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segunda-feira, 9 de julho de 2012

RAINHA DAS TREVAS

Autor: Anne Bishop


Título original: The Queen of Darkness


Rainha das Trevas é o 3º e último livro da saga Jóias Negras, e agora que este complexo mundo está compreendido, e as suas personagens conhecidas, a leitura torna-se cada vez mais rápida e viciante.

Com uma história bem conseguida desde o primeiro livro, e que se desenvolve de forma eficaz, este livro é o culminar da acção de algumas personagens na tentativa de proteger/controlar/destruir Jaenelle. A intriga é boa e nota-se que o livro está muito mais virado para a acção. Devido a esse facto o desenvolvimentos das personagens é muito menos significativo do que nos livros anteriores, o que pode deixar uma sensação de vazio (Surreal é a única personagem em que senti algum desenvolvimento). No entanto, estas personagens, desenvolvidas nos livros anteriores, continuam a ser o grande trunfo desta história, porque nos ligamos facilmente com as mesmas. Este talvez seja o grande talento de Bishop: dar-nos personagens com as quais os leitores se ligam.

A narrativa está rápida, sem "grandes floreados" e aos poucos torna-se o livro mais forte e negro da trilogia. Há poucos momentos monótonos, muito graças a diálogos e acção constantes que nos levam a continuar a ler. Infelizmente Bishop centra-se demasiado nos pensamentos e sentimentos dos "bons da fita", o que nos dá uma aproximação/conhecimento muito maior com as personagens boas e aumentando a linha que os separa dos maus. Claro que esta divisão pode ter sido uma estratégia da escritora, mas sinceramente gostava de ver as personagens "más" mais desenvolvidas e quem sabe uma linha mais fina que separasse os bons dos maus, levando a alguma incerteza entre eles.

Outro ponto muito positivo neste livro é a ligação entre humanos e parentes, em que a autora conseguiu criar uma ligação quase instantânea que me agradou bastante e que ajuda o livro a tornar-se mais leve em certos momentos. Interessante ainda o facto de Daemon (para mim a personagem mais bem criada) tornar-se na base de tudo. É ele a força que sustenta as acções das diferentes personagens e não Jaenelle, e sem ele tudo caía. Esta mudança é muito agradável.

Dentro da dark fantasy, esta saga é das melhores que já li e agora percebo plenamente a quantidade de fãs que esta autora tem. Ao início sentimos que andamos dispersos pela saga, sem perceber o mundo em que esta se insere (ainda neste livro é explicações para o funcionamento do mesmo), mas aos poucos tudo se torna intuitivo e a leitura é feita sem esforço, ficando apenas por explicar algumas "partes" do poder de Jaenelle. 

Dos 3 livros, este foi talvez o que menos me marcou, talvez por alguma previsibilidade no fim, ou talvez por continuar a sentir que nesta saga de dark fantasy faltou um vilão que me fizesse tremer. A falta deste vilão é para mim a maior falha da saga. No entanto, esta saga ganha o seu espaço por ser constante, com os três livros a terem uma qualidade semelhante e acima da média. Com facilidade em agarrar o leitor, um mundo complexo e personagens interessantes, esta saga é realmente boa e recomendo-a! Um grande feito da autora! 

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Herdeira das Sombras


Autor: Anne Bishop

Título original: Heir to the Shadows


Com este segundo livro regresso à trilogia das Jóias Negras de Anne Bishop. O primeiro livro, A Filha do Sangue apresentara-se com um início difícil devido ao mundo complexo que Bishop criou, e senti que apenas consegui aproveitar totalmente a segunda metade do livro, quando compreendi o universo do livro.
Com o universo compreendido este segundo livro torna-se muito mais constante, fácil de ler, e indiscutivelmente mais viciante. Em termos globais, a qualidade deste livro não me pareceu superior nem inferior ao anterior, no entanto são muitas as diferenças.

Uma das grandes diferenças entre os dois livros é a importância de Daemon e Lucivar. Se no primeiro Daemon foi uma figura central, agora a autora olha mais para Lucivar, aprofundando a sua personagem e passado, levando a uma melhor compreensão das suas atitudes. Graças a esta mudança foi interessante ver que são estes dois personagens que moldam a forma como a autora escreve. Com Daemon em evidência no livro anterior a escrita de Bishop foi forte, cruel, erótica e com um toque de suspense no ar. Com Lucivar a “dominar” este livro temos o humor negro, a protecção e amizade. Esta diferença agradou-me imenso, pois levou a autora a não “carregar” demasiado a história sempre nos mesmos temas e formas de a expor. Mais interessante ainda será perceber para que lado cairá a balança no último livro.

Foram poucos os pormenores que não apreciei neste livro. No geral a história é demasiado centrada em três personagens, ao ponto de nem ter decorado alguns dos nomes dos amigos de Janelle (personagens que neste livro servem apenas para sustentar a personalidade, cheia de amizade, da personagem principal). Lamentei no início não ter sentido de forma mais forte o preço que Jaenelle pagou pelos acontecimentos que terminaram o livro anterior (gostava que tivesse sido mais gráfico/angustiante), e continua ainda a faltar um vilão que me faça temer pelas personagens que gosto. Há ainda o facto de em todo o livro nunca ter sentido que as personagens principais estavam em risco. Engraçado pensar sobre este aspecto, que há uns anos não me teria incomodado, mas o problema é que entretanto li George R. R. Martin e há momentos em que quase desejo que uma das personagens principais morra (tenho chamado a isto “Síndrome George Martin”) para sentir esse realismo de que tudo pode acontecer!
Houve um ou dois momentos em que senti que a autora poderia ter escrito o mesmo em metade das palavras, ou em que os olhos do leitor estão demasiado presos apenas a três personagens (gostava de ter sentido uma leve expansão), e mais um momento que senti como algo forçado, que teria como objectivo mostrar algo da personagem, levando-a a uma situação extrema. No entanto tudo isto são pequenos pormenores que não retiram o prazer que foi esta leitura.

Por outro lado Bishop expande o seu universo, apresenta-nos os "parentes", explica-nos muito do passado e evolui as personagens. Tudo isto agarra-nos cada vez mais, com muitas revelações e um sistema de capítulos, que se no primeiro livro era confuso, agora é essencial para continuarmos a ler e a ler... porque a questão é: até onde irá Jaenelle? Saetan sentirá na pele a destruição do que ama? Terá o seu medo fundamento? Quem é afinal o vilão e quem ameaça tudo o que vive?
O final não foi tão empolgante como no anterior, talvez por não ser tão “perigoso” mas estou completamente agarrado a esta saga, principalmente pelas dúvidas que tenho sobre que evolução irá ter a personagem principal. Nota ainda muito positiva pelas respostas a muitas perguntas que tinham ficado no ar no livro anterior (ainda há muitas por responder).
Bishop está de parabéns pelo universo que criou, pelo agradável e quase sempre constante ritmo da narrativa, preenchida com personagens bem construídas e muitas respostas dadas. Uma narrativa com clara evidência para as emoções das personagens, receios e pensamentos. Lucivar torna-se numa personagem interessante (não teve o impacto emocional de Daemon) e que ajuda a desenvolver a história. Saetan está melhor neste livro, pela profundidade que ganha. Afinal é pai, e como tal será sempre forte e perseguido por medos de perder o que ama e Bishop consegue transmitir esse receio de Satan, ficando a faltar conseguir que o leitor sinta o mesmo, e acredito que no fim Bishop o vai conseguir.

Por tudo isto seria difícil não aconselhar este livro. Bishop oferece-nos um livro ligeiramente virado para o público feminino, mas nunca senti que fosse exclusivamente para as mulheres. Qualquer fã de fantasia continuará satisfeito com este segundo livro. Ainda me falta ler o terceiro e último livro (e o fim é sempre de grande importância), mas para já recomendo, sem hesitações. Pode não ser, ao fim de dois livros, uma obra-prima, mas com um bom final, esta trilogia tornar-se-á obrigatória dentro do género de darkfantasy.
Viciante! Leiam-na! É o que eu vou fazer!

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

FILHA DO SANGUE



Autor: Anne Bishop

Título original: Daughter of the Blood


Há setecentos anos, num mundo governado por mulheres e onde os homens eram meros súbditos, uma Viúva Negra profetizou a chegada de uma Rainha, na sua teia de sonhos e visões.
Agora o Reino das Sombras prepara-se para a chegada dessa mulher, dessa Feiticeira que terá mais poder do que o próprio Senhor do Inferno. Mas a Rainha ainda é nova, passível de ser influenciada e corrompida. Quem controlar a Rainha controlará o mundo. Três homens poderosos - inimigos de sangue - sabem isso. Saetan, Lucivar e Daemon apercebem-se do poder que se esconde por trás dos olhos azuis daquela menina inocente. E assim começa um jogo cruel, de política e intriga, magia e traição, onde as armas são o ódio e o amor. O preço pode ser terrível e inimaginável...

Ler as primeiras páginas deste livro não foi uma tarefa fácil, e por dois motivos. O primeiro é porque o comecei a ler no dia seguinte a acabar O Mago – As Trevas de Sethanon. Grande erro! Percebendo de imediato que depois de ler a obra-prima de Feist qualquer outro livro não teria o mesmo impacto, decidi esperar uns dias e não ler nada.

Voltando ao livro dias depois, o segundo problema é entrarmos neste mundo e ele nos ser dado como se sempre o conhecêssemos. Uma experiência parecida com Duna. A complexidade do mundo de Bishop é, na minha opinião, notável. Não sendo fácil de o percebermos de imediato, ao fim de algum tempo começamos a interiorizar o que rege este mundo, o sistema que o sustenta, mas a verdade é que até metade do livro tenho consciência que houve situações que não percebi totalmente por falta de conhecimento profundo desse mesmo sistema (e quando falo em sistema falo em espaço, magia, raças, política, etc…)
No entanto, enquanto a história avança, começamos não só a perceber como tudo funciona, mas também percebemos pequenos detalhes que tinham ficado na minha mente para “futura compreensão”, e quanto mais avançava mais admirava o mundo de Bishop. A verdade é que se trata de algo diferente de tudo o resto que li, e como tal fiquei agarrado, pois rapidamente se notou qualidade neste início de saga.  

Desde cedo percebi duas coisas: primeiro este livro não tem nada da fantasia mais “típica” e como tal, aplaudo a autora por trazer algo de novo; em segundo trata-se de um livro negro. Quando digo negro não digo visualmente forte, digo negro, pois toda a sua história se passa num mundo sombrio, tanto em personagens e locais, como em interesses. Algo que também ajuda a essa imagem de darkfantasy é a própria escrita da autora: mantendo sempre o suspense, raramente nos dá toda a informação, de forma a não percebermos totalmente o que se passa, quer seja durante descrições ou diálogos. Tal facto levou-me a por vezes sentir que a noção que tinha dos acontecimentos vinham dos sentimentos das personagens e menos de tudo o resto. O resultado desta escrita foi que me aproximei rapidamente das personagens e isso ajudou bastante, mas por outro lado devo dizer que por vezes senti um ou outro exagero (para o meu gosto) nas emoções descritas pela autora. Dou-vos um exemplo: são muitas as vezes que Saetan e Jaenelle falam, e são muitas as vezes que após algo que a rapariga diz, Saetan sente a sala a andar à roda, ou as mãos a tremer, ou algo mais que nos mostre o medo da personagem. Aqui para mim só há duas hipóteses: ou Bishop criou um Senhor do Inferno que por vezes é fraco, ou então esta personagem apresenta um medo sustentado por perceber algo que nós ainda não percebemos. Esta segunda hipótese parece no final o mais provável, pois Jaenelle começa aos poucos a mostrar uma capacidade que ajuda a sustentar esse medo. Os próximos livros ajudarão nesta questão.

Como já disse a criatividade da autora salta à vista, mas também a forma como “montou” o livro. A forma como os capítulos encaixam uns nos outros, como saltamos de personagens e com muitas revelações a ficarem por revelar, todo o livro ganha uma dinâmica que me agradou bastante, e que me obrigou a não parar de ler. A isto junta-se o facto de a escrita da autora encaixar de forma quase perfeita no que o livro nos apresenta. Sensual, intrigante. Afinal de contas este mundo é grandemente sustentado pela sensualidade, pela escravidão sexual e pelo desejo. Poucas coisas retiram ao ser humano a capacidade de pensar logicamente, mas uma será certamente o desejo sexual e/ou a negação do prazer. Fonte de loucura, de interesse e de traições, o desejo é aqui usado como arma política e social, e Bishop está muito bem nesta área.

Apesar de notar que o público alvo deste livro será o sexo feminino, a verdade é que não notei que fosse algo tão óbvio como, por exemplo, na saga Kushiel (saga da qual ainda só li o primeiro livro, metade do original, mas que continuarei a ler visto que já adquiri o segundo).

Este é seguramente um início promissor de trilogia. Com um mundo complexo e algumas personagens excelente (Daemon é brilhante!) que dão uma qualidade enorme ao livro, digo-vos que a este livro apenas faltam duas coisas na minha opinião: uma espécie de mapa, para nos ajudar no início, e mais importante: um vilão a sério. Alguém que nos faça tremer! Percebo que a história deste primeiro livro “não tem espaço” para um vilão deste tipo, nem necessita dele, mas gostava de o ver no futuro da saga.   

Neste momento, ainda no início, parece-me que esta saga não deve ser perdida por ninguém, mas ainda me falta ler muito para ter uma opinião conclusiva. Para já tenho a certeza de uma coisa: agora que o leitor começa a dominar este mundo mágico, as suas regras e limitações, Bishop terá de mostrar uma enorme capacidade para não deixar este mundo cair de alguma forma com acontecimentos que possam original dúvida entre os leitores.
Para todos os que gostem de fantasia que não seja só o “modelo típico” que inunda o mercado, este livro será certamente uma leitura muito agradável e a mim convenceu-me totalmente.
Uma agradável surpresa! Para continuar a ler sem qualquer reserva!