segunda-feira, 4 de agosto de 2014

NEVERWHERE - Terra do nada


Autor: Neil Gaiman

Título original: Neverwhere



 Sinopse: Neste livro, Gaiman conduz-nos a um mundo alternativo onde Londres é representada como duas cidades que coexistem mas se excluem: Londres-de-Cima e Londres-de-Baixo. A articulação entre ambas reduz-se a uma única estrutura ordenada: a rede do metropolitano. Richard Mayhew, o protagonista, é um rapaz simples e bondoso, que veio da província para trabalhar na capital, apesar de isso não significar mais do que uma vida desinteressante, regulada por regras tão rígidas quanto vazias de significado. Mas tudo muda no dia em que Richard se cruza com Door, uma adolescente invulgar que anda fugida, e que ele tenta ajudar.


Cada vez sou mais fã de Gaiman. Mas, comecemos por dizer o mais importante: este é, de longe, o livro mais difícil de ler da autoria de Gaiman. É complexo, não tenta dar explicações no início e quando estamos a meio do livro parece que todo o potencial do livro não vai dar em nada de fantástico. O resultado final é um livro que será amado por uns, odiado por outros.

Já me tinham dito que não era um livro fácil, mas basta vermos a impressionante nota que este livro tem no Goodreads (o livro mais bem pontuado do autor) para percebermos que existe uma boa possibilidade de gostarmos do livro. E foi esse o meu caso, mas já la vamos.

A primeira metade do livro não é fácil. Aliás, acredito que posso dizer que é difícil ler e assimilar tudo o que nos é contado. Gaiman não quer explicar-nos tudo. Quer deixar-nos confusos com o que não nos diz e quer enganar-nos com o que nos diz. É uma luta constante entre o que Gaiman quer que saibamos e o que queremos saber, mas no fim tudo é explicado. Gaiman sempre teve a tendência de criar misturas entre o real e o impossível de acreditar e aqui não é excepção. É também aqui que alguns leitores se poderão afastar, pois existe uma enorme diferença entre as personagens, pois se por um lado temos um fantástico personagens principal, todas as outras parecem não ter a vida, nem a profundidade nem a coerência de Richard. Mas esse é o objetivo de Gaiman, é deixar-nos com a sensação que somos diferentes, que estamos a mais neste mundo e que tudo o que existe é diferente de nós... é deixar-nos na Terra do nada.

A fantasia de Gaiman é diferente. Nunca demasiado fantasia, mas sim uma visão fantástica de uma realidade que se mistura nos nossos sonhos. É aí que está a genialidade de Gaiman, ao agarrar na realidade e ao moldá-la a seu belo prazer como se fosse banal e sem nos explicar tudo no início para que não nos limitemos a aceitar a imaginação do escritor, mas também a imaginar.

Tal como a própria narrativa, também o enredo não é fácil. Existem várias pontas soltas nas regras que Gaiman cria, e acabei por questionar bastante do que acontece, tentando perceber como o personagem principal poderia usufruir melhor do potencial que tem à sua frente. Talvez esse seja um dos objetivos do autor: levar-nos a tentar arranjar melhores formas de usufruir do que criou para nós. No fim, novamente, o autor explica, mas até lá, é fácil perder tempo a tentar encontrar falhas e o porquê de certas decisões.

Com uma escrita enigmática, Gaiman leva aqui os seus leitores a um verdadeiro teste. Aquele que no início é um livro complicado, torna-se depois num livro que tem muito mais do que parece. O enredo é bom e a personagem principal cativa, mas tudo isto demora, porque Gaiman parece que nos quer cansar e deixar na dúvida, para depois nos surpreender. No final, muitas explicações são dadas de forma direta, mas são as indiretas (que nós teremos de alcançar pela lógica das revelações finais) que tornam este livro mesmo muito interessante. É, provavelmente, uma das visões mais singulares de Gaiman, e que culmina numa poderosa crítica social, mas que não nos é dada de forma direta, e por isso acredito que cada leitor tenha a sua interpretação. 

Resumindo, este é o livro mais difícil de Gaiman, mas vale a pena. Original, complexo, surpreendente. Gaiman é um escritor diferente de tudo o que já li, e este é o seu livro mais singular... e por isso volto a afirmar que uns irão adorar e outros, acredito, que fiquem a meio na leitura. O livro do autor com a melhor pontuação no Goodreads é também aquele que nos obriga a pensar mais. Gostei bastante e um dia voltarei a lê-lo, acreditando que será interpretado de forma diferente, e essa sensação vale sempre a pena.

Luís Pinto




7 comentários:

  1. Também gosto muito deste autor! Gostei do livro mas algumas passagens e o final ficaram um pouco aquém das minhas expectativas. O argumento base é fabuloso; fiquei com a sensação que o resultado podia ser melhor, que havia ali potencial para mais...

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  2. Li este livro no início do ano em inglês e concordo com esta análise. No início não foi mesmo nada fácil mas no fim valeu a pena. Um livro muito original e recomendo.

    Boas leituras.

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  3. Gostei bastante do que escreves-te. é um livro a comprar porque já li Gaiman e gostei e agora fiquei curiosa. Bjs

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  4. Viva,

    Um livro muito bom sem duvida, Gaiman é muito bom sem duvida ;)

    Abraço e boas leituras

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  5. Opinião muito interessante. Já está em mente para se comprar um dia. Abraços

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  6. Vou começá-lo agora... Neil Gaiman, acho que não me vais desiludir... 👌

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  7. Adoro, um dos meus livros preferidos :)

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