quinta-feira, 14 de junho de 2018

A RESIGNAÇÃO


Autor: Luís Miguel Rocha



Sinopse: Em dezembro de 2012, Bento XVI recebeu de uma comissão de cardeais um relatório de 300 páginas sobre o mediático caso “Vatileaks”.
Dois meses depois, no dia 11 de fevereiro de 2013, evocando razões de saúde, e ciente da gravidade da sua decisão, o Papa anunciou ao mundo que resignaria ao trono de São Pedro. Não se sentia capaz, física e espiritualmente, para continuar a exercer o cargo.
Que segredos comprometedores guarda o extenso relatório? A resignação terá acontecido por razões de saúde, como o Bento XVI anunciou, ou por pressões políticas que jamais serão tornadas públicas?
Os mistérios de tão inesperada decisão serão agora revelados.



Luís Miguel Rocha, autor que nos abandonou demasiado cedo, no ano de 2015, foi um autor que mereceu todo o sucesso que teve, não só pela sua simpatia e humildade, mas também pela grande qualidade dos seus livros, que rivalizam, em termos de qualidade, com grandes escritores do seu género.

Este livro, o primeiro livro de ficção lançado após a sua morte, tem uma base muito interessante que poderão ler na sinopse. A partir daí, e com uma interessante e viciante forma de explorar toda a investigação que terá feito, LMR avança, como de costume, com inteligência num enredo que tem tudo para nos deixar agarrados. Dúvidas, conspirações, política, jogo de interesses... um bocadinho de tudo num livro bem montado e que, apesar de não ser o seu melhor, consegue ser muito bom, e um dos melhores livros que li deste género neste ano que agora vai a meio.

Gostei dos personagens principais, alguns um pouco óbvios, outros com a capacidade de me surpreenderem com decisões coerentes mas inesperadas. Pelo meio, ação e ritmo intenso, com os diálogos a serem objetivos o suficiente para não cortarem a velocidade de leitura. Claro que existem alguns momentos mais forçados, montados de forma a deixar-nos na dúvida e que em alguns casos poderiam ser sido feitos de forma diferente, mas no global este é um enredo coerente, e que desde o primeiro momento sabe para onde vai.

Globalmente este é um livro bem estruturado, bem pensado e que usa uma base vencedora. É muito fácil ficarmos viciados nestas páginas e mesmo sabendo que conseguiremos adivinhar algumas das coisas que irão acontecer nas páginas seguintes, iremos ler sem parar, esperando que a conspiração se revele, enquanto se criam novas dúvidas. Como já disse, este não é, em termos de qualidade, o melhor livro de LMR, mas se gostam dos livros do autor, então esta obra tem de estar na vossa estante. Muito viciante!

Luís Pinto


quarta-feira, 13 de junho de 2018

OS HUMANOS


Autor: Matt Haig

Título original: The Humans




Sinopse: E se a terra fosse o planeta mais absurdo do universo? O professor Andrew Martin, génio matemático, acaba de descobrir a chave para os maiores mistérios do Universo.
Ninguém sabe do salto que isto representará para a Humanidade… exceto seres evoluídos de outro planeta. Determinados a impedir que esta revelação caia nas mãos de uma espécie tão primitiva quanto os humanos, estes seres enviam um emissário para destruir as provas. E é assim que um alien intruso, completamente alheio aos costumes, chega à Terra. Rapidamente, ele descobre que os humanos são horrendos e têm hábitos ridículos — comida dentro de embalagens, corpos dentro de roupas e indiferença por trás de sorrisos… Esta espécie não faz sentido!
Durante a sua missão, sob a pele e identidade de Andrew Martin, este alien sente-se perdido e odeia todos os terráqueos. Exceto, talvez, Newton, um cão. Contudo, quanto mais se envolve com os que o rodeiam mais fica a perceber de amor, perda, família; e de repente está contagiado: será que afinal há qualquer coisa de extraordinário na imperfeição humana?


Quando li esta sinopse, e sabendo que o livro era de Matt Haig, percebi que não poderia deixar passar a oportunidade de ler este enredo. Tal como noutros livros, Haig tem um escrita inteligente, objetiva e capaz de nos fazer sorrir.

Se lerem a sinopse, perceberão que a base é quase absurda ou bizarra, mas também de imediato percebemos que tem muito para dar. A ideia, original, é claramente uma base que pode ser bem usada para explorar a nossa natureza mas também a nossa sociedade. E é exatamente isso que este enredo faz, porque explora, aprofunda, critica e olha para nós de forma diferente, ingénua, pouco condicionada ao que nos é incutido durante anos. E é assim que este livro se torna bom, porque o autor consegue abstrair-se dos preconceitos da sociedade, tanto os bons como os maus, para explorar o que nos rodeia, e com isso o leitor é levado a pensar.

Tal como, por exemplo, Douglas Adams fez em "À boleia pela galáxia", também Haig diverte mas sem nunca deixar de alimentar um espírito crítico que torna a leitura adulta e inteligente. A capacidade de analisar e criticar com inteligência é um trunfo de alguns escritores e aqui Haig demonstra que tem essa capacidade. O enredo em si é bom, pensado e com tanto de coerente como de absurdo, mas sem nunca deixar de seguir o seu propósito, que é oferecer ao leitor uma visão diferente do que é a nossa sociedade e, principalmente, do que é ser humano e no limite, ser vivo. Amor, ódio, ganância, inveja, mentira, são tudo capacidades que, apesar de não serem exclusivas nossas, são reformadas na nossa essência humana, e é isso que Haig aprofunda, com um livro soberbo.

Luís Pinto


segunda-feira, 11 de junho de 2018

O CAÇADOR


Autor: Lars Kepler

Título original: Kaninjägaren



Sinopse: A noite tinha acabado de cair, quando Sofia entra numa mansão nos arredores de Estocolmo, onde o seu cliente - um homem muito abastado que nunca viu - a espera. Talvez seja por isso que Sofia avança furtivamente, como um animal selvagem. Enquanto atravessa o grande salão, tentando memorizar todos os detalhes, Sofia não imagina quem é o homem que a escolheu para aquela noite. Nem ele imagina que dentro em breve se encontrará frente a frente com um assassino implacável e meticuloso, que não deixa vestígios nem pistas.
Limitar o círculo de eventuais alvos torna-se um verdadeiro pesadelo para a Polícia, embora na mira se encontrem personalidades proeminentes do país. E, para tentar resolver o mistério, a Polícia terá de contar com a ajuda do ex-comissário Joona Linna, há dois anos a cumprir pena na prisão de alta segurança de Kumla. Infiltrado e trabalhando em estreita parceria com a agente especial Saga Bauer, Joona Linna tudo fará para travar «o caçador» antes que seja tarde de mais ou que o caçador os cace a eles…



Um dos mais famosos nomes dos policiais está de volta, Lars Kepler. Uma vez mais, o livro foca-se em Joona, o já famoso personagem da saga que tem ganho fãs por todo o mundo.

Este é, tal como os livros anteriores, um livro que vai aumentando a intensidade durante a leitura. A narrativa é feita para nos deixar sempre com dúvidas e para criarmos a nossa investigação, com pontas soltas dispersas que aumentam a necessidade de ler. Para quem já tenha lido alguns livros de Kepler, poderá encontrar os mesmos erros que nos livros anteriores, principalmente na forma como força certas incertezas ao cortar a narrativa no momento em que algumas perguntas deveriam ser feitas. Este é um truque bastante usado pelos escritores, e Kepler não foge à regra. O enredo é bem construído, mas, novamente, sinto que existem aqui saltos que não fazem sentido, sendo apenas feitos para obrigar o leitor a continuar a ler.

Pelo meio, continuo a gostar bastante da personagem principal. Joona tem crescido e sido aprofundado a cada livro, sendo o grande trunfo do enredo, principalmente pela forma como encara certas situações e como o próprio enredo encaixa na sua personalidade. O livro é feito para ele, e tal nota-se com facilidade.

Um dos aspetos mais positivo deste livro é o seu ritmo, apesar de por vezes não ajudar à qualidade do enredo. Kepler cria uma narrativa intensa e que nos obriga a continuar a ler e com isso alguns momentos são forçados, outros são mal explicados e outros são surpreendentes, levando-nos a continuar. E é assim que este livro avança, de forma frenética, viciante, mas com alguns erros. Aliás, Kepler sempre teve erros em todos os seus livros, afastando-os da qualidade de livros de culto e obras primas, mas também sempre conseguiu ser intenso e viciante o suficiente para criar a legião de fãs que tem por todo o mundo. O que quero dizer com isto é que se gostam de Kepler, aqui está mais um livro que irão apreciar bastante, com algumas reviravoltas interessantes, mas também é verdade que alguns momentos do livro são forçados para não nos darem tempo para questionar algo que na realidade não está bem.

Se gostam de Lars Kepler, então este livro é para vocês, pois tem todos os ingredientes que tornaram esta saga famosa, e que, provavelmente, não acabará por aqui.

Luís Pinto


segunda-feira, 4 de junho de 2018

A GUERRA FRIA: Uma História do mundo


Autor: Odd Arne Westad

Título original: The cold war - A world History





Sinopse: «A Guerra Fria não decidiu tudo, mas influenciou a maior parte das coisas, com frequência para pior: o confronto ajudou a cimentar um mundo dominado por superpotências, um mundo em que o poder e a violência - ou a ameaça de violência - representavam a bitola pela qual se regiam as relações internacionais, e em que as crenças tendiam para o absoluto: só o nosso sistema era bom. O outro era, inerentemente, maléfico. Estava montado o palco para uma competição intensa, em que o objetivo era, no limite, a sobrevivência do mundo.»



Este é, muito provavelmente, o melhor livro que li sobre este tema. Numa obra grande e densa, o autor explora como poucos o que aconteceu na época da guerra fria e, principalmente, os efeitos que se sentiram durante anos (e que ainda estamos a sentir).

Com uma escrita direta e capaz de nos dar um enorme contexto e conhecimento, o autor monta lentamente um livro que tenta abordar todos os assuntos relativos à guerra fria, criando, obviamente, um livro lento mas cheio de conhecimento a cada página. O resultado é um livro que demora a ser lido, mas que nos ensina bastante com grande facilidade, pois o autor investe bastante da sua escrita a dar contexto ao leitor para que não se sinta perdido. 

Com uma montagem excelente, criando um bom fluxo de leitura, o autor demonstra um grande trabalho de investigação e um conhecimento profundo que tem como resultado a capacidade de criar uma leitura que apesar de abordar um tema tão vasto, consegue ter um caminho lógico, não sendo uma leitura "esparguete". O resultado final é um livro que apenas agradará ao que tenham bastante interessante pelo assunto e queiram um conhecimento profundo do mesmo, mas para os que lerem todas as páginas, irá compensar.

Não existe muito mais que possa dizer sobre este livro. A verdade é que aprendi bastante sobre o tema e recomendo-o a qualquer leitor que goste do assunto e se sinta com coragem para mergulhar nestas centenas de páginas. Se é o vosso caso, então é um livro obrigatório.

Luís Pinto

quinta-feira, 24 de maio de 2018

SEM SAÍDA


Autor: Taylor Adams

Título original: No exit



Sinopse: Uma forte tempestade de neve.
Darby Thorne é uma estudante universitária que se encontra a viajar de carro no meio das Montanhas Rochosas, desesperada para ir ter com a mãe ao hospital. Quando é atingida por um forte nevão, Darby é obrigada a permanecer numa área de repouso junto à estrada.
Quatro estranhos e uma criança raptada. Darby percebe que terá de pernoitar ali, juntamente com quatro estranhos. Até que descobre uma menina numa jaula dentro de um dos carros estacionados em frente à área de repouso. Quem é aquela criança? Porque se encontra presa? E qual dos quatro estranhos será o raptor?
Sem saber em quem confiar, o que fazer?
Não há rede de telemóvel, as linhas telefónicas não funcionam e não há por onde fugir, pois as estradas encontram-se cortadas devido à tempestade de neve.
Em quem poderá Darby confiar e como irá ela salvar a criança?



Achei a sinopse deste livro diferente do normal e decidi começar a ler. O género thriller está na moda e são muitos os novos autores que têm conseguido captar a atenção dos leitores, mas nem todos primam pela originalidade. Foi, provavelmente, por esse motivo que decidi ler estas páginas.

Globalmente, foi uma aposta muito positiva, mas vamos por partes. O autor tenta desde o início levar o leitor a consumir estas páginas sem parar, não nos dando tempo para questionar algumas coisas que podem parecer algo forçadas. A ideia é empurrar o leitor para um estado de total desconfiança, algo que o autor consegue com facilidade, e é aí que está o trunfo do livro. Com o ritmo elevado, o leitor não capta algumas inconsistências que o autor é obrigado a cometer para aumentar o suspense. Todavia, na segunda metade do livro os acontecimentos começam a encaixar, tornando o enredo mais coerente e inteligente. 

Outro aspeto interessante está na narrativa. A forma como o autor vai escrevendo as páginas torna tudo uma montanha russa de suspense e desconfiança, não só porque desconfiamos de todas as personagens, mas também da forma como o autor explora a própria história. Sendo um thriller que se desenrola durante muitas páginas num só local, gostei da forma como o autor explorou as personagens para que a ação não se tornasse demasiado repetitiva devido ao facto de estarmos perante poucas personagens. Para tal, o aprofundar das personagens é essencial, não só para percebermos as motivações e receios das mesmas, mas também para que certos valores morais encaixem com algumas decisões que de outra forma poderiam parecer forçados.

Com um final sempre a acelerar, gostei da forma coerente mas também arriscada com que o autor acaba este enredo. Ao olhar para trás, muito faz sentido se nos lembrarmos de alguns pormenores que fazem a diferença. Por outro lado, o suspense conseguiu agarrar-me ao ponto de ter lido o livro a grande velocidade. O resultado final foi uma leitura bastante viciante e intensa, algo que me surpreendeu. Se este é o vosso género, têm aqui uma leitura original e que vale a pena.

Luís Pinto