Autor: Ricardo Pinto
Título original: The chosen – Book One of “The Stone Dance of the Chameleon” Trilogy
Sinopse: A literatura fantástica abre as páginas a um estrondoso título. Considerado pela crítica internacional como um novo Tolkien, a trilogia A Dança de Pedra do Camaleão do autor português Ricardo Pinto foi publicada na Grã-Bretanha, Estados Unidos, Alemanha e Holanda e Portugal. É uma obra excepcional no panorama da produção recente do género fantástico, a primeira de três títulos sobre a Comunidade das Três Terras, governada por imperadores e mestres que ditam cruéis regras. Neste volume, Os Escolhidos, Carnelian e seu pai, o Mestre Suth, há muito tempo exilados do centro do mundo - Osrakum - regressam para a eleição do Imperador-Deus, a casta superior de uma sociedade hierarquicamente estruturada. Uma história de quatro mil anos que explora um complexo e hierarquizado império, polvilhada por um leve sabor oriental.
Este livro de fantasia é diferente da fantasia convencional que estamos habituados, e este aspecto é o que difere o primeiro livro de Ricardo Pinto, para o bem e para o mal.
Para ajudar a decisão de compra de quem esteja interessado, dividirei esta opinião em factores bons e maus porque na minha opinião este livro "auto-divide-se" em factores que serão de agrado de muitos e descontentamento de outros tantos.
Começando pelos bons, é inevitável falar do mundo criado por Ricardo Pinto. Não será exagero da minha parte dizer que este livro contem o terceiro melhor universo que alguma vez li, apenas superado por
O Senhor dos Anéis e
Duna. Pinto oferece-nos um detalhe avassalador de um mundo magnificamente criado, cheio de descrições de populações, rituais, tradições, flora e fauna, mentalidades, religião, etc...Uma criação de fantasia simplesmente fabulosa. Misturado com uma criatividade incrível, Pinto escreve de forma minuciosa, por vezes exaustiva, os detalhes deste mundo, tornando o livro num esplendor visual muito poucas vezes visto na fantasia actual.
Outro aspecto positivo, pelo menos na minha opinião porque por vezes gosto de ler algo diferente, é o facto de este livro de fantasia, apenas o ser pelo mundo criado. A magia é quase inexistente, não existem criaturas mágicas, nem heróis de espadas com estranhos poderes, cortando uma vez mais com a actual fantasia.
Este é um livro onde a acção se desenvolve num mundo onde a intriga e os jogos de poderes são o motor central, um pouco ao estilo da saga
Game of Thrones de
George R. R. Martin. Também muito presente é a violência, numa sociedade com grande rigor de hierarquia, com os Semi-Deuses a governarem a seu belo prazer as raças inferiores, acabamos por ler cenas que nos arrepiam ao imaginarmos um mundo onde o valor da vida pode ser tão baixo.
Mas este livro tem aspectos negativos que poderão afastar vários leitores. Como disse antes, Pinto oferece-nos um mundo incrível, memorável, mas descreve-o demasiado exaustivamente para o meu gosto pessoal. O livro é lento, muito lento, e as suas mais de 550 páginas parecem uma enorme introdução às bases do universo onde se desenrolará a acção. Se o ritmo lento até poderá não ser um entrave para alguns, para outros leitores habituados ao ritmo mais normal da fantasia, este poderá ser um factor contra. Outro aspecto que poderá não ser do gosto de alguns leitores é a violência extrema, devido às acções dos Semi-Deuses. Com um bom rigor visual na sua escrita, a violência é forte, cheia de racismo para com as raças inferiores, envolta numa mentalidade que eu pessoalmente gostei, uma vez mais por ser diferente, mas que algumas pessoas poderão não gostar.
Resta-me falar muito resumidamente da história e personagens: a história em si não é palpável neste primeiro livro, apesar de evoluir, não o faz assim tanto se tivermos em conta o número de páginas. Os desenvolvimentos são bons, mas como disse, este livro é lento e serve para nos “colocar” num mundo e percebê-lo para melhor interpretação no futuro da história. As personagens são boas, não se destacando de outras personagens de outras livros de fantasia. A personagem principal, Carnelian, um semi-Deus que devido à sua infância consegue criar laços de amizade com os seres inferiores, vê de forma horrorizada, tal como os leitores, toda a crueldade deste mundo, e tal facto aproxima-nos deste rapaz por percebermos o seu sofrimento e angústia, um ponto a favor mas que poderá não chegar aos leitores que gostem de se sentir próximos das personagens principais.
Resumindo, este é um livro para quem tem prazer de visualizar novos mundos, e este oferece tudo e de forma esplêndida. Um detalhe de louvar, diferente de tudo o que já li, e se é o vosso caso sentir esse prazer por mundos novos, então comprem este livro! Já! Se não sentem que a fantasia tem obrigatoriamente de ter toneladas de magias, dragões e todo o tipo de poderes, então este livro pode ser uma lufada de ar fresco. No entanto este não é um livro para “meninos” devido à violência, nem um livro que se leia em 15 dias. É um livro lento, por vezes cansativo, que sabe melhor quando intervalado com outra obra menos densa, naqueles dias em que a nossa cabeça pede algo mais leve.
No entanto digo-vos também que da trilogia, li também o segundo, que apresenta uma narrativa mais rápida, devido a uma menor necessidade de descrições. Fica à vossa escolha agarrar no livro, dar uma vista de olhos e decidir.
Por fim louvar a editora por arriscar numa fantasia portuguesa que é mais conhecida fora do que dentro do nosso país.