sábado, 15 de outubro de 2011

O FIEL JARDINEIRO

Autor: John le Carré

Título original: The Constant Gardener


Nas margens do lago Turkana, no Quénia, um a mulher jovem e bela, Tessa Quayle, é brutalmente assassinada. O seu suposto amante e companheiro de viagem, um médico sul-africano, desapareceu sem deixar rasto. Justin, o marido de Tessa, ambicioso diplomata da Embaixada Britânica em Nairibi, o grande amante da jardinagem, não aceita a versão oficial do crime e empreende, por sua conta e risco, uma busca pessoal em perseguição dos assassinos de sua mulher.


Quanto vale a vida de uma pessoa? E a de uma pessoa que a estatística diz estar quase a morrer? Pode esse valor ser medido pelos parâmetros que estamos habituados? Dinheiro? Fama? Bem-estar?
Este livro faz-nos estas perguntas indirectamente, não nos dá a reposta, mas dá-nos um caminho para a alcançarmos. A resposta é simples: cada pessoa dá um valor diferente à vida, tanto à sua como à de outras pessoas. algumas, não dão valor.
Num livro bem diferente da atmosfera em que le Carré costuma escrever (deixando para trás a espionagem pura em que o personagem principal é um operacional), este magnífico escritor leva-nos até ao Quénia, e a uma história onde a base é o amor. Mas conseguiria le Carré, o autor de O Espião que saiu do frio ou A Toupeira, escrever um livro onde a base é o amor? A resposta é “sim”. John le Carré é um dos melhores escritores da actualidade, escreve como poucos e sabe o que escreve.
Desta vez encontramo-nos em África e seguimos os passos de Justin Quayle na busca pela verdade da morte da sua mulher. Um livro que começa lentamente, mais do que o normal em le Carré, poderá desanimar alguns leitores, mas para mim o selo de qualidade está no nome do autor, e como tal continuei. No fim o sorriso nos lábios por ler mais um grande livro, com um final arrebatador num romance que não foi feito para ser cor-de-rosa, mas sim realista, duro.
Um dos factores que mais gostei neste livro é a gradual mudança da personagem principal que começa por ser um resignado e acaba um fervoroso lutador pelos direitos humanos. Carré escreve uma obra que consegue mostrar a natureza humana, aquela capacidade que todos tempos de ver a desgraça alheia, sofrer por momentos, olhar para o lado… e já esquecemos. No caso de Justin, a busca pelos culpados da morte da sua mulher leva-o a esta mudança de atitude enquanto se apercebe de como não conhecia a mulher quando esta estava viva, para agora a entender melhor, ao ponto de se tornar mais compreensivo com as suas atitudes passadas, ao ponto de as aceitar e adoptar, e aquele casal insólito com duas personagens tão distintas, afinal não o eram assim tanto, a vida apenas os moldara de formas diferentes.
Este livro marca ainda por conseguir mostrar a frustração de quem tenta ajudar, de quem sacrifica a única vida que tem para ajudar o próximo, e poucos actos poderão ter tamanho valor, mas no fim o que vemos é sacrifício e riscos para quem ajuda e lucro para quem faz de conta que ajuda. Num continente esquecido por Deus, o Homem mata apenas para ter mais (dinheiro, poder ou outra coisa qualquer que para eles tenha valor), mas para quê querer mais se o que tinham já chegava? Natureza Humana…
No fim os olhos fecham-se, a corrupção move tudo, consegue tudo.
Le Carré dá-nos um livro inteligente, e isso nota-se nos diálogos e também por apenas nos dar a conhecer aos poucos, nos momentos certos, o que realmente se está a passar, deixando-nos a princípio tão cegos quanto o personagem principal. Nota-se ainda um enorme estudo por parte do autor sobre África, os interesses de quem tem poder, o que move quem ajuda e quem finge que ajuda apenas para benefício próprio.
Este não será certamente o melhor livro de John le Carré, mas é certamente muito bom. Um livro diferente do que nos habituou mas que não deixará ninguém indiferente, pois consegue ser belo e sonhador, cruel e angustiante.

8 comentários:

  1. Das melhores opiniões que li nos últimos tempos. Vou ver se o compro.

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  2. Esta tua crítica é excelente. Dura e directa como a escrita de Carré, dou-te os parabéns, força que deste às tuas palavras. Uma opinião genial que me levará certamente a comprar o livro.

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  3. Não conhecia o seu blog mas acabei por vir aqui parar e ler esta opinião. Apreciei bastante a força e a emoção que dá às suas palavras. Continue assim e eu continuarei a visita-lo, sem dúvida.

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  4. O Luís escreve como um verdadeiro escritor. Forte e emotivo. Continue e certamente terá um futuro neste mundo.

    Em relação ao livro que fala, conheço a obra de Carré apesar de não ter lido ainda este livro. Irei lê-lo em breve e espero gostar. Destacou aqui factores que achei interessantes.

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  5. Agradeço a todos os elogios. Tentarei manter a qualidade de que falam. Só é pena não haver tempo para ler e escrever mais!

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  6. Esta tua opinião é arrepiante e do melhor que já li. Fantástico!

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  7. Li este livro durante o meu verão e confesso que não gostei muito do mesmo... até fiquei bastante desiludida pelas minhas expectativas serem tão altas. No entanto, ainda não desisti do autor! :)

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    1. Este autor não é fácil ao início e acho que temos de nos habituar. Neste momento, após ter lido 6 ou 7 livros dele, considero-o o grande da espionagem. Também é verdade que este é, provavelmente, o livro mais atípico de Carré, com uma espionagem menos vincada. Se algum dia tiveres a pensar ler outro livro de Carré, pergunta-me e talvez te consiga dar uma opinião para te decidires.

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