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domingo, 31 de março de 2013

Espaço Leitor: O Perfume


Hoje o "Espaço Leitor" regressa após uma estreia muito boa com o texto sobre "Os Pilares da Terra", um excelente texto da Margarida Contreiras, que podem ver neste link.


O "Espaço Leitor" é um local onde qualquer leitor poderá deixar uma opinião a um livro à sua escolha. Hoje publico a opinião do escritor Carlos Reys, autor do livro Esmeralda Cor-de-Rosa, e aproveito para agradecer o seu contributo com este excelente texto!


Aproveito ainda para informar, que qualquer leitor que gostasse de ter uma opinião neste espaço, basta enviar um mail para lerycriticar@gmail.com com a sua opinião a um livro.


Espero que gostem desta opinião a este excelente livro, sobre o qual também já falei no blog.


Autor: Patrick Suskind

Título original: Das Perfum




Estamos perante uma obra de ficção em que o autor nos descreve o percurso de uma figura rocambolesca, fictícia, que aspira alcançar o Amor – ao qual não tem acesso senão após concretizar o seu sonho – e quando o alcança, momentaneamente, acaba sendo vítima dele.

 

Patrick Süskind conta-nos a história de um homem rejeitado pela Natureza que, estranhamente, não o dotou de cheiro próprio embora seja provido de um extraordinário olfacto – o que o leva a tornar-se num génio perfumista durante a vida.

A acção da história começa em Paris, no século XVIII, numa França pré – revolucionária onde se desenrola a narrativa de um homem com duas características marcantes. Uma característica do protagonista é a sua extraordinária capacidade de sentir qualquer cheiro, enquanto a outra característica reside no facto de ele não exalar odor algum. Esta dicotomia constitui, no desenvolvimento da história, um factor importante para a revelação da personalidade de Grenouille.


Abandonado pela mãe, ele cresceu entregue aos cuidados de várias amas, vivendo situações dramáticas até chegar a Madame Guillard, uma mulher que vivia das pensões atribuídas aos órfãos, procedendo à exploração das crianças e que manteve Grenouille até à idade de 8 anos. Num ambiente de todo desagradável misturado com outros órfãos e enjeitados, sofreu a indiferença destes, logo que se aperceberam do incómodo que lhes causava a sua presença e a falta do seu odor, enquanto, simultaneamente, lhes provocava medo.

Sobrevivendo a posteriores doenças que lhe deixaram marcas físicas a juntar às marcas morais de uma existência atribulada, Grenouille apercebe-se do seu isolamento e deambula pela cidade de Paris absorvendo os cheiros de tudo e de todos, inventariando e catalogando, mentalmente, uma inumerável quantidade de odores que lhe conferem um largo conhecimento e experiência para o futuro.   


O «magnífico» perfumista, mas corrompido de carácter, percorre então as lojas aromáticas onde ganha experiência na destilação de muitas essências aromáticas a fim de encontrar a fórmula ideal para a confecção dos seus perfumes. Não lhe assiste a ideia de enriquecer mas sim a ideia de seguir o seu estranho sonho; um sonho de loucura que era o de criar um perfume que despertasse o mais profundo amor em quem o cheirasse. Um amor que ele dedicou a si próprio apoderando-se do mundo da realidade que o envolvia, através de uma forma de simulação dessa realidade.

Ele procura nas próprias pessoas o odor de que necessita a partir do qual inicia as suas experiências e é no odor de mulher, que ele capta, em donzelas virgens, que incide o seu desejo, ao ponto praticar os crimes.



A personagem da história que Patrick Süskind nos descreve, assenta, pela sua índole, entre dois pólos que podemos interpretar como sendo o lado humano e o anti-humano. Humano enquanto ser vivente, carente de amor, lutador contra o desprezo a que se sente votado pelo seu semelhante; anti-humano quando, visto como um monstro, se nos apresenta como insensível e criminoso.

A leitura da obra desperta, assim, no leitor sentimentos vários desde a compaixão à admiração por Grenouill, que o autor explora, descrevendo e estabelecendo, ao longo da história, um curioso fio condutor, que leva a interpretar o comportamento do personagem, numa ascensão de interesse cada vez maior, tentando desvendar os «porquês» que frequentemente se colocam tanto no seu estranho comportamento como no seu verdadeiro carácter. 


Não é por acaso que o autor descreve, pormenorizadamente, o primeiro crime e o ultimo. O período de tempo que medeia o primeiro crime dos restantes, torna, naturalmente, o leitor mais curioso, mais ansioso pelo desfecho da obra. O autor, aqui, ganha tempo e aproveita-o na descrição de todo o esforço em que o personagem se empenha para conseguir obter o milagroso perfume que irá constituir a sua enganadora liberdade, o aroma mais sublime que fará com que os outros o amem.

O ritual a que procede depois, (…) “com alegria e serenidade” (…) junto das vítimas da sua louca ambição, constituem marcas profundas de absoluta falta de sentimentos, de crueldade, de coragem incontida, que acabam por o denunciar.


A obra de Patrick Süskind contém um final inesperado para o leitor. Este, durante a leitura, dá-se conta de uma ficção bem trabalhada com descrições da vida quotidiana de Paris do século XVIII, onde impera a miséria em que a população vive, paralelamente à vida faustosa da realeza. Repara na influência da Igreja junto do povo e na sua atitude perante situações já então difíceis de resolver como as das crianças abandonadas e órfãs, nas reacções do Poder instalado, que aqui são descritas com pormenores reveladores de uma busca intensa, efectuada por quem se preocupa com factos históricos.  

Podemos considerar que, na obra “O Perfume”, está presente uma forte simbologia associada ao protagonista da história que, sendo dono de um olfacto invulgar, apto a perceber traços de que nenhum animal seria capaz, acaba por apagar tudo o que é visual, visualizando o mundo através do olfacto.


Desprovido de sentimentos maternos, isolado e incompreendido, comete o primeiro de muitos outros crimes, em busca da essência odorífica perfeita que só ele é capaz de conseguir.

Na obra estão presentes cheiros, sabores, nuances e essências, símbolos da sua imaginação e loucura que só ele sente, vê e prevê. O sentido premonitório é uma constante nas descrições efectuadas pelo autor.

No universo de Grenouille não existem coisas nem pessoas. Ele só consegue apoderar-se do mundo da realidade que o cerca através de um simulacro da realidade – o perfume, o odor que, de modo mágico, abre para ele as portas do real sem que ele seja obrigado a conquistá-lo com amor.

Assassino de belas jovens, deixando em pânico toda uma região (…) “Foi então que o medo se abateu sobre a cidade. As pessoas já não sabiam contra quem dirigir a sua raiva impotente” (…) (pág.215) o perfumista, ao pretender fabricar, artificialmente, o aroma da pureza e do amor, está simbolicamente a “vingar-se” da falta de odor que ficou nele desde a infância, na adolescência, até à idade adulta, o que motivou o desprezo a que se viu votado. 

Nesta obra estão presentes, constantemente, símbolos e significados relacionados com a busca da essência perfeita, com a infância do protagonista, com o seu passado e com o seu futuro.


Conclusão

Ao ler o livro “O Perfume” ficamos com a sensação de que se trata de uma obra de ficção onde o autor se preocupou em prender a atenção constante do leitor, descrevendo as vivências dos aglomerados populacionais muito densos na Europa do séc.XVIII em contraste com a burguesia e o clero, ao mesmo tempo que nos descreve um personagem irreal possuído de dons irreais que faz uso dessa particularidade para alcançar o amor, que nunca sentiu, matando e não se inibindo de matar em beneficio da sua aspiração.

      

A própria obra constitui uma simbologia das fraquezas humanas, da solidão, do abandono, do desespero e ambição, retratados ao longo da história pelas mais diversas personagens e situações.

Criar um perfume capaz de produzir o efeito do amor é uma utopia que persegue o protagonista e o conduz à sua autodestruição.

«O feitiço virou-se contra o feiticeiro»

Carlos Reys

sexta-feira, 1 de julho de 2011

O PERFUME

Autor: Patrick Suskind

Título original: Das Perfum

Se pensarmos sobre os grandes mistérios da humanidade há alguns que irrompem na nossa mente ao primeiro instante: existirá Deus? Estaremos nós sozinhos no Universo? Há vida depois da morte? O que é realmente o amor?...
O amor… a reacção física e química despoletada entre seres, aquele sentimento para lá da compreensão. Quantos já falaram sobre ele? Os grandes escritores, os grandes filósofos, até os grandes físicos, mas o que é realmente, nenhum conseguiu explicar.
Muitos dizem que este livro é sobre um serial-killer, uma perfeita mistura da mente de Hannibal Lecter e a genialidade de Beethoven. Para mim este livro fala sobre amor. Passo a explicar: esta história passa-se em França, século XVIII, e conta-nos a história de Jean-Baptiste Grenouille. Estranho, atrasado na fala, quase morto à nascença pela mãe, Grenouille tem uma infância difícil, quer seja pela rejeição do meio onde vive, quer por doenças, trabalho, etc… é contudo, nos primeiros anos da sua vida, que nota como é especial, com um dom único na humanidade, o seu poderoso olfacto, capaz de sentir qualquer cheiro, de os desmantelar nos seus mais pequenos componentes e na sua mente juntá-los com outros e produzir o seu resultado. A capacidade de conhecer mais cheiros do que palavras, a capacidade de os catalogar sem sequer saber o nome do próprio cheiro. Para ele tudo o que existe tem odor, se não tiver, não existe.
É do cheiro que tira o prazer, tal como nós tiramos prazer por comer, dormir, amar… mas o seu prazer é único, arrebatador, muito mais forte do que o nosso, e se há algo que a própria humanidade nos ensinou em todos estes anos, é que o desejo de prazer nos leva à loucura.
Usando o seu enorme talento, Grenouille acaba por trabalhar para um perfumista, mas não antes de num passeio em Paris, sentir o odor perfeito. Uma rapariga… cada bocado de pele, cada cabelo, fazem-no pulsar de desejo. Depois, o cheiro perde-se, e como qualquer homem que acabara de sentir o derradeiro prazer, Grenouille torna-se obcecado por o reaver. Não faríamos nós o mesmo?
A escrita de Suskind é viciante, e reparem que num livro onde raramente existe um diálogo, tal é a imensidão de descrições, é algo a assinalar. O facto de entrarmos num mundo onde o visual é dispensável, somos brindados por infinitas descrições de cheiros e acabamos por nos perder naquelas palavras ao ponto de quase sentir o cheiro a sair de cada página. Rosas, caracóis, lama, larvas dentro de um rato morto. Todas estas descrições levam-nos a ganhar uma proximidade por Grenouille e a desejarmos que a sua busca pelo perfume perfeito seja possível. Um outro factor que me prendeu ao livro é o simples facto de tais descrições serem totalmente diferentes de todos os outros livros, pois apelam principalmente ao nosso sentido olfactivo e não ao visual.
O fim é magnífico, arrojado, forte e inesperado. A personagem principal é brilhante e a sua busca pelo derradeiro prazer leva-nos a pensar sobre o que nos dá prazer. Estaremos tão distantes da mente estranha e obcecada da personagem? Ou estaremos nós também necessitados de amor? Nós desejamos os vários tipos de prazer, mas acontece o mesmo ao sermos desejados? Não será o derradeiro prazer sermos desejados, sermos amados e ganharmos a resultante felicidade? Grenouille aprende isso ao descobrir o que é o amor, ao ter na sua mão a capacidade de o “criar”, de subjugar Generais, Reis, Papas, todo o mundo, ter na mão o maior de todos os poderes… ele está mais perto, do que qualquer outro, de resolver um dos mistérios da humanidade, mas de que serve criar o amor se não sentirmos que somos amados? Como é forte a vontade de sermos desejados, que nos toquem, que nos beijem, que nos olhem e nos façam sentir especiais. É tudo isso que Grenouille nunca teve até então.  Aliás, de que vale tudo o resto se não o formos?      
Grenouille é uma personagem fascinante numa história que deve ser lida. Um livro a não perder pela sua singularidade.