sexta-feira, 18 de abril de 2014

12 ANOS ESCRAVO


Autor: Solomon Northup

Título original: Twelve years a slave



Sinopse: Nova Iorque, 1841. Solomon Northup, um negro livre, vive com a mulher e os filhos. Leva uma existência pacífica, entre os dotes de carpinteiro e o talento para tocar rabeca.
Ao aceitar o convite de dois homens para entrar numa digressão, vê a sua vida mudar para sempre. A glória e o lucro prometidos transformam-se num pesadelo quando, após uma noite de copos, acorda acorrentado.
É comprado pelo dono de uma plantação na Luisiana e, a partir desse momento, torna-se um escravo. Decorrerão doze anos até ser finalmente libertado.
Doze Anos Escravo foi escrito durante o seu primeiro ano de liberdade e conta a sua experiência de vida ao longo dos anos de cativeiro. Um relato extraordinário pela voz do próprio Solomon Northup.


O livro que originou o filme de 2013 é um soco no estômago de cada leitor. Inspirador e cruel, cheio de esperança mas também de tristeza, esta é uma das histórias mais marcantes que li nos últimos tempos... não só porque tais descrições me revoltaram, mas porque senti que tal poderia ter acontecido a qualquer pessoa numa época em que o lucro estava acima de qualquer valor moral... e será só um problema dessa época? Desde quando é que o dinheiro está, para muitas pessoas, acima de valores morais? Até onde a humanidade poderá ir à procura de lucro? Poucas coisas condicionam a nossa sociedade da forma que o dinheiro consegue. E tal como este homem foi escravo, também nós somos escravos do dinheiro, pois esse foi o caminho que a sociedade seguiu.

Esta é uma história emocionante que demonstra a falta de valores que algumas pessoas têm, mas também é uma história sobre algumas pessoas que conseguem sorrir e manter a esperança quando parece que toda a humanidade os abandonou. O autor explorou muito bem a forma como algumas pessoas se sentiam superiores apenas porque eram "brancas" e não "pretas", como são descritas neste livro, e como essa mentalidade se demonstra cega, quer por crença, ou por conveniência. 

Neste caso, vemos como a qualquer momento a nossa vida pode mudar. Vivemos numa sociedade onde tudo está ligado, e por nossa ação ou de noutros, a nossa vida depende de certos momentos. A deste homem muda do dia para a noite, e de repente vê-se roubado do que mais ama. E assim, este livro torna-se na história da luta de um homem que por vezes deixa de acreditar na salvação, porque existem sempre momentos em que nos conseguimos levantar, e outros não. Pelo meio está a dúvida na nossa fé, o questionar do porquê tal história se passar com o narrador. Existe, mesmo que indiretamente, uma desilusão nas palavras deste homem, talvez porque viu o sombrio que o Homem pode ser, ou talvez porque se sentiu injustiçado e abandonado, talvez pela humanidade, talvez por Deus.

O que revolta, para além de termos consciência que esta é uma história verdadeira, é saber que não estamos perante um caso isolado. Desde sempre existiu escravatura, seja ela de que tipo for, e ainda hoje estas histórias continuam a acontecer... e é por isso que este livro (e claro, também o filme) devem ser mais do que algo que lemos e arrumamos na estante. Deve ser um grito de revolta por aqueles que não podem gritar. 

"12 anos escravo" é uma constante luta, mesmo que injusta, entre o bem e o mal, entre liberdade e prisão, entre direitos e o que está estipulado. A forma como o autor escreveu, pode não ser bela, mas é forte, tal como o tema pede... e talvez a grande diferença esteja no facto de ter sido escrito por quem viveu tal experiência, porque existe um toque pessoal que apenas poderá ser dado por quem sentiu o que escreve. Um livro de grande qualidade e que merece ser lido, não só para termos uma maior compreensão desta época, mas também para que passemos esses conhecimentos.

Luís Pinto 

3 comentários:

  1. Análise muito boa, Luís. Parabéns como sempre.

    Vi o filme e marcou-me. Muito bom e muito forte. Agora fiquei com vontade de ler o livro! Boas leituras para ti.

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  2. Olá, Luís. Boa Páscoa e parabéns pela crítica. Um tema forte e controverso, aqui muito bem detalhado nesta obra. Vi o filme e depois desta análise terei de o ler, mas mais para meio do ano. Talvez o compre já na feira.

    Abraço

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  3. Grande análise, Luís! Adorei este livro e a tua análise está mesmo muito boa sem revelares nada.

    É um tema muito difícil de explorar, acho eu, porque é uma ferida que ainda existe. Li o livro mas ainda não vi o filme. Acho que estou ao contrário da maioria. Devo vê-lo agora nos próximos tempos mas recomendo este livro. Parabéns pelo texto e boa páscoa.

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