quinta-feira, 5 de setembro de 2013

SOLDADO DA NÉVOA


Autor: Gene Wolfe

Título original: Soldier of the Mist



Soldado da Névoa constitui uma brilhante incursão do fantástico mundo histórico da Grécia, em 479 a. C., quando os deuses viviam na Grécia.
Latro, um mercenário vindo do norte, é ferido durante uma batalha e vê-se separado dos seus companheiros. Perde a memória e é forçado a viver o contexto de um eterno presente, redescobrindo todos os dias os farrapos da sua identidade e a natureza do mundo que o rodeia, apenas com a ajuda de um relato que se esforça por escrever todos os dias. Mas, como recompensa pelo seu infortúnio, Latro recebe o dom de poder ver e falar com todos os deuses, fantasmas e demónios que habitam na Terra.

Gene Wolfe é conhecido pela sua narrativa complexa e que nunca nos mostra tudo. Nesse aspeto, este livro é ideal para o seu estilo, pois estamos perante um soldado que a cada dia terá de ler o que escreveu no dia anterior para saber o que fez e reconhecer as pessoas que o rodeiam. Nós, leitores, passaremos pela mesma confusão.  

Este é o grande trunfo do livro: a forma como o autor nos deixa "às escuras" com esta situação, pois muitas vezes, também nós não sabemos que personagem é aquela que fala com Latro e da qual ele não se lembra. Para além disso, existem todos os momentos que Latro não escreve e dos quais nós rapidamente sentimos falta, pois percebemos que houve um salto temporal e notamos as diferenças, quer seja um novo personagem que aparece ou uma mudança no local.

Com esta falta de informação, o leitor tem sempre uma certa desconfiança. Eu, pelo menos, senti que por vezes o narrador poderia não estar a ser totalmente correto, quer seja porque quer, ou porque está enganado, e é em tudo isto que o livro se sustenta. A narrativa torna-se, aos poucos, num puzzle onde somos incapazes de ver tudo o que acontece, e enquanto tentamos ligar os vários bocados, Latro fará o mesmo na procura de saber quem é, de onde vem e como se poderá curar.

A juntar ao seu problema de memória, Latro ganha a capacidade de falar com os Deuses que vivem na Grécia e, para mim, este é o momento em que a história começa a ganhar interesse, pois torna-se difícil perceber se será tudo uma coincidência ou um ato divino, e se o for, qual será o seu propósito. 

Com uma imagem fantástica da Grécia e da sua mitologia, Wolfe leva-nos numa história que nem sempre é fácil mas onde a narrativa é sublime em certos momentos. Este é um livro que requer alguma concentração para percebermos tudo o que está a acontecer desde o primeiro momento, e no meu caso, tenho a sensação que perdi alguns pormenores importantes no início do livro, mas que não são necessários para a compreensão total da história. Sim, porque no fim Wolfe junta as peças e percebemos o que aconteceu durante todas estas páginas e que até então nos falhou.

Destaque ainda para as mulheres que aparecem neste enredo. Notei, quase por acaso, que todas elas apresentam papéis peculiares e com uma importância que não se percebe de imediato, mas gostei da forma como o autor explorou certos temas num espaço reservado a soldados.

Apesar de este não ser a obra máxima do autor (eu apenas li este e não posso argumentar tal facto), esta obra ganhou o Prémio Locus e prima pela originalidade. Nota-se as características que tornaram o autor famoso e fiquei com muita curiosidade de ler as suas obras mais famosas. No entanto acredito que este livro será tão bom quanto a atenção que o leitor dê ao enredo. Um leitor que esteja atento e que tente sentir a confusão de Latro, terá aqui uma excelente história, onde muito se repete e muito não se percebe. A sua escrita é confusa mas coerente e encaixa perfeitamente no fim e a forma como descreve locais e personagens demonstra que estamos perante um grande autor. Um livro muito original.

Luís Pinto

6 comentários:

  1. Não conheço o livro nem o autor mas vou procurar. O tema parece-me bastante interessante.

    Beijinhos!

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  2. Olá,

    Apenas conheço o escritor atraves do Torturador exilado chamado Severian e sim os seus livros não são fáceis, complexos ainda assim muito bons, alias ainda pretendo ler mais do escritor

    Abraço

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    1. Olá Fiacha!

      Também gostava de ler a saga do Severian ma não está fácil encontrar o livros!

      Abraço!

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  3. Nunca li nada deste autor. O tema parece-me interessante e facilmente se percebe que deve ser confuso. Parabéns pela opinião. Vou ver se encontro o livro numa próxima feira.

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