Autor: William Golding
Título original: Lord of the flies
Em 1954 William Golding (Prémio Nobel da Literatura em 1983, elevado ao título de Sir em 1988) publica este livro que imediatamente ganha um estatuto difícil de alcançar no mundo literário. Presença assídua em todos os Tops de melhores romances de sempre, O Deus das Moscas despertou a minha atenção há poucos meses. Com elevadas expectativas comecei a ler cada palavra com a maior atenção. A história desenrola-se numa ilha deserta onde um avião se despenha, deixando como únicos sobreviventes um grupo de crianças, não nos dando “imagens” quer do acidente quer do resto do mundo. Apenas mais à frente no livro nos é dado uma possibilidade do que é o mundo exterior àquela ilha, isto numa altura em que confesso, me questionava sobre o porquê de não existirem raparigas no livro. Agora ao olhar para o livro acabado de ler, penso que a não inclusão de raparigas neste mundo de William Golding tem as suas razões.
O livro começa com dois rapazes, Ralph e Piggy a explorarem a ilha após o acidente, e desde cedo se percebe que o autor tem a capacidade de nos presentear com um diálogo que só poderia sair das bocas de crianças. Este é o início do tema central do livro: até onde irá uma qualquer mente ao tocar o extremo sem estar devidamente preparada. Não revelando nada sobre a história, devo salientar como o autor nos leva para aqueles diálogos infantis de um bando desordenado de crianças que tanto poderão decidir com lógica como apenas usando o argumento “porque sim”. De salientar também como por vezes as personagens se questionam sobre como os adultos classificariam as suas acções, isto mesmo sem existir qualquer presença adulta, o que nos remete uma vez mais para a necessidade de afirmação e concretização pessoal aos olhos dos que admiramos em pequenos.
É, do início ao fim, um livro brilhante, que chega a ser aterrador ao observarmos como aquelas crianças que por um momento caminham na direcção certa, para mais tarde toda a organização se desmoronar graças a uma imaginária suspeita que levará a um medo bem real e corrosivo. Pelo meio vemos a necessidade de afirmação de qualquer ser humano ao viver em comunidade ou a de submissão originada por traumas latentes no passado de cada um. Aos poucos o livro torna-se aterrador por um lado ao ser óbvio que já não há caminho a seguir por aquelas crianças, e por outro lado ao levarmos uma chapada na cara por sabermos o quanto este livro é uma metáfora para o verdadeiro mundo que todos conhecemos onde podemos questionar até onde iríamos cada um de nós se todas as nossas acções ficassem impunes.
Um livro perturbador, com uma escrita sublime e momentos que não esquecemos tão cedo. Não é um livro para crianças, nem para a maioria dos adolescentes, mas é indiscutivelmente um livro que ninguém deveria perder.