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terça-feira, 22 de abril de 2014

MORTE EM PALCO


Autor: Caroline Graham

Título original: Death of a hollow man


Sinopse: Todos os atores adoram um bom drama e os membros da Causton Amateur Dramatic Society não fogem à regra. Românticas cenas de amor, momentos de ciúme e desespero, reconciliações operáticas, egos em fúria… as emoções estão ao rubro nesta produção amadora da peça Amadeus. Todavia, até as mentes mais criativas têm de admitir que assassinar o protagonista em palco é um pouco excessivo. Felizmente, o inspetor Tom Barnaby está na plateia e assume o controlo da situação. Da ex-mulher ressabiada a inesperados amantes secretos e atores invejosos, não lhe faltam suspeitos. O que parece faltar-lhe, sim, é objetividade. O bom inspetor conhece perfeitamente todos os envolvidos, são seus vizinhos e amigos, e por isso mesmo, conseguirá ver quem eles realmente são?



Este é o 2º livro que leio da série do inspector Barnaby, e após um primeiro livro que gostei bastante, as expectativas eram altas. Com uma narrativa calma e atenção ao detalhe, Graham apresenta o mesmo estilo que no livro anterior, com diálogos inteligentes enquanto nos oferece pistas que por vezes não conseguimos decifrar. 

O que mais gosto nos livros desta autora é o facto de ela olhar para as personagens como a base da trama. É com as suas ações, os seus olhares e os seus comentários durante o enredo, que nós, leitores, vamos tentar perceber o mistério, e provavelmente seremos enganados. Neste livro, que começa com um ritmo forte, para depois baixar durante a investigação, o que apreciei mais foi, tal como no livro anterior, a forma como a autora explora a vida nestas antigas aldeias onde todos se conhecem, tudo se fala, tudo se sabe. Um ninho constante de mexericos onde muitos querem saber tudo, quer seja para comentarem, ou porque invejam a vida do vizinho. 

E assim a investigação começa, existindo sempre a sensação que uns não estão a dizer a verdade porque não a podem dizer, outros inventam para mostrar que sabem mais do que realmente sabem, outros são tão honestos que parecem falsos... e pelo meio está o culpado, e não será fácil perceber quem é. E é nesta vida de aldeia que se sustenta o suspense do livro. Iremos ver um Barnaby que parece confuso, mas na realidade nunca sabemos se está... ou se já percebeu o que a nós nos escapou. 

Outro aspeto interessante são as histórias secundárias. A autora não se limitou a criar um policial onde a investigação ocupasse a totalidade do enredo. Pelo meio teremos pequenas histórias de algumas personagens e que ajudam a tornar este mundo mais sólido, mas principalmente a criar pontos de ligação e a levar-nos a conhecer algumas personagens, obrigando-nos a fazermos a nossa própria investigação, e é esse o grande prazer de lermos um policial. 

O que temos aqui é um policial dentro do estilo inglês que Agatha C. nos habituou. Com um ritmo mais calmo, sem grande ação, o mistério é a base do livro e foi-me muito difícil parar de ler. Gostei bastante da forma como a autora criou algumas ligações, interesses e invejas, e também da forma como toda a comunidade reage ao homicídio que é o centro do enredo. O final é inteligente e sólido se depois olharmos para toda a investigação desde o início, e devemos dar o mérito à escritora pela forma como nos engana. 

Estando ao nível do primeiro da série Barnaby, se gostam deste género de policial, mais clássico e lento, este livro é uma boa opção e deve ser lido!

Luís Pinto  

segunda-feira, 13 de maio de 2013

MORTE NA ALDEIA


Autor: Caroline Graham

Título original: The Killings at Badger's Drift


Este livro foi considerado um dos 100 melhores policiais de sempre pela Crime Writers Association. Esta é uma lista do qual já li vários livros que adorei, e por isso, tinha boas expectativas em relação a esta obra.

A história começa simples: uma mulher idosa vê, num bosque da sua pacata aldeia, algo que não deveria ter visto. É, mais tarde, encontrada morta na sua casa. Acidente ou assassínio? O que terá visto?

Em primeiro lugar devemos ter em conta que este livro tem quase 30 anos e a tecnologia dos anos 80 não é a que conhecemos agora. Para além disso, a cultura, a mentalidade e a forma como uma sociedade vê um caso destes, é diferente. Este é para mim um dos pontos mais interessantes do livro: sendo passado numa tradicional aldeia inglesa, o livro tenta explorar como a própria sociedade vê e reage a este "possível" crime, mas principalmente, mostra como estes pequenos locais são propícios a boatos, "coscuvilhice", etc... acabando, inevitavelmente em cada pessoa a ter a sua própria teoria e, por vezes, a tentarem influenciar a própria polícia nas suas investigações.

A investigação está a cargo do Inspetor Barnaby e o seu ajudante Troy, um homem que sem grande experiência nestes casos, vai ajudando ou atormentando Barnaby com as suas dicas. A "química" entre os dois é muito interessante, pois Troy é um homem incansável que gosta de agradar mas que vê tudo de forma muito obtusa, quase sem pensar, retirando ideias estereotipadas com um simples olhar, não o deixando ver o que se esconde. Barnaby é o oposto, tentando não retirar conclusões apressadas, mas nem sempre é fácil fugir ao que os olhos e anos de experiência nos dizem, pois a própria forma como a sociedade nos educa um ou outro tema, poderá levar-nos a ver algo errado. E no meio de tudo isto, cada vizinho quererá ter razão...    

Outro grande ponto a favor, na minha opinião, é a forma perfeita como a escrita da autora encaixa no género. A narrativa dá-nos detalhes a cada instante, tanto no espaço em que se insere, como sobre as personagens. Aliás, o que mais me agradou no livro foi o conjunto de personagens que se tornam suspeitos. O livro mostra-nos os seus passados, tenta influenciar-nos e em algumas situações quase que nos dá a resposta... mas eu não a vi. Os suspeitos estão todos muito bem conseguidos, com personalidades distintas, e todas elas têm algo a esconder, principalmente quando se vive num meio tão pequeno.

Barnaby também é uma personagem interessante, mas não tem o foco que os suspeitos recebem do livro. Nesse aspeto é notório que a autora não nos quer desviar do essencial, que é levar-nos a também retirarmos as nossas conclusões, levando-nos, muito provavelmente, a falhar. Eu, por duas vezes percebi que o livro me estava a enganar, mas a verdade é que falhei no meu palpite e é isto que mais aprecio neste género: ter sido enganado. É verdade que nunca tive certeza absoluta mas o próprio livro não nos deixa acreditar piamente que a personagem X é o criminoso, e no fim, quando tudo é revelado, reparo que as resposta sempre lá estiveram. Sobre essa revelação final, é uma surpresa reparar que este livro tem quase 30 anos, e fiquei admirado com a narrativa negra e com os temas abordados. O livro é mais negro do que eu esperava, e só o percebi já ao enredo ia bem adiantado, não por ter descrições violentas, mas porque aborda vários temas difíceis que levam a motivações que nos deixam surpresos. 

E se vivemos todos numa mentira? E se eu não fiz aquilo que acredito ter feito?

Infidelidade, prostituição, incompetência médica, violência doméstica, entre outros, são os temas deste livro, que nos demonstra como uma vingança pode levar anos a ser preparada e como um erro nos pode atormentar para a vida. Não querendo deixar aqui qualquer pista, pois para mim este género de livros vive das surpresas que nos dão, fica aqui a minha convicção que este livro terá sido fantástico há 30 anos atrás. Atualmente será, também pelos temas que aborda, uma obra mais banal num ou noutro aspeto, mas no global é um excelente livro que vive pela qualidade da narrativa. Totalmente recomendado a quem gostar de um bom policial, com uma boa escrita, boas personagens e um toque de Agatha Christie.

Luís Pinto