segunda-feira, 27 de junho de 2011

O LIVRO DE SAFIRA

Autor: Gilbert Sinoué

Título original: Le Livre de Saphir

Este foi o primeiro livro que li deste autor. Já ouvira falar mas não conhecia o seu trabalho literário e confesso que me espantou grandemente pela positiva.
A história passa-se na Espanha da Reconquista, poucos anos antes da queda de Granada. Incrivelmente bem detalhada, este livro demonstra o trabalho árduo de um autor em nos mostrar detalhes daquela época, de como as pessoas viviam, dos seus medos e interesses, que fará cada uma das personagens principais avançar ou recuar. Nas suas palavras, Sinoué consegue verdadeiramente transportar-nos para aqueles anos em que Espanha misturava nas suas ruas pessoas Católicas, Árabes e Judeus, mas onde o que reinava era o medo e consequente sentido de sobrevivência necessário para se vencer a desconfiança do que os rodeia.
As três personagens principais: um rabino, um filósofo árabe e um monge franciscano, unem-se para encontrar o Livro de Safira. Dotados de um conhecimento profundo das suas religiões, estes homens vêem-se unidos pelo falecido amigo que escondeu o Livro de Safira, o livro que Deus terá dado a Enoch. Sozinho, nenhum dos três o encontrará. Será necessário o conhecimento das três religiões para se alcançar as palavras de Deus. E que lição nos poderá dar esta simples ideia, pergunto eu.
O ambiente da Inquisição, com a sua espionagem e intrigas, oferece uma atmosfera única ao livro, capaz de nos viciar, mas o que realmente me prendeu ao livro foi a argumentação de cada um dos três conhecedores de religião e como por vezes se torna para nós, leitores, óbvio a similaridade de algumas mensagens nas distintas religiões.
No fim qual será o devoto do verdadeiro Deus? O que estará escrito no livro de Safira? São estas as perguntas que cada um esconde na sua mente.
Um trio impossível para aquela altura mostra-nos como certas barreiras podem ser quebradas quando o objectivo comum e a tolerância se fundem, enquanto perseguem as pistas que poderão revelar o paradeiro do livro. Armadilhas, personagens históricas, tudo serve para nos prender ainda mais enquanto vemos um grupo que se ajuda enquanto argumenta sobre qual Deus será o verdadeiro. Estes diálogos são incrivelmente inteligentes, dando-nos diferentes pontos de vista, ensinando-nos a base de cada religião, enquanto cada personagem aumenta o conhecimento das outras crenças. A forma subtil como cada um dos três se desenvolve ao ouvir, sem preconceitos, os ensinamentos de todas as religiões, é notável e demonstra um trabalho profundo do autor sobre o tema. No desenrolar apercebemo-nos como cada erudito de uma religião é tão cego perante as outras, e a forma como aos poucos cada religião se une com as outras demonstra até onde um preconceito nos pode cegar. Deverá alguém poder afirmar: o meu Deus é o verdadeiro Deus? Estarão as outras religiões enganadas enquanto uma está certa?
É um dos livros mais bem escritos e inteligentes que já li, onde será benéfico já termos algum conhecimento sobre o tema, com diálogos muito bem criados e encaminhados, um conhecimento profundo de religiões e da civilização mediterrânica. Este autor despertou o meu interesse para futuras escolhas literárias. Se gostam de ver discutidas os diferentes pontos de vista de várias religiões, com opiniões coerentes e não extremistas, envolvidos um romance cheio de armadilhas e interesses, este é um livro a não perder.

5 comentários:

  1. Este autor é pouco conhecido em Portugal o que é uma pena! Há algum tempo li A Rainha Crucificada dele e adorei. A história de Pedro e Inês mas com magia. Procuro por outros livros dele porém, não os tenho encontrado.

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  2. É refrescante ver críticas a livros menos conhecidos mas que têm qualidade. Já li este livro e adorei. realmente não é um autor conhecido por cá.

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  3. Olá Jojo e Raquel. Também não conheço mais nada deste autor apesar de já ter ouvido falar do menino de Bruges, mas que nunca li. Contudo, quando tiver tempo acabarei inevitavelmente por comprar mais um livro seu. Talvez compre "A Rainha Crucificada" que dizes ter adorado.

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  4. João Santosjunho 28, 2011

    Já li este livro umas três vezes. é mesmo um livro muito inteligente e bem escrito. esta review agradou-me imenso e aplaudo o facto de não revelar nada da historia nas suas criticas.

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  5. Um dos meus livros favoritos. Adorei a sua opinião, uma excelente análise a um livro obrigatório.

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