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quarta-feira, 10 de maio de 2017

O ANO DA DANÇARINA


Autor: Carla M. Soares




Sinopse: No ano de 1918, o jovem médico tenente Nicolau Lopes Moreira regressa da Frente francesa, ferido e traumatizado, para o seio de uma família burguesa de posses e para um país marcado pelo esforço de guerra, pela eleição de Sidónio Pais e pela pobreza e agitação social e política.
No regresso, Nicolau vê-se confrontado com uma antiga relação com Rosalinda, dançarina e amante de senhores endinheirados, e com as peculiaridades de uma família progressista.
Enquanto a Guerra se precipita para o fim e, em Lisboa, se vive a aflição da epidemia e da difícil situação política, a família experimenta o medo e perda, e Nicolau conhece um amor inesperado enquanto trava as suas próprias batalhas contra a doença e os próprios fantasmas.




Este é o segundo livro que leio de Carla M. Soares, e é claramente o melhor. Mas vamos com calma. Em primeiro lugar devo enaltecer o trabalho de investigação da autora, que aqui entrega um pacote de informação muito interessante e que torna a história coerente. É verdade que o ritmo do livro nunca é muito elevado, mas a autora consegue dar as informações certas no momento certo, nunca tornando o livro cansativo por informação a mais ou que pareça forçada.

A autora agarra um tema e uma época sobre a qual já li bastante e que mesmo assim me surpreendeu pela intensidade como descreveu alguns momentos. Sendo uma época negra com o instinto de sobrevivência no máximo a cada instante, as emoções de dor e revolta estão muito bem exploradas pela autora, sendo esse um dos grandes trunfos do livro: a forma como explora as emoções das personagens.

A história pareceu-me muito bem enquadrada na época, principalmente na forma como as mentalidades de algumas personagens estão exploradas. Sendo um livro sobre uma época que já li bastante, não existiu uma sensação de enriquecimento de conhecimento, mas é notório o quando a autora se esforça, e com sucesso, em oferecer o conhecimento necessário para que o leitor perceba alguns quadros sociais e políticos. Dificilmente um leitor se sentirá deslocado ou sem ter as noções necessárias ao que acontece à volta das personagens.

Carla M. Soares tem aqui um livro muito bem conseguido. Naturalmente, por ser numa época mais negra, não será um livro para qualquer leitor, mas aqueles que apreciem o género terão aqui uma boa leitura. É verdade que tem alguns momento óbvios ou que parecem algo forçados, mas num todo, o livro consegue ser bastante coerente e marcante, ajudando o facto de ser muito focado em personagens portuguesas e com as quais criamos rapidamente uma boa ligação. Se apreciam o género, então têm aqui uma boa leitura.

Luís Pinto

 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O CAVALHEIRO INGLÊS


Autor: Carla M. Soares



Sinopse: 1892. Na sequência do Ultimato inglês e da crise económica na Europa e em Portugal, os governos sucedem-se, os grupos republicanos e anarquistas crescem em número e importância e em Portugal já se vislumbra a decadência da nobreza e o fim da monarquia.
Os ingleses que permanecem em Portugal não são amados.
O visconde Silva Andrade está falido, em resultado de maus investimentos em África e no Brasil, e necessita com urgência de casar a sua filha, para garantir o investimento na sua fábrica.
Uma história empolgante que nos transporta para Portugal na transição do século XIX para o século XX numa descrição recheada de momentos históricos e encadeada com as emoções e a vida de uma família orgulhosamente portuguesa.



Na blogoesfera literária o nome Carla M. Soares tem sido muito falada nos últimos tempos. Tendo sido aconselhado a experimentar ler um livro desta escritora, decidi começar pelo seu mais recente romance.

O primeiro facto que conseguimos captar ao ler este livro é que a autora sabe escrever dentro deste género, principalmente porque consegue equilibrar os momentos de paragens com os momentos de avanço no enredo. Um dos grandes problemas ao se escrever um romance histórico está no facto de não ser fácil contextualizar o leitor na época do enredo sem matar o próprio enredo com um ritmo demasiado lento. Soares consegue manter um ritmo agradável ao não nos dar toda a contextualização de uma vez, mas sim aos poucos, misturada com o enredo, permitindo que comecemos a conhecer as personagens enquanto conhecemos este mundo. 

Claro que ao oferecer uma contextualização durante a leitura, o leitor pode perder alguns significados no início do enredo, mas eu não senti esse problema neste livro, revelando um bom trabalho da autora em dois pontos: no trabalho de investigação e na organização da informação a ser dada ao leitor. O resultado é este ritmo que nos prende ao aliar-se com uma escrita enigmática por parte da autora. Carla Soares vai-nos recordando, de forma suave e indireta, que existem dois ou três pontos fulcrais desta história que ainda não sabemos, e assim avançamos, tentando descobrir um segredo ou uma identidade. 

A autora conquistou-me com os pormenores desta época que me foi dando. É impossível esquecer o momento histórico em que o enredo acontece, e isso é muito importante para sentirmos o ambiente. A história, bem construída, inteligente e com diálogos que nos ajudam a conhecer melhor as personagens, poderá, em alguns momentos, parecer algo perdida ou forçada, mas esta sensação foi apenas passageira, sendo apagada a partir do último terço do livro em que se percebe qual o caminho que a autora irá seguir. O final, que será surpreendente para alguns e mais previsível para outros, é um dos pontos altos, e mesmo tendo percebido com antecedência o que se estava a passar e como iria acabar, a sensação final é de satisfação porque os pontos soltos durante a leitura conseguem convergir, ficando a noção que o enredo oferece todas as respostas essenciais. 

O destaque a narrativa vai para Sofia, que para além de ser o catalisador do enredo, é também a personagem que carrega os temas mais adultos, como o crescer do poder feminino na nossa sociedade perante um conjetura política em auto destruição. É com Sofia, personagem pela qual facilmente se cria simpatia, que iremos ver e compreender esta sociedade, tanto na mentalidade como nas tendências futuras. A questão final poderá ser: o que teremos de sacrificar para mudar uma sociedade, ou até que ponto essa sociedade está pronta para mudar.

Globalmente fiquei impressionado com esta obra de Carla M. Soares. Houve momentos em que não me agarrou totalmente, outros em que não consegui parar de ler. No geral, é impossível não admirar o trabalho da autora na investigação e na mistura que criou entre factos históricos e ficção. O resultado é um livro que se torna cada vez mais realista mas também mais enigmático. Fiquei convencido a ler outros livros da autora assim que surgir a oportunidade. Se gostarem de romances históricos, acredito que Carla M. Soares venha a ser das vossas autoras favoritas. Recomendado.

Luís Pinto