Mostrar mensagens com a etiqueta Orhan Pamuk. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Orhan Pamuk. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 19 de abril de 2017

CEVDET BEI E OS SEUS FILHOS


Autor: Orhan Pamuk






Sinopse:  Istambul, 1905. Cevdet Bei, um comerciante muçulmano rico, instala-se com a mulher no bairro ocidental de Nisantasi. O Império Otomano já soçobrava antes da Primeira Guerra Mundial e as elites contestavam o poder despótico do sultão Abdülhamid II. Duas gerações depois, o pintor Ahmet decide retratar o avô e, neste intervalo, observamos a evolução de toda a sociedade turca.
Cevdet Bei e os Seus Filhos é o romance de estreia de Orhan Pamuk, Prémio Nobel da Literatura, que segue as três gerações da família de Cevdet Bei, e com elas a fundação da Turquia moderna.



Pamuk escreve de forma diferente, especial, com formas e significados que o tornam único. Neste livro, o seu primeiro romance, Pamuk revela, acima de tudo, a inteligência que foram a base do Nobel que ganhou.

Num livro bastante grande, Pamuk consegue agarrar o leitor com facilidade. No meu caso, muito se deve à forma como o autor consegue, durante todo o livro, explorar as diferenças entre Oriente e Ocidente. a leitura é quase sempre lenta, com o autor a aprofundar vários temas que tornam o livro bastante coeso e coerente. A forma como o autor expõe a sociedade e as transformações que vai sofrendo, tornam esta narrativa em algo mais do que uma boa história. É também um livro que nos ensina e revela a adaptação de uma sociedade que em muitos aspetos não estava preparada para uma mudança tão radical.

Outro aspeto muito importante nas obras do autor e também aqui neste livro é a capacidade de Pamuk de nos ligar a algumas personagens, levando-nos a atingir um estado que nos faz acreditar que realmente conhecemos a personagem. Pamuk explora com suavidade o que constitui uma personagem, quais os seus motivos, o que a marcou, o que pretende alcançar. E é com personagens extremamente realistas que avançamos por um país em mudança.

O retrato de Istambul durante os vários anos da narrativa é um dos pontos fortes do livro. A narrativa toca em temas mais profundos e emocionais, como a política, religião e tradições, sem nunca esquecer as dificuldades da adaptação e a forma como a sociedade olha para o seu país, mas também para os países estrangeiros, todos eles em grande mudança devido à guerra.

De um ponto de vista crítico, a história quase que é secundária quando comparado ao peso que tem a mudança da sociedade. É ela o catalisador de toda a história e é com essa mudança que avançamos e conhecemos as personagens. Pamuk tem aqui um bom livro, ao nível do que nos habituou e que nos liga emocionalmente a algumas personagens. É um livro grande e o seu ritmo poderá afastar alguns leitores que procurem algo mais rápido ou intenso. Mas a qualidade está aqui, sem dúvida.

Luís Pinto

domingo, 4 de março de 2012

O ROMANCISTA INGÉNUO E O SENTIMENTAL


Autor: Orhan Pamuk

Título original: The Naive and the Sentimental Novelist



Vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 2006, Orhan Pamuk apresenta-nos um livro diferente mas com uma qualidade muito acima da média. Em 2009 Pamuk deu uma série de seis conferências na Universidade de Harvard tendo como base o ensaio de Schiller Sobre a Poesia Ingénua e a Sentimental.
Pamuk, grande conhecedor do tema, reúne neste livro essas seis conferências, onde transporta para o romance a visão de Shiller e nas poucas mais de 130 páginas deste livro tentamos perceber até que ponto será necessário, ou não, para o leitor e autor, existir um equilíbrio entre os conceitos ingénuo e sentimental.

Porque gosto de ler? O que me faz gostar mais de uns livros do que de outros? O que me distingue a mim, que prefiro Dostoievski, a quem prefere Tolstoi?
Que fenómeno é esse que me faz entrar num mundo, sofrer, sorrir… por algo que conscientemente sei ser imaginário? Qual é sequer o sentido da existência de todas as emoções que um livro me oferece quando eu sei que estou a ler algo que não é real? Então a pergunta é: o que acontece no nosso cérebro enquanto leio?
Estas são, indirectamente, as perguntas que Pamuk tenta responder, não de forma “científica”, mas sim “psicologicamente”. Porque afinal, numa era tecnológica, inundada pelas capacidades gráficas, o livro continua a cativar pessoas… qual é a razão?

Qual é a ligação entre escritor e leitor? Até que ponto se moldam um ao outro?

Com uma escrita simples e que nunca se perde, Pamuk recheia a sua argumentação com referência a grandes clássicos como Anna Karenina, Os Demónios ou os Irmãos Karamazov, entre muitos outros. Estas referências ajudam a perceber o que o autor nos tenta transmitir e mesmo quem não tenha lido os livros referidos, conseguirá perceber a ideia que Pamuk quer demonstrar. Ainda dentro das referências a livros devo dizer que gostei muito do facto de Pamuk não se limitar a uma cultura literária, falando de livros russos, chineses, indianos, até chegar à literatura mais ocidental, como a inglesa e a americana.
Outro facto que achei muito conseguido foi a divisão entre temas durante o livro (a mesma divisão que terá feito entre as suas palestras). Sendo assim é-nos apresentado um livro dividido em seis partes, onde Pamuk fala: sobre o que se passa na nossa cabeça enquanto lemos, a necessidade do leitor em tentar encontrar/desejar que algo na história seja verdade. Personagens, intriga e tempo narrativo, palavras, imagens, centro do romance, etc…

É sinal de grandeza e de profundidade de um romance a distância estabelecida entre a história que se conta e o centro da obra.

Na minha opinião este livro não deve ser apenas lido. Deve ser antes uma discussão, deve ser uma tentativa de diálogo entre o autor e o leitor. Argumentar com o que lemos, tornar este livro em algo mais… uma fonte de aprendizagem.
Tentando entrar nesse tipo de discussão fictícia, percebo que em alguns pontos de vista posso discordar com o autor. Mas quem sou eu para discordar? Apenas um simples leitor, mas no entanto, enquanto leitor, penso que devo ter a obrigação neste livro de explorar o ponto de vista que me é exposto. Como resultado, em alguns casos Pamuk caminha na mesma direcção do meu ponto de vista destes temas. Em alguns casos Pamuk foi uma direcção oposta, e em muitas vezes convenceu-me a mudar de direcção, seguindo a sua ideia. E penso que é esta experiência que marca o livro. Para mim este é um livro que se lê rapidamente, mas não o deve ser feito. Devemos ter a capacidade de ler, pensar, “levantar o braço” e fazer uma pergunta.

Posto isto só posso dizer que se trata de um livro obrigatório para quem um dia queira ser escritor, mas não só! Todos os leitores que, como eu, se interessam sobre o porquê das coisas, da evolução da literatura, das suas diferenças e semelhanças, devem olhar para estas palavras. Este é um livro para os leitores que dentro deste tema, gostem de ouvir, perceber, argumentar e aprender. Eu senti todas estas necessidades, principalmente no último tema, o do centro do romance, onde Pamuk conseguiu captar todo o meu interesse, obrigando-me a uma leitura lenta e de grande fascínio.
Espero ainda, que existam mais discussões sobre este tema, pois o ponto de vista de Pamuk tem falhas, tal como ele próprio sugere em algumas ocasiões ao trazer ao debate o nome Dostoievski, escritor que rompeu com muitos conceitos que na altura pareciam básicos, obrigatórios.

Resumindo, adorei este livro, pelo que me fez pensar, e como já o disse muitas vezes, aprecio bastante um livro capaz de me transmitir enormes sensações, mas são aqueles que me fazem pensar que mais me cativam. Não será um livro para qualquer leitor, muitos não estarão interessados no tema, mas digo-vos: trata-se de um livro de enorme qualidade e que cativará muitos leitores e também escritores. Voltarei a lê-lo!