Mostrar mensagens com a etiqueta Philip K. Dick. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Philip K. Dick. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

VALIS


Autor: Philip K. Dick




Sinopse: O que é Valis? 
É esta a pergunta central do romance de Philip K. Dick.
Quando um raio cor-de-rosa começa a causar visões esquizofrénicas em Horselover Fat, e lhe são reveladas visões de uma Terra paralela onde o Império Romano ainda prospera, ele tem de decidir se enlouqueceu ou se uma entidade divina lhe está a mostrar a verdadeira natureza do mundo.
Valis é, além de um romance de leitura obrigatória para qualquer fã de Philip K. Dick, o livro que Robert Bolano considerou "mais inquietante do que qualquer romance Carson McCullers". 
No final, o leitor fica a pensar no que é real ou ficção, e no preço da inspiração divina. «Philip K. Dick é um dos dez melhores escritores americanos do século XX, uma espécie de Kafka mergulhado em LSD e raiva.»



Todos aqueles que já leram Philip K. Dick sabem que estamos perante um trabalho que nos levará a mente a pensar de forma diferente, a questionar tudo, a ponderar a nossa participação na leitura enquanto leitores. Poucos autores tiveram a capacidade de nos oferecer tantos livros tão diversificados e mais mesmo tempo tão unidos pela capacidade de nos enganar, de nos iludir e nos levar a pensar.

Tal como se esperava, temos aqui uma história onde tudo é questionável, porque mesmo um leitor que não conheça PKD acabará por perceber que muito do que está a ler pode, ou não, ser a própria realidade do livro. Cada página é uma pista, um desenvolvimento que nos empurra para novas questões enquanto a história avança com inteligência. 

Com o enredo a explorar uma história singular, PKD usa a sua escrita bem trabalhada e inteligentemente confusa enquanto nos apresenta personagens bem criados, profundas e que elevarão o enredo para outro estatuto, onde deixaremos apenas de questionar, mas também a interiorizar a crítica social e moral que PKD explora.

Envolto em mistério e dúvidas, PKD explora a nossa própria condição humana, como vemos o nosso mundo e o quanto a nossa realidade foi criada por pormenores aos quais nem sempre damos valor ou importância, mas que tiveram e ainda têm um impacto enorme na nossa sociedade. E é envolvidos nesta nuvem que avançamos num livro que nunca nos dá as respostas todas, que nos "frita" a mente e que se torna numa experiência que não esquecemos tão cedo, tal como todos os outros livros deste autor.

Se são fãs deste género de livros, onde a nossa própria percepção é alterada a cada capítulo, então este é um livro a ter, tal como outros de PKD.

Luís Pinto


quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O HOMEM DO CASTELO ALTO


Autor: Philip K. Dick

Título original: The Man in the High Castle


Em primeiro lugar, aproveito para enaltecer o ensaio de Nuno Rogeiro que nos é dado no início do livro, sobre o autor e as suas obras. Penso que é uma mais valia para esta edição e ajuda à compreensão da história que lemos a seguir.

Escrever sobre Philip K. Dick será sempre um desafio para mim. Poucos autores foram tão "estudados" quanto PKD, não só graças aos seus mundos complexos, mas também aos vários significados que as suas histórias podem transmitir.

Considerado o melhor romance de história alternativa escrito até hoje, esta obra é mais do que isso. É mais do que um enredo que difere do nosso actual presente após um desvio num passado comum. PKD escreveu um romance intemporal onde se mistura uma singular visão sobre o que é um ser humano, a forma como o divino actua no nosso mundo, envolto num cenário quase paradoxal.

Roosevelt morre na década de 30 e os EUA não recuperam da Grande Depressão, não conseguindo evoluir enquanto potência militar e ajudar na luta contra a Alemanha Nazi e Japão. Aqui o Eixo venceu a guerra e os Aliados perderam. Tendo este cenário como base, PKD cria cinco personagens complexas e distintas, que ironicamente olham de forma diferente para o mesmo caminho. PKD apresenta a sua escrita cheia de significados, e o leitor recebe constantes "murros no estômago" perante os quase imperceptíveis significados nestas páginas, onde nos mostra a impotência da vida perante a morte, ou ainda como um insignificante acto pode alterar milhões de vidas.
Todos nós já questionámos como agora seria se um determinado momento tivesse sido diferente. Nós questionamos isso quando lemos este livro, enquanto as personagens também o questionam, e aos poucos, torna-se explícito como cada uma delas, ao esconder o que são perante os outros, estão à procura delas mesmas. E será que cada um de nós, não faz também um pouco esta "ginástica"?

Apesar de o enredo ter como base a vitória do "Mal" perante o "Bem", o livro não apresenta a escuridão que eu esperava. Aliás, o livro é cheio de gloriosas possibilidades, todas elas disfarçadas num pensamento, ou num grito de revolta! O mundo construído pelo autor é fantástico, principalmente pela forma como a mentalidade das pessoas está fantástica e coesa, onde a dúvida está sempre presente, muito graças a uma manipulação eficaz.

Basta acreditar em algo para que se torne real?

Num livro que parece uma matrioska onde uma realidade esconde outra, que por sua vez esconde outra, a percepção da realidade pelas personagens é a chave para a forma como nós lemos esta história. E enquanto somos manipulados pelos vários segredos ou ignorância que cada personagem revela, vemos a manipulação das massas a ser feita a partir da intervenção de grandes narradores políticos, que levam o povo a olhar para certas opções dos governos como algo necessário, por mais bárbaro que seja.

...Verdade Interior...

Pelo meio devo ainda comentar a forma como PKD reduz a sociedade/cultura americana a algo que apenas existiu e não passa de uma memória assente em objectos, sendo agora valorizada pela facto de não existir. Fantástico como o Homem tem a tendência para valorizar mais o que existiu, levando-me a recordar uma frase em que J. R. R. Tolkien nos diz que o Homem construiu túmulos mais luxuosos do que as casas dos vivos.

Afinal o que é real? Poderá a nossa mente enganar-nos? Poderá o Universo iludir-nos? 

Podia estar o resto do dia a falar sobre esta obra. A história é boa, num mundo fantástico. As personagens estão muito bem construídas e as últimas páginas são arrepiantes, deixando-me vários minutos a pensar no que acabara de ler. PKD foi um génio! Foi um escritor que nos fez ver o Tempo, a vida, a morte e os medos de uma outra forma, mas principalmente, nos fez ver, em quase todas as suas obras, que o Homem vive pelas suas necessidades, todas diferentes, e todas iguais.

Um dos melhores livros que já li.

Aproveitem ainda para votar no blog Ler y Criticar para melhor blog do ano. Vê como neste link.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

BLADE RUNNER - Perigo Iminente

Autor: Philip K. Dick


Título original: Do Androids dream of electric sheep?


PKD é um dos autores mais importantes da ficção-científica e indiscutivelmente um dos que levou a ficção-científica às massas, muito graças às várias adaptações feitas para o cinema a partir das suas obras.
O seu grande sucesso é o livro O Homem do Castelo Alto, talvez o melhor livro de sempre no seu género, tornando-o num autor reconhecido, mas a popularidade vem com este livro, passado para o cinema com o nome Bale Runner.
 Mais tarde PKD lança livros como este Do Androids dream of electric sheep?, Ubik, A Scanner Darkly, entre muitos outros. As adaptações ao cinema são muitas: Blade Runner, A Scanner Darkly, Total Recall, Relatório Minoritário, Pago para Esquecer, The Adjustment Bureau, e a lista continua...

A primeira coisa a dizer é: esqueçam o filme no caso de o terem visto. Uma das ideias bases do livro é o que move o filme, mas o livro é, sem qualquer dúvidas, muito mais complexo, muito mais profundo. Resumindo: muito melhor do que a muito boa adaptação de Ridley Scott.

Num mundo apocalíptico, em que a maioria dos humanos vive noutros planetas, os que ficaram na Terra estão rodeados por um mundo onde não existem outras formas de vida, ao ponto de um animal ser o mais caro dos sonhos. Ao entrarmos neste mundo percebemos que o título original do livro é a pergunta que remete para todas as outras: Os Andróides sonham com carneiros eléctricos? O nosso personagem principal, Rick Deckard, sonha com um animal verdadeiro, mas a falta de dinheiro obriga-o a ter apenas um carneiro eléctrico: réplica perfeita do animal, mas eléctrico, e mais barato. Mas Rick sonha com outro ser vivo, com o qual se possa ligar. É isso que o difere dos Andróides: a empatia com o que te rodeia. Mas será essa diferença tão importante?

Aquilo que este livro nos pergunta, de forma indirecta, é: O que distingue um humano de um andróide? O que significa ser humano? Um andróide, fisicamente igual, com igual capacidade de processamento que o nosso cérebro, estaria muito longe da nossa capacidade de pensar, sentir e reagir? Será amar algo mais que não se consiga apenas com maior capacidade de processamento?
Estará a base do processamento do nosso cérebro tão longe do processo binário da actual inteligência artificial? Se não.. então os andróides são seres vivos? O que é estar vivo? Sentirá um andróide a necessidade de amar, ou de acreditar em Deus? Se o Andróide tem consciência de que irá morrer enquanto tem consciência que existe; isso não será o suficiente para também ele estar vivo?
Daqui a muitos anos, estas perguntas serão as mais importantes...

Este livro é o exemplo básico de como um livro de ficção-científica consegue tocar em temas complexos, não tendo respostas para muitos. É obrigação do leitor pensar e tentar perceber o que este livro lhe tenta transmitir. Temas como paranóia, crise de identidade, depressão, auto-confiança, estão presentes; mas também o poder da religião, com toda a esperança e cegueira que provoca. E ainda de forma muito indirecta, este livro fala sobre a morte: esta muda tudo. Muda todas as sensações, todas as perspectivas, e um andróide sabe quando vai morrer. Que vida diferente deve ser, ter tal conhecimento.

A escrita usada neste livro pode ser um entrave a alguns leitores, pela sua falta de emotividade. Eu adorei tal facto, pois leva o leitor a ter uma noção do mundo mais próxima da que os Andróides têm, sem a empatia do que os rodeia. É, consequentemente, difícil ter uma ligação com a personagem principal e muito menos encontrar qualquer beleza neste mundo... tudo genial e que encaixa de forma perfeita na história.

O fim será certamente uma mistura de sensações, e acredito que cada leitor a verá de forma diferente. Cada um tirará as suas conclusões, mas todos poderão dizer o mesmo: por mais que faças, tudo se torna insignificante a uma escala suficientemente superior. E o universo é muito grande...


Este livro é obrigatório, por todas as questões que levanta, por tudo o que PDK criou, pela singular religião, pelo mundo, pela forma como as pessoas olham os animais... resumidamente, por tudo. Qualquer pessoa, fã ou não do género, deverá um dia ler este livro, e perguntar-se: faria eu o mesmo que Rick Deckard? Talvez a necessidade de proximidade com algo vivo seja essencial à concretização pessoal e consequente felicidade.
Obrigatório!