quarta-feira, 24 de maio de 2017

O CORAÇÃO DE SIMON CONTRA O MUNDO


Autor: Becky Albertalli

Título original: Simon vs. the Homo Sapiens Agenda





Sinopse: Simon Spier tem 16 anos e os únicos momentos em que se sente ele próprio são vividos atrás do computador.
Quando Simon se esquece de desligar a sessão no computador da escola e os seus emails pessoais ficam expostos a um dos colegas, este ameaça revelar os seus segredos diante de toda a escola.
Simon vê-se, assim, obrigado a enfrentar as suas emoções e a assumir quem verdadeiramente é perante o mundo inteiro. 



Este é daqueles livros que não sei explicar porque quis ler. Quando vi a capa e li a sinopse, houve algo que me despertou a atenção. Tendo em conta que já analisei aqui no blog cerca de mil livros, a verdade é que já não é qualquer livro que me surpreende, que me marca enquanto leitor e enquanto ser humano. Este é um desses livros, que consegue ser mais do que palavras escritas. Consegue ser mais do que a criação de uma pessoa, consegue ser mais do que a visão de um autor. Este é um dos livros do ano!

Li este livro sem saber nada sobre ele, apenas lera a sinopse, e ainda bem. As surpresas são mais importantes nesta leitura e tentarei, não sei se com sucesso, explorar aqui alguns temas do livro sem revelar nada.

Vivemos numa sociedade em transformação constante. Queremos cada vez mais direitos, mas não queremos mais deveres. Aliás, queremos menos deveres. Queremos ter menos deveres para com a sociedade, queremos ter menos deveres para com a nossa família, para com a educação dos nossos filhos. Queremos menos de tudo o que possa dar trabalho, porque assim temos mais tempo para todos os estímulos que recebemos a cada instante, pelas redes sociais, pela televisão, pela internet... Mas queremos mais direitos. Vivemos numa sociedade que atualmente se sente ofendida com tudo, esquecendo que existem problemas muito piores. Fome, pobreza, doenças. 

Simon é um rapaz, em teoria igual a todos os outros, mas a verdade é que somos todos diferentes. Simon é apenas mais uma criança que tem acesso a quase tudo. Eu, quando tinha 16 anos, a internet estava a começar a aparecer de forma global, o acesso era limitado, havia ainda muito para se descobrir. Agora tudo é dado de forma instantânea. Toda a gente quer opinar sobre tudo e as redes sociais tornaram-se num mistura de momentos de ódio ou momentos de felicidade, sendo que muitos desses momentos de felicidade são apenas para as aparências.

Tudo isto que escrevi está neste livro, de forma indireta, sustentando uma história dura, marcante, que angustia, não pelo que acontece, mas por sabermos que é verdade. Este livro é o espelho da nossa sociedade, de partes que não queremos ver. Esquecemo-nos que um rapaz de 16 anos não é assim tão exigente, apenas quer ser compreendido, integrado e feliz. E por vezes tornamos difícil o que deveria ser tão fácil.

Este não é um livro qualquer. Não é um livro perfeito, tem falhas e poderia ser melhor em vários momentos, mas desafio um leitor a lê-lo e a não ficar marcado pela sua história. Desafio um leitor a esquecê-lo. A história, bem pensada, apesar de ter alguns momentos mais forçados para provocar a angústia ou a revolta do leitor, está feita para criarmos uma ligação com o rapaz. O resultado é um livro com um rapaz sobre o qual nos preocupamos. Mas, o mais importante não é a sua história, que agradará a uns e não a outros. O importante é a sua mensagem, é a visão da mente de um rapaz que tem de enfrentar medos, preconceitos e que talvez sozinho não consiga sair vencedor. Tudo o resto que possa dizer é insignificante se ainda não vos tiver convencido a ler este livro. Mas, se com esta mistura de palavras vos convenci, então comprem o livro e preparem-se para uma viagem diferente, e que não esquecerão.

Luís Pinto

   

terça-feira, 23 de maio de 2017

A HISTÓRIA SECRETA DO GOLDMAN SACHS


Autor: Steven G. Mandis

Título original: What Happened to Goldman Sachs





Sinopse: A História Secreta do Goldman Sachs explica os processos que levaram esta instituição a alterar a sua cultura de colocar «os clientes em primeiro lugar», à medida que deixava de ser uma pequena empresa para se tornar numa organização de grandes dimensões cotada na bolsa. Inspirado na sua experiência em primeira mão como executivo desta firma, Mandis avalia aquilo que fez o Goldman Sachs ser tão bem-sucedido. Ao combinar uma análise intuitiva com uma narrativa envolvente, o autor escreveu uma história bem informada, que oferece perspetivas inestimáveis sobre a história do banco e um esboço biográfico dos seus líderes de topo. 




Mal coloquei os olhos neste livro, tive uma enorme vontade de o ler, afinal de contas, trata-se de um livro que tenta explicar a evolução do Goldman Sachs, aquele que é, provavelmente, o banco mais poderoso do mundo. O que mudou? Qual a razão do seu sucesso? O que está por detrás da imagem que esta empresa transmite?

Vamos começar pelo óbvio: este é um dos melhores livro que já li dentro da área financeira. O autor é direto, acutilante e sem problemas em explorar as estratégias do banco e quais os homens por detrás das decisões mais importantes. Conhecedor do interior da empresa, Mandis aprofunda o perfil dos grandes nomes dentro do banco, quais os seus objetivos, quais as suas mentalidades e como estas pessoas se moldaram mas também moldaram a empresa, tornando-a numa organização com tamanha influência que é difícil de compreender no seu todo.

O autor tem como grande trunfo a capacidade de ir explicando vários conceitos do mundo financeiro que um leitor fora da área poderá não compreender. Assim o leitor raramente se sentirá deslocado, até porque o livro dá a informação certa nos momentos certos, mesmo que para isso tenha de baixar ligeiramente o ritmo para explicar de forma mais fácil algumas normais ações financeiras para que o leitor compreenda a extensão de algumas decisões exploradas no livro. O resultado final é um livro que facilmente se compreende e que consegue chegar a qualquer leitor que esteja atento, sendo interessante ver o impacto político de muito que vamos lendo.

Bem estruturado, com grande análise e deixando o leitor perceber o impacto global desta organização, o autor tem aqui um grande livro. A forma como vamos vendo a evolução do banco, as mudanças de pessoas e como algumas decisões tiveram impacto não só no mundo financeiro, mas em todo o mundo por acréscimo, leva-me a recomendar este livro. Já tinha lido sobre este banco, outros livros também interessantes, mas nenhum foi como este. Equilibrado entre o académico e a investigação, este é um dos melhores livros que já li sobre o mundo financeiro, e que será obrigatório para todos os que queiram saber mais sobre este tema.

Luís Pinto

segunda-feira, 22 de maio de 2017

A ILHA DO DOUTOR MOREAU


Autor: H. G. Wells

Título original: The Island of Dr. Moreau







Este é um verdadeiro clássico com mais de 100 anos. Um dos mais famosos livros do genial H. G. Wells, e que claramente merece ser lido.

Como talvez já saibam, este livro é sobre um homem que numa ilha isolada faz as suas experiências em animais, de forma bastante macabra. O personagem principal, um homem que é deixado na ilha e que aos poucos começa a conhecer este cientista, ficando abismado com os motivos que levam a tais experiências.

Falar de um livro tão marcante quanto este nunca é fácil, muito menos tentar analisá-lo. Wells consegue, de forma sublime, explorar a obsessão humana pela perfeição, pela criação de algo perfeito que nos torne iguais a Deus. Aliás, a elevação do humano a algo divino e capaz de criação perfeita é um conceito muita vezes explorado, principalmente por alguns filósofos, crentes ou não, mas poucos escritores conseguiram explorar o problema de forma tão marcante quanto Wells, principalmente porque o caminho percorrido é negro e explora até onde pode ir a mente humana, principalmente na capacidade que tem em criar dor a outro ser vivo.

Posto isto, o autor avançar num ritmo constante, cheio de suspense e deixando o leitor desconfortável, muito graças à personalidade de Moreau e à forma como ele vê os seus objetivos e os seus sucessos, sem questionar como trata os seus inferiores. Em muitos momentos Wells explora como pouco a ideia de que alguém que pratica o mal achar que, de alguma forma, está a praticar o bem, quer seja para ele, ou para todos. Moreau enquadra-se nesse cenário, tornando-se num dos personagens mais marcantes da literatura.

Capaz de nos surpreender, mesmo tendo em conta que o final é algo previsível se estivermos atentos, a verdade é que muito poucos livros conseguiram explorar estes temas de forma tão radical. Se fizesse um top 100 dos livros que considero obrigatórios, certamente este estaria lá, como uma verdadeira análise de até onde pode ir a mente humana nas buscas por mais poder, auto satisfação ou sensação de divino. Por tudo isto, e muito mais, este é considerado um dos melhores livros de sempre, e que ainda hoje, após mais de 100 anos a "envelhecer", continua a ser surpreendente e atual.

Luís Pinto

sexta-feira, 19 de maio de 2017

NOVE PRÍNCIPES DE ÂMBAR


Autor: Roger Zelazny

Título original: Nine Princes in Amber




Sinopse: Âmbar é o único mundo verdadeiramente real. Todos os outros mundos, incluindo a Terra, não passam de sombras que de certa forma o imitam.
Exilado na Terra desde há séculos, o príncipe Corwin acorda na cama de um hospital, sem memórias da sua existência passada. Gradualmente, descobre a verdade e é forçado a regressar ao mundo paralelo de Âmbar onde descobre que o rei Oberon, seu pai, é dado como desaparecido. Para ganhar o seu direito à sucessão do trono, Corwin terá de enfrentar realidades impossíveis forjadas por assassinos demoníacos, horrores inomináveis e os exércitos e fúria dos seus irmãos, os príncipes de Âmbar.



Esta é uma das mais famosas sagas de fantasia das últimas décadas e ao fim de ler o primeiro livro, percebe-se porquê.

Roger Zelazny, autor vencedor de vários prestigiantes prémios da literatura fantástica tem aqui uma saga sustentada numa ideia bastante original. Aliás, é esse o grande trunfo do livro: a sua originalidade. Com uma escrita direta e simples, o autor imprime um bom ritmo, nunca sendo uma história demasiado densa ou pesada, levando a que o público alvo seja mais alargado, desde o já experiente leitor de fantasia até aos leitores que estão agora a começar a ler este género e que têm aqui uma boa escolha.

A ligação ao personagem principal é quase imediata, mesmo com todos os seus defeitos, porque existem certos detalhes com os quais qualquer pessoa se pode identificar ou simpatizar. Aos poucos o livro começa a desvendar este original mundo e a consistência está muito bem conseguida, e mesmo existindo alguns momentos mais forçados, principalmente porque algumas questões não são feitas nos momentos certos para criar maior suspense, a verdade é que o livro consegue criar um caminho interessante e bastante viciante.

A ligação com os personagens é outro ponto a favor, muitos graças à diversidade que apresentam. Pelo meio todo um mundo mágico com regras bem sustentadas e que ajudam a criar teorias sobre o que poderá acontecer nos livros seguintes. Sendo o primeiro livro de uma saga com dez livros e que demorou mais de vinte anos a ser publicada (desde o primeiro até ao último passaram-se 21 anos) é fácil perceber que ainda há muito para aprender com este universo. A base criada por Zelazny é de tal forma vasta que as possibilidades de expansão deste universo são enormes.

Não existe muito a dizer nesta fase inicial a não ser que gostei bastante desta leitura. Nota-se que é um livro "com uma certa idade" (o livro foi publicado em 1970), e pode faltar alguma espetacularidade que a atual fantasia por vezes tenta criar (umas vezes bem, outras vezes mal), mas em muitos aspetos continua a ser uma história atual, com pontos que se focam na "humanidade" das personagens, e que estarão sempre atuais. Pelo meio um interessante jogo político e de interesses que o autor certamente irá aprofundar nos livros seguintes.

O que temos aqui é o início de uma das sagas mais famosas do seu género e que, segundo os fãs, conseguiu manter a consistência de qualidade até ao fim. É verdade que são dez livros, mas acredito que vão valer a pena, principalmente para quem queira começar a ler mais fantasia. Estou bastante curioso para ler os próximos livros.

Luís Pinto


segunda-feira, 15 de maio de 2017

O SEGREDO DE VESÁLIO


Autor: Jordi Llobregat

Título original: El secreto de Vesalio





Sinopse: Barcelona de 1888, várias raparigas aparecem mortas… segredos, traições e paixões.
Nada é o que parece e ninguém está a salvo na Barcelona do fim do século XIX.
Um romance magistral e poderoso, escrito pelo autor Jordi Llobregat com o mesmo imaginário gótico e neo-realista dos romances de Carlos Ruiz Zafón.




Houve alguma coisa que me despertou a atenção neste livro. Talvez a capa, talvez o nome. Não sei bem, mas decidi lê-lo e foi uma agradável surpresa.

Com um estilo muito próprio o autor cria um ambiente bastante sombrio, levando o leitor a sentir a cada momento uma sensação quase angustiante de que algo de mal pode acontecer a qualquer momento. É esse o maior trunfo do livro, a forma como agarra o leitor num nevoeiro cheio de suspense e muito mistério. 

Com um ritmo quase sempre elevado, é fácil ler o livro sem parar, muito graças aos detalhes que o autor vai dando nos momentos certos e que ao responderem a algumas perguntas, criam outras, permanecendo sempre a dúvida. Gostei das personagens criadas, principalmente dos motivos que algumas têm para avançar neste enredo, com uma estrutura passada bem criada apesar de não totalmente explorada devido ao ritmo do livro.

Este é um autor que sabe agarrar o leitor com novas pistas nos momentos certos. É verdade que existiram alguns momentos mais forçados e consegui perceber qual seria o final, mas em nenhum momento o livro deixou de me agarrar totalmente, sendo uma das leituras mais viciantes dos últimos tempos. 

Com personagens e diálogos inteligentes, o autor cria um ambiente muito bom e que me fez viajar até Barcelona no meu imaginário. É fácil perceber porque se compara o seu estilo a Zafón, um mestre, e o porquê de este livro ter tido o sucesso internacional que teve no ano passado. Se querem uma leitura cheia de suspense, vale a pena ler este livro.

Luís Pinto