quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O CAVALHEIRO INGLÊS


Autor: Carla M. Soares



Sinopse: 1892. Na sequência do Ultimato inglês e da crise económica na Europa e em Portugal, os governos sucedem-se, os grupos republicanos e anarquistas crescem em número e importância e em Portugal já se vislumbra a decadência da nobreza e o fim da monarquia.
Os ingleses que permanecem em Portugal não são amados.
O visconde Silva Andrade está falido, em resultado de maus investimentos em África e no Brasil, e necessita com urgência de casar a sua filha, para garantir o investimento na sua fábrica.
Uma história empolgante que nos transporta para Portugal na transição do século XIX para o século XX numa descrição recheada de momentos históricos e encadeada com as emoções e a vida de uma família orgulhosamente portuguesa.



Na blogoesfera literária o nome Carla M. Soares tem sido muito falada nos últimos tempos. Tendo sido aconselhado a experimentar ler um livro desta escritora, decidi começar pelo seu mais recente romance.

O primeiro facto que conseguimos captar ao ler este livro é que a autora sabe escrever dentro deste género, principalmente porque consegue equilibrar os momentos de paragens com os momentos de avanço no enredo. Um dos grandes problemas ao se escrever um romance histórico está no facto de não ser fácil contextualizar o leitor na época do enredo sem matar o próprio enredo com um ritmo demasiado lento. Soares consegue manter um ritmo agradável ao não nos dar toda a contextualização de uma vez, mas sim aos poucos, misturada com o enredo, permitindo que comecemos a conhecer as personagens enquanto conhecemos este mundo. 

Claro que ao oferecer uma contextualização durante a leitura, o leitor pode perder alguns significados no início do enredo, mas eu não senti esse problema neste livro, revelando um bom trabalho da autora em dois pontos: no trabalho de investigação e na organização da informação a ser dada ao leitor. O resultado é este ritmo que nos prende ao aliar-se com uma escrita enigmática por parte da autora. Carla Soares vai-nos recordando, de forma suave e indireta, que existem dois ou três pontos fulcrais desta história que ainda não sabemos, e assim avançamos, tentando descobrir um segredo ou uma identidade. 

A autora conquistou-me com os pormenores desta época que me foi dando. É impossível esquecer o momento histórico em que o enredo acontece, e isso é muito importante para sentirmos o ambiente. A história, bem construída, inteligente e com diálogos que nos ajudam a conhecer melhor as personagens, poderá, em alguns momentos, parecer algo perdida ou forçada, mas esta sensação foi apenas passageira, sendo apagada a partir do último terço do livro em que se percebe qual o caminho que a autora irá seguir. O final, que será surpreendente para alguns e mais previsível para outros, é um dos pontos altos, e mesmo tendo percebido com antecedência o que se estava a passar e como iria acabar, a sensação final é de satisfação porque os pontos soltos durante a leitura conseguem convergir, ficando a noção que o enredo oferece todas as respostas essenciais. 

O destaque a narrativa vai para Sofia, que para além de ser o catalisador do enredo, é também a personagem que carrega os temas mais adultos, como o crescer do poder feminino na nossa sociedade perante um conjetura política em auto destruição. É com Sofia, personagem pela qual facilmente se cria simpatia, que iremos ver e compreender esta sociedade, tanto na mentalidade como nas tendências futuras. A questão final poderá ser: o que teremos de sacrificar para mudar uma sociedade, ou até que ponto essa sociedade está pronta para mudar.

Globalmente fiquei impressionado com esta obra de Carla M. Soares. Houve momentos em que não me agarrou totalmente, outros em que não consegui parar de ler. No geral, é impossível não admirar o trabalho da autora na investigação e na mistura que criou entre factos históricos e ficção. O resultado é um livro que se torna cada vez mais realista mas também mais enigmático. Fiquei convencido a ler outros livros da autora assim que surgir a oportunidade. Se gostarem de romances históricos, acredito que Carla M. Soares venha a ser das vossas autoras favoritas. Recomendado.

Luís Pinto

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