quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Rio 2016 - Bronze que veio do suor




O Ler y Criticar nasceu há mais de 5 anos, e durante todos esses dias, apenas fiz análises de livros e passatempos, num total de mais de mil artigos. Hoje, no entanto, vou abrir a primeira excepção. Vou falar sobre outra coisa que não um livro. Vou falar sobre os Jogos Olímpicos.

Os Jogos Olímpicos são o maior evento desportivo do mundo. De forma natural quebra barreiras, alimenta sonhos, torna o mundo em algo melhor, nem que seja dentro daquela aldeia onde os atletas ficam. Em que outro local do mundo vemos todas as nações, juntas, a promoverem um mesmo espírito, um mesmo objetivo? Enquanto o mundo continua nas suas guerras, nos seus interesses políticos, financeiros, etc... aqui vemos duas atletas, cada uma da sua Coreia, a abraçarem-se. Vemos Oriente e Ocidente juntos. Todas as raças, todas as religiões, juntas, a abraçarem-se no final de cada prova. Vemos sonhos concretizados quando os jovens que há dez anos tiraram fotos com os seus ídolos, agora enfrentam-nos. E, por isso, os Jogos Olímpicos são mais do que medalhas.

No entanto, é sobre as medalhas que se fala, porque é uma competição e todos queremos ganhar. E em Portugal trata-se de um tema delicado, onde povo exige medalhas e os atletas pedem condições. Esta é a imagem que se passa, mas é muito mais do que isso. Reduzir o trabalho dos atletas às medalhas que conquistam é injusto. Este ano a única medalha que tivemos foi da Telma Monteiro e agora muitos falam de fracasso. A primeira questão que me salta é a seguinte: somos um país em que a Educação Física nem sequer conta para a média do secundário (sim, essa média que praticamente define as nossas opções no futuro académico) e depois querem sucesso no desporto? É o mesmo que dizer às crianças que o desporto não conta para nada. Seria o mesmo que me dizerem que a minha nota de Português não conta e depois criticarem-me por escrever mal.

Para além da nossa enorme falta de mentalidade para o desporto, que não promovemos em grande escala, à excepção do futebol, ainda nos faltam condições, e claro que não competimos sozinhos, pois os outros atletas também querem ganhar. Vejamos o seguinte: se um treinador de futebol disser que quer ganhar o próximo jogo, é notícia (notícia devia ser se ele dissesse o contrário, porque dizer que quer ganhar qualquer um pode dizer). A Telma Monteiro ganha uma medalha num torneio internacional e não aparece em lado nenhum, sendo preciso os Jogos Olímpicos para se dar destaque a estas modalidades. Obviamente que o futebol tem um peso que nenhum outro desporto tem, e não condeno essa situação, mas depois parece que exigimos o mesmo aos atletas que nem sabemos quem são. Dois dias antes de a Telma ganhar o bronze e a dedicar à força lusitana, estive num evento onde um homem disse o seguinte: "É sempre a mesma coisa. Aquela do judo vai ser já a primeira desilusão. Falta mentalidade vencedora." De forma suave meti-me na conversa e indiquei ao senhor que "aquela do judo" que ele mencionava era apenas uma atleta que ganhou 11 medalhas em campeonatos da europa. 11! 5 medalhas em campeonatos do mundo! Podia estar aqui o dia todo a falar das medalhas internacionais que a Telma ganhou vinda de um país que não tem tradição na modalidade. E o homem não fazia a mínima ideia do que ela tinha ganho, mas já a estava a criticar.

No entanto, todos cometemos erros destes, ao criticarmos algo sobre o qual não temos todo o conhecimento. O que já não acho normal é, uns dias depois da Telma ganhar a medalha, ver um jornalista reformado dizer que não percebe porque se davam os parabéns a uma atleta que ao ficar em terceiro, na realidade tinha perdido. Como é que alguém pode pensar assim? Nós devíamos era dar os parabéns a uma atleta que há mais de 15 anos faz o nosso hino ser ouvido lá fora! Que levantem a mão aqueles que em todo o nosso país tiveram tamanho sucesso nas suas carreiras, seja ela desportiva ou outra coisa qualquer!

Mas também devemos dar os parabéns aos outros que deram o seu melhor. Quando vemos um atleta nosso a ficar entre os 15 melhores do mundo e ficamos a saber que o senhor é GNR, temos de dar os parabéns e não há nada a exigir. Eu quando saio do meu trabalho, vou para casa, para a minha família, descansar, etc... O senhor GNR sai do emprego dele e vai treinar as poucas horas que lhe restam. Muito fica para trás e ainda consegue competir contra outros que são profissionais. E mesmo que fosse sua profissão ser atleta e não GNR, ficar entre os 15 melhores do mundo continuaria a ser fantástico. Em quantos setores temos os melhores do mundo? Se existissem umas olimpíadas de medicina ou advocacia, ou informática, ou outra coisa qualquer, traríamos mais medalhas? Talvez não, mas deveríamos aplaudir todos aqueles que estavam entre os melhores. E tudo isto sem sequer mencionar os atletas paralímpicos que ganham tudo e nem sequer ficamos a saber.

Para acabar, e porque o texto já está comprido, quero dar os meus parabéns aos atletas portugueses que ficaram entre os melhores e, principalmente, dou os meus parabéns à Telma Monteiro. É motivador ver uma rapariga sair de um bairro com poucas condições e chegar a um pódio de uma grande competição. Telma não subiu um vez ao pódio... subiu centenas. A Telma Monteiro é a quinta judoca mais medalhada de sempre... em todo o mundo. Saiu de um país que pouco sabe sobre judo quando comparado com outros países onde o judo enche estádios e a população para para ver os melhores a competir... e ela venceu. A já famosa frase da Telma para os seus amigos nestes jogos Olímpicos, "Eu vim para ficar", fica-lhe bem, que nem uma luva. Mas não lhe fica bem agora. Fica-lhe bem desde há 15 anos, quando ela começou a treinar e veio para ficar. Pena algumas pessoas só terem notado agora, mas ainda vamos todos a tempo.

Luís Pinto

terça-feira, 23 de agosto de 2016

PSICOPATA AMERICANO


Autor: Bret Easton Ellis

Título original: American Psycho






Sinopse: Patrick Bateman é o musculado e bem-parecido herdeiro de uma grande herança e trabalha em Wall Street. É obcecado por roupa de marca, música pop, restaurantes caros, aparelhos eletrónicos e noites de excessos em Nova Iorque.
Pouco a pouco vai revelando o seu lado obscuro, expressando-se através da violência, revelando-se tão dormente e apocalíptico como a sociedade que critica. Até que vai longe de mais e um detetive começa a investigar a sua vida.
Psicopata Americano é a narrativa de um tempo - os anos 80, nos Estados Unidos - e um retrato inclemente e humorístico, cruel e pateta, emocionante e repulsivo de humorístico.
A tudo isto acrescem as referências à cultura das celebridades e ao estilo de vida superficial e ganancioso dos tempos modernos. É um espelho daquilo em que estamos a tornar-nos (ou que já somos). Um espelho de feira popular, que nos distorce, encolhe e exagera, mas não deixa de refletir o Homem que Dostoiévski anuncia na epígrafe deste livro: «Ele representa uma geração que ainda está viva, e entre nós, nos dias que passam.»



Para aqueles que possam não conhecer o livro ou o filme, começo por dizer que este livro é uma obra prima, mas que não se recomenda a qualquer pessoa. Este é um livro que se adora ou se odeia, mas que inegavelmente transpira uma qualidade rara. É aquele murro no estômago do leitor que percebe o que o ser humano pode fazer, nas diferenças sociais, no que o dinheiro pode comprar, no caminho que alguns de nós percorrem, mesmo aqui ao nosso lado.

Esta é a história de um serial killer que demonstra ter tudo o que a sociedade que o envolve admira e enaltece. Profissão estável, muito dinheiro, estilo, classe, conhecimento, bonito e musculado. Por detrás dessa imagem, a imagem do ser humano perturbado. Olhando de longe percebemos a metáfora, a forma como o autor tenta despir qualquer personagem, qualquer pessoa que também veste uma imagem diária, e a grande maioria veste, pois a sociedade assim obriga. 

Com uma escrita crua, mas também humorística, o autor puxa pela nossa repulsa enquanto, indiretamente, nos leva a ver semelhanças entre este homem e nós. E é nessa luta que entramos, mesmo que o possamos não perceber, porque o autor quer mostrar-nos que por fora aquele é o homem que se deseja ser e que a sociedade confia. É essa ironia que provoca a revolta, porque o vilão parece o herói.

Com um ritmo bem conseguido e poderosas descrições do meio no qual as personagens percorrem esta história, é no enredo que está a arte do autor em nos chocar com uma personagem principal que fica na história da literatura das últimas décadas. Forte e surpreendente, este é um livro marcante, que não é para todos, mas que marcará qualquer leitor que se aventure neste clássico.

Luís Pinto

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

OS INOVADORES


Autor: Walter Isaacson

Título original: The innovators





Sinopse: Quais as capacidades que permitiram a certos inventores e empreendedores transformar as suas ideias visionárias em realidade? O que provocou os seus saltos criativos? Por que razão alguns foram bem-sucedidos e outros fracassaram? Em Os Inovadores, Walter Isaacson dá resposta a estas questões, oferecendo-nos a mais completa história da revolução digital, uma narrativa fascinante acerca daqueles que criaram o computador e a Internet. Numa escrita empolgante e ágil, Isaacson organiza um roteiro minucioso que começa com Ada Lovelace, filha de Lord Byron e pioneira da programação na década de 1840, passa pela fundação do mítico Silicon Valley e segue até aos nossos dias, com Steve Jobs ou Bill Gates. Explorando mais as personalidades desconcertantes destes génios do que as suas invenções, Os Inovadores é o guia indispensável para o modo como nasce a inovação e para se compreender o mundo digital que é hoje o nosso.



Isaacson é um nome incontornável dentro dos autores que conseguem criar obras focadas em personalidades. Os seus livros são mundialmente famosos, com destaque para as suas obras sobre Steve Jobs ou Einstein, e aqui teremos um objetivo mais alargado de explorar as personalidades e feitos de grandes inovadores da nossa história mais recente.

O primeiro destaque a ser feito sobre este livro é que a leitura é bastante divertida, o que ajuda bastante tendo em conta o tamanho do livro. Com muitas páginas pela frente, e não tendo uma ligação direta entre as várias histórias (apesar da ligação existir de forma indireta), o leitor poderá  perder um pouco o ritmo de leitura, mas a forma leve e com humor que o autor usa, tornam a sua escrita muito mais fácil de se ler.

Outro aspeto que se deve salientar é que o autor não se focou tanto nas inovações em si, nem no que trouxeram ao mundo, mas sim nas pessoas que alcançaram essa inovação. Quais os seus sonhos e receios, quais os seus sucessos e fracassos, quais os seus motivos, como enfrentaram as dificuldades ou recuaram perante algum obstáculo. E é essa luta, quer interior, quer com o meio no qual vivem, que é o grande centro deste livro. Tal imagem mais humana e menos focada nos resultados tecnológicos era exatamente o que procurava e o autor chegou com mestria a esse ponto.

Inteligente, bem montado e baseado numa óbvia boa investigação, este é um dos melhores livros que li sobre este tema, sendo claro o porquê de ter sido recebido com aplausos pela crítica. Um livro que ensina bastante, com um "toque" mais divertido em alguns momentos para quebrar o gelo e que agradará aos que procuram saber mais sobre este tema. Um livro de grande qualidade.

Luís Pinto


domingo, 14 de agosto de 2016

OS GENERAIS


Autor: Simon Scarrow

Título original: The Generals





Sinopse: Descubra a história que levou à invasão de Portugal pelas forças de Napoleão.

Napoleão Bonaparte e Duque de Wellington. Dois gigantes da História e um mundo pequeno de mais para os abarcar. Corre o ano de 1796 e tanto Arthur Wellesley (mais tarde conhecido por Duque de Wellington), como Bonaparte estão a deixar a sua marca como homens de reconhecido génio militar.
Comandante do 33.º Regimento de Infantaria, Wellesley é enviado para a Índia, onde as suas habilidades e coragem impressionam grandemente os seus superiores. No papel de comandante do Exército de Itália, Napoleão Bonaparte trava batalhas com sucesso e alcança uma rápida evolução política. Em 1804 proclama-se Imperador de França e ambiciona conquistar toda a Europa. Chegou o tempo para o futuro Duque de Wellington enfrentar Napoleão num combate épico que abalará o mundo e ficará registado para sempre na História.



Apesar de ser o segundo livro da saga que se foca em Napoleão e Wellesley, este é um livro que se lê bem de forma isolada, não sendo necessário ler o livro anterior. Claro que ler o livro anterior poderá melhorar esta leitura, mas a verdade é que eu não o fiz e foi na mesma uma boa leitura.
Este é o primeiro livro que leio do Scarrow fora da saga da Águia e apesar de se notar que se trata do mesmo autor, também se nota que existe aqui um esforço para contar a história de forma diferente. Na saga da Águia o autor foca-se nos personagens e na parte emocional dos mesmos, levando o leitor a sentir uma ligação e a preocupar-se. Aqui o foco é mais académico, levando a que o livro ganhe em conhecimentos mas a perder na emoção e interesse que poderá proporcionar à generalidade dos leitores.

Focado em Napoleão e  Wellesley, esta foi uma boa leitura para ganhar conhecimentos sobre uma época e duas personalidades sobre as quais sabia pouco. Neste aspeto o livro é fantástico, e devemos aplaudir a muito boa investigação histórica que o autor terá feito. O seu conhecimento é impressionante, resultando na sensação de que a cada página estamos a aprender algo sobre algo ou alguém. Tal nota-se ainda mais nas batalhas que o autor descreve com um detalhe de assinalar. É fácil visualizar o que está a acontecer e quase que estamos perante um estudo académico. Infelizmente, ao aumentar o detalhe e ao dar tanto conhecimento ao leitor, a emoção perde-se, porque o ritmo do livro é sempre baixo.

Outro aspeto muito positivo está no enorme contraste entre os dois personagens principais. O autor explora as diferenças de mentalidade política, religiosa e militar, mas também nas diferentes formas como Napoleão e Wellesley se dão com outras pessoas, quer aquela que conhecem na rua, ou o mais fiel amigo. Tal contraste está muito bem conseguido, mas, novamente, o ritmo do livro é penalizado.

Esta é uma daquelas obras que quando acabamos de ler sentimos que aprendemos bastante. Os conhecimentos que o autor nos dá estão em cada página e o interesse da leitura esteve nesse aspeto. A história perde por não ser o foco da nossa atenção, e o ritmo baixo não ajuda. Num olhar crítico este é um dos melhroes livros do autor, mas de um ponto de vista de um leitor que procure algo mais emocionante, aqui o livro não consegue estar ao nível do que o leitura me habituou na saga da Águia. Gostei deste livro e aprendi bastante, mas acredito que será muito mais apreciado por quem queira aprender sobre o tema principal e não por quem procura um bom livro de ação nos tempos medievais. 

Luís Pinto

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

A MEMÓRIA


Autor: David Baldacci

Título original: Memory man




Sinopse: A Memória é um livro poderoso e surpreendente: a história de um homem dotado de uma memória perfeita e perseguido por um crime sangrento. Ele não se consegue esquecer de nada - mas há uma noite que ele gostaria de apagar para sempre da sua mente… Ou então descobrir finalmente quem destruiu o seu mundo.




Quando se lê muitos livros todos os anos, cada vez se sente mais que existem menos livros capazes de nos surpreender. Este foi um livro que li porque gostei da originalidade da sinopse. Já há alguns anos li vários estudos sobre esta condição cerebral que leva uma pessoa a recordar e reviver tudo como se estivesse a acontecer naquele momento, levando a que os acontecimentos mais negros da vida de cada pessoa estejam sempre presentes, originando, por vezes, a depressões devido ao constante sentimento de tristeza ou dor.

O ponto mais positivo deste livro é a forma como o personagem principal está criado. Coerente, inteligente, emocional, liguei-me ao personagem com facilidade e o autor consegue criar uma atmosfera constante em que sentimos a dor e a angústia do personagem. Com esse ambiente o enredo torna-se negro, quase claustrofóbico, deixando o leitor num estado em que a ansiedade o leva a acelerar a leitura.

Apesar de alguns momentos mais arrastados ou forçados, a grande generalidade do livro está montado de forma a deixar pistas que devemos descobrir, mas o final acabará sempre por surpreender. Com um ritmo em crescendo, a originalidade do enredo empurrou-me até às últimas páginas e deixou-me com vontade de ler mais sobre este personagem. Aliás, o enredo é principalmente focado neste homem, levando a uma ligação emocional em que vamos aprendendo a conhecer este homem ao mesmo tempo que ele se começa a conhecer a ele mesmo. E é ao estarmos ao mesmo nível que o personagem principal que o livro avança de forma viciante.

O final é coerente e inteligente, levando-me a juntar algumas pontas soltas que estavam bem disfarçadas desde o início do livro. Olhando de forma crítica para o livro, este é um enredo que surpreende pela positiva. Quando comecei a ler estas páginas foi por curiosidade e não por sentir que este livro seria muito bom... fiquei agradavelmente surpreendido. Enquanto thriller, este é dos melhores que li nos últimos tempos e que recomendo a qualquer fã do género. Fico a aguardar o próximo...

Luís Pinto