segunda-feira, 7 de setembro de 2015

NA PRESENÇA DE UM PALHAÇO


Autor: Andrés Barba

Título original: En presencia de un payaso



Sinopse: «Talvez fosse essa uma das piores tragédias do palhaço: a de que toda a gente desejasse constantemente que o palhaço fizesse de palhaço sem descanso, até ao fim dos tempos.» O cientista Marcos Trelles prepara-se para publicar um artigo numa importante revista da especialidade, mas terá de anexar uma curta biografia de trezentas palavras. Nas duas semanas de que dispõe para a escrever, viaja com a esposa até à casa da sogra, falecida um ano antes, para resolver de vez o problema da herança. Na mesma altura, regressa a Espanha Abel, o cunhado, que pretende vender a casa da mãe e desfazer-se da última coisa que o liga ao país onde nasceu. Célebre comediante já reformado, foi ele quem, anos antes, empreendeu uma campanha política que elegesse um manequim para o Congresso, como forma de desmascarar o teatro político que nos subjuga.
Quem sou eu? Esta interrogação desafia Marcos a encontrar, no caos do nosso quotidiano de austeridade e desemprego, uma possibilidade de ordem dentro de si, mas igualmente dentro de um país despedaçado. No mais recente romance de Andrés Barba, a prosa limpa esconde a navalha com que se escalpeliza o espetáculo da política.



Num livro pequeno e com uma escrita interessante, esta obra leva-nos num caminho em que o objetivo é a procura sobre a verdadeira identidade do personagem principal. Com este objetivo, temos pela frente uma viagem curiosa, marcada pelo humor, pelas dúvidas, pelos medos e, inevitavelmente, pelo momentos em que o personagem se perde, para depois se voltar a encontrar.

Um dos melhores aspetos deste livro são os seus personagens. O autor, que eu nunca tinha lido, explora de forma interessante a forma como uma pessoa se vê e como se consegue auto-avaliar, culminando, tal como se espera desde o início, nos choques entre a forma como nos vemos e a forma como as pessoas nos vêem, levantando dúvidas mas também dando ao leitor, e ao personagem, novas realidades, novas noções de si próprio que até então lhe falharam.

Gostei bastante da temática do livro apesar de em alguns momentos sentir que o autor poderia ter explorado mais alguns conceitos. A base tem significado e tem pernas para andar mas, no entanto, nota-se que o autor não quer tornar o livro demasiado denso. O ritmo é agradável do início ao fim e a leitura nunca foi um esforço, muito graças aos momentos de humor que duas personagens conseguem criar de forma constante mas quase sempre inesperada.No entanto, talvez devido à temática, fiquei sempre à espera que o autor explorasse alguns conceitos. No entanto, no final percebe-se qual o caminho do autor. Um caminho inteligente e inesperado em alguns momentos, e que talvez não agrade a todos os leitores, mas que está bem montado e bem pensado.

Indiretamente, este livro levanta várias questões, e um leitor que faça uma leitura mais pausada e atenta conseguirá perceber até onde o autor quer chegar e a forma como nos quer levar a pensar. Os temas são atuais e a forma como o ser humano é aqui exposto envolto na sociedade que criámos, leva a que este seja um livro bastante adulto, mesmo apesar de o autor não ser totalmente objetivo. O resultado é um livro maduro e inteligente, mas que em alguns momentos poderia ter sido mais. A mim não me marcou como esperava, mas não posso negar a sua qualidade. como tal, acredito que muitos leitores o achem fascinante pela viagem que nos oferece.

Contudo, este é um livro aconselhado a qualquer leitor que ao ler a sinopse sinta a curiosidade de ler estas páginas que têm tanto de alegres como de melancólicas... sentimentos normais quando nos tentamos ver a nós próprios. Se este tema for o vosso género, então este reconhecido autor poderá dar-vos aqui uma boa leitura.

Luís Pinto

3 comentários:

  1. Gostei da opinião e fiquei curiosa para ler o livro.

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  2. Olá Luis. Não conheço o autor nem o livro mas gostei da tua crítica e acho que vou procurar pelo livro nas lojas. Também gostei da capa e parece-me que fizeste uma análise muito acertada.

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  3. Confesso que se não fosse a tua opinião acabaria por nunca olhar para este livro. Já está na lista para comprar lá mais para outubro :)

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