sexta-feira, 14 de julho de 2017

O MILÉSIMO ANDAR


Autor: Katharine McGee

Título original: The Thousandth Floor





Sinopse: Uma torre de mil andares. A visão brilhante de um futuro onde tudo é possível se assim o desejarmos. Nova Iorque, cidade de sonhos e inovação daqui a cem anos. Todos querem qualquer coisa… e todos têm algo a perder. O exterior impecável de Leda Cole esconde um vício secreto por uma droga que nunca devia ter experimentado e por um rapaz em quem nunca devia ter tocado. A vida bela e descuidada de Eris Dodd-Radson desmorona-se quando uma traição lhe destrói a família. O trabalho de Rylin Myers num dos andares mais altos mergulha-a num mundo e num romance inimaginável… mas essa vida nova custar-lhe-á a que tinha antes? E a viver acima de todos, no milésimo andar, está Avery Fuller, uma rapariga que parece ter tudo, mas que vive atormentada pela única coisa que nunca poderá ter.



A base deste livro é bastante interessante e foi o que me fez lê-lo. O que a autora criar neste livro é um mundo onde quase tudo, em termos materiais, está ao alcance das pessoas. Numa sociedade que continua a apresentar enormes diferenças entre as várias classes financeiras, a autor explora as diferenças, o que cada pessoa pode alcançar com dinheiro ou posição, mas também o que não pode ser adquirido por compra.

Apesar de o enredo romantizado ser algo previsível, a base da sociedade está bem conseguida, chegado ao ponto de sentir que ficou muito por explorar, muito por explicar, porque a ideia que tudo sustenta, tem muito mais para dar. É verdade que existem mais livros, e tal é fundamental para a autora continuar a explorar conceitos que me parecem interessantes e que encaixam bem nas personagens, mas gostava de ter lido mais neste livro. 

Em termos de personagens a autora cria um grupo interessante, por vezes estereotipado ou previsível, mas capaz de nos agarrar ao enredo, principalmente pela forma inteligente como a autora os explora aos poucos. Nota-se, mais ou menos a meio do livro, que a narrativa perde um pouco o caminho, explorando conceitos e personagens que talvez apenas tenham importância nos livros seguintes, mas talvez seja o esforço da autora em aumentar o seu universo para os próximos livros.

De uma forma geral, a autora tem aqui um livro original na sua base e bastante focado na crítica social e no que a nossa sociedade se está a tornar, ao dar importância a muitas coisas que não são realmente importantes. Gostei da forma como a autora explorou a sua ideia e como a prepara para os próximos livros, sem nunca deixar de tentar chocar nos momentos certos. É, claramente, um livro que será mais apreciado pelo sexo feminino e que ainda tem muito para dar, principalmente graças à crítica social aqui presente, mesmo que indiretamente.Não é fantástico, nem tenta ser. Tenta passar uma mensagem e consegue.

Luís Pinto

quinta-feira, 13 de julho de 2017

PASSATEMPO - A História do mundo para pessoas com pressa - Vencedor!



PASSATEMPO

A História do mundo 
para pessoas com pressa

Vencedor!


Chegou ao fim mais um passatempo em parceria com a Editorial Presença, à qual agradeço mais esta oportunidade.

Desta vez oferecemos um exemplar do livro "a História do mundo para pessoas com pressa", e terei a análise ao livro ainda este mês.

Obrigado a todos os que participaram e que tornaram esta passatempo um sucesso. Aos que não venceram, desejo-vos melhor sorte para a próxima.



Sinopse: Um guia conciso mas abrangente que cobre tudo o que é necessário saber sobre os acontecimentos mais importantes da História do mundo, desde as civilizações antigas até ao final da Segunda Guerra Mundial.
Fazendo uma abordagem a todos os factos e detalhes históricos essenciais, este livro proporciona-nos uma extraordinária viagem através dos tempos, desde o império de Alexandre, o Grande, à dinastia Tang, na China, ao Iluminismo, à Guerra Civil americana, e mais além. 
A História do Mundo para Gente com Pressa é um guia precioso e indispensável sobre a história da Humanidade e que nos permite descobrir como se construiu o mundo moderno.
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E o vencedor é: 

Ana Maria Fernandes Marques
Parabéns à vencedora!
Novos passatempos em breve! 


quarta-feira, 12 de julho de 2017

O MUNDO CONFUSO DE JONATHAN


Autor: Meg Rosoff

Título original: Jonathan Unleashed





Sinopse: Por mais fácil que a vida fosse quando vivia na casa dos pais, Jonathan Trefoil sabe que tem de crescer. Mas é mesmo difícil:
- O trabalho que arranjou é aborrecido e repetitivo;
- A namorada é autoritária e quer casar-se com alguém como ele, só
que mais rico e com um sentido de humor diferente;
- Pode ser despejado do apartamento que subaluga com apenas
24 horas de pré-aviso.
A vida dele fica ainda mais confusa quando o irmão lhe pede que cuide dos seus cães - Dante e Sissy. Obviamente, Jonathan não tem a menor ideia de como o fazer.
Aos poucos, ele vai entregando as rédeas da sua vida aos novos companheiros. Em rigor, eles parecem deter a chave para os segredos da vida, do universo e de tudo o que existe. E Jonathan só sabe que nada sabe. Ao acompanharem Jonathan no trabalho, ao levarem-no a parques e esplanadas, ao conduzirem-no à clínica veterinária e à Dra. Clare, Dante e Sissy só estão a ajudá-lo a chegar finalmente à idade adulta. Resta saber se o vão conseguir.



Por vezes apetece ler algo mais leve. No entanto, um livro que no início pode parecer leve, alegre, cómico, por vezes torna-se emotivo, e este livro tem um bocadinho de tudo. 

O que mais apreciei neste livro foi a sua inteligente capacidade de ser discreto. A história é suave, divertida e capaz de passar mensagens de forma discreta, quase como se não estivessem lá. Este é um livro sobre relações, sobre as amizades que criamos naquela fase da nossa vida em que deixamos de ser crianças e passamos a adultos, seja qual for a idade em que nos acontece tal transformação. É um livro sobre o choque da responsabilidade, sobre o que esperamos da vida e o que esperam de nós. É um livro sobre o que sentimos, sobre o que precisamos de ter para sobreviver, e o que precisamos de ter para realmente viver.

É, inevitavelmente, a história sobre um rapaz e um cão (neste caso, cães), uma amizade que nada exige. Com uma escrita simples, divertida e cheia de significado, a autora leva-nos por uma história que por vezes surpreende, por vezes parece forçada, mas sempre com algum significado, ao ponto de se perceber que o objetivo da autora não foi criar uma história fantástica em termos de acontecimentos, mas sim uma narrativa que nos fizesse pensar e sentir.

Pelo meio, personagens com as quais facilmente se cria alguma ligação. Foi-me muito fácil criar algumas ligações com este rapaz ou com situações da história, talvez por também ter cães e saber como mudam a nossa vida, as nossas rotinas e até a forma como vemos algumas coisas e lhes damos valor.

Este é um livro diferente, e bastante inteligente. É uma comédia romântica com muito menos clichés do que o normal e com mensagens profundas para pensarmos se assim o desejarmos. É um livro para amantes de animais, mas não só. É um livro para todos os que gostarem deste género ou que também já tenham passado por aquela fase na vida em que estamos perdidos, talvez sem sequer o termos sentido. Se leram a sinopse e ficaram curiosos, então não hesitem.

Luís Pinto



terça-feira, 11 de julho de 2017

A MULHER DESAPARECIDA


Autor: Sara Blaedel

Título original: The lost women





Sinopse: Num bairro familiar e acolhedor nos arredores de Londres, uma mulher foi alvo de um violento assassínio. Um tiro certeiro de uma caçadeira atravessou a janela da cozinha, onde ela se encontrava com o marido e a filha. A morte foi imediata.
Ao iniciar a investigação, a polícia local descobre que a mulher, de nome Sophie Parker, se tratava na verdade de uma cidadã dinamarquesa que se encontrava desaparecida há 18 anos. Louise Rick, chefe do Departamento de Pessoas Desaparecidas, fica responsável pelo caso. É então que novas e surpreendentes revelações desvendam que fora Eik, seu colega e amante, quem declarara o desaparecimento de Sophie.
Assim que é informado da morte de Sophie, Eik desaparece misteriosamente e, passadas 24 horas, é preso em Inglaterra e acusado de ser o responsável pelo crime.



Este é o segundo livro que leio de Sara Blaedel e em vários aspetos consegue ser superior ao anterior. Sinceramente, o que mais gostei neste livro foi a sua base inicial. Apreciei bastante o mistério inicial, com uma história original e que me prendeu, principalmente porque se percebe que a autora nos está a tentar enganar.

É verdade que o livro nunca consegue ser fantástico, mas já lá vamos. O livro começa com um bom ritmo, tal como é pedido neste género que empurra o leitor de imediato para a ação, a autora vai explorando as personagens aos poucos enquanto acelera na narrativa para que o leitor não consiga parar de ler e comece a fazer a sua própria investigação.

Um dos trunfos deste livro está no facto de se perceber que algo está errado. A autora desde cedo oferece os detalhes necessários para que seja possível perceber que o enredo nos está a enganar no caminho que está a percorrer. No entanto, devido ao seu ritmo elevado, por vezes a autora deixa escapar um ou outro detalhe que fazem a diferença e que acredito que a autora não queria dar importância de imediato para aumentar o suspense e tornar a história mais coerente.

Tentando sempre sustentar a sensação de suspense, a autora por vezes força alguns acontecimentos, apesar de bem sustentados pelo que conhecemos das personagens, mas que podem não encaixar totalmente nos acontecimentos em si. Todavia, devido ao ritmo, nunca senti que o livro me desse tempo para questionar algumas coisas, até porque a partir de meio o livro foca a nossa atenção em algo que não irei revelar, mas que é feito de forma bastante indireta e inteligente.

Com um conjunto interessante de personagens e uma história original, a autora tem aqui o seu livro que gostei mais, muito graças ao final, bem pensado, bem executado, e que nos faz pensar sobre o livro durante algum tempo. Não é uma obra prima nem revoluciona, mas irá agradar aos fãs do género com um final inteligente e que me deixa com vontade de ler mais livros da autora.

Luís Pinto

quinta-feira, 6 de julho de 2017

O PORTO DAS ALMAS


Autor: Lars Kepler







Sinopse: Jasmin é uma mulher soldado do exército sueco colocada no Kosovo que vive para o filho, Dante, cujo pai é um camarada de armas, um homem instável que tenta afogar os horrores da guerra em álcool e drogas. No Kosovo, Jasmin fica gravemente ferida e, durante a hospitalização, enquanto se encontra entre a vida e a morte, a sua alma parte para uma misteriosa e sobrelotada cidade portuária, um porto de almas, de onde os que morrem jamais regressarão. Mas Jasmin é forte e consegue escapar.
Dois anos após a sua primeira experiência na cidade dos mortos, um acidente rodoviário obriga Jasmin, desta feita acompanhada pelo filho, a regressar: todavia, só ela é que consegue escapar ao porto das almas. O caso de Dante, que está à espera de uma operação, é muito mais grave, e Jasmin não pode abandoná-lo à mercê da cidade misteriosa: a sua única opção é voltar, uma vez mais, e lutar por quem ama, num jogo terrível de vida e morte no qual é provável que saia derrotada.


Lars Kepler, o famoso autor de thrillers policiais (na realidade Lars Kepler não é apenas um escritor, mas sim um casal) está de volta, mas desta vez fora do seu habitual registo. Deixando para trás as personagens já famosas dos fãs do "autor", Kepler leva-nos a viajar num enredo sobrenatural, onde filosofia, espiritualidade e metafísica estão de mãos dadas.

Sendo um livro sobrenatural sobre um porto de almas, o leitor terá de estar preparado para esta realidade e começar o livro de mente aberta. Quem procure aqui um livro ao estilo que está habituado, terá aqui um livro que poderá não gostar, principalmente se os conceitos base não forem do seu agrado.

Tirando este facto, a verdade é que Lars Kepler tem aqui um livro interessante e que, mesmo podendo não estar ao nível do suspense que nos habituou, consegue ser brutalmente viciante e crítico sobre muito da nossa sociedade, mesmo tendo em conta que esta crítica é bastante indireta. Com uma crítica bastante presente sobre a forma como vemos o mundo e também sobre o mundo que envolve a guerra sempre presente na nossa História, o autor explora o que um conflito armado faz aos soldados, as marcas que deixa. Pelo meio explora a crença ou a descrença dos mesmos, tentando tornar este livro o mais coerente possível. Todavia, este livro, baseado em mortes e guerras, acaba por ser um livro sobre amor e quais os sacrifícios que podermos enfrentar para salvar quem amamos.

No global, este é um livro muito mais emocional do que esperava, porque a relação mãe e filho está bem explorada mesmo que de forma indireta em alguns momentos. O resultado é um livro que apesar de diferente, foi bastante viciante. Certamente não terá o impacto que outros livros do autor tiveram, mas se gostarem do tema sobrenatural, dificilmente conseguirão parar de ler. Venham mais livros deste autor!

Luís Pinto

UMA MULHER DE ARMAS


Autor: Peter Heller

Título original: Celine



Título original: Celine Watkins é uma mulher excêntrica. É aristocrática mas não vive num bairro elegante e sim na base da Ponte de Brooklyn. Tem gostos requintados e considera-se uma artista mas as suas esculturas são, no mínimo, sinistras. Já não é nova e tem um enfisema pulmonar mas recusa hábitos saudáveis. Adora joias com o mesmo ardor com que admira uma bela arma.
Na verdade, a surpreendente Celine é detetive privada e possui dotes que ultrapassam até os do FBI. Motivada por segredos do seu próprio passado, é perita em localizar pessoas desaparecidas e em reunir famílias separadas.
A jovem Gabriela Lamont já não vê o pai há muitos anos. Fotógrafo de profissão, desapareceu algures na paisagem inóspita do parque nacional de Yellowstone. Foi oficialmente dado como morto, mas a história de que terá sido atacado por um urso não convence a filha. Tão-pouco convence Celine, que está fascinada pelo caso.
A cada passo que dá, torna-se cada vez mais claro que alguém quer impedi-la de remexer no passado. Mas Celine não está habituada a renunciar a um mistério, principalmente este, que envolve uma família muito mais peculiar do que parecia… 



Num registo ligeiramente diferente do normalmente usado em policiais, o autor dá-nos a conhecer uma personagem principal original e que tenta fugir a alguns clichés deste género literário. Claro que não é fácil e por vezes o autor aproxima-se bastante do esperado nestes enredos, mas consegue sempre voltar a afastar-se e criar um enredo original.

Com uma escrita bem trabalhada mas sem tornar o ritmo demasiado lento, a narrativa vai criando um choque de mentalidades entre várias personagens, que de alguma forma estão separadas, quer seja pela forma como vêem o mundo ou outras construções culturais. Com esta base, Celine torna-se numa personagem com a qual ganhamos alguma simpatia apesar de ter várias ações que podemos não concordar. 

O seu trunfo está no facto de ser uma personagem coerente, o que ajuda a que não existam muitos momentos forçados. Aos poucos o autor vai aprofundando esta personagem e a sua personalidade é o catalisador da história, porque é com as suas vivências e traumas que vamos percebendo os objetivos e o porquê de continuar a avançar.

O enredo está bem pensado, apesar de não revolucionar o género, conseguindo nunca ser demasiado óbvio. É verdade que antevi algumas das revelações, mas também é verdade que gostei da confirmação da maioria, porque são demonstrações de um autor que quer arriscar.

No entanto, globalmente este é um livro sobre a personagem principal, sendo o mistério policial a base condutora mas que também tem como maior propósito apresentar esta detective. Não sendo uma obra prima do género, a verdade é que foi um livro bastante viciante e que um fã do género irá gostar, principalmente pelas suas personagens, sendo que duas delas são claramente inesquecíveis durante muito tempo.

Se procuram um bom policial para este verão, esta é mais uma boa opção, e fiquei bastante curioso para ver onde o autor irá levar esta personagem.

Luís Pinto

terça-feira, 4 de julho de 2017

SOBREVIVE


Autor: Alexandra Oliva

Título original: The last one





Sinopse: No começo, eram doze
Quando Zoo aceitou participar num programa de televisão, ela julgava que se tratava de um reality show. Sabia que ia ser testada até aos seus limites para bater os outros onze concorrentes em provas de sobrevivência, mas achou que valeria a pena. Depois das câmaras e dos desafios voltaria para casa, para formar uma família.
Mas o jogo parece não ter fim
Conforme os concorrentes vão quebrando, física ou psicologicamente, Zoo começa a questionar-se sobre a crescente dificuldade das provas. Pouco depois, dá por si sozinha. Todos os outros concorrentes desaparecem. As cidades vazias, os cenários grotescos. Porque é que o programa não acaba?
Descobrir a verdade é o princípio
O que estará a acontecer longe do olhar das câmaras? Zoo precisa de descobrir, e, acima de tudo, precisa de encontrar o caminho para casa de forma a retomar uma vida interrompida.



Neste livro Alexandra Oliva mistura vários conceitos de algumas distopias e cria um thriller intenso e que consegue prender o leitor com facilidade. No entanto, a mistura de tantos conceitos, mesmo tendo em conta que alguns são superficiais, não é fácil, levando a que o livro demore algumas páginas a torna-se coerente.

Tal como a maioria das distopias viradas para o público adolescente, também aqui a autora tenta agarrar o leitor com várias dúvidas sobre o mundo onde a história decorre. Deixando várias pistas mas sempre com o objetivo de criar novas perguntas, a autora vai aumentando as pontas soltas, levando o leitor a tentar perceber tudo o que está a acontecer. A isto junta-se a história em si, muito focada no que um ser humano poderá fazer para sobreviver e também nos conceitos de reality shows.

A base do enredo é mesmo isso, a capacidade que temos de sobreviver, quebrando os nossos limites físicos, mentais e morais. E com isto, aos poucos, o enredo foca-se na essência do ser humano, nos extremos que consegue atingir, quer bons, quer maus. O resultado é uma narrativa forte e emocional que apresenta alguns momentos forçados mas que consegue explorar bastante bem o nosso instinto de sobrevivência que a sociedade deste livro consegue despertar.

Com um ritmo em crescendo, o livro torna-se bastante viciante e o fim está bem pensado. No entanto o enredo falha em dar respostas importantes se começarmos a questionar este mundo. Ao focar-se em algumas personagens a autora perde a capacidade de explicar de forma coerente este mundo para sustentar algumas decisões. Não é uma falha grave porque o foco do livro é a sobrevivência de algumas personagens, mas gostava de ter visto uma maior coerência do que sustenta esta narrativa.

Este é um livro bastante viciante e que explora de forma crua e direta a realidade dos reality show que se espalham pelo mundo. Os conceitos atuais de fama e o que fazemos para sermos adorados, famosos ou idolatrados estão aqui explorados com inteligência e arrepiam. É pena o livro não conseguir ser totalmente coerente ou original, mas mesmo assim é um livro bastante viciante para se ler neste verão e que tão cedo não se esquece. Claramente um livro inteligente em muito do que faz.

Luís Pinto

segunda-feira, 3 de julho de 2017

INVERNO NO PRÓXIMO ORIENTE


Autor: Annemarie Schwarzenbach





Sinopse: A 12 de outubro de 1933, na estação de comboios de Genebra, uma elegante mulher de 25 anos subiu para o do Expresso Oriente, que partia para Istambul.
Do outono de 1933 até à primavera do ano seguinte, Annemarie Schwarzenbach, jornalista e fotógrafa, formada em História na Universidade de Zurique, vai acompanhar um grupo de arqueólogos numa expedição de seis meses através da Turquia, Síria, Palestina, Iraque e Pérsia. A viagem será também para Annemarie uma forma de se afastar da Europa, onde era já visível a ascensão do nazismo.
Nesta expedição, que terminará nas margens do mar Cáspio, Annemarie vai contactar com civilizações antigas e com as realidades contemporâneas dos países por onde viajava, e esse contacto com o Oriente causar-lhe-á, nas suas palavras, «uma impressão de intemporalidade, de incerteza e de impotência».



Já se imaginaram a pegar nas vossas coisas e irem viver para uma realidade completamente diferente? Certamente muitos de vocês já o fizeram, e este livro é, na sua essência, isso mesmo: a forma como avançamos para o desconhecido, deixando para trás o que damos como garantido. O choque de culturas, o nascer ou morrer da esperança. O desconhecimentos do que para nós é bom e para outras culturas é mau.

Annemarie tem aqui um livro diferente num olhar cheio de curiosidade e esperança ao deixar para trás uma Europa que começa, lentamente, a caminhar para o seu momento mais negro. Jornalista e fotógrafa, a autora explora novas e antigas culturas, novas e antigas civilizações que por mais diferentes que possam ser, também têm muito a ensinar. 

Com uma escrita que salta entre a curiosa e entusiasmada, e a calma e com um toque de lamento, a autor conduz o leitor por uma viagem que me surpreendeu, quer pelo que me mostrou, quer pelas conclusões que acabei por tirar. Não é, obviamente, um livro para qualquer leitor, mas o seu toque de esperança sempre presente, mesmo perante o pior da humanidade, ajuda-nos a continuar.

Falar sobre isto livro, sem revelar pormenores que se revelam importantes, não é fácil. Esta foi uma leitura diferente e que me surpreendeu em alguns momentos. Um leitor atento encontrará aqui uma exploração única, aliada à crítica social e ao aprofundar do que nos torna humanos e de como crenças e sociedade nos moldam. É um livro que mistura fascínio mas também descrença. É um livro de extremos, tal como tudo aquilo que podemos ver, quando olhamos para os momentos mais negros da nossa História.

Luís Pinto

sábado, 1 de julho de 2017

PASSATEMPO: A História do mundo para pessoas com pressa


PASSATEMPO

A História do mundo para pessoas com pressa



Uma vez mais o Ler y Criticar irá oferecer um livro em parceria com a Editorial Presença, a quem desde já volto a agradecer por todos os passatempos que me disponibiliza.


Para se habilitarem a ganhar basta fazerem o habitual, responder a uma pergunta e preencher o formulário com os vossos dados.

Em breve, opinião sobre este livro!


O passatempo termina dia 11 de julho

Apenas é permitida uma participação por pessoa

Boa sorte a todos!




Sinopse: Um guia conciso mas abrangente que cobre tudo o que é necessário saber sobre os acontecimentos mais importantes da História do mundo, desde as civilizações antigas até ao final da Segunda Guerra Mundial.
Fazendo uma abordagem a todos os factos e detalhes históricos essenciais, este livro proporciona-nos uma extraordinária viagem através dos tempos, desde o império de Alexandre, o Grande, à dinastia Tang, na China, ao Iluminismo, à Guerra Civil americana, e mais além. 
A História do Mundo para Gente com Pressa é um guia precioso e indispensável sobre a história da Humanidade e que nos permite descobrir como se construiu o mundo moderno.




quinta-feira, 29 de junho de 2017

OS CONSPIRADORES


Autor: Vito Bruschini





Sinopse: Num cenário de intriga internacional, interesses ocultos e homens poderosos pretendem dominar o mundo a todo o custo.
14 de janeiro de 2013: o Bundesbank anuncia aos mercados financeiros a sua intenção de reaver para os cofres do Frankfurt 300 toneladas de lingotes de ouro conservados nas caves da Reserva Federal de Nova Iorque e 374 toneladas de lingotes depositados no Banco de França em Paris. Porquê esta imprevista decisão? Alguns meses depois, a Reserva Federal Americana congela os bens nas suas caixas-fortes, receando um evento que pode mudar a História da Humanidade...
Há vários anos que uma congregação ultra secreta, o Priorado, tenta expandir o seu domínio. Composto por antigos jesuítas, este grupo de poderosos quer assumir o controlo da nossa sociedade. Estão dispostos a tudo, inclusive a recorrer aos Protocolos dos Sábios de Sião, uns dos mais ameaçadores documentos da nossa História recente. Os membros infiltram-se nas organizações nevrálgicas do poder mundial e põem em marcha o seu plano.
A congregação pretende subjugar o Conselho dos Treze, a cúpula do Clube Bilderberg, o lóbi mais poderoso que governa na sombra a economia mundial. No ar paira a ameaça do colapso do dólar e até do euro. Será uma guerra financeira o método escolhido para alcançar o domínio do mundo?




Bruschini regressa com mais um livro que mistura ficção e realidade. Com um início de mistério baseado em factos reais, o autor inicia uma história ficcional que cativa bastante nas primeiras páginas, levando o leitor a criar várias perguntas e a querer ter respostas o mais rápido possível.

Com um ritmo sempre elevado e em crescendo, o autor leva-nos por teorias da conspiração e jogos de poder, interesses e ganância num mundo jogado nas sombras. As personagens são cativantes, sem nunca serem muito exploradas porque o ritmo também não o permite.

Apesar de as personagens não serem muito exploradas, os seus comportamentos são coerentes. É claro que o autor força vários momentos, não só em alguns diálogos mas principalmente em algumas coincidências, que nos levam a não ter as respostas nos momentos certos, aumentando assim as dúvidas do leitor e a sua vontade de ler. Neste aspeto o autor é bastante inteligente a dar respostas e a a criar novas perguntas nos momentos certos. Existe sempre uma nova dúvida e uma nova teoria que nos leva a continuar a ler enquanto tentamos perceber os verdadeiros objetivos de algumas personagens.

Bem sustentado em alguns fatos reais e encaminhando a nossa atenção para alguns pormenores que são a base da conspiração, o autor consegue criar um enredo empolgante e que, apesar de algo irreal, nos faz pensar sobre muitos interesses que fazem girar o mundo financeiro e militar. Se apreciam um thriller cheio de ação e conspirações, então esta será uma boa leitura de verão. Em nenhum momento inova a fórmula já usada por outros livros do género, mas é bastante viciante e com vários factos históricos que ajudam a manter interesse do início ao fim. Ideal para quem gosta de uma boa conspiração!

Luís Pinto


terça-feira, 27 de junho de 2017

1924 - O ANO QUE CRIOU HITLER


Autor: Peter Ross Range

Título original: 1924 - The year that made Hitler




Sinopse: O ano de 1924 marcou a vida de Adolf Hitler e o destino da Humanidade. Detido na sequência do putsch em Munique, um golpe falhado, e rodeado pelos seus coconspiradores, Hitler passa na prisão por um período intenso de leitura e escrita enquanto aguarda um julgamento por traição.
Nesse ano sedimenta as bases do que viria a ser a ideologia do Terceiro Reich, arquiteta a então aparentemente impossível subida ao poder e escreve Mein Kampf, o seu manifesto infame. Tudo o que a História presenciou depois - a violência, a ditadura, a guerra mais mortífera de sempre - encontrava-se cristalizado nesse ano paradigmático.
Até agora, tal período ficou por analisar com a devida profundidade. O jornalista Peter Ross Range fá-lo magistralmente, descrevendo os episódios do ano mais importante para perceber a mente de Hitler numa obra pioneira e de leitura empolgante: 1924 - O Ano que criou Hitler.
Após ter oferecido este livro aqui no blog em parceria com a Editorial Presença, decidi lê-lo pois retrata o "início" de um dos momentos mais importantes da nossa história e também o nascer de um dos homens mais influentes da nossa História? Quantas pessoas conseguiram, para o bem ou para o mal, influenciar o mundo como Hitler conseguiu? Após já ter lido vários livros sobre o confronto em si, achei particularmente interessante ler sobre o despertar de Hitler, os seus motivos, as suas ambições, e nada melhor do que ir ao início para se perceber todo o desenrolar seguinte.

Com uma ideia original e uma investigação muito bem conseguida, este livro foi uma lufada de ar fresco dentro do tema. O facto de o livro se focar nos motivos inicias e em todos os acontecimentos que ajudaram ao efeito dominó que conhecemos, é algo diferente de muitos outros livros que li sobre o tema.

Claro que ao ser um livro bastante focado em Hitler, não é um livro capaz de dar uma visão global de todo o conflito, mas nem é esse o objetivo, pois o livro foca-se no antes, explorando o porquê. Com uma estrutura bem montada o autor vai avançando sem deixar o leitor perdido, oferecendo detalhes preciosos nos momentos certos para compreendermos a transformação a cada página.

Não existe muito mais a dizer sobre este livro sem revelar certas situações. Foi uma leitura que gostei bastante e que aconselho a todos os que tenham interesse no tema. Irão, certamente, aprender bastante. Muito bom.

Luís Pinto

quarta-feira, 21 de junho de 2017

FORÇAS DO MERCADO


Autor: Richard Morgan

Título original: Market forces




Sinopse: Um clássico da ficção científica moderna sobre os perigos do capitalismo selvagem Richard Morgan convida-nos a mergulhar num futuro tão horrendo quão certo de estar já ao virar da esquina. Com o povo definitivamente afastado dos centros de decisão e as grandes corporações a controlar o mundo, a globalização é brutal e não há separação entre as salas de reunião e o sangue nas ruas. Chris Faulkner é um executivo em ascensão no negócio dos Investimentos em Conflitos, onde as decisões são tomadas com duelos até à morte.



Ricard Morgan é conhecido pelas suas histórias originais, bastante futuristas e com sociedades baseadas em conceitos que nos arrepiam. Aqui Morgan não foge à regra e cria um mundo baseado no extremo a que ganância, globalização e influências podem chegar. Tudo com o objetivo de se ter mais dinheiro. Agarrando este conceito, o autor explora o lado negro da sociedade e das corporações que a sustentam.

O livro começa com um ritmo morno e durante algum tempo não percebi para onde o autor me estava a tentar levar. A introdução do conceito é feita com calma e deixando algumas perguntas sem resposta. A partir de meio do livro nota-se que o autor começa a acelerar, e se por um lado o livro perde porque o mundo nunca é totalmente sustentado, por outro ganha na intensidade. Com isto existe sempre a sensação de que o autor poderia ter explicado melhor este mundo que criou, mas por outro lado tal levaria a que o livro se tornasse demasiado lento.

O enredo é inteligente, encaixando bastante bem no mundo criado pelo autor, mesmo existindo momentos em que sentimos um forçar de certos diálogos para quer certas perguntas não sejam feitas naquele momento para aumentar as dúvidas.

Com o ritmo a aumentar e as personagens a começarem a revelar-se, os motivos de cada personagem são um dos trunfos do livro, misturando objetivos pessoais e crítica social bastante forte. O resultado final é um livro que nas últimas páginas surpreende com vária revelações, mas que se tornam bastante coerentes com todas as pistas que o autor deixou durante todo o livro.

De forma global, o autor tem aqui uma história bem pensada e um mundo com uma ideia base muito bem conseguida. O facto de o livro ser bastante intenso retira espaço a algumas explicações que gostava de ter tido e devido à sua forte e direta crítica social, talvez não seja um livro para qualquer leitor. No entanto, gostei bastante desta leitura, principalmente pela sua originalidade e pela forma como explora a mente humana, as suas virtudes e defeitos. Uma leitura muito boa para quem gostar do género e do tipo de história.

 Luís Pinto

 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

O DUPLO


Autor: Fiodor Dostoievski






Sinopse: «O desconhecido estava sentado à sua frente, também de sobretudo e chapéu, na sua cama, sorria ligeiramente, e, franzindo um pouco os olhos, acenou-lhe amigavelmente com a cabeça. O senhor Goliádkin queria gritar, mas não pôde — protestar de alguma maneira, mas não lhe chegavam as forças. Tinha os cabelos em pé e sentou-se no seu lugar, insensível de horror. E de resto havia razão para isso. O senhor Goliádkin reconheceu completamente o seu amigo noturno. O seu amigo noturno não era outro senão ele próprio — o próprio senhor Goliádkin, outro senhor Goliádkin, mas exatamente como ele — numa palavra, aquilo a que se chama o seu duplo em todos os aspetos…»



Este é um dos mais famosos livros de Dostoievski e também um dos mais fáceis de ler, principalmente por ser mais pequeno do que a maioria dos grandes livros do autor. O Duplo é um livro original, estranho em alguns momentos, e que é mais do que uma história que acaba por nem ser o grande foco do livro. 

O grande foco da narrativa é a sua mensagem e a sua crítica. Ao explorar a relação entre dois homens iguais, a busca de um pelo outro, entre outros acontecimentos, o autor explora a fragilidade humana como poucos, principalmente pela enorme crítica social que faz ao aprofundar os nossos receios sobre como as pessoas olham para nós ou de como queremos ser vistos. O quanto o orgulho ou vergonha nos moldam, o quanto a sociedade nos transforma em pessoas diferentes e como temos de nos adaptar ao que nos rodeia.

Com uma escrita forte e direta, o autor explora ainda a forma como nos vemos a nós próprios, sempre com um olhar atento ao que a sociedade aceita ou não. O enredo desenrola-se de forma peculiar mas sempre com várias questões a serem levantadas mesmo que de forma indireta, levando a que o leitor se veja obrigado a questionar muito do que vai lendo, tirando as suas próprias conclusões.

Não existe muito mais que possa falar sobre este grande clássico sem revelar alguns momentos da história. O que temos aqui é a fase inicial de um dos melhores escritores de sempre. Um livro de grande qualidade que poderá não agradar a todos os leitores, mas que apresenta uma qualidade inegável e que será apreciado de forma diferente, dependendo da nossa idade e experiências reais. Um pequeno grande livro.

Luís Pinto

sexta-feira, 16 de junho de 2017

A RAINHA SUBJUGADA


Autor: Philippa Gregory





Sinopse: Intriga, ambição, poder, amor e história, com uma pesquisa rigorosa e contada de forma soberba sobre Catarina Parr.
A última e sexta mulher sobrevivente de Henrique VIII. Uma mulher forte, intelectual, culta e de uma beleza cativadora. 






Poucos, ou talvez nenhum autor no mundo, conseguem ter tanto sucesso no género de romances históricos quanto Philippa Gregory. Quase sempre focados em personagens principais femininas, a autor volta aqui a explorar de forma convincente as mentes de homens e mulheres na era dos Tudors, com grande destaque, uma vez mais, para Henrique VIII.

Numa narrativa de ritmo equilibrado, a autora aprofunda os temas do costume: religião, crenças, construções sociais e enredos políticos, onde uns jogam por poder, outros pela sobrevivência, e quase todos por um pouco mais de influência. Tudo isto misturado em bons diálogos que muitas vees querem dizer mais do que foi dito.

Cheio de intriga, como sempre, estamos perante uma personagem principal que me surpreendeu em alguns momentos, principalmente na forma como lidou com vários personagens e os encaminhou pelo seu plano, criando ligações que seria necessários no futuro do país e também da sua própria sobrevivência. A autora explora a mente desta jovem e facilmente sentimos simpatia pela sua situação numa época em que as mulheres muito pouco peso e influência conseguiam exercer nos jogos políticos ou religiosos.

Tal como nos habitou, Gregory oferece mais um bom trabalho de investigação, não só de personagens, mas também na forma como mistura ficção e realidade e nos descreve os cenários e ambientes que facilmente nos ajudam a viajar até esta época.

Quem goste desta autora tem aqui mais um bom livro. Não está entre os melhores de Philippa Gregory, mas tem a qualidade que a autora nos costuma oferecer. Se gostam da autora ou do género, será certamente uma boa leitura, principalmente para o público feminino.

Luís Pinto

quarta-feira, 14 de junho de 2017

OS SEGREDOS DO CLUBE BILDERBERG


Autor: Vito Bruschini




Sinopse: Os segredos do Clube Bilderberg é um thriller fascinante, baseado em factos reais, sobre um grupo secreto responsável por guerras, pela ruína de vários países e pela fome de inúmeras populações. Tão perigosamente verosímil que factos e ficção se confundem nesta intriga sobre os poderosos que mandam no nosso mundo.
O Clube Bilderberg é constituído por cerca de 130 membros que há 60 anos mexem os cordelinhos da política e da economia mundial: são proprietários de bancos, de multinacionais, primeiros-ministros, chefes de Estado e editores dos principais jornais. Nas últimas décadas, o grupo manipulou várias nações para se apoderar do seu petróleo, vendeu armamento a países em guerra e revolucionou a agricultura, levando à fome muitos países em vias de desenvolvimento.
Que mais poderá acontecer às mãos deste grupo secreto?



Sendo este um autor famoso pelos seus thrillers intensos e com um bom ritmo, esta leitura foi exatamente o que esperava. O tema Bilderberg é sempre uma boa fonte de especulações e e teorias da conspiração, pois junta dois fatores muito importantes: um grupo com grande secretismo e populado por homens de grande poder e influência.

Apesar de muitos estar documentado, exite sempre espaço para fazer certas ligações que acabam por ser a base deste livro. Agarrando muitas das teorias já exploradas sobre este grupo, o autor cria um thriller intenso enquanto mistura realidade e ficção. A trama é inteligente, principalmente na forma como nos é dada, com as revelações nos momentos certos para que o leitor continue a ler sem parar, principalmente pela forma como aborda as atuais guerras económicas que são capazes de vergar nações inteiras.

O enredo está bem pensado, apesar de em alguns momentos ser demasiado forçado, levando a que não sejam feitas as perguntas certas nos momentos certos, e com isso a dúvida prolonga-se, juntamente com a vontade de ler. Claro que os diálogos são quase todos feitos para esse propósito, por vezes não sendo totalmente coerentes, mas sempre preparados para nos levar a ler mais uma página.

A forma como acaba está bem pensada e é consistente com tudo o que o livro nos foi dando. O resultado final é um livro que se lê bastante rápido, principalmente se gostarem do género. Em nenhum momento é uma obra prima, mas a cada página está feito para nos agarrar, entreter e levar-nos a duvidar e questionar o tudo o que este grupo de pessoas poderá ter decidido e originado nos últimos anos. Se este tema e este género são o que apreciam, então está aqui uma interessante leitura de verão que podia ter sido mais, mas que consegue entreter bastante bem.

Luís Pinto



quarta-feira, 24 de maio de 2017

O CORAÇÃO DE SIMON CONTRA O MUNDO


Autor: Becky Albertilli

Título original: Simon vs. the Homo Sapiens Agenda





Sinopse: Simon Spier tem 16 anos e os únicos momentos em que se sente ele próprio são vividos atrás do computador.
Quando Simon se esquece de desligar a sessão no computador da escola e os seus emails pessoais ficam expostos a um dos colegas, este ameaça revelar os seus segredos diante de toda a escola.
Simon vê-se, assim, obrigado a enfrentar as suas emoções e a assumir quem verdadeiramente é perante o mundo inteiro. 



Este é daqueles livros que não sei explicar porque quis ler. Quando vi a capa e li a sinopse, houve algo que me despertou a atenção. Tendo em conta que já analisei aqui no blog cerca de mil livros, a verdade é que já não é qualquer livro que me surpreende, que me marca enquanto leitor e enquanto ser humano. Este é um desses livros, que consegue ser mais do que palavras escritas. Consegue ser mais do que a criação de uma pessoa, consegue ser mais do que a visão de um autor. Este é um dos livros do ano!

Li este livro sem saber nada sobre ele, apenas lera a sinopse, e ainda bem. As surpresas são mais importantes nesta leitura e tentarei, não sei se com sucesso, explorar aqui alguns temas do livro sem revelar nada.

Vivemos numa sociedade em transformação constante. Queremos cada vez mais direitos, mas não queremos mais deveres. Aliás, queremos menos deveres. Queremos ter menos deveres para com a sociedade, queremos ter menos deveres para com a nossa família, para com a educação dos nossos filhos. Queremos menos de tudo o que possa dar trabalho, porque assim temos mais tempo para todos os estímulos que recebemos a cada instante, pelas redes sociais, pela televisão, pela internet... Mas queremos mais direitos. Vivemos numa sociedade que atualmente se sente ofendida com tudo, esquecendo que existem problemas muito piores. Fome, pobreza, doenças. 

Simon é um rapaz, em teoria igual a todos os outros, mas a verdade é que somos todos diferentes. Simon é apenas mais uma criança que tem acesso a quase tudo. Eu, quando tinha 16 anos, a internet estava a começar a aparecer de forma global, o acesso era limitado, havia ainda muito para se descobrir. Agora tudo é dado de forma instantânea. Toda a gente quer opinar sobre tudo e as redes sociais tornaram-se num mistura de momentos de ódio ou momentos de felicidade, sendo que muitos desses momentos de felicidade são apenas para as aparências.

Tudo isto que escrevi está neste livro, de forma indireta, sustentando uma história dura, marcante, que angustia, não pelo que acontece, mas por sabermos que é verdade. Este livro é o espelho da nossa sociedade, de partes que não queremos ver. Esquecemo-nos que um rapaz de 16 anos não é assim tão exigente, apenas quer ser compreendido, integrado e feliz. E por vezes tornamos difícil o que deveria ser tão fácil.

Este não é um livro qualquer. Não é um livro perfeito, tem falhas e poderia ser melhor em vários momentos, mas desafio um leitor a lê-lo e a não ficar marcado pela sua história. Desafio um leitor a esquecê-lo. A história, bem pensada, apesar de ter alguns momentos mais forçados para provocar a angústia ou a revolta do leitor, está feita para criarmos uma ligação com o rapaz. O resultado é um livro com um rapaz sobre o qual nos preocupamos. Mas, o mais importante não é a sua história, que agradará a uns e não a outros. O importante é a sua mensagem, é a visão da mente de um rapaz que tem de enfrentar medos, preconceitos e que talvez sozinho não consiga sair vencedor. Tudo o resto que possa dizer é insignificante se ainda não vos tiver convencido a ler este livro. Mas, se com esta mistura de palavras vos convenci, então comprem o livro e preparem-se para uma viagem diferente, e que não esquecerão.

Luís Pinto

   

terça-feira, 23 de maio de 2017

A HISTÓRIA SECRETA DO GOLDMAN SACHS


Autor: Steven G. Mandis

Título original: What Happened to Goldman Sachs





Sinopse: A História Secreta do Goldman Sachs explica os processos que levaram esta instituição a alterar a sua cultura de colocar «os clientes em primeiro lugar», à medida que deixava de ser uma pequena empresa para se tornar numa organização de grandes dimensões cotada na bolsa. Inspirado na sua experiência em primeira mão como executivo desta firma, Mandis avalia aquilo que fez o Goldman Sachs ser tão bem-sucedido. Ao combinar uma análise intuitiva com uma narrativa envolvente, o autor escreveu uma história bem informada, que oferece perspetivas inestimáveis sobre a história do banco e um esboço biográfico dos seus líderes de topo. 




Mal coloquei os olhos neste livro, tive uma enorme vontade de o ler, afinal de contas, trata-se de um livro que tenta explicar a evolução do Goldman Sachs, aquele que é, provavelmente, o banco mais poderoso do mundo. O que mudou? Qual a razão do seu sucesso? O que está por detrás da imagem que esta empresa transmite?

Vamos começar pelo óbvio: este é um dos melhores livro que já li dentro da área financeira. O autor é direto, acutilante e sem problemas em explorar as estratégias do banco e quais os homens por detrás das decisões mais importantes. Conhecedor do interior da empresa, Mandis aprofunda o perfil dos grandes nomes dentro do banco, quais os seus objetivos, quais as suas mentalidades e como estas pessoas se moldaram mas também moldaram a empresa, tornando-a numa organização com tamanha influência que é difícil de compreender no seu todo.

O autor tem como grande trunfo a capacidade de ir explicando vários conceitos do mundo financeiro que um leitor fora da área poderá não compreender. Assim o leitor raramente se sentirá deslocado, até porque o livro dá a informação certa nos momentos certos, mesmo que para isso tenha de baixar ligeiramente o ritmo para explicar de forma mais fácil algumas normais ações financeiras para que o leitor compreenda a extensão de algumas decisões exploradas no livro. O resultado final é um livro que facilmente se compreende e que consegue chegar a qualquer leitor que esteja atento, sendo interessante ver o impacto político de muito que vamos lendo.

Bem estruturado, com grande análise e deixando o leitor perceber o impacto global desta organização, o autor tem aqui um grande livro. A forma como vamos vendo a evolução do banco, as mudanças de pessoas e como algumas decisões tiveram impacto não só no mundo financeiro, mas em todo o mundo por acréscimo, leva-me a recomendar este livro. Já tinha lido sobre este banco, outros livros também interessantes, mas nenhum foi como este. Equilibrado entre o académico e a investigação, este é um dos melhores livros que já li sobre o mundo financeiro, e que será obrigatório para todos os que queiram saber mais sobre este tema.

Luís Pinto

segunda-feira, 22 de maio de 2017

A ILHA DO DOUTOR MOREAU


Autor: H. G. Wells

Título original: The Island of Dr. Moreau







Este é um verdadeiro clássico com mais de 100 anos. Um dos mais famosos livros do genial H. G. Wells, e que claramente merece ser lido.

Como talvez já saibam, este livro é sobre um homem que numa ilha isolada faz as suas experiências em animais, de forma bastante macabra. O personagem principal, um homem que é deixado na ilha e que aos poucos começa a conhecer este cientista, ficando abismado com os motivos que levam a tais experiências.

Falar de um livro tão marcante quanto este nunca é fácil, muito menos tentar analisá-lo. Wells consegue, de forma sublime, explorar a obsessão humana pela perfeição, pela criação de algo perfeito que nos torne iguais a Deus. Aliás, a elevação do humano a algo divino e capaz de criação perfeita é um conceito muita vezes explorado, principalmente por alguns filósofos, crentes ou não, mas poucos escritores conseguiram explorar o problema de forma tão marcante quanto Wells, principalmente porque o caminho percorrido é negro e explora até onde pode ir a mente humana, principalmente na capacidade que tem em criar dor a outro ser vivo.

Posto isto, o autor avançar num ritmo constante, cheio de suspense e deixando o leitor desconfortável, muito graças à personalidade de Moreau e à forma como ele vê os seus objetivos e os seus sucessos, sem questionar como trata os seus inferiores. Em muitos momentos Wells explora como pouco a ideia de que alguém que pratica o mal achar que, de alguma forma, está a praticar o bem, quer seja para ele, ou para todos. Moreau enquadra-se nesse cenário, tornando-se num dos personagens mais marcantes da literatura.

Capaz de nos surpreender, mesmo tendo em conta que o final é algo previsível se estivermos atentos, a verdade é que muito poucos livros conseguiram explorar estes temas de forma tão radical. Se fizesse um top 100 dos livros que considero obrigatórios, certamente este estaria lá, como uma verdadeira análise de até onde pode ir a mente humana nas buscas por mais poder, auto satisfação ou sensação de divino. Por tudo isto, e muito mais, este é considerado um dos melhores livros de sempre, e que ainda hoje, após mais de 100 anos a "envelhecer", continua a ser surpreendente e atual.

Luís Pinto

sexta-feira, 19 de maio de 2017

NOVE PRÍNCIPES DE ÂMBAR


Autor: Roger Zelazny

Título original: Nine Princes in Amber




Sinopse: Âmbar é o único mundo verdadeiramente real. Todos os outros mundos, incluindo a Terra, não passam de sombras que de certa forma o imitam.
Exilado na Terra desde há séculos, o príncipe Corwin acorda na cama de um hospital, sem memórias da sua existência passada. Gradualmente, descobre a verdade e é forçado a regressar ao mundo paralelo de Âmbar onde descobre que o rei Oberon, seu pai, é dado como desaparecido. Para ganhar o seu direito à sucessão do trono, Corwin terá de enfrentar realidades impossíveis forjadas por assassinos demoníacos, horrores inomináveis e os exércitos e fúria dos seus irmãos, os príncipes de Âmbar.



Esta é uma das mais famosas sagas de fantasia das últimas décadas e ao fim de ler o primeiro livro, percebe-se porquê.

Roger Zelazny, autor vencedor de vários prestigiantes prémios da literatura fantástica tem aqui uma saga sustentada numa ideia bastante original. Aliás, é esse o grande trunfo do livro: a sua originalidade. Com uma escrita direta e simples, o autor imprime um bom ritmo, nunca sendo uma história demasiado densa ou pesada, levando a que o público alvo seja mais alargado, desde o já experiente leitor de fantasia até aos leitores que estão agora a começar a ler este género e que têm aqui uma boa escolha.

A ligação ao personagem principal é quase imediata, mesmo com todos os seus defeitos, porque existem certos detalhes com os quais qualquer pessoa se pode identificar ou simpatizar. Aos poucos o livro começa a desvendar este original mundo e a consistência está muito bem conseguida, e mesmo existindo alguns momentos mais forçados, principalmente porque algumas questões não são feitas nos momentos certos para criar maior suspense, a verdade é que o livro consegue criar um caminho interessante e bastante viciante.

A ligação com os personagens é outro ponto a favor, muitos graças à diversidade que apresentam. Pelo meio todo um mundo mágico com regras bem sustentadas e que ajudam a criar teorias sobre o que poderá acontecer nos livros seguintes. Sendo o primeiro livro de uma saga com dez livros e que demorou mais de vinte anos a ser publicada (desde o primeiro até ao último passaram-se 21 anos) é fácil perceber que ainda há muito para aprender com este universo. A base criada por Zelazny é de tal forma vasta que as possibilidades de expansão deste universo são enormes.

Não existe muito a dizer nesta fase inicial a não ser que gostei bastante desta leitura. Nota-se que é um livro "com uma certa idade" (o livro foi publicado em 1970), e pode faltar alguma espetacularidade que a atual fantasia por vezes tenta criar (umas vezes bem, outras vezes mal), mas em muitos aspetos continua a ser uma história atual, com pontos que se focam na "humanidade" das personagens, e que estarão sempre atuais. Pelo meio um interessante jogo político e de interesses que o autor certamente irá aprofundar nos livros seguintes.

O que temos aqui é o início de uma das sagas mais famosas do seu género e que, segundo os fãs, conseguiu manter a consistência de qualidade até ao fim. É verdade que são dez livros, mas acredito que vão valer a pena, principalmente para quem queira começar a ler mais fantasia. Estou bastante curioso para ler os próximos livros.

Luís Pinto


segunda-feira, 15 de maio de 2017

O SEGREDO DE VESÁLIO


Autor: Jordi Llobregat

Título original: El secreto de Vesalio





Sinopse: Barcelona de 1888, várias raparigas aparecem mortas… segredos, traições e paixões.
Nada é o que parece e ninguém está a salvo na Barcelona do fim do século XIX.
Um romance magistral e poderoso, escrito pelo autor Jordi Llobregat com o mesmo imaginário gótico e neo-realista dos romances de Carlos Ruiz Zafón.




Houve alguma coisa que me despertou a atenção neste livro. Talvez a capa, talvez o nome. Não sei bem, mas decidi lê-lo e foi uma agradável surpresa.

Com um estilo muito próprio o autor cria um ambiente bastante sombrio, levando o leitor a sentir a cada momento uma sensação quase angustiante de que algo de mal pode acontecer a qualquer momento. É esse o maior trunfo do livro, a forma como agarra o leitor num nevoeiro cheio de suspense e muito mistério. 

Com um ritmo quase sempre elevado, é fácil ler o livro sem parar, muito graças aos detalhes que o autor vai dando nos momentos certos e que ao responderem a algumas perguntas, criam outras, permanecendo sempre a dúvida. Gostei das personagens criadas, principalmente dos motivos que algumas têm para avançar neste enredo, com uma estrutura passada bem criada apesar de não totalmente explorada devido ao ritmo do livro.

Este é um autor que sabe agarrar o leitor com novas pistas nos momentos certos. É verdade que existiram alguns momentos mais forçados e consegui perceber qual seria o final, mas em nenhum momento o livro deixou de me agarrar totalmente, sendo uma das leituras mais viciantes dos últimos tempos. 

Com personagens e diálogos inteligentes, o autor cria um ambiente muito bom e que me fez viajar até Barcelona no meu imaginário. É fácil perceber porque se compara o seu estilo a Zafón, um mestre, e o porquê de este livro ter tido o sucesso internacional que teve no ano passado. Se querem uma leitura cheia de suspense, vale a pena ler este livro.

Luís Pinto

sexta-feira, 12 de maio de 2017

AS GRANDES SOCIEDADES SECRETAS


Autor: David V. Barrett

Título original: A Brief History of Secret Societies





Sinopse: Cátaros, Templários, Maçonaria, KKK, Máfia. Ao longo da História, sempre houve associações restritas que influenciaram o destino da Humanidade. Esta obra revela qual a sua origem, como se formaram e desenvolveram.
Como ganharam tanto poder?
Quem foram as principais figuras?
Como são escolhidos os eleitos?
Eis uma obra abrangente e reveladora, baseada numa pesquisa rigorosa, dos grupos secretos mais poderosos, da Antiguidade aos dias de hoje. O autor remonta às origens da Humanidade, com os egípcios e os gregos, avançando depois até aos dias de hoje.



Sendo um tema que aprecio e que já li bastante, decidi ler este livro de David Barrett, um dos livros mais famosos do género. Conhecido pelo rigor académico e imparcialidade, este livro conseguiu corresponder às minhas expectativas, principalmente pela sua estrutura que me pareceu bastante correta para que qualquer leitor, mesmo sem conhecimentos do assunto, consiga perceber a evolução e como certas influências foram moldando as sociedades secretas ao longo dos tempos.

Apesar de não ser um livro muito grande, o autor consegue colocar aqui o essencial sobre o tema. Tendo já lido alguns livros em inglês sobre o assunto, muita informação já conhecia, mas a verdade é que aprendi bastante, principalmente porque o autor consegue ser imparcial nos momentos mais controversos e não entra em grandes suposições, deixando o leitor retirar algumas conclusões e teorias num tema que pede ao leitor que questione e encontre novas ligações coerentes.

Acima de tudo este livro vale pelo bom trabalho de investigação e estrutura. A informação é dada nos momentos certos, sendo fácil perceber as evoluções e muito dos porquês para os caminhos que as sociedades tomaram ou até o porquê de terem sido criadas. Globalmente este é um dos melhores livros que li sobre o assunto. Não é dos mais exaustivos ou académicos, mas consegue ser um bom ponto de partida para quem queira ler sobre o assunto. Se ficaram curiosos com o tema, é um bom livro a ter na prateleira e que certamente vos irá viciar. Gostei bastante!

Luís Pinto

quarta-feira, 10 de maio de 2017

O ANO DA DANÇARINA


Autor: Carla M. Soares




Sinopse: No ano de 1918, o jovem médico tenente Nicolau Lopes Moreira regressa da Frente francesa, ferido e traumatizado, para o seio de uma família burguesa de posses e para um país marcado pelo esforço de guerra, pela eleição de Sidónio Pais e pela pobreza e agitação social e política.
No regresso, Nicolau vê-se confrontado com uma antiga relação com Rosalinda, dançarina e amante de senhores endinheirados, e com as peculiaridades de uma família progressista.
Enquanto a Guerra se precipita para o fim e, em Lisboa, se vive a aflição da epidemia e da difícil situação política, a família experimenta o medo e perda, e Nicolau conhece um amor inesperado enquanto trava as suas próprias batalhas contra a doença e os próprios fantasmas.




Este é o segundo livro que leio de Carla M. Soares, e é claramente o melhor. Mas vamos com calma. Em primeiro lugar devo enaltecer o trabalho de investigação da autora, que aqui entrega um pacote de informação muito interessante e que torna a história coerente. É verdade que o ritmo do livro nunca é muito elevado, mas a autora consegue dar as informações certas no momento certo, nunca tornando o livro cansativo por informação a mais ou que pareça forçada.

A autora agarra um tema e uma época sobre a qual já li bastante e que mesmo assim me surpreendeu pela intensidade como descreveu alguns momentos. Sendo uma época negra com o instinto de sobrevivência no máximo a cada instante, as emoções de dor e revolta estão muito bem exploradas pela autora, sendo esse um dos grandes trunfos do livro: a forma como explora as emoções das personagens.

A história pareceu-me muito bem enquadrada na época, principalmente na forma como as mentalidades de algumas personagens estão exploradas. Sendo um livro sobre uma época que já li bastante, não existiu uma sensação de enriquecimento de conhecimento, mas é notório o quando a autora se esforça, e com sucesso, em oferecer o conhecimento necessário para que o leitor perceba alguns quadros sociais e políticos. Dificilmente um leitor se sentirá deslocado ou sem ter as noções necessárias ao que acontece à volta das personagens.

Carla M. Soares tem aqui um livro muito bem conseguido. Naturalmente, por ser numa época mais negra, não será um livro para qualquer leitor, mas aqueles que apreciem o género terão aqui uma boa leitura. É verdade que tem alguns momento óbvios ou que parecem algo forçados, mas num todo, o livro consegue ser bastante coerente e marcante, ajudando o facto de ser muito focado em personagens portuguesas e com as quais criamos rapidamente uma boa ligação. Se apreciam o género, então têm aqui uma boa leitura.

Luís Pinto

 

terça-feira, 9 de maio de 2017

VENTO DE ESPANHA


Autor: João Pedro Marques




Sinopse: Custódio é um camponês beirão que decide vir para Lisboa estudar. Lurdes, uma lisboeta da Mouraria que sempre conseguiu recompor-se dos duros golpes da vida. Quando o caminho dos dois se cruza, a vida de ambos mudará para sempre. A sua história inicia-se em Portugal e estende-se, depois, a uma Espanha mergulhada na Guerra Civil. É aí que Custódio e Lurdes vão entrelaçar os seus destinos com três outros personagens: o violento Zanelli, o tenente fascista para quem o brado ¡Viva la Muerte! é um lema de vida; a corajosa Maria del Carmen, uma madrilena das classes altas que se guia por princípios de humanidade num tempo em que a moderação desapareceu; e o sagaz Vorobiov, coronel soviético profundamente desiludido com os rumos da revolução bolchevique.



Este é o primeiro livro que leio deste famoso autor e foi com alguma curiosidade que viajei por estas páginas até uma época negra em que o autor explora um momento bastante complicado em Espanha. Com uma base focada na guerra civil de Espanha de um ponto de vista mais social, o autor cria uma interessante história que demora a arrancar mas que consegue cativar com personagens coerentes e que me pareceram bastante realistas. A arte do autor está em criar a estrutura necessária a cada personagens, explorando mentalidades, objetivos e traumas passados que nos ajudam a compreender muitas das decisões que as mesmas irão tomar. 

O ritmo é suave, nunca acelerando demasiado, com a narrativa sempre focada em explorar o que é necessário para que o leitor sinta o peso daqueles momentos. Aos poucos torna-se num livro forte, com grande crítica social e política, e que nem sempre é imparcial, muito graças à visão dos seus personagens. Aliás, esse é um ponto a ter em conta, porque este é um romance histórico e não um livro académico. O autor cria um romance parcial, tendencioso em vários momentos, mas que são a visão dos personagens que seguimos. 

Gostei da forma como o autor avançou na história, com uma narrativa bem montada apesar de as decisões finais de algumas personagens serem algo óbvias. Não é um romance feito para nos surpreender, mas sim para nos marcar com uma visão dura de uma época sangrenta. De um ponto de vista crítico, este é um bom livro, apesar de não conseguir marcar da mesma forma que algumas obras primas que exploraram a guerra espanhola, mas foi sempre uma boa leitura. Se gostam do autor, este será mais um livro que irão gostar e que vale a pena ler se gostarem do género e do tema principal.

Luís Pinto