sexta-feira, 15 de março de 2013

Espaço Leitor: Os Pilares da Terra vol. 1 e 2

Hoje abro o "Espaço Leitor", local onde um leitor poderá deixar a sua opinião sobre um livro. Para estreia, pedi à minha amiga Margarida Contreiras que deixasse a sua opinião a estes dois livros que ainda não tive oportunidade de ler. 

Espero que gostem! Eu fiquei ainda com mais vontade de um dia ler estes livros e também deixar a minha opinião!


Autor: Ken Follett

Título original: The Pillars of the Earth




Os Pilares da Terra é, antes de mais, uma ode ao mundo medieval.
Depois, é também uma encruzilhada de estratos sociais, profissionais, familiares, triângulos amorosos e hierarquias. É uma crise dinástica. É um romance de amor. É uma batalha pelo poder. É a história de uma promessa. É o destino de uma vila.
E todos estes caminhos se atravessam na construção de uma gloriosa catedral. É que, na verdade, este livro conta a história de quem a desejou, de quem a planeou, de quem a cobiçou, de quem a administrou e, finalmente, de quem a construiu. 

É a edificação deste templo que põe a funcionar todos os motores da narrativa, criando a vida, a morte e as demais peripécias do livro, como se a catedral fosse o pretexto para que todos estes conjuntos se cruzassem.
Veementemente aconselharia este livro a um arquitecto, já que são dados alguns momentos da narrativa a descrições de monumentos arquitectónicos ou a técnicas de construção explicadas pela visão dos mestres pedreiros que são verdadeiros tratados de arquitectura. Não se fala em gótico, mas não é preciso ter conhecimentos profundos de arte para saber que ele está lá, já que a descrição é de tal forma clara que não deixa espaço para dúvidas. Para o mostrar, o autor leva-nos, para além de Kingsbridge, a Espanha e a Paris (e por pouco não chega a Portugal) através dos olhos de um escultor e pedreiro.

O longo romance que é o Os Pilares da Terra constitui uma viagem ao mundo medieval, onde o leitor sente que entra, vendo na sua mente com clareza o outro tempo e os seus hábitos: a alimentação, o vestuário, o amor, o ódio, a vingança, o sexo, a festa, a política e, em suma, a vida.
Este romance não é, contudo, tão medieval como parece, já que, talvez sem querer, o autor puxa um assunto que o leitor reconhece de imediato – a busca desesperada do ganha-pão: as suas causas e consequências, as lutas e a frustração proveniente da falta de realização profissional, sendo esta a raiz de todo o enredo. Ainda assim, claro está que este assunto surge aparte de todos aqueles temas próprios da era de duzentos, tais como, forcas, cavaleiros, casamentos sem divórcio, pés e mãos cortadas, cicatrizes de guerra, prostituição descontrolada, morte de fome, e por aí adiante. 

Importa neste ponto dizer que este livro deve ser louvado pelas suas descrições de guerra, feitas em conta, peso e medida, já que, ainda que as batalhas surjam com alguma frequência, não chegam a aborrecer o leitor com todos os pormenores sórdidos que o levam a imaginar as cenas de combate quase em câmara lenta. Follet descreve o necessário para se compreender a tática e o desfecho, pelo que não se deve aconselhar este livro aos amantes destas prolongadas batalhas. 

Todas as personagens demonstram uma personalidade elaborada e muito fora do regime cliché, já que, sem nunca deixarem de surpreender, cada uma toma as suas acções de forma muito própria, que o leitor identifica facilmente com a personagem. A narrativa mostra, claramente, quem são os bons e os maus; contudo, não existem personagens perfeitas, e todas elas nos são apresentadas com os seus defeitos e virtudes, o que contribui ainda mais para uma credibilidade notável: são, como em qualquer romance, pessoas um pouco excepcionais para a sua época, sobretudo a nível de valores, contudo, o autor consegue mostrá-las com uma faceta medieval muito marcada que as enquadra perfeitamente no seu contexto histórico. 

Gostaria, contudo, de destacar duas delas: o prior Philip e Jack Jackson. O primeiro é dado a conhecer ao leitor desde os seus primeiros anos de vida e revela-nos uma fé cristã inabalável misturada com uma ambição invulgar. A sua vivência acompanha toda a acção e é, obviamente, uma das personagens estritamente ligadas à construção da catedral na sua condição de prior de Kingsbrige, vila onde se passa grande parte da história. Jack Jackson aparece na narrativa como uma criança ruiva e ingénua e o leitor acompanha a sua entrada sorrateira na história, na qual vai, aos poucos, ocupando um local de destaque pela sua destreza artística, pelo seu carácter selvagem e pela sua inteligência audaz. Contudo, seria injusto considerar estas personagens responsáveis pela qualidade do elenco do livro, já que existem muitas outras de uma particularidade e consistência marcantes. Ainda assim, o leitor tem alguma dificuldade em decidir qual das duas pode ser considerada principal, não só pela sua genialidade, como pela sua indispensabilidade à história.

Nos outros assuntos, o realismo reina do princípio ao fim, permitindo ao leitor, subliminarmente, ganhar conhecimentos interessantíssimos de história da vida privada medieval. Por vezes, surgem acontecimentos que fazem o autor duvidar que pudessem suceder numa qualquer realidade, mesmo que de outra época, contudo, Follet equilibra estes factos extraordinários com outros de uma crueza e frieza tal, que só podiam ser obra do acaso. 

Na edição original, a obra é um livro só, embora bastante extenso, mas na versão portuguesa, a história está repartida por dois livros. A escrita do autor é límpida e agradável e a tradução parece ser de qualidade. O intercalar de situações está muito bem construindo, já que, ao saltar de um contexto para outro, não só se alimenta o suspense que nos prende ao livro, como alivia o leitor de uma sequência de acontecimentos, levando-o à curiosidade de conhecer as restantes partes pertencentes às linhas que tecem a história. Devo dizer, contudo, que o segundo livro é significativamente mais empolgante do que o primeiro, não querendo com isto dizer que o primeiro tenha menos qualidade; tem antes menos acontecimentos marcantes. O final acontece de uma forma um pouco lenta e intermitente, o que priva o leitor daquele desfecho caloroso que tanto se espera durante a leitura, mas que permite pensar que esta história é daquelas que poderiam ter acontecido na realidade onde sabemos que não existem desfechos absolutos resumidos a um só momento.

Este livro conta, afinal, a história de uma família que procura sustento na construção da catedral e de outra que vive no bosque; de um monge que quer ser prior; de um homem que quer ser rei e de uma mulher que quer ser imperatriz; de dois homens que querem ser condes; de um clérigo que quer ser bispo; de um rapaz que quer ser mestre pedreiro e de uma rapariga que quer ser feliz.
Este livro mostra-nos quais sãos os pilares da terra – os que sustêm as vidas e as catedrais.

14 comentários:

  1. Olá.
    Bela iniciativa esta. A tua convidada está também de parabéns pelo excelente texto que produziu.
    Como tu também ainda não li estes livros, aliás nunca li nada do Follet. Conto lê-lo ainda este ano. Irei começar por "O Homem de Sampetersburgo" e depois logo verei o que acho da escrita do autor.
    Boas leituras.

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    1. Olá André,

      Também estou há muito tempo para começar a ler este autor. Talvez seja este ano. Ainda bem que gostaste da iniciativa, é para continuar!

      Boas leituras!

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  2. Olá,

    Confirmo excelente iniciativa e sem duvida um excelente comentário. Por acaso já li os livros e embora os tenha achado um pouco caros na altura penso que foi dinheiro bem empregue. Dos melhores romances históricos que já li ;)

    Abraço e boas leituras!

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    1. Ah Fiacha, mais um a dizer que tenho de ler estes livros! =)

      Abraço!

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  3. Oi,
    ótimo comentário! Sou brasileira, e quando li esse livro, ele era em dois volumes. Adorei o livro, um dos meus favoritos, Ken Follet, soube com sabedoria criar bons personagens e narrar uma história muito bem construída, envolvente e coerente.
    Em determinado momento, ao meu ver, Os Pilares da Terra narra uma uma história em metáfora, pois quais são os pilares da Terra? Amor, ódio, vingança, trabalho, corrupção, inveja, maldade, bondade, justiça,mentira, verdade, honestidade, desonetstidade, enfim, todos os sentimentos, e elementos q envolvem uma sociedade, seja ela aonde for, e quando for. Acrescento q meu personagem favorito desse livro é o Jack!!! :D

    Abraços, e boas leituras

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    1. Obrigado Amanda!

      Mais textos de leitores em breve, e cada vez mais convencido a ler este livro.

      Boas leituras!

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  4. Esta nova rubrica começou da melhor maneira, com um excelente comentário ao também excelente Os Pilares da Terra. Os meus parabéns à Margarida Contreiras pela forma como conseguiu mostrar bem quase tudo o que o romance trata e explora e o quanto gostou das várias vertentes.
    De facto, li este romance na sua língua original e fiquei instantaneamente fã de Ken Follet, pelo que já tenho o próximo livro pronto para me deliciar.
    Resta-me lembrar que houve uma série de televisão feita com base no Pillars of the Earth que resultou muito bem, com óptimos actores e um argumento surpreendentemente bem adaptado de um romance tão grande e pormenorizado e que recomendo a todos, tenham ou não lido o livro, embora talvez seja uma boa ideia adiar a série para depois da leitura se já estiverem convencidos a ler a obra de Ken Follet.

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    1. Olá André.

      Também já ouvi falar muito bem dessa série, mas estou a resistir à tentação de a ver para conseguir ler primeiro os livros.

      abraço.

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  5. Oi,
    tenho algo a lhe dar, mas vc precisa ir ao meu blog,no ítem "meu selo" para saber o q é, e espero q goste! :D
    Meu link:http://amandatrindadepalavrasaovento.blogspot.com.br

    Abraços e boas leituras!

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    1. Olá Amanda! Vou já ver!

      Obrigado!

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  6. Bom dia!

    Obrigada pelo vosso reconhecimento e louvor. Outro obrigada ao fundador do Ler y Criticar pela oportunidade de abrir uma janela à minha escrita.

    Uma boa semana para todos!

    Margarida Contreiras

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    1. Novamente, excelente texto Margarida. Parabéns!

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  7. Parabéns por esta iniciativa Luís... que bela opinião e sem dúvida um excelente pretexto para quem ainda não descobriu os "Pilares da Terra"
    É um livro extraordinário.

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