Onde foi – onde está – a gente judia que dobrou as esquinas de Alfama? Que as abandonou? Que nelas pereceu? E acima de tudo, que nelas morou? A judiaria perdeu-se nas fogueiras da Inquisição e do terramoto. O povo desapareceu: mudou de nome, de residência ou de dimensão.

O último cabalista de Lisboa tem um nome – um nome próprio – e esta é a sua história. Consideremo-la também a história de todos os nomes sem nome, distantes o suficiente ou desfigurados o suficiente para nunca mais os alcançarmos.

Opinião feita pela leitora Margarida Contreiras

domingo, 23 de agosto de 2015

Espaço Leitor - O Miniaturista


Hoje regressamos ao Espaço Leitor para mais uma análise da Margarida Contreiras, que decidiu escrever sobre um livro que me parece bastante interessante. Fica aqui a sua opinião e acredito que um dia também irei ler este livro, e, se possível, falar aqui sobre ele.



Autor: Jessie Burton

Título original: The Miniaturist


 Sinopse: Num dia de outono de 1686, a jovem Nella Oortman, recém-casada com um próspero mercador de Amesterdão, Johannes Brandt, chega à cidade na expetativa da vida esplendorosa que este casamento auspicioso lhe promete. Mas, entre a amabilidade distante do marido e a presença repressiva da cunhada, Nella sente-se sufocar na sua nova existência.
Até que um dia, Johannes lhe oferece uma réplica perfeita, em miniatura, da casa onde vivem. Nella encomenda então a um miniaturista algumas peças para ornamentar a casa. Mas algo de surpreendente acontece: novas encomendas de miniaturas continuam a chegar sem terem sido solicitadas, como presságios silenciosos de futuras tragédias.



A miniatura de uma casa, uma jovem donzela e uma Amsterdão seiscentista são os elementos essenciais desta história. As linhas orientadoras da narrativa divagam sobre dois planos. Um deles desenvolve-se na intimidade do lar, onde uma dissimulada tranquilidade oculta cada canto numa constante atmosfera de segredo. O outro está cá fora, nas ruas da agitada e intransigente sociedade dos canais, onde a autora nos apresenta a crueza, o luxo e a desgraça.

É neste contexto que a jovem Petronella Oortman é recebida no lar do seu marido, um exímio mercador, e recebe como prenda de casamento uma casa em miniatura. A jovem, a casa e o mercador são os elementos verídicos desta história que, conjugados com a pesquisa e a imaginação da autora, criaram uma obra original, interessante e de agradável leitura.

A mina de ouro da obra reside na originalidade dos temas abordados: por um lado, as nuances associadas à decoração de uma casa em miniatura, e, por outro, a reação da sociedade e da religião à questão da homossexualidade durante o século XVII. No respeitante ao primeiro tema, o teor técnico associado à compra e encomenda de objetos para uma casa de bonecas é superado pelo peso simbólico do próprio objeto que, a certa altura, funciona como oráculo de mau presságio que absorve e desarranja o espirito da personagem principal. A questão da homossexualidade surpreende-nos pela sua improbabilidade ainda no início da história e permite-nos descobrir a reação de uma sociedade controlada pelos chefes religiosos e pelo medo da consequência na segunda vida.

O Miniaturista é o romance de estreia da autora, o que nos é possível identificar através de pequenas lacunas que, apesar de não destruírem a obra, acabam por desarranjá-la, tornando-a um pouco menos interessante do que o anunciado pelo potencial dos temas abordados. Observando a narrativa à luz da categoria de romance histórico, seria desejável que nos deparássemos com mais pormenores físicos do ambiente de época, tais como, moda, paisagem e gastronomia. Estes aspetos são, de facto, abordados na narrativa, mas apenas no plano essencial da história, ficando em falta certas descrições da cidade e das personagens que permitiriam ao leitor uma maior ambientação à época, ao local e, consequentemente, à própria história. 

Jessie Burton é uma escritora de palavra doce, expressiva e cativante. A sua escrita é despretensiosa, mantendo-se sempre num nível de fluência e correção perfeitamente adequados, embora se tenha a sensação de haver alguma perda de cariz unicamente literário na tradução. Ainda assim, a sua juventude de escrita pode fazê-la cair no erro da previsibilidade já que, após uma certa habituação ao seu estilo de condução da narrativa, o leitor consegue ocasionalmente antever desfechos intermédios na ação. 

Permitindo-me uma apreciação mais pessoal, este romance teria todo o potencial para nos deslumbrar e, sobretudo, cativar com avanços e recuos no tempo que apimentariam a perceção da história para nos pregar os olhos ao papel. No que concerne ao conteúdo, consideremo-lo rico, diversificado e entusiasmante, deixando-nos com curiosidade para explorar este excerto da História Europeia. Os movimentos das personagens surpreendem-nos a maior parte das vezes e o desvendar da história está bem organizado. Contudo, apesar do miniaturista e da casa em miniatura estarem constantemente presentes, seria de esperar que houvesse uma concretização da sua existência durante a história e o seu desfecho, o que não acontece, sendo a força geradora desta história, na verdade, descentrada da figura que lhe dá o título. Este aspeto exemplifica o potencial por concretizar que constitui o maior ponto fraco desta obra.

Apesar da doçura das suas linhas, esta história é uma tragédia. Assim se pode considerar tendo em conta a medida do sofrimento imposto às diversas personagens, que desta forma ilustram o seu tempo e espaço. Não deixa por isso de ser interessante mas, pelo contrário, permite-nos contactar com a rigidez do preconceito, o pavor das hierarquias espirituais e a colisão social dos seres em concomitância. 

Este livro tem percorrido o mundo e aprendido muitas línguas, sendo apreciado por várias culturas. A sua leitura agradará aos apreciadores habituais de romances históricos mas também aos leitores de romances em geral, uma vez que, à parte a extraordinária época escolhida pela autora, as suas páginas conduzem-nos por descobertas empolgantes e trilhos de suspense que deliciosamente acompanhamos.
Opinião realizada pela leitora Margarida Contreiras

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Espaço Leitor: A FILHA DO BARÃO



O Espaço Leitor regressa com mais uma opinião. Como sabem, trata-se de um "espaço" onde qualquer leitor pode deixar uma opinião a um livro à sua escolha.

Desta vez recebemos mais um texto da Margarida Contreiras a quem agradeço a análise, desta vez feita a um livro que nunca li. 

Todos os que queiram enviar algum texto para ser publicado no blog, estejam A`vontade para usar o nosso e-mail de contacto!



Autor: Célia Correia Loureiro




Célia Correia Loureiro apresenta a terceira publicação num romance que vem confirmar a sua competência. Não que se possa comparar com grande ligeireza este romance histórico com os seus anteriores volumes, que tratam outras matérias. Porém, é possível validar a sua qualidade no notável aumento de complexidade, na expressividade que ganhou estilo e na elaboração lógica e surpreendente de uma trama bem composta.

A Filha do Barão é simultaneamente uma história romanceada e uma personagem cuja personalidade abraça todo o livro – que é a primeira semente da narrativa e que é também os seus frutos. Retrata uma história de amor passada no tempo das invasões francesas. E retrata bem! Verificamos uma ótima reprodução gráfica de locais, personagens e ambientes, feita geralmente nas entrelinhas para não aborrecer o leitor com parágrafos exclusivamente descritivos. São também estas descrições que nos mostram o que aparenta ser uma pesquisa histórica muito bem feita, já que chega ao pormenor da gastronomia, vestimentas e quotidianos, que enfiam o leitor numa máquina do tempo. A escritora mostra-nos em que momento histórico nos encontramos através de diálogos políticos que têm lugar no contexto masculino, entre copos de vinho do Porto e charutos, onde por vezes nos deparamos com uma ou outra ilustre figura da História de Portugal, o que realça ainda o realismo e a credibilidade da narrativa.

Três vivas à narração dos momentos de intimidade, atrevida mas elegante e muito empolgante. A propósito, Célia Loureiro traz-nos o tema pouco explorado nesta categoria literária da jovem que é forçada a casar com um homem mais velho. O patamar em que as duas personagens se encontram e desencontram, além dos desenvolvimentos intelectuais e físicos por que passam, não só complexificam esta história, como também a ornamentam com um encanto muito particular. No que diz respeito ao enredo, a autora já se mostrara bastante competente. Devemos, contudo, reconhecer que neste livro ela se supera com os climas de suspense que apimenta, deixando uma dúvida flutuante que quase nos faz crer que há um contra-senso – um erro de narrativa. Mas por pouco tempo nos deixa assim ficar pois que algumas páginas à frente chegamos à solução para a intriga. Esta história traz à convivência portugueses, franceses e ingleses que encarnam a omnisciência do narrador, mostrando-nos através das palavras de Célia Loureiro um Portugal visto aos olhos destas nacionalidades em diferentes aspectos – do político ao gastronómico – e que lhe deixam escapar um certo patriotismo.

Ainda assim, não podemos afirmar que estejamos perante o livro perfeito já que, embora as suas falhas não superem a sua qualidade, devemos apontar-lhe o dedo por se deixar alongar demasiado na descrição de alguns acontecimentos que, ao nos fazer perder o entusiasmo, comprovam que este livro não perderia qualidade se perdesse alguns milímetros de lombada. Alguns acontecimentos paralelos à história central poderiam ser dispensados ou eventualmente substituídos por ramificações da narrativa, já que neste livro praticamente só seguimos uma história central.



Por fim, é importante saber-se que Célia Loureiro não ficará por aqui no que respeita a esta história, já que nos poderemos permitir aguardar por uma sequela que há-de aparecer completar o primeiro volume. E ainda bem, já que, ao lermos o primeiro sabemos o que encontraremos no segundo e podemos prever que não nos proporcionará uma perda de tempo mas antes momentos de digressão divagadora em que nos deixaremos entrelaçar num novelo de personagens e histórias de nos pregar os olhos, descair o queixo e endurecer os dedos ao segurar a capa.



Uma vez mais, obrigado à Margarida Contreiras por esta análise muito interessante!

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Espaço Leitor: Memória de Elefante



Hoje apresento mais um "Espaço Leitor", com um texto da Margarida Contreiras, autora do blog "Pensamento a cores" que aconselho todos a visitarem!

Espero que gostem, e se quiserem submeter as vossas opiniões literárias, estejam à vontade!

Autor: António Lobo Antunes



Psyché é uma palavra de origem grega que se traduz na linguagem atual para mente. É neste tronco terminológico que encontramos as ramificações para os termos psicologia, psiquiatria, psicose, psicanálise, psicoterapia, todos eles viventes nas páginas deste livro. Na verdade, toda a história é contada com a objetiva presa à psyché de um médico, obrigando-nos a captar a realidade filtrada pelo seu olhar. Por isso, este é um livro peculiar.

O médico que protagoniza a história é um psiquiatra de um hospital lisboeta, cuja mente carece ela mesma também de terapia. A ação nasce na fonte sensorial e sentimental do protagonista e desenvolve-se à luz do sua experiência de vida e da consequente visão denegrida que tem do mundo. Ao virar as primeiras páginas, apercebemo-nos imediatamente que esta deturpação está profundamente ligada a uma distanciação familiar que revela, simultaneamente, necessidade de afastamento e aproximação. É por isso que as grandes sensações que fazem este livro são a frustração, a cobardia e o conformismo.

O narrador não corresponde à personagem principal por não encarnar assumidamente a sua alma, no entanto a consciência dos dois está tão próxima que podemos questionar se a narrativa se tratará de um autorretrato na terceira pessoa. Por outro lado, as personagens secundárias são praticamente inexistentes, surgindo apenas pontualmente e como voz da consciência alternativa ressonante na cabeça do psiquiatra e atuando também elas como psiquiatras através dos seus juízos de valor. Existem sim muitos figurantes que passam pela ação da história como meio de ilustração corroborante do pensamento da personagem principal e que se traduzem, na narrativa em si, como resultado de uma observação reprovadora. Normalmente, estes figurantes agem com indiferença perante o protagonista, em movimentos frios como os dele mesmo.

O desenrolar da história é feito com marcada lentidão, concentrando-se no decorrer de apenas dois dias, e o enfoque da ação é centrado mais na descrição sensorial do que no desenvolver de acontecimentos. Esta descrição é extremamente particular: o autor descreve-nos, não a realidade com as suas cores e relevos, mas através das sensações que essas cores e relevos (eventualmente existentes) provocam no protagonista da história. Por outras palavras, o autor diz-nos o que aparenta ser em vez do que é, indicando-nos a consistência dos acontecimentos num entrançado de emoções e pensamentos, todos eles desembocando na distante memória da mulher e das filhas que nunca chegamos a perceber se é longa ou curta no tempo. A visão do protagonista através da qual assistimos à narrativa mostra uma perspetiva negra do mundo, em que é dada especial referência aos distúrbios e anomalias do âmbito da sexualidade: jovens mulheres seduzem homens velhos por interesse, prostituição, pedofilia, entre outros, embora estes sejam assuntos abordados apenas para uma representação de quimeras de um mundo simultaneamente real e abstrato e não porque sejam importantes para a ação central.

Lobo Antunes apresenta-nos uma escrita erudita e extremamente sensorial num livro que se lê sobretudo para o desfrute da palavra e da descodificação de uma mente turbulenta. Esta obra pode ser lida pelo leitor comum familiar com o mundo literário, no entanto, as suas potencialidades disparam até aos campos mais profundos da psicologia. O final será dificilmente conclusivo para um trivial leitor, convidando a uma análise desta memória de elefante que deverá ser feita de olhos semicerrados e mente aberta.

Nota: O "Espaço Leitor" é um pequeno espaço onde qualquer leitor pode deixar a sua opinião a um livro. Novamente, muito obrigado à Margarida Contreiras pelo seu fantástico texto.

domingo, 4 de agosto de 2013

Espaço Leitor: Cornos

 
O Espaço Leitor regressa com mais uma opinião. Como sabem, trata-se de um "espaço" onde qualquer leitor pode deixar uma opinião a um livro à sua escolha. 

Hoje trago-vos uma opinião escrita pelo meu amigo Luís Santos, a quem aproveito para agradecer imenso pelo seu texto.

Aproveito ainda para informar, que qualquer leitor que gostasse de ter uma opinião neste espaço, basta enviar um mail para lerycriticar@gmail.com com a sua opinião a um livro


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Autor: Joe Hill

Título original: Horns


Este foi um dos livros que mais curiosidade tive em ler nos últimos tempos. Não só a sua sinopse é interessante como o autor, Joe Hill, é filho de um dos melhores autores de Terror e Suspense de sempre... Stephen King. Mas Joe quis fugir ao nome de família e ganhar mérito no mundo da literatura por seu próprio mérito. Para esse efeito, decidiu usar o diminutivo de Joseph e encurtar o seu segundo nome, Hillstrom, criando assim Joe Hill. 

Sendo já o 2º livro editado em Portugal de Joe Hill (sendo o primeiro "A Caixa em Forma de Coração" da editora Civilização), decidi ler "Cornos" este ano pois o filme tem data anunciada para Outubro (com Daniel Radcliffe no papel principal) e quis ver se corresponderia à expectativa que tinha do autor, depois de ler o primeiro volume da sua Graphic Novel "Locke & Key".

E a verdade é que Joe Hill não desaponta. "Cornos" conta-nos a história do jovem Ig, que um ano depois de ser considerado o único suspeito no cruel homicídio da sua namorada, Merrin, e da sua vida ter entrado numa espiral descendente, acorda um dia com cornos na cabeça e um novo talento que o levará a conhecer melhor o que as pessoas à sua volta pensam realmente de si. Uma das questões que este livro me trouxe, durante toda a sua leitura, é exactamente esta capacidade. Até que ponto queremos realmente saber o que todos pensam de nós? Quereremos que nos contem os seus mais íntimos desejos, correndo o risco de sairmos magoados e nos apercebermos que estamos sozinhos no mundo?

Hill não se poupa na linguagem (mas não chegando a um nível como o de Christopher Moore) para nos transmitir as sensações de Ig na sua evolução enquanto pessoa, explorando esta nova capacidade e tentando chegar à verdade sobre o homícidio de Merrin.
O livro começa cerca de 1 ano depois da morte de Merrin, e no dia em que Ig descobre que lhe nasceram uns cornos na cabeça, não sendo revelado muito sobre o que levou a isto, nem sobre a sua vida com Merrin. Estas revelações serão feitas ao longo de todo o livro, com Hill a introduzir o passado das personagens à medida que tal é relevante para o evoluir da narrativa, mas executando-o com tal mestria que ajuda a criar na mente do leitor uma dúvida grande quanto à verdade que Ig tanto procura. Não sendo um livro com grandes reviravoltas mas sim de descobertas, é consistente na forma como a narrativa progride, tendo um dos pontos mais fortes nos diálogos construídos, que contêm um sentido de humor um pouco negro.

Existem vários pontos positivos e que acho importante mencionar para não sentir que esta seria uma crítica incompleta. A ligação que o leitor sente à personagem principal aumenta gradualmente com o livro, e dei por mim a sentir-me como imagino que Ig se sentiria no final do livro. Este final está longe de ser fantástico e considero-o até o ponto menos bom na leitura de "Cornos". Não quero com isto dizer que é um mau final ou que o considero um "final incompleto"...apenas estava à espera de algo diferente, mas sobre o qual não me posso alongar muito sem revelar vários pormenores que fazem parte da experiência de leitura deste livro. As personagens, de forma geral, são bastante sólidas e conseguimos criar empatia com as mesmas, mas, tirando o aspecto da ligação a Ig, que já referi, gostaria de salientar que o "vilão" desta história está extremamente bem construído e, como tudo neste livro, vai-se revelando ao longo da leitura.

Como conclusão, esta foi uma leitura que me agradou bastante e Joe Hill será sem dúvida um autor do qual vou querer ler mais! Apesar de me ter sido difícil distanciar da ideia que Hill é filho de King, pois encontram-se alguns elementos que poderiam muito bem enquadrar num livro de King, Joe Hill provou estar à altura! Não esperem grandes surpresas da narrativa, mas disfrutem da viagem de descobertas que Hill e a sua personagem Ig vão proporcionando. Tenham sempre algo em mente... Isto é um livro de fantasia e, como é lógico e esperado, tem um elemento relevante de fantasia com uma componente um pouco sombria. Mas penso que já terão tirado essa mesma conclusão pelo facto de Ig ter cornos e uma habilidade especial!
E vocês? Já leram "Cornos" ou algo de Joe Hill? Se sim, que acharam?


Uma vez mais, muito obrigado ao Luís Santos por esta interessante opinião que me deixou com muita vontade de ler o livro.

domingo, 31 de março de 2013

Espaço Leitor: O Perfume


Hoje o "Espaço Leitor" regressa após uma estreia muito boa com o texto sobre "Os Pilares da Terra", um excelente texto da Margarida Contreiras, que podem ver neste link.


O "Espaço Leitor" é um local onde qualquer leitor poderá deixar uma opinião a um livro à sua escolha. Hoje publico a opinião do escritor Carlos Reys, autor do livro Esmeralda Cor-de-Rosa, e aproveito para agradecer o seu contributo com este excelente texto!


Aproveito ainda para informar, que qualquer leitor que gostasse de ter uma opinião neste espaço, basta enviar um mail para lerycriticar@gmail.com com a sua opinião a um livro.


Espero que gostem desta opinião a este excelente livro, sobre o qual também já falei no blog.


Autor: Patrick Suskind

Título original: Das Perfum




Estamos perante uma obra de ficção em que o autor nos descreve o percurso de uma figura rocambolesca, fictícia, que aspira alcançar o Amor – ao qual não tem acesso senão após concretizar o seu sonho – e quando o alcança, momentaneamente, acaba sendo vítima dele.

 

Patrick Süskind conta-nos a história de um homem rejeitado pela Natureza que, estranhamente, não o dotou de cheiro próprio embora seja provido de um extraordinário olfacto – o que o leva a tornar-se num génio perfumista durante a vida.

A acção da história começa em Paris, no século XVIII, numa França pré – revolucionária onde se desenrola a narrativa de um homem com duas características marcantes. Uma característica do protagonista é a sua extraordinária capacidade de sentir qualquer cheiro, enquanto a outra característica reside no facto de ele não exalar odor algum. Esta dicotomia constitui, no desenvolvimento da história, um factor importante para a revelação da personalidade de Grenouille.


Abandonado pela mãe, ele cresceu entregue aos cuidados de várias amas, vivendo situações dramáticas até chegar a Madame Guillard, uma mulher que vivia das pensões atribuídas aos órfãos, procedendo à exploração das crianças e que manteve Grenouille até à idade de 8 anos. Num ambiente de todo desagradável misturado com outros órfãos e enjeitados, sofreu a indiferença destes, logo que se aperceberam do incómodo que lhes causava a sua presença e a falta do seu odor, enquanto, simultaneamente, lhes provocava medo.

Sobrevivendo a posteriores doenças que lhe deixaram marcas físicas a juntar às marcas morais de uma existência atribulada, Grenouille apercebe-se do seu isolamento e deambula pela cidade de Paris absorvendo os cheiros de tudo e de todos, inventariando e catalogando, mentalmente, uma inumerável quantidade de odores que lhe conferem um largo conhecimento e experiência para o futuro.   


O «magnífico» perfumista, mas corrompido de carácter, percorre então as lojas aromáticas onde ganha experiência na destilação de muitas essências aromáticas a fim de encontrar a fórmula ideal para a confecção dos seus perfumes. Não lhe assiste a ideia de enriquecer mas sim a ideia de seguir o seu estranho sonho; um sonho de loucura que era o de criar um perfume que despertasse o mais profundo amor em quem o cheirasse. Um amor que ele dedicou a si próprio apoderando-se do mundo da realidade que o envolvia, através de uma forma de simulação dessa realidade.

Ele procura nas próprias pessoas o odor de que necessita a partir do qual inicia as suas experiências e é no odor de mulher, que ele capta, em donzelas virgens, que incide o seu desejo, ao ponto praticar os crimes.



A personagem da história que Patrick Süskind nos descreve, assenta, pela sua índole, entre dois pólos que podemos interpretar como sendo o lado humano e o anti-humano. Humano enquanto ser vivente, carente de amor, lutador contra o desprezo a que se sente votado pelo seu semelhante; anti-humano quando, visto como um monstro, se nos apresenta como insensível e criminoso.

A leitura da obra desperta, assim, no leitor sentimentos vários desde a compaixão à admiração por Grenouill, que o autor explora, descrevendo e estabelecendo, ao longo da história, um curioso fio condutor, que leva a interpretar o comportamento do personagem, numa ascensão de interesse cada vez maior, tentando desvendar os «porquês» que frequentemente se colocam tanto no seu estranho comportamento como no seu verdadeiro carácter. 


Não é por acaso que o autor descreve, pormenorizadamente, o primeiro crime e o ultimo. O período de tempo que medeia o primeiro crime dos restantes, torna, naturalmente, o leitor mais curioso, mais ansioso pelo desfecho da obra. O autor, aqui, ganha tempo e aproveita-o na descrição de todo o esforço em que o personagem se empenha para conseguir obter o milagroso perfume que irá constituir a sua enganadora liberdade, o aroma mais sublime que fará com que os outros o amem.

O ritual a que procede depois, (…) “com alegria e serenidade” (…) junto das vítimas da sua louca ambição, constituem marcas profundas de absoluta falta de sentimentos, de crueldade, de coragem incontida, que acabam por o denunciar.


A obra de Patrick Süskind contém um final inesperado para o leitor. Este, durante a leitura, dá-se conta de uma ficção bem trabalhada com descrições da vida quotidiana de Paris do século XVIII, onde impera a miséria em que a população vive, paralelamente à vida faustosa da realeza. Repara na influência da Igreja junto do povo e na sua atitude perante situações já então difíceis de resolver como as das crianças abandonadas e órfãs, nas reacções do Poder instalado, que aqui são descritas com pormenores reveladores de uma busca intensa, efectuada por quem se preocupa com factos históricos.  

Podemos considerar que, na obra “O Perfume”, está presente uma forte simbologia associada ao protagonista da história que, sendo dono de um olfacto invulgar, apto a perceber traços de que nenhum animal seria capaz, acaba por apagar tudo o que é visual, visualizando o mundo através do olfacto.


Desprovido de sentimentos maternos, isolado e incompreendido, comete o primeiro de muitos outros crimes, em busca da essência odorífica perfeita que só ele é capaz de conseguir.

Na obra estão presentes cheiros, sabores, nuances e essências, símbolos da sua imaginação e loucura que só ele sente, vê e prevê. O sentido premonitório é uma constante nas descrições efectuadas pelo autor.

No universo de Grenouille não existem coisas nem pessoas. Ele só consegue apoderar-se do mundo da realidade que o cerca através de um simulacro da realidade – o perfume, o odor que, de modo mágico, abre para ele as portas do real sem que ele seja obrigado a conquistá-lo com amor.

Assassino de belas jovens, deixando em pânico toda uma região (…) “Foi então que o medo se abateu sobre a cidade. As pessoas já não sabiam contra quem dirigir a sua raiva impotente” (…) (pág.215) o perfumista, ao pretender fabricar, artificialmente, o aroma da pureza e do amor, está simbolicamente a “vingar-se” da falta de odor que ficou nele desde a infância, na adolescência, até à idade adulta, o que motivou o desprezo a que se viu votado. 

Nesta obra estão presentes, constantemente, símbolos e significados relacionados com a busca da essência perfeita, com a infância do protagonista, com o seu passado e com o seu futuro.


Conclusão

Ao ler o livro “O Perfume” ficamos com a sensação de que se trata de uma obra de ficção onde o autor se preocupou em prender a atenção constante do leitor, descrevendo as vivências dos aglomerados populacionais muito densos na Europa do séc.XVIII em contraste com a burguesia e o clero, ao mesmo tempo que nos descreve um personagem irreal possuído de dons irreais que faz uso dessa particularidade para alcançar o amor, que nunca sentiu, matando e não se inibindo de matar em beneficio da sua aspiração.

      

A própria obra constitui uma simbologia das fraquezas humanas, da solidão, do abandono, do desespero e ambição, retratados ao longo da história pelas mais diversas personagens e situações.

Criar um perfume capaz de produzir o efeito do amor é uma utopia que persegue o protagonista e o conduz à sua autodestruição.

«O feitiço virou-se contra o feiticeiro»

Carlos Reys