sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Ler y Criticar - Melhor Blog de Literatura 2014


Acabei de receber a informação de que o meu blog Ler y Criticar foi votado pelos leitores como o Melhor blog do ano na categoria de Literatura!



Em primeiro lugar, acho que todos nós, bloguers, devemos aplaudir estas iniciativas, neste caso o Top Blog Awards. Confesso que fiquei a conhecer alguns blogues novos e que vou visitando quando tenho tempo.

Em segundo lugar, a lista dos nomeados na categoria de Literatura é a prova que se faz um fantástico trabalho neste género. Confesso que não conheço todos os blogues nomeados, mas dos que conheço, garanto-vos que a qualidade está presente e aconselho-vos a começarem a lê-los.

Em terceiro lugar, mas não menos importante, está o meu enorme agradecimento a todos os que votaram. Com uma votação pelo Facebook de vários milhares de pessoas, é incrível ganhar. É uma sensação muito agradável saber que as pessoas gostam do que escrevo aqui e se dão ao trabalho de votar sem receberem nada em troca. 

No meu caso, e acredito que todos os outros nomeados digam o mesmo, posso garantir que manter este blog não é fácil. São muitas horas de leitura, muitas horas a escrever, e eu nem sequer sou dos bloguers que escreve com mais frequência. Este trabalho amador, que começou como um "passar de tempo" para não me esquecer dos livros que ia lendo, é recompensador em algumas formas, mas poucas poderão ser tão recompensadoras quando comparadas com recebermos uma mensagem a dizer que fomos escolhidos pelo público. 

Nos próximos tempos, se, por algum motivo ponderar acabar com este blog, vou recordar este prémio, esta votação, e tentarei continuar enquanto sentir que o que escrevo consegue transmitir o que senti ao ler os livros que aqui vou criticando.

Obrigado a todos os que votaram, parabéns a todos os nomeados... e um Feliz Natal a todos!

Deixo-vos aqui os links com os vencedores e os nomeados




22/11/63


Autor: Stephen King

Título original: 11/22/63





Sinopse: Quando o seu amigo lhe propõe que atravesse uma porta do tempo para regressar ao passado com uma missão especial, Jake fica completamente arrebatado. A ideia é impedir que Oswald mate o presidente Kennedy. Jake regressa a uma América apaixonante e começa uma nova vida no tempo de Elvis, dos grandes automóveis americanos e de gente a fumar.
O curso da História está prestes a mudar…



Mas que livro... Stephen King voltou a escrever um livro fantástico demonstrando que qualquer que seja o género, King é um fantástico escritor. Digo-o muitas vez: King não é um escritor que agrade a todos. A sua escrita é diferente, a sua forma de explorar as personagens também. Aqui, neste enredo que no início parece forçado e com um personagem principal que parece cheio de clichés, King demora a convencer, mas quando me convenceu foi para me levar numa viagem incrível de ficção científica onde viagens no tempo e romance estavam de mãos dadas.

Claro que o livro não é perfeito e houve alguns detalhes que não apreciei ou me pareceram forçados no início, mas aos poucos, enquanto vamos percebendo a mecânica da base do enredo, aceitamos a sua coerência e vemos como tudo bate certo. Todavia, quando menos esperava, King passa a parte da ficção científica para segundo plano, focando a nossa atenção numa relação amorosa que não esperava encontrar num livro de King.

O que salta de imediato à vista é a forma como Stephen King explora a sociedade americana da década de 60. King consegue sempre nos seus livros construir uma sociedade ou um mundo coerente, sendo esta é a sua grande base para qualquer enredo e aqui não é diferente, quer seja num mundo realista ou com toques mais fantásticos. Neste caso, Stephen King consegue expor a década de 60 pelos olhos de um homem do nosso tempo, capaz de encontrar as diferenças e confrontar o pensamento atual com o de há 50 anos.

No entanto, não me é fácil falar deste enredo sem revelar qualquer coisa. Jake foi um personagem com o qual não criei uma ligação imediata, mas a escrita de King, que nem todos os leitores apreciam, levou-me a continuar porque gostei bastante da ideia base, apesar de parecer algo forçada no início. Todavia, a grande surpresa foi a forma como o autor conseguiu colocar um enredo amoroso nesta base, impulsionando o livro para um nível em que ficção científica e filosofia se misturam de forma impressionante. O resultado final é um livro que começa com uma base de FC, com uma viagem no tempo, com um choque entre a sociedade atual e a de há 50 anos, e acaba por ser uma viagem filosófica sobre o poder do amor, o que é este sentimento e o que o faz sobreviver contra as leis do nosso universo.

Afinal, quem, ou o quê, nos colocou aqui? Até que ponto estaremos preparados, ou não, para mudar o nosso futuro, ou o nosso passado? King, questiona-nos indiretamente, argumenta indiretamente, mas algumas coisas não podemos ignorar, e a capacidade humana para amar é uma delas. A forma como alguns sentimentos atravessam o tempo, perdurando para sempre, é um dos temas que King explora aqui de uma forma que por vezes nos parece exagerada, noutras vezes é um verdadeiro murro no estômago, e que nos faz pensar se o amor é ainda algo que não somos capaz de compreender e que ultrapassa a paixão ou a necessidade de companhia, sendo algo mais que nós, humanos, temos a sorte de sentir, quer seja por outra pessoa, ou por um animal. 

Stephen King é um autor diferente, para o bem e para o mal. O que no início pode parecer apenas mais um livro sobre uma viagem no tempo para alterar o passado, torna-se muito mais do que isso. É complexo, é intenso, é inteligente e no fim, é, acima de tudo, sentimental. Não é para qualquer leitor mas é, sem qualquer dúvida, um dos melhores livros que li este ano. 

Luís Pinto

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

FRATURADO


Autor: Karin Slaughter

Título original: Fractured






Sinopse: Abigail Campano chega a casa e entra num cenário de pesadelo. Uma janela partida, uma pegada de sangue na escada e, a visão mais devastadora de todas, a sua filha adolescente morta no chão. Sobre ela está um homem com uma faca ensanguentada na mão. A luta que se segue vai mudar a vida de Abigail para sempre.
Quando a polícia local comete um erro que não só ameaça a investigação mas também coloca em perigo a vida de uma jovem, o caso é entregue ao agente especial Will Trent do Georgia Bureau of Investigation. Will terá como parceira a detetive Faith Mitchell, do Departamento de Polícia de Atlanta, que logo no primeiro encontro lhe mostra que não é a sua maior fã.
Sob o calor implacável do verão de Atlanta, Will e Faith percebem que só trabalhando juntos conseguirão travar o homicida brutal que tem como alvo uma das comunidades mais ricas e privilegiadas da cidade. Antes que seja tarde demais.



No início deste ano li o primeiro livro desta série. Tríptico (podem ler a minha opinião aqui) foi uma lufada de ar fresco no género. É uma leitura intensa, inteligente e marcante. Com Fraturado, segundo livro da saga (podem ler este sem ter lido o primeiro, mas aconselho a leitura do primeiro livro para maior conhecimento do personagem principal) tinha o receio de as expectativas matarem a leitura. Tríptico foi um livro que apreciei bastante, mas poderia a autora repetir o feito?

Sendo o mais direto possível, este livro está ao nível do anterior, o que é fantástico. É verdade que gostei mais do tema base do anterior, mas a qualidade da obra é idêntica, demonstrando que Tríptico não foi apenas sorte, mas sim que a autora sabe o que faz, e faz bem.

O que mais apreciei neste livro foi a forma como a autora aprofundou a personagem principal. Trent é um detetive interessante, com problemas, mas com o qual não sentimos um forçar da história para que os seus traumas encaixem no enredo de forma óbvia. A narrativa, intensa e objetiva, está sempre muito perto do personagem em si, revelando momentos do passado, alguns medos, alguns orgulhos, mas nunca deixa a investigação para segundo plano. A forma como Trent é aqui explorado encaixa no ritmo, que nunca baixa, e torna-se num dos principais fatores que nos levam a continuar a ler. Claro que a trama principal será sempre a investigação, mas a autora não se foca apenas nessa questão, e "puxa" para a nossa atenção algumas personagens que poderiam parecer quase irrelevantes.

Todavia, o que fica na memória é o elevado ritmo e a inteligência do enredo. Bons diálogos, sem a sensação de que a autora esteja a forçar algo (tirando um ou outro momento que parece mais forçados) e com o leitor a passar a grande parte da leitura a tentar perceber todas as pistas e a adivinhar a revelação final, o que não será fácil pois a autora consegue esconder alguns factos importantes.

Por fim, salientar que a relação entre Trent e Faith está bem conseguida. No início pode parecer que a autora entra no cliché dos dois polícias que não se dão bem, mas aos poucos essa sensação desaparece, pois existe uma base bem sustentada para tal, principalmente com as duas personagens a terem personalidades vincadas e coerentes. 

Não me alongo mais pois não quero revelar pormenores deste enredo, nem do livro anterior. Fraturado é um livro inteligente e com ritmo elevado. Na minha opinião a autora conseguiu oferecer um livro ao nível do primeiro, algo que me surpreendeu, dando uma primeira confirmação que esta é uma autora a ter em conta se apreciam o género. Agora aguardo o terceiro livro, para perceber se a autora conseguirá manter o nível, algo que não será fácil.  

Luís Pinto

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

MOSSAD: Espiões contra o armagedão


Autor: Dan Raviv & Yossi Melman

Título original: Spies against Armageddon




Sinopse: Este livro aborda diversos temas, como o rapto de Adolf Eichmann, na Argentina, em 1960, o fracasso da Mossad para tentar deitar a mão ao Dr. Joseph Mengele, a caça aos terroristas palestinianos a seguir aos acontecimentos nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, a operação em 1979 em França contra a venda de equipamento nuclear a Saddam Hussein e ainda o raide a Entebe e o bombardeamento do reator nuclear sírio em 2007.
Coloca também questões interessantes, tais como terá a Mossad cometido um erro gigantesco quando duas dúzias de operacionais foram vistos pelas câmaras de vigilância de um hotel nno Dubai, ou foi uma missão de assassínio com êxito? Será que os assassinos sentirão picadas na consciência? E, finalmente, confiam os Estados Unidos na espionagem israelita?



Espionagem foi sempre um dos temas que mais gostei de ler, mas, curiosamente, um dos géneros que menos falo no blog. Este é o 4º ou 5º livro que leio sobre a Mossad e é o melhor que li até hoje. Sendo, provavelmente, o livro menos político que li sobre estes serviços de inteligência, o que estes dois autores oferecem é um acutilante olhar sobre os grandes sucessos mas também os grandes fracassos da Mossad. Consequentemente, o que vemos aqui é um pouco da História da própria nação de Israel, de como sobreviveram, como se aliaram a uns, voltaram costas a outros, e porque o fizeram. mas não só... Aqui vemos de forma direta como a Mossad consegue manter o nível de vida que Israel pode oferecer em alguns locais do seu território, o que tem de ser sacrificado para tal e o que poderá correr mal nos próximos anos. 

Que acordos foram feitos? Em quem confia Israel? Como conseguem saber o que se passa nos países à sua volta onde todos travam guerras e muitos querem ver Israel desaparecer do mapa?

Com uma escrita direta e simples, os autores conseguem transmitir o seu conhecimento sem que existam momentos em que estejamos perdidos, e com uma narrativa quase sempre cronológica vamos vendo a evolução e o que muda após cada sucesso ou fracasso, bem como as estratégias usadas quando algo não corre bem ou quando se pretende "abafar" alguma ação militar ou política.

Tudo o resto que vos possa dizer não será mais do que enaltecer esta investigação que desvenda vários segredos com as suas muitas entrevistas e deduções lógicas. Esse é o grande êxito de um livro que consegue ser cativante desde o primeiro momento, algo que muitos outros livros do género por vezes não conseguem por serem demasiado académicos. Aqui os autores conseguem captar a nossa atenção com revelações constantes que vão encaixando facilmente na imagem que vamos construindo da Mossad. No meu caso, e mesmo já tendo lido vários livros sobre os serviços secretos israelitas, foram muitos os factos que fiquei a saber e a leitura foi viciante.

Se gostam do género e querem saber mais sobre a Mossad, este livro é a minha recomendação, quer sejam novos no tema ou leitores que já tenham algum conhecimento sobre o assunto.

Luís Pinto   


quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

FERNANDO PESSOA


Autor: Sónia Louro





Sinopse: Este é o romance biográfico de Fernando Pessoa, o poeta que foi muitos poetas. Órfão de pai aos cinco anos de idade, cedo perde a atenção da mãe quando esta volta a casar. Forçado a partir para a distante África do Sul, onde o nascimento de irmãos o isolam ainda mais, refugia-se em si mesmo e aí cria novos mundos.
No fim da adolescência regressa a Lisboa, na vã tentativa de resgatar os poucos momentos da vida em que fora feliz. Aí conhece personalidades do mundo das artes e da literatura, como Almada Negreiros, Mário de Sá-Carneiro ou Adolfo Casais Monteiro. É um dos fundadores da Orpheu, uma revista artística que foi recebida com escândalo pela crítica.
Correspondente comercial, inventor, tradutor, editor, publicitário e astrólogo, Fernando Pessoa procurou várias formas de ganhar a vida. E até o amor lhe bateu à porta quando conheceu Ophélia Queiroz. 
 

Fernando Pessoa é um dos grandes nomes da nossa História, mas confesso que o meu conhecimento sobre o homem é muito inferior ao que conhecimento que tenho do escritor. O que mais gostei deste livro foi a "mistura" de informação que recebemos do homem e do escritor. Sónia Louro, que já presenteou os leitores com um livro sobre Amália, entra agora na vida de Fernando Pessoa para nos mostrar muitas das características e acontecimentos que moldaram este imortal escritor.

Misturando factos e ficção, a escritora usa como base as grandes dificuldade que Pessoa enfrentou na sua vida e que, irremediavelmente, o moldaram psicologicamente, "ajudando-o" a tornar-se no grande escritor que foi. Esta mistura de factos e ficção está muito bem conseguida se olharmos para o enredo em si, mas é na construção da própria personagem que o livro cria as ligações que me agradaram. Sónia Louro "agarra" nas características psicológicas de Pessoa, resultantes da sua experiência de vida aqui narrada, e transfere-as para as obras do poeta, criando aqui a ponte entre a pessoa que Pessoa era, e o seu trabalho. Afinal, de onde vinha tal inspiração e tendências?

E é lentamente, com uma escrita que me agradou, que a autora me levou por um livro que no início não me estava a conquistar, talvez por não ter percebido de imediato qual era o objetivo global do enredo. A narrativa vai introduzindo personagens, molda diálogos interessantes e no fim sentimos que conhecemos muito melhor Fernando Pessoa, principalmente na parte humana, que tem um foco muito maior do que a parte profissional do poeta. Personagens como Ophélia, Almada Negreiros ou Crowley, oferecem algo ao enredo, por muito indireta que possa ser a participação, e tornam o livro mais coeso e mais abrangente, mas no fim o que interessa é o conhecimento que ganhamos de Pessoa.

Enquanto livro empolgante e que não conseguimos largar, Sónia Louro não consegue agarrar totalmente o leitor, não por falta de qualidade do livro, mas porque o enredo assim não o permite. Esse foi o meu problema inicial, estava a ler o livro porque queria saber mais sobre Pessoa, e não porque o livro me tinha agarrado. Todavia, após estar a meio da narrativa, a autora já me tinha conquistado porque já me tinha provado que o seu trabalho de pesquisa foi fantástico (e tal fica provado quando acabamos o livro) principalmente na parte à qual o público não teve acesso. O que está por detrás do génio? Quais eram os medos e os objetivos de Pessoa? Qual era a sua angústia e a sua motivação? Foram essas respostas que mais apreciei neste livro, porque se, quando estudamos Pessoa, o poeta, criamos uma visão complexa, aqui, ao vermos Pessoa, o homem, apagamos essa complexidade e percebemos. E é por isso que vale a pena ler este livro... porque percebemos melhor o génio por detrás das palavras, porque por vezes sentimos que não é a autora que está a escrever, mas sim Fernando Pessoa, e esse é o maior elogio que posso dar.

Luís Pinto