Autor: Chuck Palahniuk
Título original: Fight Club
A primeira regra do Clube de Combate é: não falar do Clube de Combate.
A segunda regra do Clube de Combate é: não falar do Clube de Combate.
Todos nós temos filmes que nos marcam. Eu também tenho alguns como Se7en, Os Condenados de Shawshank, Inception, A Lista de Schindler, Uma Mente Brilhante ou ainda The Prestige (adaptação do livro que já comentei aqui), entre muitos outros. Mas há um filme que me marcou mais do que qualquer outro, o meu preferido, Clube de Combate. Quantas vezes vi o filme? Não sei, muitas. Adorei de tal forma o filme que sempre tive o medo da desilusão em relação a ler o livro. Mas um dia tive de arriscar.
Numa linha temporal suficientemente longa, a taxa de sobrevivência de toda a gente cai para zero.
Clube de Combate é daqueles livros que nos fazem pensar, que nos fazem rir enquanto o autor nos está a esmurrar com a sua análise. Narrado de forma crítica, forte, irónica, Palahniuk escreveu algo completamente diferente do que costumo ler, na realidade nunca li nada parecido, mas desde o início o livro agarrou-me e não consegui parar, algo espantoso para quem conhece o filme de forma tão profunda quanto eu.
O narrador, personagem fantástica, mostra-nos a sua transformação de consumista e resignado até se tornar num “discípulo” de Tyler Durden, e tal jornada é uma lição de vida, crua, dura. Claro que a filosofia de Tyler não será certamente do agrado de todos, não é isso que está em causa, o que realmente importa é como essa filosofia é importante no livro, como encaixa perfeitamente e nos embala por acontecimentos que deixam qualquer um de boca aberta. Preparem-se para uma viagem única.
Este livro, tal como o filme, vive da ligação entre o narrador e Tyler, tal como o mundo vive da relação produtor/consumidor. Tyler produz e o narrador consome… o narrador, um homem que não consegue dormir, olha para Tyler, e para a sua forma de viver, e consegue definitivamente fugir do que o consumia, desligando-se de tudo, conseguindo dormir. A forma como o narrador olha para Tyler está sempre presente na sua escrita, como o admira e o porquê de desejar ser como ele: forte, decidido, admirado, livre. Tudo isto enquanto nós não percebemos se Tyler é um Herói ou Vilão. Será possível ser ambos no mundo em que vivemos?
Só quando perdemos tudo, somos realmente livres para fazer tudo. Primeiro temos de perceber, não recear, perceber, que um dia, iremos morrer.
E o Tyler liberta as pessoas...
A tua vida é isto e está a chegar ao fim, um minuto de cada vez.
Palahniuk consegue ainda criar uma forte crítica à sociedade, ao que a movimenta de forma global, e ainda aponta o dedo à mentalidade consumista e resignada das pessoas. Nós vemos as desgraças de outras pessoa e preocupamo-nos, mas apenas uns segundos, depois esquecemos. O que realmente nos importa é carros desportivos, ter televisão com centenas de canais, é ter abdominais definidos, casa com piscina… Tudo o que nos rodeia podia ser tão melhor... mas quantos trabalham para isso?
A publicidade faz com que esta gente ande atrás de carros e de roupas de que não precisa. Gerações inteiras têm estado a trabalhar em empregos que odeiam só para poderem comprar aquilo de que, na realidade, não precisam nada.
A forma como o narrador se liberta do mundo, que o observa com olhos depreciativos, passa por várias etapas e uma delas é no mínimo angustiante se realmente pensarmos sobre ela. O narrador percebe que numa conversa, a pessoa apenas te ouve verdadeiramente, com toda a atenção, se achar que estás a morrer. Nessa altura, perante a morte, tudo deixa de ser importante e as pessoas ouvem-te e querem ajudar.Talvez nessa altura seja tarde demais...
Ele sabe isso porque o Tyler também o sabe.
Este não é um livro para se simplesmente ler. Esta obra pede-nos para pensarmos, para decidirmos, tomarmos uma posição tal como a toma a personagem Hessel que quer ser veterinário (quem já leu ou viu, sabe do que falo). Pede-nos para sermos algo mais, para não irmos atrás do que consideramos a perfeição intelectual ou visual, para não nos limitarmos a ouvir e acreditar, a votar de olhos fechados, a querermos apenas ser famosos como se tal fosse a única concretização pessoal possível. Para não nos agarrarmos ao que não precisamos. Há algo muito mais importante, e não pode ser comprado.
…as coisas que dantes possuías, agora possuem-te a ti.
Para finalizar, o livro não foi uma desilusão, foi antes um dos melhores que alguma vez li. Um dos meus favoritos. O facto de já conhecer o filme destrói algumas surpresas, mas tal facto é compensado com outros pormenores que este livro nos dá e que não aparecem na adaptação. Os desenvolvimentos estão muito idênticos e conseguimos identificar as situações entre as duas obras, e como tal torna-se impossível não visualizar Brad Pitt a dar-te as boas vindas ao Clube de Combate. Há obviamente algumas diferenças, mas sem que se destrua o significado do que está a acontecer. O final é diferente na adaptação, e aqui o significado também, mas até neste ponto não consigo perceber qual gostei mais.
Resumindo: um livro essencial a qualquer um, seja qual for a filosofia de vida. Personagens fantásticas, uma história diferente de tudo. Uma mensagem a cada capítulo, um livro para reler. Se tiver em conta que se trata de um livro que está à venda por 5 euros, então foi a melhor compra literária que alguma vez fiz.
E porquê? Porque no Tyler nós confiamos...






