segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A ESTRADA DO TABACO


Autor: Erskine Caldwell

Título original: Tobacco road



Sinopse: Durante a Grande Depressão americana, a família Lester não sabe como sobreviver à miséria que se avizinha. Residem e gerem os territórios rurais da Geórgia, cultivados com tabaco e algodão, mas já nem isso os salva. Debilitados pela pobreza ao ponto de atingirem um estado de ignorância e egoísmo cruel, os Lesters preocupam-se com a fome, os apetites sexuais que os devoram e o medo de que a hierarquia social os empurre para uma camada ainda mais desfavorecida.
A pobreza, o racismo e a bestialidade dos homens são aqui postas a nu, despindo a sociedade americana dos anos 20 com crueza e violência, numa tragicomédia de mestre. A Estrada do Tabaco é um dos grandes clássicos americanos de Erskine Caldwell.



Sendo um livro pequeno, a leitura foi rápida mas não foi fácil. Ao contrário do que esperei no início, este é um livro forte, muito forte, não só pelas personagens que tem, mas pela imagem que passa de uma sociedade que está fora da visão diária que temos da mesma. "A estrada do tabaco" levanta, tal como outro livros levantaram, uma pergunta para a qual não temos resposta concreta, mas sobre a qual podemos facilmente especular, e que aqui é questionada de forma indireta... afinal, no que nos tornaremos nós, tanto enquanto indivíduos, como enquanto sociedade, quando o dinheiro faltar? Para mim, apesar de o autor nunca nos perguntar, esta é a questão que o livro levanta num enredo que está, constantemente, a dar-nos murros com a realidade que nos apresenta.

O que temos pela frente neste livro é uma família sem dinheiro, em que valores morais ou cívicos pouco contam perante o desespero de quem nada tem, e onde os próprios valores familiares se alteram. Numa escrita que é, ao mesmo tempo, forte e divertida, Caldwell expõe alguns comportamentos a um nível que no início nos faz questioanr se estamos perante uma comédia, em que cada ação é exagerada para provocar o riso, ou se estamos perante uma impressionante crítica e abrir de olhos perante uma situação que é real e que muitas famílias sentiram. Aliás, o livro é de tal forma acutilante em relação a alguns temas que quase parece difícil acreditar que esta realidade pode ter existido num país em que os sonhos foram mortos pela depressão económica, criada por alguns que, facilmente, não sofrerão com a mesma.

E aos poucos, num ambiente que salta entre a comédia e a dura realidade, vemos como esta família se comporta, como vê o futuro, como abandona a esperança e como decide continuar a viver, sem almejar alcançar algo mais, sem lutar por algo mais do que a sobrevivência... é a apatia social exposta de forma diferente, mas igualmente perturbadora. Pelo meio, a violência, o racismo, o apetite sexual num livro que nos marca, não por ser uma obra genial, ou por ter um enredo marcante, nem sequer pelas ligações que iremos criar com as personagens, mas sim pela reação que nos irá provocar... porque no meio de todo este cenário, iremos rir, tal como temos necessidade de sorrir num velório, de encontrar algo que nos prenda aqui à felicidade para continuarmos a viver, este livro leva-nos a sorrir enquanto estamos envoltos pela desgraça da família que estamos a ler. 

Essa é, para mim, a grande mensagem do livro. Mais do que o que Caldwell conta, o génio está no que não conta. No entanto, este livro não é para todos, porque é forte, é depressivo em certos momentos e é angustiante porque queremos ajudar. Para quem o ler, imagens ficarão na memória, mesmo que se esqueçam da história ou do nome das personagens, alguns atos ficarão e iremos questionar alguns valores que não existem neste mundo escrito em poucas páginas. Em todos os momentos da nossa vida, existe algo que nos apoia, mas que também nos vira a costas em algum momento, mesmo que não percebamos porquê... talvez para aprendermos... este livro faz o mesmo e torna-se numa obra que, duvido, alguém diga que é o seu livro favorito, porque não pode, nem o deve ser. Diverte-nos e depois agride-nos, para de seguida nos voltar a divertir... afinal, que tipo de leitores somos cada um de nós?

Luís Pinto


5 comentários:

  1. Um dos melhores textos que alguma vez li. Fantástico!

    ResponderEliminar
  2. A sensação que fiquei da tua análise é que não é um livro do qual se consiga gostar e no entanto é preciso ler. Adorei o teu texto. parabéns está mesmo muito bom.

    ResponderEliminar
  3. Parabéns pela "poderosa" análise. Sinceramente não dava nada por este livro e esta análise fez-me pesquisar. As críticas são muito positivas e fiquei interessado. Para comprar um dia destes e depois recomendar se for o caso.
    Boas leituras
    JCrespo

    ResponderEliminar
  4. Sem falta de respeito pelos outros, este é o melhor blog que há!

    Olá, Luís. É sempre um prazer ler os seus textos. Este livro não me despertou a atenção ma agora olho-o com outros olhos. Acho que vou arriscar por ser uma leitura diferente. Parabéns pelo grande trabalho e continue durante muitos anos para eu saber o que comprar!

    Desejo de boas leituras.
    Cristina

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Há mais de 3 anos que é o grande blog literário do país e este é mais um livro para comprar. Obrigado pela recomendação!

      Eliminar