terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Darth Vader e o filho / Darth Vader e a sua princesinha


Autor: Jeffrey Brown




Sendo dois livros tão pequenos e para um público juvenil, não existe muito que se possa dizer sobre estas leituras. A ideia é simples... Darth Vader está a enfrentar a Aliança Rebelde, mas para além disso tem de educar os seus filhos que vão crescendo e tornando-se jovens rebeldes. Conseguirá Darth Vader educar bem os seus filhos? Tudo isto misturado numa banda desenhada divertida e cheia de pormenores dos filmes que conhecemos.

Para os fãs de Star Wars, como eu, será sempre um prazer ler um livro que consegue ser divertido e inteligente, usando vários pormenores do que conhecemos das personagens para criar momentos engraçados e que facilmente percebemos. Momentos e frases que ficaram imortalizadas são aqui expostas num contexto diferente, e que nos fará sorrir. 
A relação de Luke e Leia está muito bem conseguida, demonstrando os problemas habituais que conhecemos, desde o rapaz que quer ser igual ao pai e pergunta tudo o que o pai faz no trabalho, passando pela filha que passa horas ao telemóvel. 

Sendo um livro tão pequeno, trata-se de uma peça de colecionismo para os fãs da saga e ideal para qualquer idade. É divertido, qualquer jovem que o leia, e que conheça a saga, irá adorar esta leitura, tal como qualquer fã mais velho.

O que este livro nos dá, de forma simples, é um olhar nunca antes visto e extremamente divertido do que seria Darth Vader a educar os seus rebeldes filhos. Se gostam de Star Wars e apreciam este género de livros (ou se estão dispostos a começar a apreciar), não há muito que eu vos possa dizer, a não ser para comprarem o livro e rir um poucos com as misturas de situações divertidas e que se ligam rapidamente aos acontecimentos mais marcantes da saga.

Luís Pinto

domingo, 15 de fevereiro de 2015

A SEGUNDA VINDA DE CRISTO À TERRA


Autor: João Cerqueira



Sinopse: Após regressar à Terra e conhecer a activista Madalena que luta por um mundo melhor, Jesus ver-se-á envolvido em três situações de conflito.
Encontra um grupo ecologista radical  que pretende destruir uma plantação de milho que supõe geneticamente modificada. Assiste à revolta dos habitantes de uma vila contra um empreendimento turístico que vai ser construído numa reserva florestal. Por fim, testemunha um conflito armado entre negros e ciganos.
Neste périplo irá conhecer vários personagens: os referidos ecologistas, um padre que o obriga a confessar-se, um autarca corrupto, empreiteiros sem escrúpulos, um Comandante da GNR obrigado a fazer de Pilatos, os habitantes de um bairro degradado, um bruxo, e um negro e uma cigana apaixonados.
Porém, conquanto se limite a acompanhar Madalena, tentando apenas pacificar os desavindos, nem assim Cristo volta a escapar à fúria dos homens. E apenas um farsante o irá reconhecer.



Para os mais distraídos, João Cerqueira é o autor de A tragédia de Fidel Castro (podem ler a minha opinião aqui), livro com o qual venceu vários prémios e foi nomeado em várias dezenas. Neste segundo livro o autor volta ao seu estilo, num enredo que é mais directo e com uma narrativa mais simples, mas não menos crítico.

Com muito humor e algum non-sense, João Cerqueira cria uma poderosa e hilariante crítica social na qual convida o leitor a ver as ligações, a perceber o que não é dado de forma direta, e a ver o quão ridículo é o que acontece à nossa volta, sem que nada mude. 

Criando um Jesus inadaptado e surpreendido com o que encontra na Terra, o autor leva-nos por uma história em que encontraremos um pouco de tudo, e em cada página a crítica está presente, umas vezes suave, outras vezes acutilante, preparada para nos fazer sorrir. O resultado final leva-nos a enfrentar aqueles que ficaram parados no tempo, presos ao preconceito, incapazes de ver a evolução e a mudança. Encontraremos os egoístas, os altruístas, os que querem ajudar, os que se acham mais espertos... e muito mais... é esta mistura de estereótipos com os quais sorrimos, mas que sabemos existirem, que iremos sorrir neste livro, ao ponto de quase esquecermos a base do próprio enredo: a vinda de Cristo à Terra.

Aqui, Cristo é um olhar que questiona, que não percebe, que tenta compreender e ajudar a mudar, mas enfrentará uma mentalidade que dificilmente se conseguirá mudar com rapidez. A mensagem que o livro passa será criada por cada leitor, pois aqui o autor deixa o livro aberto para quem o lê. A minha interpretação leva-me a um singular momento na qual o autor nos leva à insignificância que cada um de nós é nesta sociedade, e, ao mesmo tempo, o quanto somos importantes para a mudança, para a melhoria dos que nos rodeiam, mas também para melhorar tudo o que existe neste planeta. Afinal, se Cristo chegasse agora à Terra, quem o ouviria? O que mudava? Até que ponto queremos mudar? Até que ponto nos esquecemos dos ensinamentos do passado?

Original e imaginativo, este livro de João Cerqueira era exatamente o que esperava dele: um livro com qualidade, direto, capaz de me fazer sorrir, mas também de enviar uma crítica, de olhar para a sociedade que nos rodeia e ver o que a move. Cerqueira é um nome grande no seu género, um género que em Portugal não é muito apreciado, mas que tem sempre alguma coisa para nos ensinar. E os prémios que este autor ganhou são a prova da sua qualidade.

Luís Pinto

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

AS CINQUENTA SOMBRAS DE GREY


Autor: E. L. James

Título original: Fifty shades of Grey



Sinopse: Anastasia Steele é uma estudante de literatura jovem e inexperiente. Christian Grey é o temido e carismático presidente de uma poderosa corporação internacional. O destino levará Anastasia a entrevistá-lo para um jornal universitário. No ambiente sofisticado e luxuoso de um arranha-céus, ela descobre-se estranhamente atraída por aquele homem enigmático, sombrio, cuja beleza corta a respiração. Voltarão a encontrar-se dias mais tarde, por acaso ou talvez não. O implacável homem de negócios revela-se incapaz de resistir ao discreto charme da estudante. Ele quer desesperadamente possuí-la. Mas apenas se ela aceitar os bizarros termos que ele propõe... Anastasia hesita. Todo aquele poder a assusta – os aviões privados, os carros topo de gama, os guarda-costas... Mas teme ainda mais as peculiares inclinações de Grey, as suas exigências, a obsessão pelo controlo… E uma voracidade sexual que parece não conhecer quaisquer limites. Dividida entre os negros segredos que ele esconde e o seu próprio e irreprimível desejo, Anastasia vacila. Estará pronta para ceder? Para entrar finalmente no Quarto Vermelho da Dor?



É este o grande fenómeno literário dos últimos tempos e, quer se goste, quer não, conseguiu mudar a tendência do mercado, com editoras em todo o mundo a apostarem no género erótico, indo atrás desta onda. Os resultados estão à vista, com muitos autores, até agora desconhecidos do público em geral, a tornarem-se best-sellers... e tudo começo aqui. Milhões de livros vendidos, um filme mesmo quase a sair e muitos estudos feitos, tentando perceber o que mudou e qual o segredo deste livro.

Não tendo um grande conhecimento do género, não consigo afirmar se foi este livro a criar esta fórmula agora tão usada. Temos a mulher, elemento inseguro e frágil, de classe média. Depois, temos o homem, vistoso, bem sucedido, rico, atraente, misterioso. Tal como noutros livros que li do género (volto a dizer que não sei se foi este livro a "inventar" este conceito), o segredo do livro está em todo o mistério à volta do homem a quem o sucesso profissional tudo permite. Neste livro não é exceção e temos um homem que rapidamente nos demonstra que tem tudo ao seu alcance, que tem o controlo, e que tem um segredo.

E é, obviamente, esse segredo que dá o empurrão à história. É o querer desvendar o mistério que leva a personagem principal a avançar, mas também ao leitor a ler. Claro que é impossível, devido ao grande hype do livro, não saber o que é esse segredo, mas a leitura é rápida, sem esforço. O maior problema é, provavelmente, a sombra que em alguns momentos a autora envolve Grey, dando-lhe um "poder" sobre o enredo e, principalmente, sobre a personagem principal. No entanto, percebemos esse poder, porque é o mesmo que a personagem principal permite a este homem de sucesso.

Com uma fórmula ganhadora (basta ver as vendas), a autora junta uma escrita leve e objetiva. Por vezes acredito que é demasiado explícita, por vezes demasiado banal, mas compreendo que seja a forma da autora chocar o leitor e levá-lo a entrar neste mundo que por vezes parece surreal. O enredo, interessante, capaz de prender pelo caso amoroso, está dentro do esperado no género, e apenas oscila porque em alguns momentos a autora não desenvolve o suficiente, com momentos que pouco oferecem à narrativa ou diálogos mais forçados. Todavia, estes são momentos que rapidamente deixamos para trás.

Globalmente, este é um livro que em certos momentos se gosta, noutros não. Mas, o que é indiscutível, é que este livro é o apogeu do seu género, porque transmite para o leitor a aura misteriosa que envolve Grey, e por muito outros motivos que deixarei cada leitor descobrir. Apesar de não ser um género que aprecie particularmente, talvez porque raramente me surpreende, a verdade é que consigo perceber o porquê do seu sucesso. As cinquenta sombras de Grey junta vários aspetos que o público feminino costuma aderir em massa e é aí que está a diferença para outros... e é por isso que é tão amado por um público, mas também tão repudiado por um leitor que seja mais exigente e não aprecie o género. Se gostam do género, este é um livro a ler... contem com uma análise mais aprofundada com a continuação da saga.

Luís Pinto

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

DORA BRUDER


Autor: Patrick Modiano

Título original: Dora Bruder




Sinopse: Anos atrás, o narrador depara-se com um anúncio publicado no Paris-Soir de 31 de dezembro de 1974: «Procura-se uma rapariga, Dora Bruder, de 15 anos…» Quem era Dora Bruder? Desde esse dia, o destino da jovem judia enredada nas malhas da ocupação nazi nunca mais o largou, obcecado que estava em reconstruir a sua história até aos momentos finais no campo de Auschwitz. Este livro (como aliás, toda a obra do autor) é assim um combate contra o esquecimento, uma afirmação portentosa dos caminhos redentores da memória – contra tudo aquilo que nos macula e destrói. Com ele, Modiano escreveu porventura a sua melhor obra – e uma das mais notáveis da moderna literatura francesa.


O vencedor do Prémio Nobel de 2014 era um nome que desconhecia. Já ouvira falar do seu trabalho, mas nunca lera nada do autor. Na última semana agarrei naquela que é, provavelmente, a sua mais impressionante obra, e apesar de acreditar que não será um livro favorito de muitos leitores, é um livro impressionante, e que ficará connosco para sempre.

Começa lento, direto, objetivo, transportando de imediato o leitor para um ambiente quase palpável, angustiante e sombrio, quase como um murro no estômago durante todas as páginas em que Modiano nos dá uma impressionante visão da Segunda Guerra Mundial. 

A busca sobre esta jovem, tentando saber quem era, o que lhe aconteceu... é avassaladora, levantando o autor a querer que tudo corra bem, como se de pura ficção de tratasse, sem nunca esquecer que esta história é real, e não é única... e é com essa noção que nos apercebemos da realidade de que Dora Bruder não foi apenas uma história isolada, mas sim a repetida história de muitas pessoas durante aqueles anos. Dora Bruder, neste livro, não é apenas uma rapariga, é a realidade de muitas. O autor sabe-o, nunca nos diz tal coisa, mas nós sabemos, e assim continua a busca por alguém de quem apenas sabemos o nome do início.

O incrível neste livro é a forma como o autor nos agarra. Sendo um livro bastante lento e metódico, a verdade é que o li rapidamente, querendo saber mais, procurando pistas e ligações, desejando o golpe de sorte que fará o autor encontrar Dora. Mas, mais do que tentar encontrar a rapariga, o que fica na nossa memória são as descrições, sem emoção, que o autor nos vai dando daquela época, daquele mundo ao qual muitos decidiram fechar os olhos. 

No final o que temos é um impressionante relato de um ponto de vista pouco usual deste conflito, tornando este livro único e incrivelmente marcante. Não será o favorito dos leitores, talvez nunca o voltemos a ler, mas marcará para sempre. E talvez seja por isso que este autor ganhou o Nobel, porque, tal como foi descrito vários vezes, escreve contra o esquecimento, leva-nos a recordar algo para sempre. Paradoxalmente forte e sem emoções, Modiano tem aqui uma obra de mestre mas que não é para qualquer leitor. É sim, para todos os que queriam entrar nesta época, preparados para tudo. 

Luís Pinto

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

O BICHO-DA-SEDA


Autor: Robert Galbraith

Título original: The Silkworm




Sinopse: Quando o escritor Owen Quine desaparece, a sua mulher contrata os serviços do detetive privado Cormoran Strike. De início pensa que o marido se ausentou por uns dias - como já acontecera anteriormente - e recorre a Strike para o encontrar e trazer de volta a casa. No decorrer da investigação, torna-se claro que o desaparecimento do escritor esconde algo mais.
Quine tinha acabado de escrever um romance onde caracterizava de forma perversa quase todas as pessoas que conhecia. Se o livro fosse publicado iria certamente arruinar algumas vidas - pelo que haveria várias pessoas interessadas em silenciá-lo. E quando Quine é encontrado, brutalmente assassinado em circunstâncias estranhas, começa uma corrida contra o tempo para tentar perceber a motivação do cruel assassino, um assassino diferente de todos aqueles com quem Strike se tinha cruzado...


J.K. Rowling regressa com mais um livro da saga de Cormoran Strike. O já famoso detective tem, quase uma dezena de meses após o anterior livro, um novo caso que vale a pena ler. Em primeiro lugar devemos salientar que Rowling continua, tal como fez com a saga Harry Potter, a desenvolver as suas personagens com mestria e num ritmo quase perfeito. A cada capítulo há algo mais que aprendemos sobre Strike, ou até sobre Robin, que cada vez mais se torna numa personagem importante. Este aprofundar aparece de forma suave, muito graças ao alargar do expetro da narrativa, com a autora a mostrar-nos um pouco mais da vida pessoal de cada um, tal como dos seus passados. O resultado é uma sensação de que cada vez percebemos melhor a personagens, culminando numa melhor compreensão das suas atitudes, quer neste livro, quer no anterior.

Sendo um policial, a grande atenção do leitor está na investigação, e, se por sorte, rapidamente adivinhei o assassino do livro anterior (volto a referir que foi apenas sorte), aqui a autora surpreendeu-me completamente, pois nunca adivinharia quem matou Quine. Todavia, o mérito de Rowling (ou se preferirem, de Galbraith) está no facto, não da autora surpreender, mas de nos ter dado todas as pistas necessárias para que nós fizéssemos a investigação e tivéssemos chegado à mesma conclusão que Strike, o que no meu caso resultou no facto de ter percebido qual a manobra principal do assassino sem descobrir a identidade do mesmo.

Tal como no primeiro livro, e dentro do género britânico, a autora apresenta um conjunto de suspeitos que nos irá "baralhar as contas" e que, acredito, resultará numa agradável surpresa para muitos leitores. A isto junta-se uma narrativa muito mais negra na qual Rowling parece amadurecer dentro deste género e envolve-nos num cenário muito mais sombrio e macabro. É notório, sensivelmente a meio do livro, que a autora dá um passo em frente na maturidade da saga, quer seja nos problemas pessoais de cada personagem, quer no próprio caso. De salientar ainda que Rowling não se limita a colocar Strike num caso, mas sim em vários, sendo que os outros, apesar de serem totalmente secundários dão a noção ao leitor de que Strike tem mais trabalho e mais obrigações para lá do caso principal, o que torna a história mais convincente.

Acima de tudo, este é um livro coerente e sólido. Rowling cria algo com sentido, e, uma vez mais, cria personagens com grande qualidade. No entanto o grande destaque vai para os diálogos, inteligentes e com significado, e para os detalhes que a autora vai colocando durante o livro e que são fundamentais no final. Globalmente, apesar de um ou outro momentos mais óbvios, o que Rowling nos oferece aqui é um livro superior ao anterior, mais focado no que gira à volta de Strike e não apenas na personagem em si. A investigação é apelativa, apesar de mais lenta no início e os personagens cativam-nos, deixando portas abertas para o próximo livro.

Rowling melhorou dentro do género, deixando-me uma grande expectativa em relação ao próximo. Se gostaram do anterior livro da saga, ou se gostam de policiais, este livro é uma grande leitura que mistura vinganças, remorsos, ressentimentos, invejas, amor... é o melhor livro que Rowling já escreveu fora da saga Harry Potter.

Luís Pinto