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quarta-feira, 29 de outubro de 2014

EXCALIBUR


Autor: Bernard Cornwell

Título original: Excalibur


Sinopse: Artur esmagou a revolta de Lancelote, mas o preço foi elevado. A traição de Guinevere deixou-o fragilizado e os seus inimigos saxões pretendem aproveitar-se dessa vulnerabilidade. O caos ameaça dominar a Bretanha. Mas Artur já deu provas do seu génio militar e, à medida que a próxima batalha se aproxima, prepara-se para abrir caminho até à vitória em Monte Badon e reconquistar a mulher que perdeu. Mas quais serão as consequências das intrigas de Mordred, agora o herdeiro ao trono da Bretanha, e da magia da sacerdotisa Nimue, que querem exterminar Artur?


Fantástico! Bernard Cornwell é um mestre no seu género, capaz de criar enredos, sociedades e personagens complexas como poucos, apresenta uma trilogia consistente do início ao fim, num patamar difícil de alcançar. Neste último livro, Cornwell acelera nas batalhas e abranda o seu ritmo quando tem de descrever algo, tornando esta narrativa menos constante em termos de ritmo, mas mais empolgante. Desde o início que percebemos, tal como Artur, que o fim da história está próximo e, para satisfação dos leitores (acredito), Cornwell leva-nos numa viagem em que mergulhamos na personalidade de Artur, nos seus medos, na sua revolta e na incapacidade de esquecer quem o traiu. E é aqui que o enredo deixa o Rei Artur e olha para o homem Artur que, tal como disse nas minhas opiniões aos livros anteriores, é um homem cheio das dúvidas normais de quem quer reinar com sabedoria e justiça.

Artur é, para além do centro da história, o homem que está verdadeiramente quebrado, que parece estar "preso por um fio", mas que continua a demonstrar uma determinação invulgar, apenas ao alcance de quem acredita que está a fazer o correto e o que deve, imperativamente, ser feito.

Tudo o resto que possa dizer sobre este livro, já disse nas opiniões aos dois anteriores livros. Cornwell é um profundo conhecedor desta época, explora teorias e factos, mistura-as com a sua fição e a complexidade atinge um nível em que sentimos que toda a sociedade está construída de forma exímia e coerente, ao ponto de tudo fazer sentido, quer seja a ação de alguém do povo, passando pelas decisões dos que têm poder e estão envoltos em intrigas e favores corruptos, procurando mais poder. Claro que existem pontos fracos neste livro, tal como nos anteriores, e que poderia aqui revelar, mas passam totalmente ao lado num livro que tem um enredo sólido. Todos os temas sociais continuam aqui presentes mas o foco é agora as lutas interiores de Artur, e é incrível como o autor muda muito ligeiramente o seu foco e todo o livro se transforma, sendo possível perceber quais serão as últimas decisões do Rei.

Este foco é necessário para que o autor explore o quanto o amor, quer a parte boa, quer a parte ma, transforma uma pessoa. As decisões mudam, a paixão eleva-se acima da razão, e tudo toma um novo caminho, em que os objetivos podem ser outros que apenas o coração conhece. Em tudo isto, Cornwell é fantástico e fica bem demonstrado que estamos perante um grande nome do romance histórico. Pelo meio, e que ainda não referi, estão descrições fantásticas das batalhas, quer a nível estratégico, quer na parte psicológica dos soldados. Tudo muito bem conseguido e muito completo.

Este é uma incrível trilogia. Pode não ser a mais viciante, nem a mais rápida de ler mas, dentro do romance histórico, é do melhor que já li e poucos autores conseguem alcançar o que Corwnell oferece nesta saga. Completo, complexo, marcante, emocional. Cornwell está no topo do seu género.

Luís Pinto


sábado, 18 de outubro de 2014

O INIMIGO DE DEUS


Autor: Bernard Cornwell

Título original: Enemy of God




Este é o segundo livro desta trilogia Arturiana criada pelo muito admirado Bernard Cornwell e está ao nível do primeiro em todos os aspetos.

De forma global, apreciei mais este livro, simplesmente porque o enredo é mais apelativo agora que as personagens principais foram apresentadas no livro anterior. No entanto, e apesar de ter um ritmo um pouco mais rápido, Cornwell mantém o estilo do primeiro livro, com uma narrativa que nunca é muito rápida, sendo antes focada nos vários detalhes que criam uma sociedade coerente e personagens muito interessantes e completas. Este é, para mim, o brilhantismo de Corwnell, o de criar algo que está de tal forma completo que parece real. Existem detalhes a cada página e aos poucos cria-se uma sociedade que parece real, coerente e completa. Cornwell explora vários temas e várias forças desta sociedade em que Artur se eleva. Tal como no livro anterior, política, religião, condições sociais, tradições, espionagem, amor... tudo está presente na dose certa.

O resultado é um livro que não nos obriga a continuar a ler, porque não é rápido o suficiente para nos embalar nesse ritmo imparável, mas é um livro que nos convence que estamos a ler algo realmente bom. Cornwell transmite um conhecimento admirável sobre uma era da qual se sabe tão pouco e somos contagiados. Explora conceitos, alguns que são factos, outros que são teoria, e torna-os reais porque encaixam perfeitamente. A isto junta-se a sensação que este livro e o anterior são um só, em constante evolução, a acelerar muito lentamente.

Deixando agora para trás a fantástica sociedade criada por Cornwell, passemos a outros dois pontos importantes: personagens e enredo. Começando pelas personagens, Artur volta a ser a estrela que mais brilha, não por ser a que tem mais "tempo de antena", mas sim porque se aproxima do leitor com as suas fraquezas e dúvidas. A narrativa apresenta-nos um homem que lidera mas que não é desprovido das dúvidas normais de quem tenta liderar de forma justa. É isso que nos liga a Artur: a sensação que no fundo ele tenta fazer o que é correto, mesmo que a pressão política ou a sua paixão lhe diga o contrário, e todos nós já cometemos uma loucura de amor. A diferença é que as decisões de Artur têm mais peso sobre quem o rodeia.

E essas decisões levam-nos a falar sobre o enredo. Como disse no início, o ritmo é ligeiramente mais forte e muito se deve ao facto de as personagens já estarem minimamente apresentadas. O livro torna-se mais cativante e facilita a aproximação às personagens mas, todavia, este é um livro sobre Artur, e o que não falta no mercado são livros assim e todos temos uma ideia de como esta história poderá acabar. Mas Cornwell surpreende na sua história, alterando aqui e ali, sempre com coerência e levando o leitor a reparar que devia ter antevisto isto ou aquilo mais cedo porque o autor já o está a construir há muito tempo... o resultado é um livro diferente e muito acima, qualitativamente, à grande maioria dos livros sobre Artur.  

Sendo o segundo livro de uma trilogia, não me quero adiantar no enredo nem dar uma opinião que possa revelar algo. Falta um livro e duvido que Cornwell desiluda no fim. A qualidade é palpável e percebe-se o porquê de ser considerado um dos melhores autores de sempre no seu género. Se gostam de romances históricos, então Cornwell tem toda uma sociedade complexa e completa, cheia de traições e paixões para vos oferecer. Para já, muito bom, mas ainda falta um livro. Vamos ver como acaba!

Luís Pinto


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

O REI DO INVERNO


Autor: Bernard Cornwell

Título original: The Winter King




Sinopse: Uther, Rei Supremo da Bretanha, morreu, deixando o seu filho Mordred como único herdeiro. Artur, o seu tio, um leal e dotado senhor de guerra, governa como regente numa nação que mergulhou no caos - ameaças surgem dentro das fronteiras dos reinos britânicos, enquanto exércitos saxões preparam-se para invadir o território. Na luta para unificar a ilha e deter o inimigo que avança contra os seus portões, Artur envolve-se com a bela Guinevere num romance destinado a fracassar. Poderá a magia do velho mundo de Merlim ser suficiente para virar a maré da guerra a seu favor? O primeiro livro da Triologia dos Senhores da Guerra de Bernard Cornwell lança uma nova luz sobre a lenda arturiana, combinando mito com rigor histórico e as proezas brutais nos campos de batalha.



Que decisões estarias disposto a tomar por amor?

Apesar de já ter lido algumas sagas sobre o Rei Artur, a verdade é que nunca tinha lido Cornwell, e sendo esta, considerada por muitos, como a sua obra prima, decidi voltar à Idade das Trevas em que Artur é o nome mais brilhante.

Cornwell é, provavelmente, o autor mais famoso no seu género e dificilmente se fala de romance histórico sem evidenciar Cornwell e o seu metódico trabalho. No entanto, comecei esta leitura tentando ter as expectativas o mais baixas possíveis, e caminhei neste ritmo lento que Cornwell nos oferece. A realidade é esta: o enredo começa muito devagar, levando-nos para um cenário realista e que demonstra o enorme conhecimento de Cornwell sobre esta era, mas também a sua capacidade de "tapar" os buracos no conhecimento que temos daqueles anos. 

E assim, sem nunca perder o interesse, fui levado para um enredo bastante realista, muito detalhado e com personagens que demonstram as falhas normais de um ser humano numa era em que a sobrevivência era testada a cada dia. E para mim esse é o grande trunfo do autor: a sua capacidade de dar uma história realista, que se afasta de outras mais fantásticas ou mais carismáticas, para nos oferecer um enredo que sentimos que poderia ser real.

Começando pelo mundo criado por Cornwell, nota-se um grande conhecimento sobre aqueles anos. Cornwell não se inibe ao descrever locais, mentalidades, lides diárias e necessidade fundamentais da sociedade, criando uma base estrondosa para a sua trilogia, ao ponto de tudo ser credível. Quando Cornwell começa a desenvolver a sua trama já nós temos a sensação que conhecemos realmente este mundo e tudo se torna mais fácil de assimilar. Lentamente, religião, política e mentalidades, misturam-se com os já normais temas da época (amor, vingança, honra, ganância) e esta mistura é feita sem qualquer esforço, novamente porque a base está muito bem conseguida.

Claro que no início podemos estar perante uma leitura ligeiramente penosa se gostarmos de um ritmo mais elevado, mas o extraordinário detalhe que Cornwell nos oferece é impressionante e, para mim, a leitura foi sempre muito agradável, pois sentia que estava a ganhar um conhecimento que poucos autores poderiam oferecer. Para ajudar ao início da leitura temos ainda algumas personagens que tornam a história melhor, e se nas primeiras páginas fiquei surpreendido com os detalhes, no fim da história o que se destaca são as personagens.

Dessas personagens, Artur, que não é o narrador da história, é o mais cativante, mas nem mesmo ele é desprovido de falhas e más escolhas. Aliás, este é um enredo sobre más escolhas, muitas delas feitas por amor ou vingança. A nossa História está recheada de decisões tomadas em nome do amor, quer seja pelo simples homem do povo até ao mais poderoso Rei, e muitas dessas decisões mudaram o rumo da História, e tornaram-se imortais. E, inevitavelmente, este é um livro sobre as loucuras de amor, não só de Artur, mas de outros homens, que com esse sentimento também encontraram a loucura, ou a vingança, ou a coragem. O amor molda-nos, tal como molda esta história, proporcionando momentos que apenas são aceitáveis porque aquela personagem ama alguém...

Apesar de ser o primeiro livro de uma trilogia, este livro lê-se muito bem por si mesmo, sem necessidade dos próximos se por acaso não quiserem continuar. Todavia, acredito que quem chegue ao fim do livro, queira ler o resto, pois Cornwell é mesmo um gigante no seu género, capaz de nos levar a mergulhar num mundo que parece palpável, e como me dizem que o melhor está para vir, terei mesmo de continuar a ler a trilogia.

Para já, e sem tocar na história para nada revelar, o que posso dizer é que este é um livro sólido e muito completo. Cornwell não se foca num aspeto, mas sim da plenitude de uma sociedade e tudo o que a faz sobreviver. Religião, política, espionagem, economia, personagens, sentimentos, tradições, tudo está presente neste enredo que tem sempre como pano de fundo, e por vezes muito dissimulado, a "invasão" Cristã na mente das pessoas. Para já, lento no início, denso em todas as páginas, mas muito bom e recomendado a quem gostar do género.

Luís Pinto