quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A GUARDA BRANCA

Autor: Mikhaíl Bulgákov              

Título original: Bélaia gvárdia


Sinopse: Primeiro romance de Mikhaíl Bulgákov, largamente inspirado nas suas experiências pessoais, A Guarda Branca apresenta-nos a cidade de Kíev, em 1918, através dos olhos dos irmãos Turbin. Mergulhados no caos da guerra civil, Aleksei, Elena e Nikolka constituem um retrato brilhante das crises existenciais provocadas pela guerra e pela perda de alicerces sociais, morais e políticos.

Este foi o primeiro livro que li de Bulgákov e confesso que do seu trabalho apenas ouvira falar do muito famoso “The Master and Margarita”. Como tal, não tendo grande informação sobre o autor, nem da sua obra, ao abrir este livro que me ofereceram, não existem expectativas, boas ou más.
Bulgákov, com uma escrita que mostra uma mistura da famosa literatura russa de Dostoyevsky, Tolstoi, entre outros, oferece-nos um retrato duro da Revolução Russa e de como certas famílias as viveram. Este é o tema principal do livro, vermos como viveram as pessoas de famílias mais desfavorecidas toda esta guerra que se aproximava de Kiev. Aliás, na minha opinião, Bulgákov dá muito menos importância ao desenvolvimento da história e muito mais ao grafismo e aos sentimentos, onde tenta mostrar-nos o que as pessoas realmente sentiram e sofreram.
Num livro onde o autor não se coíbe a indirectamente dar as suas opiniões, percebemos como foi feita toda a manipulação de massas no território russo, como foi incutido o medo, o desnorte, como se instalou o ódio e a necessidade de se tomarem certas acções sem represálias para que depois regressasse a "esperança".
Ao acompanharmos a família Turbin apercebemo-nos da angústia constante, do receio pela própria vida e dos seus próximos, tudo isso catalisado pelo facto de as pessoas não saberem o que se passa, quem está a ganhar, quem está a perder, o medo de uma simples campainha a tocar ou o cão do vizinho a ladrar… e nesse aspecto Bulgákov é genial, conseguindo descrever esse sentimentos de forma exemplar.
Há uma constante mistura de revolta com o que rodeia as personagens, mas também os sonhos de que algo melhor está para vir. Há ainda a constante mistura de que o Homem é estúpido por criar a guerra e ao mesmo tempo sentimos como pode existir uma visão de que o ser humano poderia ser perfeito. Mas, tal como a personagem Nikolka pensa, há coisas que impedem as pessoas de serem boas. Há dinheiro, há ganância por poder… e no fim perdem-se pessoas boas e a esperança dos que vivem.
Nikolka é, a gosto mais pessoal, a melhor personagem deste livro. Não é a principal, mas é aquela que mistura os pensamentos ingénuos com a sabedoria de quem tão novo já viu o que não deveria ver. É aquela que mostra a dignidade que é possível ter, até na guerra e aqui Bulgákov consegue de forma indirecta criticar todo o mal que é feito, principalmente o que não tem motivo.
A meu ver, há livros que são bons, outros que dão prazer, por serem viciantes ou com uma escrita que empolga a acção, a surpresa e a descoberta. Outros conseguem ser viciantes e ter qualidade, mas não é fácil. Este livro não me deu um prazer enorme ao lê-lo, apesar de nunca ter sido difícil de ler, mas é daquelas obras que tem uma qualidade inegável, tal como tem Crime e Castigo, que também não é um livro fácil de ler. Este livro é como o mundo que Bulgákov descreve: um mundo sombrio, negro, e que por vezes nos mostra um brilho, uma luz que dá esperança. Este autor, que era desconhecido para mim, tem a capacidade de não escrever por escrever. Há significado nas suas palavras, em todas elas, e isso nota-se por exemplo nas constantes referências que Bulgákov faz sobre os relógios. Esse Tempo injusto que tudo leva, que não dá segundas hipóteses.tudo na sua escrita é pensado, tem valor e merece ser lido.
O livro acaba de forma bela, quase o oposto do resto do livro, mostrando o sonho que deveria ser o destino da humanidade. Deveria mas não é, e Bulgákov sabe-o. Um dos melhores livros que li este ano e uma agradável surpresa.

Queria ainda elogiar a introdução de várias notas de rodapé durante todo o livro e que nos ajudam imenso. No meu caso, que muito pouco sei da Revolução Russa, as notas ajudam bastante a percebermos motivações de algumas personagens históricas e seus passados, enquanto também nos ajudam a perceber as próprias ideias do autor e aquilo em que acreditava.


Deixo-vos uma passagem que penso mostrar de forma perfeita a escrita de Bulgákov: 

E apenas o cadáver testemunhava de Pettura não era um mito, que realmente tinha existido…  tranças de uma moça varrendo a neve, feridas de balas, uivo animalesco na noite, frio de rachar… portanto, isso tinha de facto acontecido.
Mas porque aconteceu? Ninguém saberá dizer. Alguém irá pagar pelo sangue?
Não. Ninguém.  

5 comentários:

  1. Não conheço nem o livro nem o autor, mas fiquei interessada! Boa crítica como sempre.

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  2. Gostei do que escreveste. Vou dar uma olhadela e talvez comprar!
    continua!

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  3. António Santosoutubro 06, 2011

    Não conheço o autor mas fiquei interessado. Já pesquisei na net e gostei do que escreveste. Se o comprar até ao natal depois digo o que achei.

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  4. Também não conhecia e fiquei interessado. Irei dar uma vista de olhos a esse livro.

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