Autor: George Orwell
Todos nós temos um livro que, por um ou outro motivo, nos marcam profundamente. Eu tenho vários e 1984 é um deles. A minha admiração por este livro é tal, que sempre resisti à tentação de falar sobre ele neste blog, e durante mais de dois anos, nada escrevi sobre a obra prima de Orwell. Hoje decidi escrever o que penso, tendo a certeza que as minhas palavras não farão jus à qualidade destas páginas.
O que é a liberdade? Um direito moral ou uma ilusão inatingível?
O que é o controlo de massas? Uma teoria da conspiração forçada ou o futuro que a tecnologia nos irá oferecer e nós aceitaremos com um sorriso?
Em 1984 é-nos apresentado o Big Brother, a identidade que tudo controla, desde o controlo visual, sabendo o que o povo faz, passando pelo controlo da sabedoria, manipulando o conhecimento de tudo e de todos. Esta entidade, que é o governo, controla todos os fatores da população. Entre eles temos a própria história da nação, os fatos exteriores ao país, e claro, o equilíbrio monetário que fará com que o povo continue a trabalhar para que os ricos vivam como querem.
Em termos práticos, sente-se que se trata de um livro escrito em 1948 e publicado em 1949, pois existe uma discrepância entre o que o livro nos tenta oferecer como base sustentável deste mundo e a realidade prática que hoje conhecemos. A verdade é que nunca um mundo se aguentaria nestes termos operacionais, mas a questão essencial do livro não é essa nem deve ser discutida. O que importa aqui perceber é como, de forma quase profética, Orwell nos leva até um mundo onde tanto se parece com o mundo em que vivemos hoje. Tecnologia e controlo...
Televisão, internet, redes sociais, gps... tudo isto detém informação, e com ela, haverá sempre controlo, não porque nos foi imposta, mas porque nós adoramos usar tudo isto. O povo deste livro, deve sempre lutar contra estas formas de controlo, mas também deve ter noção que nunca ganhará enquanto estiverem "deste lado", e é disso que o livro trata. Nesta obra de Orwell, o controlo da massas passa pela vigilância e televisão, enquanto nos demonstra um mundo com pormenores fantásticos, onde nada é deixado de fora: religião, costumes, história política, controlo de recursos, e obviamente, aqueles que controlam os que também controlam.
Uma das questões mais importantes deste livro passa pela óbvia ligação com a propaganda criada pelo regime nazi, onde devemos ponderar uma questão: uma mentira contada várias vezes, poderá tornar-se uma verdade? E será apenas verdade para quem a cria, ou tornar-se-á global?
As personagens deste livro quase que passam ao lado perante tão grandioso mundo criado por Orwell. Winston, personagem principal, será o homem que lutará contra o sistema. Enquanto personagem, Winston não marca o leitor, mas os acontecimentos do enredo não serão esquecidos. Winston está presente na criação das mentiras (aceita tal facto porque é banal, porque não se estão a criar mentiras, mas sim verdades), vive a semana do ódio e sente as correntes que o aprisionam, e assim vemos que não é a verdade nem o conhecimento que o prendem, são antes os utensílios que lhe mostraram a cela onde vive.
Sendo uma clara crítica ao regime de Staline com toques de Nazismo, Orwell dá-nos um mundo governado pela economia impulsionada pelas guerras, e com isso o mundo vive em constante receio, resignando-se ao controlo. Claro que existem muitos mais fatores que tornam este mundo credível e fascinante, e que farão muitos leitores questionar como seria viver assim e ainda mais importante, se estaremos tão longe desta visão. No entanto, não irei "espremer" tudo o que o livro tem para oferecer.
Para onde nos leva o capitalismo? Até que ponto estaremos a ser manipulados para esquecer o que realmente é importante? Estaremos a caminhar para um mundo dominado por super potências capazes de serem sustentáveis, e consequentemente, fechadas?
1984 é uma obra fascinante e gostaria de falar sobre ela durante horas. Poderia falar da tensão psicológica que o autor tenta transmitir, da impossibilidade de escolhermos o nosso destino, do sistema social que não deixa os personagens mudarem de estatuto. 1984 vale pelas personagens que tem, pelo enredo que oferece, mas principalmente pelo mundo onde se sustenta e pelo passado que a meio nos revela. E no fim, o livro, tal como o Big Brother, tem a capacidade de nos quebrar, principalmente porque este "futuro" que Orwell criou é reconhecido por nós em certos momentos.
Orwell foi um génio. 1984 é para mim a sua maior obra que está entre os melhores livros que já li, e claro, é um dos meus favoritos. Deve ser lido, relido, estudado e questionado. Quando me perguntam qual o meu livro favorito ou qual o melhor que já li, nunca sei responder, mas quando uma pessoa, quem quer que seja, me pede que lhe recomende um livro, 1984 é sempre a minha primeira opção, porque para mim, deveria ser lido por todos. Uma obra prima sobre a natureza humana, e que me deixou a olhar, durante vários minutos, para a última página.
Afinal, qual é o limite de poder que uma sociedade pode "oferecer" a alguém?
Afinal, o que é a verdade? Algo imutável ou que podemos definir?
Luís Pinto
