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segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O FRANCO ATIRADOR PACIENTE


Autor: Arturo Pérez-Reverte

Título original: El francotirador paciente



Sinopse: Sniper é uma lenda viva no mundo da arte de rua. Subversivo e omnipresente na tela urbana, ninguém conhece a sua identidade, poucos terão visto o seu rosto, não há relatos do seu paradeiro. Quem é o verdadeiro Sniper por detrás deste enigma que o mistifica? É um heroico cruzamento de Salman Rushdie e Banksy, um justiceiro solitário? Ou um terrorista urbano, um egomaníaco cujas ações já se revelaram fatais?
Alejandra Varela, especialista em arte, decide seguir os passos deste homem sem lei. Uma mira telescópica de francoatirador assina todos os trabalhos de Sniper, e é essa mira que leva Alejandra a infiltrar-se no submundo de Madrid e Lisboa, Verona e Nápoles. Cidades que são os campos de batalha prediletos deste caçador solitário. Mas, a coberto das sombras, uma outra pessoa aguarda para descobrir o paradeiro de Sniper, embora as suas motivações sejam bem diferentes…
Segue-se um formidável duelo de inteligências, um jogo de perseguição entre caçador e presa cujo final é, no mínimo, surpreendente.
Thriller centrado no obscuro e inexplorado submundo da arte urbana, nas suas leis e códigos éticos próprios, na frágil distinção entre arte e vandalismo, O Francoatirador Paciente é um convite à reflexão sobre a identidade urbana, a arte e o artista moderno.



O nome do livro nada tinha a ver com a capa. Um homem com uma lata spray de tinta. Arturo captou de imediato a minha atenção em direção à sinopse e percebi rapidamente que este poderia ser um tema que oferecesse uma leitura interessante. 

O centro deste livro é a arte urbana e muitas das questões que se levantam com este movimento artístico. Afinal o que pretendem estes artistas? Atingir a mentalidade das pessoas, deixar um pensamento? Conseguir a imortalidade numa parede? Serão vândalos ou artistas? Neste enredo, que viaja entre Espanha, Portugal e Itália, o autor explora algumas mentalidades e alguns objetivos de quem pratica esta arte, mas também explora o lado da sociedade e como esta vê esta crescente artística. Este será, provavelmente, o aspeto mais interessante do livro que nos irá prender numa caça ao homem, e este será um homem que queremos conhecer enquanto avançamos na história, pois em cada personagem existe sempre algo mais do que vemos à primeira vista. 

Arturo sempre foi um autor que consegue expor temas de forma objetiva e global, e aqui não falha. O livro sofre um pouco com a exploração do tema, transformando-se num enredo em que o ritmo não é constante, e por vezes é bastante lento. A caça ao homem e a "desmistificação" do mesmo irá empurrar-nos até ao fim do livro, sempre com acontecimentos interessantes e diálogos inteligentes. 

As duas personagens principais estão muito bem conseguidas, principalmente porque apresentam duas mentalidades que são, ao mesmo tempo, muito afastadas nuns temas, e muito próximas noutros. A isto junta-se uma escrita fantástica, já habitual neste autor, e que nos leva com facilidade a perceber o que é preciso ser transmitido para conseguirmos absorver tudo o que o enredo nos pode dar. O final, surpreendente em vários aspetos, fez-me olhar para todo o livro com outros olhos e compreender melhor todo o trabalho do autor para nos levar numa direção muito específica, e que agora ao ser analisada, torna todo o livro melhor no fim, mesmo que a meio pareça que o enredo está algo perdido.

Resumindo, Reverte oferece aqui um livro que é um thriller de ritmo inconstante. Esta oscilação de ritmo pode parecer estranha mas é o resultado de um aprofundar de um tema a um nível superior e que a maioria dos thriller não quer alcançar. E é esse aprofundar do tema que nos leva a pensar e a perceber que este livro é melhor do que parece em alguns momentos. Não é o melhor livro do autor, mas é mais um livro muito inteligente sobre um tema que merece ser discutido. Se acham o tema interessante, certamente irão gostar deste livro.     

Luís Pinto

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O TANGO DA VELHA GUARDA


Autor: Arturo Pérez-Reverte

Título original: El tango de la guardia vieja



Sinopse: 1928. No salão deserto e silencioso de um transatlântico que navega pela noite dentro, um casal dança um tango ainda por escrever… Ela é Mecha Inzunza, uma mulher enigmática e melancólica. Ele é Max Costa, um elegante fura-vidas. Rumam a Buenos Aires, onde Armando de Troeye, marido de Mecha e músico afamado, enfrenta um extravagante desafio. Ao abrigo das ruelas lúgubres e ilícitas da cidade, nasce entre Mecha e Max uma história de amor arrebatadora que será precocemente interrompida. Voltarão a encontrar-se apenas duas vezes ao longo das suas vidas.
Em 1937, numa intriga de espionagem na Riviera Francesa, um dos destinos preferidos da alta sociedade europeia. E em Sorrento, 1966, durante uma inquietante partida de xadrez. Aqui, o tempo é já de nostalgia. O jogo dos amantes está perto do fim. A sua paixão acompanhou o esplendor e a decadência da Europa do século XX e transcendeu o tempo e a distância. Sempre presente e sempre impossível.


Tal como a sinopse refere, o enredo passa-se em três momentos distintos: 1928 num cruzeiro, em 1937 durante a guerra civil de Espanha e em 1966, onde a Guerra Fria envolve as personagens principais. O enredo tem ainda como personagens principais Armando, Mecha e Max. Com estes ingredientes, o autor constrói um romance marcante, com muito para ensinar ao leitor e que está ao nível das grandes obras deste autor. 

Numa mistura explosiva entre "tango" e espionagem, o autor dá-nos excelentes personagens, principalmente Mecha, que demonstra uma profundidade e uma personalidade que marcam todo o enredo e que influenciam a própria leitura. Existem ainda outras personagens de grande qualidade, e nota-se que o autor as constrói com calma, dando pequenos detalhes nos mais insignificantes diálogos ou gestos, ajudando à construção de uma imagem vincada por parte do leitor. A isto junta-se o ambiente, que aqui salta por três momentos e o autor altera certos aspetos como uma facilidade tal que imediatamente nos sentimos também a saltar entre épocas, e nunca me senti desligado da história.

Nesse aspeto, é importante referir que Reverte demonstra conhecimentos históricos que ajudam bastante a nossa leitura, ensinando sempre algo ao leitor para uma melhor noção de "onde estamos", mas toda a narrativa é focada no amor. Aliás, o autor descreve sempre, com simplicidade, as diferenças, as evoluções de mentalidade, de cultura, de segurança ou até do próprio ambiente entre pessoas, ao explorar como suas vidas se alteraram durante o salto temporal na narrativa... mas nunca sem ter como tema principal o amor e as marcas que o passado deixa dentro de nós.

Com várias revelações, traições e diálogos fortes num ritmo elevado de narrativa, a forma como Reverte escreve é cheia de vida, de intensidade, quer a explorar pessoas, sentimentos ou locais. E tal capacidade nota-se e agarra o leitor até a um final que deve ser aplaudido e que me surpreendeu em vários aspetos, principalmente porque o autor, novamente, tal com fez noutras obras suas, deixa uma mensagem moral, uma lição que cada leitor deverá interpretar à sua maneira e com ela perceber muito do que se passou neste livro, pois é importante percebermos as decisões de algumas personagens... o que sentiram.

Este é um livro sobre a força do amor. É interessante pensar sobre como um sentimento no nosso cérebro pode durar tantos anos até renascer, cheio de força no mais inesperado momento. Afinal qual é o limite para esse sentimento? Será um limite imposto por nós? Pela sociedade? Pelo nosso instinto de sobrevivência?

Arturo Pérez-Reverte faz parte daquele lote de autores que não faz maus livros. Existe sempre um toque de qualidade e uma noção de detalhe que se notam, quer no enredo, quer nas personagens, e que acabam por oferecer finais marcantes com uma lição moral. Este livro não foge à regra. Não será o melhor livro do autor, mas fará as delícias de todos os seus fãs. Quem gostar do autor ou do género, tem aqui um excelente livro!

Luís Pinto

quarta-feira, 1 de maio de 2013

A PONTE DOS ASSASSINOS


Autor: Arturo Pérez-Reverte

Título original: El puente de los asesinos


Nápoles, Roma e Milão são alguns dos cenários desta nova aventura do capitão Alatriste. Acompanhado pelo jovem Íñigo Balboa, Alatriste recebe ordens para intervir numa conspiração crucial para a Coroa espanhola: o assassinato do doge durante a missa do galo, em Veneza. O plano: impor, pela força das armas, um governo favorável à Corte do rei católico naquele poderoso e estratégico Estado italiano. Para Alastriste e seus camaradas - o veterano Sebastián Copons, o mouro Gurriato, o português Martinho de Arcada, entre outros - a missão afigura-se difícil, arriscada e cheia de surpresas. Suicida, talvez, mas não impossível.


Este é o 7º livro da saga que nos mostra as aventuras do Capitão Alatriste e é o primeiro que leio. Não conheço a saga, nem vi o filme, mas sendo livros que se lêem sem a obrigatoriedade de se ter lido os anteriores, arrisquei.

Sendo o primeiro que leio, torna-se impossível dizer se o autor mantém a fórmula, se está a ser repetitivo ou se inovou dentro da saga. O que encontrei foram duas personagens divertidas, sendo que o autor faz intenção de demonstrar que Alatriste é uma pessoa madura e ponderada, e por isso acredito que tal seja uma evolução da personagem que terá sido mais intempestivo enquanto jovem. A relação entre o capitão e Balboa é o que cativa mais no livro se retirarmos a intriga que prende desde o início. No entanto acredito que quem tenha lido toda a saga consiga compreender pequenos pormenores que me falharam e não dê tanta importância a uma relação que já deve existir há algum tempo. Alatriste é um personagem interessante mas não foi a única que me cativou, notando-se que esta saga tem um conjunto interessante de personagens.

Todavia, o autor apresenta uma primeira parte do livro onde descreve alguns dos acontecimentos passados nos outros livros. Não dá para ter um conhecimento total, mas ajuda, e mais facilmente entrei na história sem estranhar alguns acontecimentos. Claro que quem tenha lido toda a saga, poderá dispensar esta primeira parte, mas eu gostei do "resumo".

Um dos pontos que tenho de  mencionar é a forma como o autor descreve e mistura factos históricos. É tudo feito com facilidade, demonstrando que o autor está à vontade neste género literário e que o domina. As descrições são muito bem conseguidas e nunca baixaram muito o ritmo de leitura, pois nunca são muito extensas apesar de detalhe que apresentam. No entanto é a intriga o ponto mais alto deste livro (pelo menos para um leitor como eu, que nunca tenha lido os outros, e por isso ainda não sinta muito por estas personagens). A forma como o autor nos mostra que são pequenos atos, atrás dos bastidores, que por vezes levam a grandes vitórias está muito bem conseguida. A intriga está bem montada e a narrativa ajuda ao suspense. Existem momentos de surpresas e o aparecimento de algumas personagens dá bons momentos ao enredo, mas uma vez mais, quem tenha lido toda a saga irá vibrar mais com estes aparecimentos.

Não me é fácil fazer uma crítica a um livro que tem seis livros anteriores mas devo dizer o seguinte: apesar de não ser obrigatório ter lido os livros anteriores, fará a diferença, certamente, conhecer o passado destas personagens. O livro nunca é uma obra de ação, nem apresenta as batalhas que podemos esperar. É um livro calmo, muito bem enquadrado na época e que se lê facilmente. Não é genial e é provável que não seja o melhor livro da saga, mas a forma como o autor escreve, o seu notório conhecimento da época e as suas personagens, convenceram-me a ler outros livros da saga.

Luís Pinto