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quinta-feira, 8 de novembro de 2018

OS DEZ ESPELHOS DE BENJAMIN ZARCO


Autor: Richard Zimler



Sinopse: Benjamin Zarco e o seu primo Shelly foram os únicos membros da família a escapar ao Holocausto. Cada um à sua maneira, ambos carregam o fardo de ter sobrevivido a todos os outros. Benjamin recusa-se a falar do passado, procurando as respostas na cabala, que estuda com avidez, em busca daquilo a que chama os fios invisíveis que tudo ligam. E Shelly refugia-se numa hipersexualidade, seu único subterfúgio para calar os fantasmas que o atormentam.
Construído como um mosaico e dividido em seis peças, Os dez espelhos de Benjamin Zarco entretecem-se entre 1944, com a história de Ewa Armbruster, professora de piano cristã que arrisca a vida para esconder Benni em sua casa, e 2018, com o testemunho do filho de Benjamin acerca do manuscrito de Berequias Zarco, herança do pai, talvez a chave para compreender a razão por que Benjamin e Shelly se salvaram e o vínculo único que os une.



Richard Zimler é um autor que aprecio imenso e, sempre que lança um livro, tento ler de imediato. Zimler tem uma capacidade rara de me ligar às personagens, com momentos emotivos, decisões impossíveis e questões morais que alimentam o livro e o seu avanço. Aqui, Zimler volta a surpreender com uma história que se prolonga por vários anos e que aprofunda brutalmente algumas personagens, com uma sensibilidade fantástica e que ficará para sempre na nossa memória.

Gostei bastante das personagens, profundas, muito diversificadas, principalmente no enorme contraste entre Benjamin e Shelly na forma como vivem, como se ligam a pessoas, como planeiam o futuro e como questionam a religião. São camadas e camadas de personalidade que vamos desvendando, como se fosse uma investigação sobre as personagens.

Com uma escrita, por vezes simples, por vezes complexa, mas sempre ideal para o momento em si, Zimler agarra o leitor com as suas personagens, com as suas decisões e, principalmente, pela forma como estruturou a narrativa. Vamos conhecendo estas personagens aos poucos enquanto fazemos as ligações que nos são dadas. É quase como um puzzle em que vamos conhecendo os medos, os objetivos, os traumas das personagens. Quais são os seus sonhos? Com um passado terrível, o Holocausto está sempre agarrado a estas personagens, e aos poucos este livro torna-se numa história de amizade, de procura por significado mas também pelo o que fazer na vida, o que procurar, o que tentar alcançar. É uma história sobre o quando o nosso passado nos muda, sempre presente, capaz de nos empurrar por caminhos diferentes mesmo muitos anos depois.

Este pode não ser o melhor livro de Zimler, mas uma coisa é certa: a qualidade está aqui presente numa história emocional, quase perturbadora, mas que é uma imagem realista e que deve ser observada. Se o tema vos interessa, então este é um livro a ter neste natal, e que vos fará olhar de forma diferente para a vida que se segue mas, principalmente, para o passado.

Luís Pinto


segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Espaço Leitor - O último cabalista de Lisboa


Hoje regressamos ao Espaço Leitor para mais uma análise da Margarida Contreiras, que decidiu escrever sobre um livro que me parece bastante interessante. Fica aqui a sua opinião e acredito que um dia também irei ler este livro, e, se possível, falar aqui sobre ele.
Autor: Richard Zimler

Título original:The last Kabbalist of Lisbon



O título sentencia um genocídio, desafiando-nos ao mesmo tempo a pensar quem terá sido o último cabalista de Lisboa. Bastará a leitura de algumas páginas para nos apercebermos de que o sujeito é precisamente aquele que, na primeira pessoa, nos conta esta história: Berequias Zarco – nome próprio e coletivo que representa simultaneamente um homem e um povo. Este livro traz à superfície do tempo as lembranças de vida de um cabalista que intencionalmente nos quer demonstrar a desgraçada vivência das minorias na Lisboa manuelina.

O livro é uma memória.

Com este romance, Richard Zimler compartilha uma lembrança perdida no bairro judeu da antiga Constantinopla e com ela transporta-nos à Lisboa quinhentista, preconceituosa, impiedosa e ignorante. Leva-nos à era dourada dos Descobrimentos, uma epopeia grandiosa o suficiente para nela caber novidade, exotismo, riqueza e extravagância concomitantes e contrastantes com doença, sangue, seca e fumo. Percorremos mais um capítulo da fatídica história do povo judeu, desta vez, conduzidos por um seu congénere que nos convida a visitar o seu próprio trajeto de onde avistamos um holocausto tardo-medieval, capaz de provocar uma espécie de vergonha ancestral até mesmo na bem-aventurada identidade coletiva do povo de Camões.

O elenco enriquece a narração. As personagens conseguem representar simultaneamente valores e faltas, como se cada uma delas ali estivesse para assegurar a predominância do bem e do mal mas recordando-nos constantemente a nossa condição falível de humanos. O protagonista Berequias é a bravura e a força, embora a sua fé seja instável. A personagem que gera a intriga é também a que está mais ausente: mestre Abraão, que cultiva o exemplo da espiritualidade, fraternidade e do bom senso, mas que peca também pela ingenuidade. Por fim, Farid, o mouro que segue todos os passos do protagonista, encarna a lealdade, o amor e o altruísmo.

A obra cativa o leitor muito para além do choque do sadismo criativo, tão comum na abordagem deste argumento. O entusiasmo da própria história é constantemente avivado com laivos de suspense, perseguição e fuga de índole policial, tornando-a num romance multifacetado que faz correr página após página na expectativa do desfecho. É também a limpidez da narração e a entrega da informação ao leitor de forma íntegra, lúcida e verdadeira que nos permite tomar consciência de um realismo inquestionável. A linha do tempo segue a lógica cronológica, salvo pequenos apontamentos de flashback, pelo que o leitor acompanha a história a um ritmo compassado, tornando a leitura agradável e interessante. O rigor histórico projeta-nos violentamente cinco séculos para trás até uma realidade crua, onde também travamos conhecimento com pequenos e grandes recantos da nossa capital varridos pelo grande tremor de terra setecentista. As linhas frias da narração permitem-nos alcançar a assolação do poder opressivo, levando-nos às mais recônditas camadas psicológicas deste povo ferido que, com um novo nome, vestia uma mentira desestabilizadora da sua própria fé. Nesta história, que devemos considerar História, jazem os padecentes da Inquisição. Jazem as suas histórias silenciosas, as suas forças desgastadas e o seu fim ignoto.  

Afinal, quem foram os últimos cabalistas de Lisboa? Onde foi – onde está – a gente judia que dobrou as esquinas de Alfama? Que as abandonou? Que nelas pereceu? E acima de tudo, que nelas morou? A judiaria perdeu-se nas fogueiras da Inquisição e do terramoto. O povo desapareceu: mudou de nome, de residência ou de dimensão.

O último cabalista de Lisboa tem um nome – um nome próprio – e esta é a sua história. Consideremo-la também a história de todos os nomes sem nome, distantes o suficiente ou desfigurados o suficiente para nunca mais os alcançarmos.

Opinião feita pela leitora Margarida Contreiras

domingo, 6 de abril de 2014

A SÉTIMA PORTA


Autor: Richard Zimler

Título original: The Seventh Gate



Sinopse: Em 1990, Richard Zimler encontrou, numa cave de Istambul, sete manuscritos do século XVI escritos pelo cabalista Berequias Zarco. Um deles narrava o pogrom de Lisboa e o autor utilizou-o para cenário do seu livro O Último Cabalista de Lisboa. Mas, o que revelavam os outros seis manuscritos?
Em Berlim, na década de trinta, Isaac, um descendente de Berequias Zarco e detentor dos manuscritos, está determinado a descobri-lo. Convencido de que o pacto entre Hitler e Estaline anuncia uma profecia apocalíptica prestes a concretizar-se, Isaac Zarco procura arduamente descodificar aqueles textos cabalísticos medievais para assim salvar o mundo.
Passado durante a ascensão de Hitler ao poder, e coincidente com o período da perseguição nazi aos portadores de malformações físicas, A Sétima Porta junta Sophie Riedesel – uma jovem ousada, sonhadora e ambiciosa – a um grupo clandestino de ativistas judeus e antigos artistas de circo liderado por Isaac Zarco, numa luta contra as políticas antissemitas. Mas quando uma série de esterilizações forçadas, estranhos crimes e deportações dizimam o grupo, Sophie ergue-se num combate solitário contra aqueles que ameaçam destruir tudo o que ela mais ama na vida.
Um romance emocionante carregado de simbolismo e uma verdadeira lição de História e de humanidade sobre as muitas vítimas sem rosto de um dos regimes mais implacáveis de todos os tempos.



No início, as suas mais de 600 páginas podem afastar alguns leitores, mas que rica leitura esta obra é. Zimler, autor que nunca tinha lido, escreve com uma "força" e um toque poético que agarram o leitor até lhes mostrar que a sua objetividade e a sua clareza serão o grande momento do livro. Zimler não trava a necessidade de nos mostrar o melhor e o pior que a humanidade é capaz de produzir, e é esse o grande trunfo deste livro.

Inicialmente não me foi fácil "entrar" no livro. Zimler começa lentamente, criando uma base que servirá de forma perfeita a este livro. São várias as personagens que Zimler cria com grande qualidade, não só pela coerência, mas principalmente pela criação de passados, traumas e motivações que ajudam a explicar as decisões das personagens, tornado o enredo mais sólido.

O que mais me agradou neste livro é o facto de o enredo ser sobre amor. Vários tipos de amor, se for possível distingui-los, quer seja entre pais e filhos, amigos, ou namorados. É sobre esse sentimento que nos faz querer viver e continuar a lutar, numa época em que a humanidade se encontra numa fase tão negra quanto foi a 2ª Guerra Mundial. Zimler explora vários temas e factos desta época, desde as perseguições a deficientes e judeus, passando pela aceitação ou resignação de muitos alemães perante a campanha de Hitler. O autor não é brando nas suas descrições, tenta impressionar o leitor e cria-se uma ligação de preocupação com as personagens que lutam para alcançar o que mais parece uma miragem.

A complexidade das personagens deve ser assinalada. Houve um ou outro momento em que pareceu existir alguma incoerência, mas no fim do livro essa sensação já não existe, pois Zimler consegue explicar, mesmo que indiretamente, as decisões que tomou para as suas personagens, até chegar a um final muito bem conseguido. 

Sempre gostei bastante de livros sobre esta época. Zimler tem a qualidade de escrever com a força que tal época exige. Este não é um livro brando, é uma obra marcante e que deve ser aplaudida pelo facto de Zimler arriscar na forma como expõe a perseguição Nazi aos deficientes e Judeus. No global estamos perante um livro muito completo: bom enredo, personagens de grande qualidade, narrativa forte e complexa. Zimler espantou-me desde as primeiras páginas e certamente voltarei a ler os seus livros. Se gostam do género, este é um livro totalmente recomendado.

Luís Pinto