quarta-feira, 24 de maio de 2017

O CORAÇÃO DE SIMON CONTRA O MUNDO


Autor: Becky Albertilli

Título original: Simon vs. the Homo Sapiens Agenda





Sinopse: Simon Spier tem 16 anos e os únicos momentos em que se sente ele próprio são vividos atrás do computador.
Quando Simon se esquece de desligar a sessão no computador da escola e os seus emails pessoais ficam expostos a um dos colegas, este ameaça revelar os seus segredos diante de toda a escola.
Simon vê-se, assim, obrigado a enfrentar as suas emoções e a assumir quem verdadeiramente é perante o mundo inteiro. 



Este é daqueles livros que não sei explicar porque quis ler. Quando vi a capa e li a sinopse, houve algo que me despertou a atenção. Tendo em conta que já analisei aqui no blog cerca de mil livros, a verdade é que já não é qualquer livro que me surpreende, que me marca enquanto leitor e enquanto ser humano. Este é um desses livros, que consegue ser mais do que palavras escritas. Consegue ser mais do que a criação de uma pessoa, consegue ser mais do que a visão de um autor. Este é um dos livros do ano!

Li este livro sem saber nada sobre ele, apenas lera a sinopse, e ainda bem. As surpresas são mais importantes nesta leitura e tentarei, não sei se com sucesso, explorar aqui alguns temas do livro sem revelar nada.

Vivemos numa sociedade em transformação constante. Queremos cada vez mais direitos, mas não queremos mais deveres. Aliás, queremos menos deveres. Queremos ter menos deveres para com a sociedade, queremos ter menos deveres para com a nossa família, para com a educação dos nossos filhos. Queremos menos de tudo o que possa dar trabalho, porque assim temos mais tempo para todos os estímulos que recebemos a cada instante, pelas redes sociais, pela televisão, pela internet... Mas queremos mais direitos. Vivemos numa sociedade que atualmente se sente ofendida com tudo, esquecendo que existem problemas muito piores. Fome, pobreza, doenças. 

Simon é um rapaz, em teoria igual a todos os outros, mas a verdade é que somos todos diferentes. Simon é apenas mais uma criança que tem acesso a quase tudo. Eu, quando tinha 16 anos, a internet estava a começar a aparecer de forma global, o acesso era limitado, havia ainda muito para se descobrir. Agora tudo é dado de forma instantânea. Toda a gente quer opinar sobre tudo e as redes sociais tornaram-se num mistura de momentos de ódio ou momentos de felicidade, sendo que muitos desses momentos de felicidade são apenas para as aparências.

Tudo isto que escrevi está neste livro, de forma indireta, sustentando uma história dura, marcante, que angustia, não pelo que acontece, mas por sabermos que é verdade. Este livro é o espelho da nossa sociedade, de partes que não queremos ver. Esquecemo-nos que um rapaz de 16 anos não é assim tão exigente, apenas quer ser compreendido, integrado e feliz. E por vezes tornamos difícil o que deveria ser tão fácil.

Este não é um livro qualquer. Não é um livro perfeito, tem falhas e poderia ser melhor em vários momentos, mas desafio um leitor a lê-lo e a não ficar marcado pela sua história. Desafio um leitor a esquecê-lo. A história, bem pensada, apesar de ter alguns momentos mais forçados para provocar a angústia ou a revolta do leitor, está feita para criarmos uma ligação com o rapaz. O resultado é um livro com um rapaz sobre o qual nos preocupamos. Mas, o mais importante não é a sua história, que agradará a uns e não a outros. O importante é a sua mensagem, é a visão da mente de um rapaz que tem de enfrentar medos, preconceitos e que talvez sozinho não consiga sair vencedor. Tudo o resto que possa dizer é insignificante se ainda não vos tiver convencido a ler este livro. Mas, se com esta mistura de palavras vos convenci, então comprem o livro e preparem-se para uma viagem diferente, e que não esquecerão.

Luís Pinto

   

terça-feira, 23 de maio de 2017

A HISTÓRIA SECRETA DO GOLDMAN SACHS


Autor: Steven G. Mandis

Título original: What Happened to Goldman Sachs





Sinopse: A História Secreta do Goldman Sachs explica os processos que levaram esta instituição a alterar a sua cultura de colocar «os clientes em primeiro lugar», à medida que deixava de ser uma pequena empresa para se tornar numa organização de grandes dimensões cotada na bolsa. Inspirado na sua experiência em primeira mão como executivo desta firma, Mandis avalia aquilo que fez o Goldman Sachs ser tão bem-sucedido. Ao combinar uma análise intuitiva com uma narrativa envolvente, o autor escreveu uma história bem informada, que oferece perspetivas inestimáveis sobre a história do banco e um esboço biográfico dos seus líderes de topo. 




Mal coloquei os olhos neste livro, tive uma enorme vontade de o ler, afinal de contas, trata-se de um livro que tenta explicar a evolução do Goldman Sachs, aquele que é, provavelmente, o banco mais poderoso do mundo. O que mudou? Qual a razão do seu sucesso? O que está por detrás da imagem que esta empresa transmite?

Vamos começar pelo óbvio: este é um dos melhores livro que já li dentro da área financeira. O autor é direto, acutilante e sem problemas em explorar as estratégias do banco e quais os homens por detrás das decisões mais importantes. Conhecedor do interior da empresa, Mandis aprofunda o perfil dos grandes nomes dentro do banco, quais os seus objetivos, quais as suas mentalidades e como estas pessoas se moldaram mas também moldaram a empresa, tornando-a numa organização com tamanha influência que é difícil de compreender no seu todo.

O autor tem como grande trunfo a capacidade de ir explicando vários conceitos do mundo financeiro que um leitor fora da área poderá não compreender. Assim o leitor raramente se sentirá deslocado, até porque o livro dá a informação certa nos momentos certos, mesmo que para isso tenha de baixar ligeiramente o ritmo para explicar de forma mais fácil algumas normais ações financeiras para que o leitor compreenda a extensão de algumas decisões exploradas no livro. O resultado final é um livro que facilmente se compreende e que consegue chegar a qualquer leitor que esteja atento, sendo interessante ver o impacto político de muito que vamos lendo.

Bem estruturado, com grande análise e deixando o leitor perceber o impacto global desta organização, o autor tem aqui um grande livro. A forma como vamos vendo a evolução do banco, as mudanças de pessoas e como algumas decisões tiveram impacto não só no mundo financeiro, mas em todo o mundo por acréscimo, leva-me a recomendar este livro. Já tinha lido sobre este banco, outros livros também interessantes, mas nenhum foi como este. Equilibrado entre o académico e a investigação, este é um dos melhores livros que já li sobre o mundo financeiro, e que será obrigatório para todos os que queiram saber mais sobre este tema.

Luís Pinto

segunda-feira, 22 de maio de 2017

A ILHA DO DOUTOR MOREAU


Autor: H. G. Wells

Título original: The Island of Dr. Moreau







Este é um verdadeiro clássico com mais de 100 anos. Um dos mais famosos livros do genial H. G. Wells, e que claramente merece ser lido.

Como talvez já saibam, este livro é sobre um homem que numa ilha isolada faz as suas experiências em animais, de forma bastante macabra. O personagem principal, um homem que é deixado na ilha e que aos poucos começa a conhecer este cientista, ficando abismado com os motivos que levam a tais experiências.

Falar de um livro tão marcante quanto este nunca é fácil, muito menos tentar analisá-lo. Wells consegue, de forma sublime, explorar a obsessão humana pela perfeição, pela criação de algo perfeito que nos torne iguais a Deus. Aliás, a elevação do humano a algo divino e capaz de criação perfeita é um conceito muita vezes explorado, principalmente por alguns filósofos, crentes ou não, mas poucos escritores conseguiram explorar o problema de forma tão marcante quanto Wells, principalmente porque o caminho percorrido é negro e explora até onde pode ir a mente humana, principalmente na capacidade que tem em criar dor a outro ser vivo.

Posto isto, o autor avançar num ritmo constante, cheio de suspense e deixando o leitor desconfortável, muito graças à personalidade de Moreau e à forma como ele vê os seus objetivos e os seus sucessos, sem questionar como trata os seus inferiores. Em muitos momentos Wells explora como pouco a ideia de que alguém que pratica o mal achar que, de alguma forma, está a praticar o bem, quer seja para ele, ou para todos. Moreau enquadra-se nesse cenário, tornando-se num dos personagens mais marcantes da literatura.

Capaz de nos surpreender, mesmo tendo em conta que o final é algo previsível se estivermos atentos, a verdade é que muito poucos livros conseguiram explorar estes temas de forma tão radical. Se fizesse um top 100 dos livros que considero obrigatórios, certamente este estaria lá, como uma verdadeira análise de até onde pode ir a mente humana nas buscas por mais poder, auto satisfação ou sensação de divino. Por tudo isto, e muito mais, este é considerado um dos melhores livros de sempre, e que ainda hoje, após mais de 100 anos a "envelhecer", continua a ser surpreendente e atual.

Luís Pinto

sexta-feira, 19 de maio de 2017

NOVE PRÍNCIPES DE ÂMBAR


Autor: Roger Zelazny

Título original: Nine Princes in Amber




Sinopse: Âmbar é o único mundo verdadeiramente real. Todos os outros mundos, incluindo a Terra, não passam de sombras que de certa forma o imitam.
Exilado na Terra desde há séculos, o príncipe Corwin acorda na cama de um hospital, sem memórias da sua existência passada. Gradualmente, descobre a verdade e é forçado a regressar ao mundo paralelo de Âmbar onde descobre que o rei Oberon, seu pai, é dado como desaparecido. Para ganhar o seu direito à sucessão do trono, Corwin terá de enfrentar realidades impossíveis forjadas por assassinos demoníacos, horrores inomináveis e os exércitos e fúria dos seus irmãos, os príncipes de Âmbar.



Esta é uma das mais famosas sagas de fantasia das últimas décadas e ao fim de ler o primeiro livro, percebe-se porquê.

Roger Zelazny, autor vencedor de vários prestigiantes prémios da literatura fantástica tem aqui uma saga sustentada numa ideia bastante original. Aliás, é esse o grande trunfo do livro: a sua originalidade. Com uma escrita direta e simples, o autor imprime um bom ritmo, nunca sendo uma história demasiado densa ou pesada, levando a que o público alvo seja mais alargado, desde o já experiente leitor de fantasia até aos leitores que estão agora a começar a ler este género e que têm aqui uma boa escolha.

A ligação ao personagem principal é quase imediata, mesmo com todos os seus defeitos, porque existem certos detalhes com os quais qualquer pessoa se pode identificar ou simpatizar. Aos poucos o livro começa a desvendar este original mundo e a consistência está muito bem conseguida, e mesmo existindo alguns momentos mais forçados, principalmente porque algumas questões não são feitas nos momentos certos para criar maior suspense, a verdade é que o livro consegue criar um caminho interessante e bastante viciante.

A ligação com os personagens é outro ponto a favor, muitos graças à diversidade que apresentam. Pelo meio todo um mundo mágico com regras bem sustentadas e que ajudam a criar teorias sobre o que poderá acontecer nos livros seguintes. Sendo o primeiro livro de uma saga com dez livros e que demorou mais de vinte anos a ser publicada (desde o primeiro até ao último passaram-se 21 anos) é fácil perceber que ainda há muito para aprender com este universo. A base criada por Zelazny é de tal forma vasta que as possibilidades de expansão deste universo são enormes.

Não existe muito a dizer nesta fase inicial a não ser que gostei bastante desta leitura. Nota-se que é um livro "com uma certa idade" (o livro foi publicado em 1970), e pode faltar alguma espetacularidade que a atual fantasia por vezes tenta criar (umas vezes bem, outras vezes mal), mas em muitos aspetos continua a ser uma história atual, com pontos que se focam na "humanidade" das personagens, e que estarão sempre atuais. Pelo meio um interessante jogo político e de interesses que o autor certamente irá aprofundar nos livros seguintes.

O que temos aqui é o início de uma das sagas mais famosas do seu género e que, segundo os fãs, conseguiu manter a consistência de qualidade até ao fim. É verdade que são dez livros, mas acredito que vão valer a pena, principalmente para quem queira começar a ler mais fantasia. Estou bastante curioso para ler os próximos livros.

Luís Pinto


segunda-feira, 15 de maio de 2017

O SEGREDO DE VESÁLIO


Autor: Jordi Llobregat

Título original: El secreto de Vesalio





Sinopse: Barcelona de 1888, várias raparigas aparecem mortas… segredos, traições e paixões.
Nada é o que parece e ninguém está a salvo na Barcelona do fim do século XIX.
Um romance magistral e poderoso, escrito pelo autor Jordi Llobregat com o mesmo imaginário gótico e neo-realista dos romances de Carlos Ruiz Zafón.




Houve alguma coisa que me despertou a atenção neste livro. Talvez a capa, talvez o nome. Não sei bem, mas decidi lê-lo e foi uma agradável surpresa.

Com um estilo muito próprio o autor cria um ambiente bastante sombrio, levando o leitor a sentir a cada momento uma sensação quase angustiante de que algo de mal pode acontecer a qualquer momento. É esse o maior trunfo do livro, a forma como agarra o leitor num nevoeiro cheio de suspense e muito mistério. 

Com um ritmo quase sempre elevado, é fácil ler o livro sem parar, muito graças aos detalhes que o autor vai dando nos momentos certos e que ao responderem a algumas perguntas, criam outras, permanecendo sempre a dúvida. Gostei das personagens criadas, principalmente dos motivos que algumas têm para avançar neste enredo, com uma estrutura passada bem criada apesar de não totalmente explorada devido ao ritmo do livro.

Este é um autor que sabe agarrar o leitor com novas pistas nos momentos certos. É verdade que existiram alguns momentos mais forçados e consegui perceber qual seria o final, mas em nenhum momento o livro deixou de me agarrar totalmente, sendo uma das leituras mais viciantes dos últimos tempos. 

Com personagens e diálogos inteligentes, o autor cria um ambiente muito bom e que me fez viajar até Barcelona no meu imaginário. É fácil perceber porque se compara o seu estilo a Zafón, um mestre, e o porquê de este livro ter tido o sucesso internacional que teve no ano passado. Se querem uma leitura cheia de suspense, vale a pena ler este livro.

Luís Pinto

sexta-feira, 12 de maio de 2017

AS GRANDES SOCIEDADES SECRETAS


Autor: David V. Barrett

Título original: A Brief History of Secret Societies





Sinopse: Cátaros, Templários, Maçonaria, KKK, Máfia. Ao longo da História, sempre houve associações restritas que influenciaram o destino da Humanidade. Esta obra revela qual a sua origem, como se formaram e desenvolveram.
Como ganharam tanto poder?
Quem foram as principais figuras?
Como são escolhidos os eleitos?
Eis uma obra abrangente e reveladora, baseada numa pesquisa rigorosa, dos grupos secretos mais poderosos, da Antiguidade aos dias de hoje. O autor remonta às origens da Humanidade, com os egípcios e os gregos, avançando depois até aos dias de hoje.



Sendo um tema que aprecio e que já li bastante, decidi ler este livro de David Barrett, um dos livros mais famosos do género. Conhecido pelo rigor académico e imparcialidade, este livro conseguiu corresponder às minhas expectativas, principalmente pela sua estrutura que me pareceu bastante correta para que qualquer leitor, mesmo sem conhecimentos do assunto, consiga perceber a evolução e como certas influências foram moldando as sociedades secretas ao longo dos tempos.

Apesar de não ser um livro muito grande, o autor consegue colocar aqui o essencial sobre o tema. Tendo já lido alguns livros em inglês sobre o assunto, muita informação já conhecia, mas a verdade é que aprendi bastante, principalmente porque o autor consegue ser imparcial nos momentos mais controversos e não entra em grandes suposições, deixando o leitor retirar algumas conclusões e teorias num tema que pede ao leitor que questione e encontre novas ligações coerentes.

Acima de tudo este livro vale pelo bom trabalho de investigação e estrutura. A informação é dada nos momentos certos, sendo fácil perceber as evoluções e muito dos porquês para os caminhos que as sociedades tomaram ou até o porquê de terem sido criadas. Globalmente este é um dos melhores livros que li sobre o assunto. Não é dos mais exaustivos ou académicos, mas consegue ser um bom ponto de partida para quem queira ler sobre o assunto. Se ficaram curiosos com o tema, é um bom livro a ter na prateleira e que certamente vos irá viciar. Gostei bastante!

Luís Pinto

quarta-feira, 10 de maio de 2017

O ANO DA DANÇARINA


Autor: Carla M. Soares




Sinopse: No ano de 1918, o jovem médico tenente Nicolau Lopes Moreira regressa da Frente francesa, ferido e traumatizado, para o seio de uma família burguesa de posses e para um país marcado pelo esforço de guerra, pela eleição de Sidónio Pais e pela pobreza e agitação social e política.
No regresso, Nicolau vê-se confrontado com uma antiga relação com Rosalinda, dançarina e amante de senhores endinheirados, e com as peculiaridades de uma família progressista.
Enquanto a Guerra se precipita para o fim e, em Lisboa, se vive a aflição da epidemia e da difícil situação política, a família experimenta o medo e perda, e Nicolau conhece um amor inesperado enquanto trava as suas próprias batalhas contra a doença e os próprios fantasmas.




Este é o segundo livro que leio de Carla M. Soares, e é claramente o melhor. Mas vamos com calma. Em primeiro lugar devo enaltecer o trabalho de investigação da autora, que aqui entrega um pacote de informação muito interessante e que torna a história coerente. É verdade que o ritmo do livro nunca é muito elevado, mas a autora consegue dar as informações certas no momento certo, nunca tornando o livro cansativo por informação a mais ou que pareça forçada.

A autora agarra um tema e uma época sobre a qual já li bastante e que mesmo assim me surpreendeu pela intensidade como descreveu alguns momentos. Sendo uma época negra com o instinto de sobrevivência no máximo a cada instante, as emoções de dor e revolta estão muito bem exploradas pela autora, sendo esse um dos grandes trunfos do livro: a forma como explora as emoções das personagens.

A história pareceu-me muito bem enquadrada na época, principalmente na forma como as mentalidades de algumas personagens estão exploradas. Sendo um livro sobre uma época que já li bastante, não existiu uma sensação de enriquecimento de conhecimento, mas é notório o quando a autora se esforça, e com sucesso, em oferecer o conhecimento necessário para que o leitor perceba alguns quadros sociais e políticos. Dificilmente um leitor se sentirá deslocado ou sem ter as noções necessárias ao que acontece à volta das personagens.

Carla M. Soares tem aqui um livro muito bem conseguido. Naturalmente, por ser numa época mais negra, não será um livro para qualquer leitor, mas aqueles que apreciem o género terão aqui uma boa leitura. É verdade que tem alguns momento óbvios ou que parecem algo forçados, mas num todo, o livro consegue ser bastante coerente e marcante, ajudando o facto de ser muito focado em personagens portuguesas e com as quais criamos rapidamente uma boa ligação. Se apreciam o género, então têm aqui uma boa leitura.

Luís Pinto

 

terça-feira, 9 de maio de 2017

VENTO DE ESPANHA


Autor: João Pedro Marques




Sinopse: Custódio é um camponês beirão que decide vir para Lisboa estudar. Lurdes, uma lisboeta da Mouraria que sempre conseguiu recompor-se dos duros golpes da vida. Quando o caminho dos dois se cruza, a vida de ambos mudará para sempre. A sua história inicia-se em Portugal e estende-se, depois, a uma Espanha mergulhada na Guerra Civil. É aí que Custódio e Lurdes vão entrelaçar os seus destinos com três outros personagens: o violento Zanelli, o tenente fascista para quem o brado ¡Viva la Muerte! é um lema de vida; a corajosa Maria del Carmen, uma madrilena das classes altas que se guia por princípios de humanidade num tempo em que a moderação desapareceu; e o sagaz Vorobiov, coronel soviético profundamente desiludido com os rumos da revolução bolchevique.



Este é o primeiro livro que leio deste famoso autor e foi com alguma curiosidade que viajei por estas páginas até uma época negra em que o autor explora um momento bastante complicado em Espanha. Com uma base focada na guerra civil de Espanha de um ponto de vista mais social, o autor cria uma interessante história que demora a arrancar mas que consegue cativar com personagens coerentes e que me pareceram bastante realistas. A arte do autor está em criar a estrutura necessária a cada personagens, explorando mentalidades, objetivos e traumas passados que nos ajudam a compreender muitas das decisões que as mesmas irão tomar. 

O ritmo é suave, nunca acelerando demasiado, com a narrativa sempre focada em explorar o que é necessário para que o leitor sinta o peso daqueles momentos. Aos poucos torna-se num livro forte, com grande crítica social e política, e que nem sempre é imparcial, muito graças à visão dos seus personagens. Aliás, esse é um ponto a ter em conta, porque este é um romance histórico e não um livro académico. O autor cria um romance parcial, tendencioso em vários momentos, mas que são a visão dos personagens que seguimos. 

Gostei da forma como o autor avançou na história, com uma narrativa bem montada apesar de as decisões finais de algumas personagens serem algo óbvias. Não é um romance feito para nos surpreender, mas sim para nos marcar com uma visão dura de uma época sangrenta. De um ponto de vista crítico, este é um bom livro, apesar de não conseguir marcar da mesma forma que algumas obras primas que exploraram a guerra espanhola, mas foi sempre uma boa leitura. Se gostam do autor, este será mais um livro que irão gostar e que vale a pena ler se gostarem do género e do tema principal.

Luís Pinto

segunda-feira, 8 de maio de 2017

PODER E VINGANÇA


Autor: Jon Skovron

Título original: Hope and Red




Sinopse: Num império fraturado espalhado por mares selvagens, dois jovens de culturas diferentes encontram um objetivo em comum. Uma rapariga sem nome é a única sobrevivente quando a sua aldeia é massacrada por biomantes, servos místicos do imperador. Após receber o nome da sua aldeia devastada, Esperança Negra é treinada pelo mestre Vinchen como uma guerreira e instrumento de vingança. Nas ruas da cidade de Nova Laven, um rapaz torna-se órfão e é adotado por uma das criminosas mais afamadas do submundo.
Recebe o nome de Ruivo e é treinado como ladrão e vigarista. Quando um acordo é feito entre criminosos e os biomantes para governar as ruelas de Nova Laden, os mundos de Esperança e Ruivo acabam por chocar e eles são forçados a uma aliança inevitável…



Regresso à fantasia para começar uma nova saga. Este é um livro com pontos positivos e negativos, mas, acima de tudo, é um livro que tem muito sumo para os próximos. Mas vamos lá por partes.

Com uma escrita única, o autor mistura uma narrativa rápida com um dialeto muito próprio de um povo, dando peso e coerência a este universo. Claro que por um lado é fácil sentir que estamos deslocados e que tal criação pouco oferece ao enredo, mas também é verdade que a identidade do livro e do universo criado ganha com tal introdução, mesmo tendo em conta que o ritmo de leitura tem de baixar ligeiramente.

Focado em duas personagens, é fácil antever o progresso da história, mas não é isso que fará o leitor abrandar a leitura. No meu caso, foi uma leitura bastante rápida e viciante, mesmo percebendo para onde me levava. O autor consegue explorar bem o seu mundo e algumas personagens e apenas não consegue manipular o leitor como era pedido em alguns momentos para criar maior suspense. Apesar de alguns momentos mais óbvios, a estrutura na narrativa funciona bem, com capítulos a saltarem entre os dois personagens e a serem desvendados segredos nos momentos certos.

A criação dos personagens está bem conseguida, sendo fácil percebermos o que os afasta ou une, levando o leitor a criar algum tipo de ligação com um deles. No entanto, o autor ainda deverá explicar alguns dos motivos para as decisões que algumas personagens tiveram. A ação rápida empurra o leitor e pode sempre ficar algo por questionar, mas no fim o autor surpreende com algumas ideias que poderão tornar bastante melhor os próximos livros.

Acima de tudo esta é uma fantasia num mundo coerente. Está bem criado e pensado e as personagens encaixam bem. Em alguns momentos é óbvio e a sensação é que não traz muito de novo à fantasia, mas também é verdade que nos momentos finais demonstra que o autor sabe para onde vai e ficam boas ideias no ar. Da minha parte, fiquei com bastante vontade de ler os próximos. Não é uma obra prima nem revoluciona, mas a verdade é que poucos o conseguem fazer. Viciante e rápido, para já parece uma boa saga a ler. Fico à espera de ver como serão os próximos.

Luís Pinto

AAMIR - Um pária em Lisboa


Autor: Ricardo Gomes




Sinopse: Aamir veio para Lisboa para tentar sair da pobreza a que parecia irremediavelmente condenado. Os anos passaram entre esquemas e uma indigência banhada a álcool na baixa da cidade. Um acaso mudou-lhe a vida, levando o indiano a acreditar que poderia contrariar os deuses, ousando traçar o seu próprio destino.




Este livro, que não chega a ter cem páginas, é um interessante conto sobre Aamir, um personagem que vive em Lisboa e com o qual será difícil, pelo menos numa fase inicial, simpatizar.

Ricardo Gomes estreia-se neste conto e a sua escrita é inteligente e cuidada, focando-se em pontos essenciais que ajudam a explorar o personagem e também a criar alguma crítica social necessária a criar o ambiente que ajuda a desenvolver a personagem. Posto isto, a história desenvolve-se rapidamente, para o bem e para o mal. O facto de ser um conto tem pontos positivos, principalmente no ritmo, mas falha noutros pontos. É fácil querermos ler mais quando o livro acaba, ficando a sensação que esta personagem poderia ter sido mais explorada.

Gostei do ritmo imposto pelo autor e também de algumas personagens criadas, ficando a sensação que este é um livro que poderia ter dado mais, mas que é o suficiente para percebermos que o autor teve um grande cuidado em alguns pormenores que demonstram investigação. e sentido crítico.

Sendo um livro pequeno, sabe a pouco. É um livro com qualidade mas que demonstra também que o autor tem de evoluir em alguns aspetos, principalmente porque escrever um conto adulto não é fácil. No entanto, fiquei curioso para ler os próximos trabalhos do autor.

Luís Pinto

Passatempo: 1924 O ano que criou Hitler - Vencedor


PASSATEMPO

1924
O ano que criou Hitler

Vencedor!


Chegou ao fim mais um passatempo em parceria com a Editorial Presença, à qual agradeço mais esta oportunidade.

Desta vez oferecemos um exemplar do livro "1924 - O ano que criou Hitler", e terei a análise ao livro ainda este mês.

Obrigado a todos os que participaram e que tornaram esta passatempo um sucesso. Aos que não venceram, desejo-vos melhor sorte para a próxima.



Sinopse: O ano de 1924 marcou a vida de Adolf Hitler e o destino da Humanidade. Detido na sequência do putsch em Munique, um golpe falhado, e rodeado pelos seus coconspiradores, Hitler passa na prisão por um período intenso de leitura e escrita enquanto aguarda um julgamento por traição.
Nesse ano sedimenta as bases do que viria a ser a ideologia do Terceiro Reich, arquiteta a então aparentemente impossível subida ao poder e escreve Mein Kampf, o seu manifesto infame. Tudo o que a História presenciou depois - a violência, a ditadura, a guerra mais mortífera de sempre - encontrava-se cristalizado nesse ano paradigmático.
Até agora, tal período ficou por analisar com a devida profundidade. O jornalista Peter Ross Range fá-lo magistralmente, descrevendo os episódios do ano mais importante para perceber a mente de Hitler numa obra pioneira e de leitura empolgante: 1924 - O Ano que criou Hitler.
 
 
E o vencedor é: 


Ana Micaela Marcedo
 
Parabéns à vencedora!
 
Novos passatempos em breve! 


sexta-feira, 5 de maio de 2017

ESCRITO NA ÁGUA


Autor: Paula Hawkins

Título original: Into the water




Sinopse: Nel vivia obcecada com as mortes no rio.
O rio que atravessava aquela vila já levara a vida a demasiadas mulheres ao longo dos tempos, incluindo, recentemente, a melhor amiga da sua filha. Desde então, Nel vivia ainda mais determinada a encontrar respostas. 
Agora, é ela que aparece morta.
Sem vestígios de crime, tudo aponta para que Nel se tenha suicidado no rio. Mas poucos dias antes da sua morte, ela deixara uma mensagem à irmã, Jules, num tom de voz urgente e assustado. Estaria Nel a temer pela sua vida?
Que segredos escondem aquelas águas?
Para descobrir a verdade, Jules ver-se-á forçada a enfrentar recordações e medos terríveis há muito submersos naquele rio de águas calmas, que a morte da irmã vem trazer à superfície.



Paula Hawkins é a autora do estrondoso sucesso que foi A rapariga no Comboio. Posto isto, a questão é saber se consegue vencer a expectativa. De forma objetiva, A rapariga no comboio não é uma obra prima, é um livro com falhas e onde são cometidos erros normais para um autor que está no "início". Todavia, a forma como escreve, a intensidade que cria e como explora as personagens, levou ao sucesso, também muito graças a uma fórmula vencedora que nos agarra e que foi bem usada.

Agora, com Escrito na Água, a autora desvia-se ligeiramente da fórmula base, mas mantém o seu estilo narrativo, levando, novamente, a que o leitor agarre a história e só pare no fim do livro. Uma vez mais o grande trunfo está nas personagens, na forma como a autora explora mentes algo desequilibradas ou com alguma obsessão ou trauma. É dessa obsessão que a intensidade bebe a sua força em cada página, permitindo ao leitor sentir a angustia em certos momentos.

Com um ritmo forte e várias personagens que tornam a história viciante, Hawkins leva-nos por um enredo que começa com uma base interessante. A autora dá os detalhes certos nos momentos certos no início do livro, mas, tal como no livro anterior, comete alguns erros que me levaram a antever o final. O facto de tal acontecer não retira de imediato qualidade ao livro, mas ainda há certos pontos nos quais a autora poderá melhorar.

No entanto, e mesmo tendo percebido o desfecho, nunca deixei de ler a toda a velocidade. Este é, tal como a mente de algumas personagens, compulsivo. Outro aspeto positivo é a forma como a consegue criar um interessante equilíbrio entre o ritmo elevado e as descrições necessárias para nos deixarem baralhados. A forma como os personagens observam e sentem o mundo é aqui aprofundado com inteligência e o leitor fica preso numa espiral que nos faz ler até ao fim.

Uma vez mais Paula Hawkins faz um livro que irá vender. Os leitores irão ler sem parar e irão recomendar o livro. Poderá, provavelmente, não ter o impacto do livro anterior, mas em vários aspetos tem mais qualidade do que A rapariga no comboio, sendo mais inteligente, mais coerente coeso. Existe uma clara evolução da autora na forma como transmite as suas ideias e como explora a mente humana. O resultado é óbvio: este é o seu melhor livro apesar de alguns momentos óbvios para um leitor mais atento. Uma coisa é certa, se gostaram do A rapariga no comboio, então este é um livro a ter este verão e que se lê à velocidade da luz.

Luís Pinto

sábado, 29 de abril de 2017

Passatempo: 1924 - O ano que criou Hitler



PASSATEMPO

1924 - O ano que criou Hitler


O Ler y Criticar tem o prazer de, uma vez mais, aliar-se à Editorial Presença para vos proporcionar um passatempo. Desta vez iremos oferecer um exemplar do livro "1924 - O ano que criou Hitler".

Para se habilitarem a ganhar, basta preencher os vossos dados no formulário e responderem à pergunta.

É apenas permitida uma participação por pessoa.

O passatempo termina dia 7 de maio.

Boa sorte a todos!



Sinopse: O ano de 1924 marcou a vida de Adolf Hitler e o destino da Humanidade. Detido na sequência do putsch em Munique, um golpe falhado, e rodeado pelos seus coconspiradores, Hitler passa na prisão por um período intenso de leitura e escrita enquanto aguarda um julgamento por traição.
Nesse ano sedimenta as bases do que viria a ser a ideologia do Terceiro Reich, arquiteta a então aparentemente impossível subida ao poder e escreve Mein Kampf, o seu manifesto infame. Tudo o que a História presenciou depois - a violência, a ditadura, a guerra mais mortífera de sempre - encontrava-se cristalizado nesse ano paradigmático.
Até agora, tal período ficou por analisar com a devida profundidade. O jornalista Peter Ross Range fá-lo magistralmente, descrevendo os episódios do ano mais importante para perceber a mente de Hitler numa obra pioneira e de leitura empolgante: 1924 - O Ano que criou Hitler.



quinta-feira, 27 de abril de 2017

A SERPENTE DO ESSEX


Autor: Sarah Perry

Título original: The Essex serpent





Sinopse: Londres, 1893. Quando o marido de Cora Seaborne morre, a viúva inicia uma nova vida marcada ao mesmo tempo por alívio e tristeza.
Não teve um casamento feliz e ela própria nunca se adequou ao papel de mulher da sociedade. Acompanhada pelo filho, Francis - um rapaz curioso e obsessivo -, troca a cidade pelo campo de Essex, onde espera que o ar fresco e os grandes espaços lhe proporcionem o refúgio de que necessita.
Quando se instalam em Colchester, chegam-lhe aos ouvidos rumores de que a Serpente do Essex, conhecida por em tempos ter percorrido os pântanos na sua avidez de colher vidas humanas, regressou à aldeia de Aldwinter. Cora, naturalista amadora sem interesse por superstições ou questões religiosas, fica empolgada com a ideia de que aquilo que as pessoas da região tomam por uma criatura sobrenatural possa, na realidade, ser uma espécie ainda por descobrir. Quando decide iniciar a sua investigação é apresentada ao vigário de Aldwinter, William Ransome. Tal como Cora, Will sente uma desconfiança profunda em relação aos boatos, que considera um fenómeno de terror de caráter moral e um desvio da verdadeira fé. Enquanto Will procura tranquilizar os paroquianos, inicia-se entre ele e Cora uma relação intensa; apesar de os dois não concordarem a respeito de nada, são atraídos e afastados um do outro inexoravelmente, a ponto de isso modificar a vida de ambos de formas inesperadas.



Com uma escrita bem trabalhada, a autora leva-nos por uma história que aos poucos se torna bastante complexa, mas vamos por partes. O início do livro serve, como normal, para conhecermos as personagens, e aqui a autora faz um bom trabalho em desenvolver ambientes e personalidades, sendo um ponto alto a forma como o livro nos descreve certos locais. O ambiente é quase sempre sombrio, carregado de forma moderada para que seja sentido a cada página, não deixando o leitor esquecer certos conceitos e detalhes que são importantes.

A isto mistura-se o enredo que se desenvolve a bom ritmo, abrangendo novos temas e conceitos, tornando o mundo bastante coerente. No entanto, a sensação com que fiquei foi que a autora tocou em demasiado temas, ao ponto de chegar a um momento no livro em que o enredo principal se torna bastante secundário, pois o leitor está envolto em vários temas e a serpente deixa de ser a base.

Nessa altura fiquei com a sensação que a autora se perdeu um pouco tornando a sua narrativa demasiado abrangente sem se focar no que ao início parecia o essencial e que merecia ser mais aprofundado. Com o tema principal a ser algo posto de parte, o nosso foco prende-se nas personagens, e com elas viajamos por uma história que se torna bastante intensa em termos amorosos e que me surpreendeu em alguns aspetos.

Gostei dos personagens apesar de alguns serem demasiado óbvios, mas as suas decisões foram coerentes e encaixaram bem na história não existindo momentos demasiado forçados. No entanto, e apesar de o livro não se destacar em certos aspetos, noutros consegue ser muito bom, como por exemplo no ambiente que consegue ir criando.

Este é um livro que muitos leitores irão adorar, principalmente o público feminino que certamente conseguirá criar uma ligação mais emocional com a personagem principal. Nota-se a qualidade e percebe-se porque ganhou tantos prémios internacionais. A mim não me convenceu totalmente simplesmente porque acho que o livro não se foca no que o torna original, mas foi sempre uam leitura que gostei. E por isso acredito que este é claramente um livro que a maioria dos leitores irá gostar bastante.

Luís Pinto 


quarta-feira, 26 de abril de 2017

4 3 2 1


Autor: Paul Auster

Título original: 4 3 2 1





Sinopse: O que nos motiva verdadeiramente? O que nos leva a optar por um caminho em detrimento de outro? De que futuros abdicamos pelo simples facto de termos apenas uma vida para viver?
No dia 3 de março de 1947, na maternidade do hospital Beth Israel em Newark, New Jersey, nasce Archibald Isaac Ferguson, filho único de Rose e Stanley Ferguson. Uma só criança a quem são dados quatro caminhos ficcionais diferentes, quatro direções possíveis. Uma pessoa que se desdobra em quatro, para assim viver quatro vidas paralelas e absolutamente diferentes, mercê das circunstâncias, do acaso, e das escolhas.
Os contrastes entre os quatro Fergusons são evidentes. As distintas relações com a família e as amizades, o amor romântico e as paixões intelectuais percorrem a tumultuosa paisagem da América, entretecendo-se com momentos cruciais da História do século xx. Em comum, o fascínio por uma mulher: a magnífica Amy Schneiderman. Todavia, cada uma das relações entre os quatro Fergusons e Amy é única. E nós, leitores, somos as testemunhas de cada momento de prazer, cada momento de dor, cada lento avançar rumo ao inevitável culminar das suas - de todas - as vidas.



Vou ser direto: este é um daqueles livros que se adora, ou se odeia. Paul Auster tem aqui, muito provavelmente, o seu livro mais complexo até hoje e aquele que leva o leitor ao limite.

Com um brutal número de páginas, Paul Auster sabe como envolver o leitor num enredo do qual não conseguirá sair. Com uma escrita objetiva, mas sem nunca deixar de explorar o que é importante para a criação de ambientes e exploração de personagens, Auster empurra o leitor durante quatro narrativas que se unem e se afastam quando menos esperamos, sem nunca ter tido a noção de que o autor se perdera pelo caminho. É verdade que a meio o livro perde algum fulgor, perdendo o fascínio inicial e ainda sem oferecer as respostas que estão guardadas para o final, mas mesmo com um ritmo mais lento a meio, o livro não perde qualidade, apenas obriga o leitor a um maior esforço para se perceber tudo o que estas páginas tentam transmitir.

Com bons personagens e momentos surpreendentes, Auster tem aqui uma base fantástica que explora com mestria, levando-nos a questionar tudo o que o personagem faz e sempre com a noção de que essas mesmas questões podem ser colocadas à nossa vida. A questão principal é que o autor não se limita a explorar uma história. Este é um livro filosófico, psicológico, metafísico sobre a essência do que é ser uma pessoa nesta sociedade e de como as nossas vidas são a construção de todos os momentos, todas as decisões, todos os sentimentos. É um livro sobre um minuto que pode mudar a nossa vida e nunca saberemos como seria diferente se esse minuto tivesse tido outro desfecho.

A tudo isto Auster mistura vários locais, todos eles com uma identidade que encaixa no enredo e o torna mais inteligente. A forma como o autor monta a sua história é, talvez, o seu maior trunfo, e que pode passar despercebido ao leitor menos atento. Auster leva o leitor por caminhos bem montados, principalmente porque todos nós sabemos como acabam esses caminhos, com a morte. Aliás, é esse, indiretamente, o tema deste livro: a morte, como ela condiciona a cada instante, a cada ação, a cada sentimento, a cada dor ou prazer. A noção de que o nosso tempo está a acabar.

Pauls Auster tem aqui um livro complexo, forte, psicológico. Questiona o que é, o que foi e o que poderia ter sido. Questiona quais os valores que nos fazem decidir. Muitos leitores precisarão de um enorme esforço para o acabar, outros irão entrar no enredo e sentir o peso de cada página. Não é um livro que agrade a todos, mas a qualidade é inegável e inesquecível. 

Luís Pinto

segunda-feira, 24 de abril de 2017

IMPERADOR DOS ESPINHOS


Autor: Mark Lawrence

Título original: Emperor of Thorns





Sinopse:  Um rei em busca de vingança.
Com apenas vinte anos de idade, o príncipe tornou-se o Rei Jorg Ancrath, rei de sete nações, conhecido em todo o Império. Mas os planos de vingança que tem para o seu pai ainda não estão completos. Jorg tem de conseguir o impossível: tornar-se imperador.
Um império sem imperador há cem anos.
Esta é uma batalha desconhecida para o jovem rei, habituado a conquistar tudo pela espada. De quatro em quatro anos, os governantes dos cem reinos fragmentados do Império Arruinado reúnem-se na capital, Vyene, para o Congresso, um período de tréguas durante o qual elegem um novo imperador. Mas há cem anos, desde a morte do último regente, que nenhum candidato consegue assegurar a maioria necessária.
Um adversário temível e desconhecido.
Pelo caminho, o Rei Jorg vai enfrentar um adversário diferente de todos os outros, um necromante como o Império nunca viu, uma figura ainda mais odiada e temida do que ele: o Rei dos Mortos.




Regresso a esta trilogia para ver o seu fim e o que o autor preparou para Jorg, este personagem principal que por vezes odiamos mas que compreendemos.

Ainda antes de olhar diretamente para este livro, é preciso indicar que esta é uma saga diferente do normal e à qual deve ser dada o mérito de nos levar  a criar uma ligação com um personagem que moralmente deveríamos repudiar. É nos detalhes que o autor cria esta ligação enquanto vemos, principalmente no segundo livro, as mudanças que Jorg atravessa, e que o afastam do rapaz sedento de vingança do primeiro livro. 

Com o segundo livro a criar essa ligação e a levar-nos a compreender muitas das decisões de Jorg, o terceiro livro é um inteligente e surpreendente final para esta trilogia e suas personagens. Com o seu estilo habitual, Jorg leva-nos por batalhas, físicas e mentais, sempre com saltos temporais que nos dão, em simultâneo, novas perguntas e novas respostas. 

Tal como no livro anterior, o autor continua a explorar este seu mundo, sempre com interessantes ligações a um passado e a um mundo que conhecemos. A ligação é aqui mais forte e faz sentido dentro do universo criado pelo autor, tornando a trilogia coerente. Infelizmente, devido ao facto de a narrativa estar focada no narrador Jorg, fica a sensação que algumas personagens mereciam ser exploradas e acabam por não ser.

Com a narrativa a aumentar o ritmo a partir de meio do livro e com algumas revelações a serem apresentadas nos momentos certos, o autor prende o leitor numa viagem viciante em que algumas teorias se formam na nossa mente. Foi já perto do fim que comecei a perceber para onde o autor me levava, mas o porquê faz a diferença. Inteligente e com algum risco, o autor oferece um final que fica na memória e que encaixa muito bem nas personagens e no mundo que fomos descobrindo nestes três livros. Por tudo isto, este é o melhor dos três livros, principalmente porque com o conhecimento que oferece, consegue melhorar os anteriores livros.

Se procuram uma boa trilogia de fantasia e que se consegue diferenciar da maioria graças à sua personagem principal, então esta saga deve estar na vossa estante.

Luís Pinto



sexta-feira, 21 de abril de 2017

A VIÚVA NEGRA


Autor: Daniel Silva

Título original: The Black widow




Sinopse: O lendário espião e restaurador de arte Gabriel Allon está prestes a tornar-se chefe dos serviços secretos israelitas. Porém, em vésperas da promoção, os acontecimentos parecem confabular para o atrair para uma última operação no terreno. O ISIS fez explodir uma enorme bomba no distrito do Marais, em Paris, e um governo francês desesperado quer que Gabriel elimine o homem responsável antes que este ataque novamente. Chamam-lhe Saladino... É um cérebro terrorista cuja ambição é tão grandiosa quanto o seu nome de guerra, um homem tão esquivo que nem a sua nacionalidade é conhecida. Escudada por um sofisticado software de encriptação, a sua rede comunica em total segredo, mantendo o Ocidente às escuras quanto aos seus planos e não deixando outra opção a Gabriel senão infiltrar uma agente no mais perigoso grupo terrorista que o mundo algum dia conheceu. Trata-se de uma extraordinária jovem médica, tão corajosa quanto bonita. Às ordens de Gabriel, far-se-á passar por uma recruta do ISIS à espera do momento de agir, uma bomba-relógio, uma viúva negra sedenta de sangue. Uma arriscada missão levá-la-á dos agitados subúrbios de Paris à ilha de Santorini e ao brutal mundo do novo califado do Estado Islâmico e, eventual-mente, até Washington, onde o implacável Saladino planeia uma noite apocalíptica de terror que alterará o curso da história.



Regresso novamente à escrita de Daniel Silva e à sua série mais famosa, a do espião Gabriel Allon. Este é o 16º livro da série e pode ser lido como um livro independente. claro que conhecer o passado do personagem é importante para se tirar maior partido do enredo, mas não obrigatório para que esta seja uma boa leitura.

Com o ritmo em crescendo, como é habitual neste autor, Allon volta uma vez mais a ter uma missão de escala planetária. Ao fim de dezasseis livros podemos achar que o autor poderá estar a ficar sem ideias, mas a verdade é que não. Claro que começa a ser possível perceber alguns truques de Daniel Silva e ver onde a narrativa nos tenta enganar, mas este é um conhecimento que se adquire ao ler muitos livros. Por outro lado, o autor continua a arriscar e a surpreender, sem nunca deixar de tocar em alguns temas sensíveis.

O ISIS é agora o centro das atenções e é "misturado" numa trama que aos poucos atinge um ritmo de ação bastante elevado. O autor usa os já normais padrões da espionagem de ação e claro que não podemos esquecer os clichés das mulheres lindas que ajudam o personagem principal, muito ao estilo de James Bond. No entanto, e mesmo com estes já batidos clichés, o autor cria um enredo inteligente e bastante atual com o qual é possível encontrar semelhanças com a realidade. A montagem do livro está bem conseguida e mesmo com o fluxo a caminhar, claramente, para um local/momento óbvio, é impossível deixar de ler, até porque se sente que o autor poderá surpreender em qualquer página.

Dentro do seu estilo, que mistura a espionagem de James Bond com vários temas atuais e uma personagem principal com a qual é fácil criarmos simpatia, Daniel silva é dos mais famosos escritores do mundo, e aqui percebe-se porquê. Um leitor que procure um livro de espionagem pura, não o irá encontrar aqui, mas quem procure um bom livro de ação que não se consegue parar de ler, então este livro é uma escolha acertada, até porque, para mim, é talvez o mais intenso livro do autor, o que demonstra que Daniel Silva irá continuar a surpreender-nos. Se este é o vosso estilo de leitura, então este é um livro a ler neste verão.

Luís Pinto 

quinta-feira, 20 de abril de 2017

A PRIMEIRA REGRA


Autor: Jeff Abbott

Título original: The first order





Sinopse: Sam Capra nunca acreditou que o irmão tivesse sido assassinado às mãos de extremistas no Médio Oriente. Antigo operacional da CIA, Sam transformou-se num agente infiltrado de topo, e decide lançar a sua própria investigação. Mas a que ponto e com que propósito é que os seus contactos ainda lhe serão leais? Toda a informação tem um preço e a confiança pode ser um conceito volátil para alguns…
A busca desesperada pelo irmão levará Sam a uma versão moderna do coração das trevas: o círculo privado da elite russa, oligarcas implacáveis, com a escola do KGB, que juraram fidelidade a Morozov, o corrupto presidente da Rússia. No fio da navalha, não passam de peões no xadrez global a que Morozov se dedica, e agora um destes homens quer ver-se livre do novo czar. Estará Danny envolvido na conspiração? No que se terá tornado?



Este é o segundo livro que leio deste autor e foi o que gostei mais. Apesar de não ser um fantástico livro de espionagem, a verdade é que Abbott consegue criar uma trama bastante interessante. Sendo o quinto livro de uma série que tem como personagem principal Sam Capra, e não tendo lido os livros anteriores, foi normal estar perdido nas primeiras páginas, mas aos poucos fui conhecendo este personagem e percebendo os seus motivos e o seu passado. Globalmente, parece-me que quem tenha lido os livros anteriores, poderá apreciar melhor estas páginas, mas também me parece correto afirmar que quem nunca tenha lido, conseguirá agarrar a história aos poucos e ter aqui uma boa leitura.

Com um ritmo sempre elevado, Abbott leva-nos por vários locais e transmite sempre uma sensação de urgência que torna o livro mais intenso e empolgante. Não sendo um livro de espionagem puro, mas sim um thriller rápido e com ação, Abbott por vezes oferece momentos óbvios, mas noutros momentos consegue surpreender ao arriscar e conseguindo dar qualidade ao livro quando menos se espera. 

Gostei das personagens e também da forma como o autor montou a narrativa, com grande destaque para os vilões que conseguem demonstrar qualidades que os tornam bastante importantes no enredo. No entanto, o destaque é claramente para o personagem principal, que não conhecia e que gostei de explorar, dando-me vontade de ler os livros anteriores. 

Com diálogos interessantes e um ambiente bem criado, é fácil entrar neste livro. O seu ritmo não nos deixa descansar e algumas perguntas ficam por responder enquanto desvendamos uma conspiração que pode ser bem maior do que o personagem principal crê no início. No global, este é um bom livro de espionagem que agradará aos leitores que procuram ação e uma leitura rápida, e que me convenceu a ler mais livros do autor. 

Luís Pinto

quarta-feira, 19 de abril de 2017

CEVDET BEI E OS SEUS FILHOS


Autor: Orhan Pamuk






Sinopse:  Istambul, 1905. Cevdet Bei, um comerciante muçulmano rico, instala-se com a mulher no bairro ocidental de Nisantasi. O Império Otomano já soçobrava antes da Primeira Guerra Mundial e as elites contestavam o poder despótico do sultão Abdülhamid II. Duas gerações depois, o pintor Ahmet decide retratar o avô e, neste intervalo, observamos a evolução de toda a sociedade turca.
Cevdet Bei e os Seus Filhos é o romance de estreia de Orhan Pamuk, Prémio Nobel da Literatura, que segue as três gerações da família de Cevdet Bei, e com elas a fundação da Turquia moderna.



Pamuk escreve de forma diferente, especial, com formas e significados que o tornam único. Neste livro, o seu primeiro romance, Pamuk revela, acima de tudo, a inteligência que foram a base do Nobel que ganhou.

Num livro bastante grande, Pamuk consegue agarrar o leitor com facilidade. No meu caso, muito se deve à forma como o autor consegue, durante todo o livro, explorar as diferenças entre Oriente e Ocidente. a leitura é quase sempre lenta, com o autor a aprofundar vários temas que tornam o livro bastante coeso e coerente. A forma como o autor expõe a sociedade e as transformações que vai sofrendo, tornam esta narrativa em algo mais do que uma boa história. É também um livro que nos ensina e revela a adaptação de uma sociedade que em muitos aspetos não estava preparada para uma mudança tão radical.

Outro aspeto muito importante nas obras do autor e também aqui neste livro é a capacidade de Pamuk de nos ligar a algumas personagens, levando-nos a atingir um estado que nos faz acreditar que realmente conhecemos a personagem. Pamuk explora com suavidade o que constitui uma personagem, quais os seus motivos, o que a marcou, o que pretende alcançar. E é com personagens extremamente realistas que avançamos por um país em mudança.

O retrato de Istambul durante os vários anos da narrativa é um dos pontos fortes do livro. A narrativa toca em temas mais profundos e emocionais, como a política, religião e tradições, sem nunca esquecer as dificuldades da adaptação e a forma como a sociedade olha para o seu país, mas também para os países estrangeiros, todos eles em grande mudança devido à guerra.

De um ponto de vista crítico, a história quase que é secundária quando comparado ao peso que tem a mudança da sociedade. É ela o catalisador de toda a história e é com essa mudança que avançamos e conhecemos as personagens. Pamuk tem aqui um bom livro, ao nível do que nos habituou e que nos liga emocionalmente a algumas personagens. É um livro grande e o seu ritmo poderá afastar alguns leitores que procurem algo mais rápido ou intenso. Mas a qualidade está aqui, sem dúvida.

Luís Pinto

terça-feira, 18 de abril de 2017

O SEGUNDO LIVRO DA SELVA


Autor: Rudyard Kipling

Título original: The second jungle book




Sinopse: O Segundo Livro da Selva dá continuidade às espantosas histórias reveladas em O Livro da Selva, já editado pela Livros do Brasil. Mowgli, o rapaz que cresce no seio de uma família de lobos, recebe novos ensinamentos sobre a vida e a sobrevivência na selva indiana, na companhia dos seus amigos Baloo, o urso pardo, e Bagheera, a pantera negra, e volta a encontrar-se com os fascinantes Shere Khan, o temível tigre, ou Kaa, a grande jiboia das rochas. Incluindo três outras histórias que têm como pano de fundo a Índia britânica, este é um conjunto precioso de aventuras, de fábulas, de lições de vida, escritas com mestria por Rudyard Kipling e ilustradas pelo seu pai, John Lockwood Kipling. Tendo tido a sua primeira edição em revistas, entre os anos de 1894 e 1895, estes são textos clássicos de um valor inesgotável. 




Todos nós já ouvimos falar do mais famoso livro de Kipling "O livro da selva", muitas vezes adaptado em filmes e séries. No entanto, este segundo livro, muito menos famoso, também merece ser lido. 

Tal como no primeiro livro, o autor usa uma escrita leve, capaz de se adaptar à idade de qualquer leitor e a narrativa desenvolve-se com facilidade, cheia de significados e capaz de levantar várias questões sobre a vida, o que é ser um ser humano e todas as emoções que nos ligam a animais e outras pessoas.

Tal como o livro anterior, esta é uma história que tem algo a ensinar, qualquer que seja a nossa idade. É interessante ver como, dependendo da nossa idade, iremos questionar a história de forma diferente, retirando novos ensinamentos, percebendo outros significados. Isto porque, se repararmos bem, o autor não está apenas a "ensinar" o nosso personagem principal Mogli. Está também a ensinar os leitores. 

As histórias são interessantes e estruturadas com inteligência, e mesmo apesar de termos momentos separados e alguns saltos, tudo acaba por encaixar bastante bem neste mundo que o autor criou e que em muitos casos nos parece incrivelmente presente na sociedade atual. O resultado é um livro intemporal que explora o ser humano de uma forma que será sempre atual, e que sempre nos ensinará algo que não deveremos esquecer.

Este pequeno livro de Kipling deve ser lido. As suas personagens são memoráveis, os seus diálogos inteligentes e a narrativa adapta-se a qualquer leitor. Não existe muito que possa aqui dizer sem revelar a história, que apesar de curta, está cheia de significado. Este não é um livro para ser lido pela história, mas sim pelo que transmite. É esse o seu trunfo, e é por isso que deve estar nas nossas estantes, tal como o primeiro Livro da Selva.

Luís Pinto

segunda-feira, 10 de abril de 2017

AUTORIDADE


Autor: Jeff Vandermeer

Título original: Authority





Sinopse: Após 30 anos, os únicos traços humanos detetados na Área X - uma estranha zona contaminada cercada de uma fronteira invisível e sem traços de civilização - são os que foram deixados por expedições sucessivas sob autoridade de uma agência tão secreta que quase foi esquecida. Face à tumultuosa 12.ª expedição narrada em Aniquilação, a agência tem um novo diretor nomeado, John Rodrigues, também conhecido por Control.
A braços com uma equipa desesperada e frustrada por uma série de incidentes e vídeos perturbantes, Control começa a desvendar lentamente os segredos da Área X e dos mistérios narrados no primeiro volume, mas a cada descoberta que faz, é forçado a confrontar verdades sobre ele próprio e a agência que jurou servir.



Este é o segundo livro da trilogia "Área X" e, tal como o primeiro, não é um livro para todos. 

Após ter criado a base necessária no livro anterior, o autor começa neste livro a explorar algumas das perguntas que o leitor terá feito no livro anterior. Com o seu ritmo morno e grande foco no mundo em si, o autor explora flora e fauna com uma subtileza incrível, ao ponto de mesmo nos momentos em que não parece estar a explorar cenários, na realidade está. Com uma escrita focada no porquê de muito do que existe, mas tendo sempre a capacidade de criar suspense sobre o porquê do que vai acontecendo, o leitor é levado por uma viagem que tem tanto de confuso como de coerente em alguns momentos.

Com algumas personagens interessantes e diálogos inteligentes, o enredo começa a responder às perguntas que ficam do primeiro livro. Contudo, tal como se esperava, muitas respostas dão origem a novas perguntas. Apesar de um ou outro momento parecer algo forçado ou menos coerente, também é verdade que aos poucos tudo começa a encaixar e a dar origem a várias teorias.

No entanto, tal como o primeiro livro, este também não é um livro para todos. O autor leva-nos por caminhos confusos e que em alguns momentos não parecem encaixar com o que se espera ou que já se leu, mas a verdade é que se ligarmos todos os pontos, então descobrimos que nestas páginas está explicado muito do que não se vê à primeira vista. Tudo isto num ritmo bastante lento que poderá afastar alguns leitores. O enredo é inteligente, mesmo que às vezes não seja viciante, e o facto de ser o segundo livro da trilogia acaba por lhe retirar algum impacto final, pois muito fica por explicar.

Esta trilogia, que ganhou vários prémios, tem a qualidade e a originalidade que a tornam memorável de alguma forma. Ainda me falta ler um livro e não quero revelar algo que não devo, mas estou bastante curioso para ver o desfecho de algumas personagens e, principalmente, o porquê de três ou quatro factos desta narrativa. Se no fim tudo fizer sentido, então esta será uma trilogia muito boa, baseada num universo diferente e bem pensado, e que mesmo não sendo a favorita dos leitores, conseguirá ganhar o seu espaço na nossa estante de livro a voltar a ler um dia. Fica a faltar apenas o último livro para perceber se o autor consegue realmente oferecer todas as respostas (de preferência com um ritmo mais elevado na narrativa).

Luís Pinto

quinta-feira, 6 de abril de 2017

STAR WARS - Trilogia Império Negro


Autor: Tom Veitch

Título original: Dark Empire & Dark Empire II & Empire's End





Sinopse: Dez anos depois da queda de Darth  Vader e do Imperador em  O Regresso do Jedi, uma Nova República foi formada, mas a galáxia ainda não está livre.
E, desta vez, o poder obscuro por detrás do Império ressurgente tem os olhos postos num novo alvo: o filho recém-nascido de Han e Leia!
Se este plano for bem-sucedido, a galáxia mergulhará numa nova era de trevas.



Quem conheça o Universo Star Wars que foi criado em livros e comics após os filmes, sabe que existem algumas trilogias bastante icónicas. Quando a Disney comprou os direitos, todos estes livros passaram a ser considerados "Lendas", histórias fora da cronologia que a Disney quer seguir com os seus novos filmes. E portanto, mesmo não sendo histórias que tenham influência nos próximos filmes, muitos valem a pena ser lidos. É o caso desta trilogia e de muitos outros livros que a editora Planeta tem trazido para Portugal nos últimos tempos.

Em termos de influência que teve, provavelmente nenhum comic teve tanto impacto no universo Star Wars quanto esta trilogia. Abriu portas, explorou o futuro da saga e aprofundou as personagens que já conhecíamos.

A história é interessante, apesar de ter alguns momentos previsíveis, mas sendo sempre capaz de nos aproximar das personagens dos filmes. Os diálogos muitas vezes conseguem ser exatamente o que esperamos de algumas personagens, não deixando o leitor sentir qualquer afastamento dos filmes. Por outro lado o ritmo também é bem conseguido na parte inicial e final, apesar de a meio existir uma fase mais morna. 

Apesar de estas trilogias mais antigas não terem o fantástico design dos comics mais recentes, em nenhum momento se sente que os comics se afastam do universo de George Lucas. A cada página existe algo que nos faz perceber que este é o universo de Star Wars. A isto alia-se neste edição, novamente, um excelente trabalho da editora em oferecer uma boa capa dura e boa qualidade nas páginas.

Com algumas reviravoltas, momentos cómicos e algumas surpresas, esta é mais uma boa trilogia Star Wars que agradará a qualquer fã. Pode não ser a minha favorita, mas é claro o porquê de ter sido tão importante para a expansão dos comics no universo SW. Intenso e inteligente, coerente com o universo e sempre capaz de nos levar a melhor neste universo, esta é uma leitura viciante e bastante divertida. Se são fãs da saga, então acreditem, têm de ter este livro.

Luís Pinto

quarta-feira, 5 de abril de 2017

O GRANDE REAJUSTAMENTO


Autor: Willem Middelkoop

Título original: The big reset




Sinopse: Willem Middelkoop propõe neste livro um grande reajustamento para dar um novo rumo ao sistema financeiro global, que vê atualmente no dólar o seu modelo de referência. Depois de nos dar conta do caminho percorrido até chegar à situação de crise em que nos encontramos hoje, partindo de tempos imemoriais que recuam até à origem do dinheiro e dos bancos, chegamos ao século XX para assistirmos à forma como o dólar se tornou a principal moeda de reserva mundial. Porém, o sistema governado pelo dólar entrou em declínio há várias décadas e teve um enorme revés com a crise do crédito de 2008. Ainda assim, os Estados Unidos tentam manter a sua supremacia e combatem a todo o custo a corrida ao ouro por parte das outras potências mundiais, nomeadamente, a China e a Rússia. Nos últimos anos, estes dois países têm comprado grandes quantidades de ouro de forma a enfraquecerem o sistema norte-americano e a alcançarem uma maior liberdade económica, adquirindo, por consequência, uma maior independência financeira dos Estados Unidos.


Confesso que não conheço o autor deste livro, mas já tendo lido alguns livros que de forma muito suave e indireta falaram sobre possíveis reajustamentos financeiros, decidi ler este livro que aprofunda o tema, focando-se bastante na guerra financeira do ouro, que era exatamente o que procurava.

Em primeiro lugar é preciso indicar que dificilmente quem não se sinta atraído por este livro, poderá retirar algum prazer da leitura nas páginas iniciais. Depois, aos poucos, o livro começa a ser cativante. No meu caso, que estava bastante interessado logo desde o início, e o autor cativou-me com uma escrita inteligente e direta que não deixa a leitura divagar demasiado.

Com uma estrutura bem pensada e sendo fácil perceber-se os conceitos base, acredito que qualquer leitor conseguirá ler este livro sem se sentir perdido, muito graças à escrita simples do autor e ao facto de ir explicando tudo o que provavelmente está fora do conhecimento de um leitor comum.

Claro que aos poucos o livro torna-se mais complexo, principalmente porque a ideia base proposta pelo autor é complexa, mesmo que não pareça. O leitor deverá questionar o que está a ler, tirar as suas conclusões e perceber o impacto das ideias do autor.

Gostei bastante deste livro, principalmente pela forma como o autor vai explorando alguns factos para sustentar as suas ideias e teorias para o que deveria ser feito. Claro que este é um livro em que o autor explora a sua visão e por isso devemos tentar questionar e perceber o problema de várias formas e ângulos, mas é interessante sentir que o autor não nos força numa direção.

Este não é um livro académico, mas é uma obra que exige vontade para ganhar o conhecimento que estas páginas oferecem. Apesar de ser um livro pequeno, existe aqui muito para se aprender, desde a História do sistema financeiro, passando pelas formas como tudo está ligado e como algumas alterações que parecem simples podem ter impactos brutais. Se este tema vos interessa, está aqui um bom livro que certamente vos ensinará bastante.

Luís Pinto