quinta-feira, 27 de junho de 2013

OS DRAGÕES DO ASSASSINO


Autor: Robin Hobb

Título original: Fool's Fate (2ª metade)


"Leiam esta saga!" (e a minha crítica podia ser apenas esta frase, porque, sinceramente, nem sei que dizer mais). 

Finalmente acabei esta saga, que juntamente com a anterior, nos dá um olhar sobre a vida de Fitz, narrada pelo próprio, num conjunto de dez livros. 

Olhando para a qualidade do livro, este não está acima dos restantes, mas será, quase de certeza, o favorito de todos. Em primeiro lugar é preciso dizer que Hobb consegue "fechar" todos os temas, dando respostas e momentos definitivos para tudo, à excepção de um pormenor que, quem sabe, poderá ser a chave para uma nova saga, um dia.

Este é, provavelmente, o facto mais bem conseguido deste livro: tudo fica explicado, até as dúvidas em relação à saga anterior, dando a sensação que na realidade são uma única saga, pensada desde o início para acabar neste livro. Em relação ao final, Hobb executa-o de forma diferente. No final da primeira saga, tudo foi muito rápido e isso desagradou alguns leitores. Eu adorei aquele final mas percebi a insatisfação de alguns. Neste, Hobb não repete o "erro". O final da "luta entre o bem e o mal" acaba muito antes do fim do livro, dando espaço ao acalmar da narrativa e à definição de tudo, com calma e sem espaço para dúvidas.

Sobre tudo o resto não há muito a dizer. Hobb está como nos habituou: excelentes personagens, momentos de surpresa e coerência, uma escrita lenta e cheia de pormenores, e acima de tudo, muita emoção. Morte, traição, amizade, amor, desespero. Tudo está presente e as decisões serão definitivas. Um livro que não desilude em nenhum momento e que é o final que os fãs há muito pediam, onde a autora demonstra a capacidade de não nos dar algo cor de rosa e que destruísse a coerência daquele mundo.

Resta-me acabar esta análise, onde me recuso a mencionar qualquer personagem ou momento (para nada revelar), da mesma foram que comecei: "Leiam esta saga!"

Agora um olhar sobre as duas sagas, num texto menos crítico e mais emocional:

Há um ano comecei a ler a história de Fitz. Quem me recomendou o "Aprendiz de Assassino" disse-me: "Não vais conseguir parar de ler". Um ano depois, e dez livros lidos (a uma média de 350 páginas, mais ou menos, é muita página), dou-lhe razão. Quando comecei a ler, achei que a saga poderia ter um problema: era narrada por Fitz, logo ele não iria morrer, pois não acreditava que a meio o narrador mudasse. Sendo assim, como poderia eu, leitor, preocupar-me realmente com ele? A resposta, vejo-a agora, é que não preciso, porque eu sofri com esta personagem. Qual o seu segredo? É difícil de explicar, e ainda mais difícil de copiar. Fitz foi uma presença na minha mente durante horas, as longas horas em que li a sua vida. E, acima de tudo, foi honesto. Enquanto narrador, nunca me tentou enganar, nunca escondeu os seus defeitos. Vendo bem, Fitz foi o narrador mais honesto que já li... tratou-me como a um amigo, e ao mostrar-me todos os seus erros, imperfeições, virtudes e momentos de indecisão, tornou-se na personagem mais humana... aquele que cresceu ao contar-me a sua vida.

O segredo é mesmo esse: Fitz não é um herói como nós conhecemos. É, principalmente, uma personagem que não tem a vergonha de dizer ao leitor tudo o que fez de mal e sofrer com isso. Claro que parece que o estou a tornar demasiado real, mas pensem bem: quantos narradores foram totalmente honestos com o leitor? Quantos não nos tentaram enganar, esconder coisas até ao fim, para nos surpreender? Aqui nós sempre soubemos o mesmo que ele.  

E assim sofri com Fitz. Sofri pelo amor que não teve, pelas torturas que recebeu, pelas mortes à sua volta. E isso é tão difícil um escritor conseguir... aquela capacidade de nos fazer esquecer que estamos a ler e levar-nos, inconscientemente, a acreditar que aquela história existiu, teve amor e sofrimento, e nós sofremos, porque gostamos daqueles personagens que não são mais do que palavras escritas por alguém que nunca iremos conhecer. É essa a magia da leitura: é ver o Fitz a sofrer e esquecermos que estamos no nosso quarto, é achar que ele está à nossa frente a contar-nos a sua vida.

Claro que a saga não é apenas Fitz. A autora criou, desde o início, uma ponte que qualquer leitor atravessa, e que nos leva a gostar também de outras personagens. Castro, talvez o mais incompreendido no início, mas principalmente Veracidade e o Bobo. O Bobo pelo enigma que é, sempre misterioso, Veracidade porque é a imagem paternal que Fitz nunca teve, cheio de moral, justiça e coragem, sempre pronto a sacrificar-se enquanto nos revoltamos com as injustiças que Majestoso cria. Claro que existem outras... acredito que seja impossível não ficar "amigo" de Olhos-de-Noite e principalmente de Obtuso, que adorei. Todos eles desafiam Fitz à sua maneira, levando-o a errar, a admitir o erro e crescer.

Este conjunto de personagens, onde podemos ainda acrescentar Breu, a Rainha, Paciência, etc... é o grande trunfo da saga. Se as personagens fossem menos reais, menos fortes, então o enredo não teria a capacidade de nos prender da mesma forma. E isto nota-se com facilidade. Hobb cria um mundo interessante, dá-lhe diversidade, curiosidades, cultura, e tudo isto com qualidade, mas essa é a parte que iremos esquecer. O que fica é essa empatia, que cada um poderá criar (no meu caso, com Fitz).

Esta empatia que criei, outros poderão não sentir. Na literatura, durante os anos em que lemos, vamos assistindo a muitas histórias, conhecemos milhares de personagens. Umas ficam connosco para sempre, outras esquecemos mal o livro acaba. Todos nós ganhamos algo quando lemos um livro, mas por vezes, existe um livro que nos tira algo quando o acabamos. Foi isso que me aconteceu com esta saga: houve algo que perdi quando a acabei, e sente-se um pequeno vazio que apenas os nosso livros favoritos conseguem deixar dentro de nós.

A saga de Fitz (e aqui falo dos dez livros) não é a minha favorita nem é a melhor que já li, e o mesmo se passa com Fitz, que não é a minha personagem favorita, nem a melhor que já conheci... mas fez-me vibrar como nenhuma outra. Fez-me rir, fez-me sofrer ou ficar triste. Acima de tudo, fez-me companhia e por isso, estas milhares de palavras que Hobb escreveu, nunca foram apenas uma leitura onde lemos algo. Esta foi partilhada com a personagem, e por isso a leitura, um ato que por vezes é tão solitário, neste caso nunca estive sozinho.

Luís Pinto

13 comentários:

  1. Paula Estevesjunho 27, 2013

    Gostei muito deste teu "enorme" texto. Parabéns e ainda bem que gostaste tanto.

    ResponderEliminar
  2. Também gostei muito do teu texto. Parabéns e acho que convenceste muitas pessoas e conseguiste explicar o porquê de gostares tanto destes livros. É muito bom quando lemos algo assim.

    ResponderEliminar
  3. Acabei de ler esta saga há poucos meses. Dou-te os parabéns pelo texto porque acho que conseguiste dizer o que todos nós sentimos quando esta livro acaba. Quase apetece ler mais devagar. O Fitz e o Bobo são duas personagens fascinantes e apetece começar a ler tudo de novo para vermos o crescimento dos dois e a amizade eterna que eles têm. Identifico-me com tudo o que dizes. Acho que acertaste em cheio com esta saga e espero que muita gente a leia depois de ver esta tua opinião.

    Boas leituras.

    ResponderEliminar
  4. Parece-me impossível não ler :)

    ResponderEliminar
  5. Parabéns pelo texto, sem dúvida!

    ResponderEliminar
  6. Senti exactamente o mesmo. Um grande vazio e uma grande amizade com o Fitz. Só lamento não ser uma série mais conhecida porque vale a pena ser lida.

    Parabéns e continua.

    ResponderEliminar
  7. li em francês e fiquei perdida com os nomes que foram traduzidos em português. eu gostei das trilogias, mas detestei o final, o que deixou um sabor um pouco amargo no final. parabéns pelo texto

    ResponderEliminar
  8. Um final fantástico para uma saga de grande qualidade. Parabéns pelo texto, vi-me bastante nas tuas palavras.

    Boas leituras e um abraço

    ResponderEliminar
  9. Olá Luís,

    Muito bom comentário, para mim este livro encheu-me as medidas, foi um encerrar de ciclo com o devido tempo e bem conseguido.

    Fui um dos que logo desde o inicio que achava que irias gostar desta saga, que em certos aspetos a Robin Hobb, consegue superar Martin, por exemplo a forma como explora o vinculo entre um humano e um animal, entre outros e estando em sintonia com todo o teu comentário, penso que consegues colocar cá para fora tudo o que sentimos no decorrer da saga, considero que o Bobo (em especial quando era o Bobo) seja a melhor personagem criada pela Hobb, embora óbvio estas sagas é sobre Fitz.

    E venha a próxima, espero que a Hobb venda suficientemente bem para que não deixem de publicar os seus livros

    Abraço

    ResponderEliminar
  10. Gostei muito destes livros e a autora está no meu top. A tua opinião exprime bem o que eu senti e vejo que muitos outros sentiram. Falaste no facto de o narrador ser muito honesto e isso foi alog que não tinha pensado e que tens toda a razão. Acho que me deste uma nova prespetiva sobre a saga.

    ResponderEliminar
  11. Ois,

    Já agora uma pequena adenda ao meu comentário, algo que critico no Fitz é que ele nunca foi aquilo para o qual foi treinado, ou pelo menos nunca foi explorado devidamente, matou é verdade mas nunca foi aquilo a que a saga dá nome, uma das poucas falhas que encontro em ambas as sagas :)

    Abraço

    ResponderEliminar
  12. Olá Luís

    Gostei imenso do comentário. É de facto uma saga muito boa e para mim inesquecível tal como a Guerra dos Tronos. Já a li 2 vezes. Depois de também já ter lido a saga do Mago, Acácia, Trilogia do Elfo Negro, Trilogia das Planícies Geladas, Assassin's Creed, entre outros,nenhuma destas me deixou um sinal tão positivo como a saga do Fitz e a Guerra dos Tronos. Não resisti à tentação e comprei os livros em inglês. É difícil e mais neste campo da Fantasia, conseguir criar uma ligação tão forte com o leitor e personagem como Robin Hobb fez com Fitz. Parece que vem por aí mais outro livro da saga do Fitz segundo li na net, mas Robin Hobb recusa-se a confirmar se tal irá ou não acontecer. Espero que sim. Esta saga merece ser mais divulgada.

    ResponderEliminar
  13. Olá Luis,
    acompanho o teu blog há pouco tempo e fiquei curiosa... fui ver o que dizias sobre a minha saga preferida de todos os tempos. Gostei! Gostei muito de ler a tua opinião! Classifiquei todos os livros com a nota máxima mas tenho muita dificuldade em explicar o porquê... revi-me completamente nas tuas opiniões.
    Mas para mim, e o que revela a qualidade desta saga, é o facto de o final deixar um vazio... uma saudade!!
    Porque será que esta saga não é muito divulgada?? Eu quase que obrigo todos a ler estes livros!!
    Agora uma provocaçãozita... Não será melhor que A Guerra dos Tronos?? Afinal o autor ainda não a conseguiu terminar... Começou de uma forma espetacular mas a meu ver perdeu-se no mundo de Westeros... Está a tentar encontrar-se e pelo meio lança uns apêndices para ganhar mais uns trocos.

    Bem, o texto vai longo... Excelente trabalho aqui no teu blog! Parabéns! Boas leituras! Vou continuar a acompanhar as tuas opiniões!

    ResponderEliminar