terça-feira, 21 de abril de 2015

ROMANCE ACIDENTAL


Autor: Martha Woodroof

Título original: Small Blessings




Sinopse: Há muito que Tom Putnam se resignou a uma vida solitária. Os seus dias são passados a dar aulas de Inglês, a moderar as excentricidades dos colegas, e a cuidar de Marjory, a mulher neurótica que o prende num casamento disfuncional. Uma rotina ordenada e apática que corre o risco de ruir com a chegada de Rose Callahan, cuja missão é reavivar a decrépita livraria da universidade. A energia de Rose e a sua indiferença perante a rígida hierarquia académica têm o dom de despertar os espíritos mais adormecidos. A começar pelo próprio Tom, cuja vida está prestes a mudar, ainda que não da forma (romântica) com que secretamente sonha. Numa carta breve, a poetisa com quem teve um desastrado caso amoroso no passado traz-lhe duas notícias. A primeira: Tom tem um filho com dez anos chamado Henry. A segunda: Henry está prestes a chegar. Tom fica nas nuvens. E não desce à Terra mesmo perante o facto (óbvio) de Henry não poder ser seu filho e o desaparecimento (definitivo) de Marjory. A verdade é que a simples presença de Rose é suficiente para lhe encher o coração de amor. Mas este sentimento, sem o qual já não imagina viver, é, ironicamente, o único com que Rose não consegue lidar. E é então que, um dia, Rose desaparece misteriosamente…


Quando comecei a ler este livro, esperava algo suave e calmo, mas enganei-me. Este livro de Woodroof é forte, levanta questões complicadas e é a verdadeira mistura de um enredo que é óbvio nuns momentos e completamente surpreendente noutros.

E foi essa mistura que me deixou entusiasmado. A autora cria um enredo que se torna bastante óbvio na maioria das suas páginas, com a própria narrativa a não tentar esconder o que irá acontecer, e nesses momentos a  leitura é suave e calma, sem nos marcar, mas com qualidade suficiente para nos levar a ler mas sem surpreender. E depois, quando menos esperamos, surpresa, pelo menos para mim. Foram alguns os momentos, em que completamente rodeado pelo óbvio, aparece algo que me deixa surpreendido e a querer saber o que acontecerá de seguida. E é assim, nestes altos e baixo que a leitura avança...

Outro ponto positivo deste livro é o seu realismo. É fácil conhecer estas personagens e identificar o meio em que vivem. A autora explora conceitos com facilidade e leva-nos a compreender estas personagens sem que seja preciso grande esforço. A escrita é direta, sem grandes fintas para enganar o leitor e isso fez-me entrar facilmente neste mundo universitário e também na rotineira vida pessoal de Henry. E com isso achamos que este é apenas mais um livro, dentro do seu estilo, aconselhado a qualquer leitor, mas não é.

A forma como a autora explora aqui alguns temas pode ser suave, mas este é um enredo recheado de questões marcantes, como a morte, a incapacidade de mudar ou a desesperante responsabilidade perante algo inesperado. E foi tudo isso que me fez gostar deste livro, que apesar de não ser fantástico, nem de revolucionar o género, tem a coragem de ser direto e objetivo, dando uma realista imagem do que é a vida e do que nos pode acontecer a cada dia, quer seja bom, ou mau... Pelo meio, a autora explora como as emoções do momentos nos toldam o discernimento e o porquê de raramente conseguirmos ver todo o cenário da nossa vida, mas, principalmente, este é um livro sobre as mudanças que por vezes precisamos, sobre o que nos faz felizes e que nos esquecemos e que deixamos de procurar. Por vezes limitamo-nos a viver e é aí que falhamos.

Não quero revelar nada deste livro. Romance Acidental não é uma obra prima, mas prendeu-me. Não é aconselhado a todos e facilmente cada leitor irá retirar as suas próprias conclusões deste livro. A mim surpreendeu-me, porque foi mais forte do que esperava e porque foi coeso, quer seja nos momentos muito óbvios, mas também naqueles em que fui surpreendido. 

Luís Pinto

4 comentários:

  1. Joana Fariaabril 22, 2015

    Muito curiosa de ler este livro depois de ler a tua opinião =)

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  2. Carla Dantesabril 22, 2015

    Estou a ver que se adequa bastante ao meu tipo de leitura. Parabéns pelo texto Luís. Muito bom como sempre.

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  3. Não conheço o livro nem a autora mas gostava de experimentar porque este não é o meu género mas gosto de algumas coisas que falas-te na análise. Estou a pensar adquirir e ver se gosto e depois digo-te alguma coisa.

    Bom trabalho como de costume.

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