quinta-feira, 17 de novembro de 2011

A BALADA DO CAFÉ TRISTE

Autor : Carson McCullers

Título original: The Ballad of the Sad Café


Sinopse: Numa pequena povoação no Sul profundo dos Estados Unidos, Carson McCullers dá-nos a conhecer um trio de personagens pouco convencional. Miss Amelia Evans foi casada durante dez dias com Marvin Macy, o homem mais bem-parecido mas com o caráter mais instável da povoação, e desde aí tem estado sozinha à frente do seu próprio destino. Até um dia chegar à terra um anão corcunda que se afirma seu primo, roubando-lhe o coração e transformando a sua loja num café cheio de vida. Mas quando o marido rejeitado regressa ao fim de vários anos, inicia-se um estranho triângulo amoroso - e a vida no café nunca mais voltará a ser a mesma…


É por esta razão que muitos preferem amar a ser amados. Quase toda a gente quer ser o amante. E a verdade nua e crua é esta: no íntimo, o facto de ser amado é intolerável para muita gente. O amado teme e odeia o amante, e pela melhor das razões. O amante quer sempre mais intensamente ao seu amado, e ainda que isso lhe cause somente dor.

Não conhecia esta autora antes de ler este livro, e como tal a surpresa foi enorme. Este pequeno livro com perto de 80 páginas foi uma experiência tão genuína que me faz perguntar como foi possível nunca ter ouvido falar desta autora. McCullers arrebata lentamente, quase embalando o leitor, com uma escrita leve, fácil e rápida, enquanto nos oferece descrições tão curtas mas incrivelmente tão precisas que conseguimos imaginar o local como se o estivéssemos a ver.
O que torna este livro realmente bom é o facto de a autora misturar tanta coisa e tudo parecer tão bem orquestrado. A base da história deverá, muito provavelmente, ser diferente para cada leitor. Uns poderão dizer que se trata de amor, de tristeza, de solidão. Eu acho que este livro é sobre as necessidades que cada pessoa tem e o quanto dói quando não as temos. Nós humanos só damos o real valor ao que não temos, e será sempre assim, por mais que tentemos lutar contra esse facto. É a busca pelo que não temos que nos move!
Todas as pessoas precisam de algo. Amelia precisa de redenção e o seu primo dá-lha. Marvin precisa de atenção, e nunca a recebe. E tudo nos remete para a solidão, tanto física como psicológica. E como este livro consegue de forma tão suave e simultaneamente tão dura mostrar o que realmente é a solidão, o quanto dói.
Quem viveu acompanhado teme ver-se abandonado. O silêncio de um quarto aquecido onde de repente o relógio para de trabalhar, as sombras de uma casa vazia… É melhor receber o pior inimigo do que enfrentar o terror da solidão.

Talvez a solidão nos mude. Talvez algumas pessoas façam tudo para não estarem sozinhas, talvez aguentem tudo, percam a própria identidade, a personalidade, para não perder a companhia.  É isto que este livro me mostrou a mim, três personagens longe do estereótipo que imaginamos, três pessoas tão frias e distantes e curiosamente que dependem tanto umas das outras. O amor pode, talvez até facilmente, mudar uma pessoa, tornando-a melhor… mas também pode piorar, e muito, pois não existe amor sem ódio. É isso que nos torna humanos, essa felicidade e sofrimentos que nos acompanham na nossa vida, alterando o nosso caminho e estas personagens enfrentam os seus caminhos de forma sempre surpreendente, movidos não pela personalidade, mas pelo que sentem!
E o problema reside nisto: todas as coisas têm um valor e é preciso dinheiro para as ter, pois é assim que o mundo funciona. Sabe-se quanto custa o fardo de algodão ou uma quarta de melaço. Mas a vida humana não tem preço: é-nos dada de graça e levam-na sem pagar nada. Quanto vale? A julgar pelo que nos rodeia, por vezes o seu valor é pouco ou nenhum. Muitas vezes esforçamo-nos sem descanso e as coisas não melhoram, e depois surge a sensação de que não se vale nada.

A escrita de Mccullers é assim, directa, tornando este livro numa experiência única, que se lê à velocidade da luz. É daquelas autoras que não precisa de muitas páginas para nos fazer perceber o essencial, nós só temos de ler, pensar e perceber, e é isso que um livro nos deve obrigar: a não nos limitarmos a ler! Devemos sentir e pensar, compreender ou então o livro nada nos ensinou. Neste caso 80 páginas chegaram para uma bela história e para nos fazer pensar. Uma leitura rápida, um livro barato. Uma qualidade que não se pode negar. É um excelente livro!

11 comentários:

  1. Acho que esta é capaz de ter sido a review que até agora mais vontade me deu de ler um livro...muito boa e muito cativante! Keep it going!

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  2. Devias escrever para alguma revista. Crítica fantástica! parabéns.

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  3. Excelente crítica. Lembrei-me ainda que talvez gostasses de "No Café da Juventude Perdida"
    de Patrick Modiano.

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  4. Há escritores em Portugal que gostariam de escrever com a força das suas palavras. parabéns! Em relação ao livro, fiquei interessado. Não conheço mas vou procurá-lo.

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  5. Muito dificilmente alguém que leia esta opinião não comprará o livro. És um mestre a empolgar à leitura. Don´t Stop!

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  6. Excelente análise, grande obra, magnífica escritora. Li, ainda jovem, "Reflexos nuns olhos de oiro" e ainda hoje recordo com clareza essa leitura."A balada do café triste" é outra das obras que os meus pais também tinha na biblioteca e acabei mais tarde por comprar toda a sua obra na língua original. É uma admirável escritora.

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  7. Olá José Costa!
    Li no seu blog que está a ler as mais de 900 páginas do 1Q84! Fico à espera da sua opinião. Esta escritora não conhecia e esse obra de que fala, Reflexos nuns olhos de oiro, não conheço, mas a partir de agora estarei atento à autora.

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  8. Adorei a tua crítica! Muito muito boa mesmo! O blog é igualmente muito bom! Fiquei fã! Seguidora aqui (macy) e no face (Teresa Carvalho). Parabéns!

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  9. Luís, eu adoro esta escritora!!! Li este ano Reflexos num Olho Dourado e, apesar de ter lido devagarinho saboreando cada página.

    A tua opinião está excelente como sempre!:)

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  10. Olá macy! Obrigado pelo elogio!

    Olá Jojo! Já és a segunda pessoa a falar-me do Reflexos num Olho Dourado. Para o ano terei de o ler então. Não conhecia a autora, mas foi uma surpresa agradável!

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  11. Fiquei muito agradada com esta análise! Continue!

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