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segunda-feira, 14 de abril de 2014

TIGANA: A voz da vingança


Autor: Guy Gavriel Kay

Título original: Tigana



Esta é a segunda metade do original Tigana, e por isso o seu enredo começa onde o anterior acabou, sendo aconselhável que os dois sejam lidos sem grande distância temporal. Esta questão prende-se com o facto de existirem detalhes que podem fazer a diferença na forma como vemos o enredo e tentamos antever a história.

E é nesses pequenos detalhes, que podemos esquecer durante a leitura, que está uma das várias grandes qualidades deste livro.  O autor oferece várias pistas durante todo o enredo, pistas essas que fui anotando para melhor compreensão (e também para fazer esta análise) e que realmente encaixam no enredo. No fim fica a sensação de plenitude em relação aos temas mais importantes do enredo, apesar de ficarem alguma perguntas no ar, a verdade é que percebemos que a a história tem um fim e que este é muito bem conseguido e planeado desde a primeira página.

Este 2º volume de Tigana continua com a sua narrativa lenta durante a grande maioria das páginas, para nos surpreender quando menos esperando, aumentando o ritmo e criando momentos cheio de ação ou com diálogos reveladores. É esta "montanha-russa" no ritmo que torna o livro ainda melhor, pois senti que em alguns momentos não consegui antecipar o que iria acontecer. Também os temas principais do enredo se mantêm, tal como seria de esperar, com várias questões que se levantam, desde as várias formas de controlo populacional passando pela forma como se pode criar uma revolução. Uma das questões que este livro levanta, mesmo que indiretamente, é algo que certamente muitos estudam há vários anos: o que é preciso para se começar uma revolução? Como colocamos, numa civilização apática e resignada, a ideia de que algo melhor pode e deve ser alcançado? Como convencemos as pessoas a lutar por algo melhor, sejam quais forem os riscos?

Mas, para mim, o grande trunfo deste livro está nas personagens, principalmente nos vilões. Brandin é um dos personagens mais fascinantes que já vi, principalmente tendo em conta que aparece tão pouco. O autor consegue criar dois vilões bastante distintos, principalmente na forma de governar, e que criam reacções diferentes nos leitores. Muitos são os autores que criam vilões com uma vertente mais desumana, mas Kay dá foque, principalmente, à parte mais humana dos mesmos, informando os leitores do porquê de governarem e porque o fazem daquela forma. E assim criamos uma ligação mais próxima com os vilões e somos mais neutros em relação aos motivos de cada personagem, boa ou má.

Do outro lado estão personagens boas e é difícil escolher um ou duas para mencionar nesta análise. Não demoramos muito a perceber que o autor explora as personagens, os seus passados, dá-nos os motivos e objetivos de cada uma, e existe a sensação que temos pleno conhecimento do essencial. Claro que para que tudo isto seja explorado, também fica a clara noção de que o enredo desde o início até ao fim não desenvolve o que seria de esperar de dois livros deste tamanho, pois muito do que está escrito é sobre o passado... mas em nenhum momento tal retira qualidade ao livro. 

Tigana é um enredo sobre o qual não me quero alongar. A essência deste livro está em descobrir as ligações entre personagens e seus passados, é ver como é importante saber de onde viemos e para onde vamos. a nossa identidade está nesse conhecimento que devemos passar às gerações futuras, porque sem um passado, nada temos para contar. Em alguns aspetos, Tigana tenta passar uma mensagem sobre a nossa própria existência neste mundo onde tudo está ligado, e assim transforma-se num livro mais profundo, com mais qualidade, e sobre o qual devemos pensar quando o acabarmos. Não é um livro rápido nos prende desde a primeira página. Tigana conquista-nos aos poucos e para sempre. Um nome que não esquecemos.

Luís Pinto

domingo, 19 de janeiro de 2014

TIGANA - A Lâmina na alma - Livro I


Autor: Guy Gavriel Kay


O que vale a cultura de um povo? Até que ponto, enquanto sociedade, precisamos da história dos nossos antepassados? De a contar e recordar, passá-la aos mais novos, ensiná-la aos estranhos...

Para mim, Tigana é sobre um povo que perde a sua identidade, o seu passado, e sem isso, uma parte de nós dissolve-se. Quer seja num contexto religioso, filosófico ou simplesmente geográfico, o ser humano sempre quis saber se onde veio, quais as suas origens. E tendo como base, quase invisível, esta ausência, o autor cria um mundo que prende por essa originalidade.

Este Tigana (livro um de dois) é uma leitura singular por várias razões, sendo a primeira a forma como o autor escreve e o ritmo que emprega na narrativa. No início fica a sensação que estamos a ler algo que demora muito a introduzir o que é necessário para que a história comece a desenvolver, e de repente um surpreendente acontecimento é despoletado, marcando o livro e elevando o ritmo de acontecimentos para o extremo oposto... e depois, novamente, baixa durante várias páginas, voltando a introduzir outros temas, outras personagens, e novamente, quando menos se espera, um acontecimento desperta-nos e mostra-nos que o autor sabe o que está a fazer. É como se nos quisesse adormecer para nos assustar quando começamos a fechar os olhos...

Outro aspeto interessante é que, apesar de estarmos perante um mundo extenso e cheio de intervenientes, o autor explora muito poucas personagens. Se formos analisar o livro como um todo, apenas 5 ou 6 personagens são realmente exploradas neste livro, mas devo também dizer que o são de forma fantástica. Destas personagens cada leitor terá os seus favoritos e no meu caso, há uma que se destaca: um homem, que não revelarei o nome, e que é a imagem da obsessão e consequente arrependimento de quem desperdiça toda uma vida a criar planos para um objetivo e apenas tarde demais percebe o quantos alguns atos e palavras poderiam ter feito a diferença, principalmente para as pessoas que se ama. É esta mágoa, num momento impressionante do livro que marca esta personagem e, indiscutivelmente, o livro. Quem ler esta obra, perceberá do que falo.

Deixando o enredo e o mundo criado pelo autor para a análise ao 2º livro, devo ainda mencionar o facto de o autor ter criado dois vilões, fugindo a um caminho muito usado de apenas um vilão nas histórias de fantasia. Para além disso, o facto de os dois vilões serem das personagens mais aprofundadas, ajuda a termos uma visão mais global do que acontece e aconteceu neste mundo. Estes momentos em que conhecemos as personagens são o palco onde o autor parece estar melhor, voltando a momentos do passado para nos mostrar o crescimento das personagens e, principalmente, dos seus motivos. Neste aspeto é notório que estamos perante um escritor que sabe o quanto o "porquê" é importante para nos identificarmos com a personagem e sua demanda. 

Para já, e visto que estamos perante um livro que é a metade do original, não me irei alongar mais. Tigana é um livro que respira qualidade e que nos surpreende em alguns momentos, no entanto apenas a continuação me poderá dizer se estou perante algo que é realmente bom. Para já, tem tudo para o ser, e a crítica especializada assim o diz. Se gostam de uma obra de fantasia onde a construção do mundo e personagem é importante e não se importam de ter uma leitura com um ritmo mais lento, este parece-me ser uma excelente aposta. Estou muito curioso para ver como tudo acaba.

Luís Pinto