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quinta-feira, 25 de abril de 2013

O PRISIONEIRO DA ÁRVORE


Autora: Marion Zimmer Bradley

Título original: The Mists of Avalon - Book Four: The Prisioner in the Oak



Finalmente chego ao fim desta saga que deixou a sua marca na fantasia, e o que posso dizer? Totalmente recomendada. Este 4º livro foi, provavelmente, o que gostei mais. No geral, a qualidade do livro não está acima do que foi apresentado no resto da saga, aliás, os quatro livros apresentam uma qualidade similar, não existindo nenhum que esteja um degrau acima, mas há detalhes neste livro que fazem a diferença.

Durante os quatro livros vimos a invasão do cristianismo na mente das pessoas e vemos o olhar feminino, que marca a saga, e que torna o enredo menos à base de músculos. Este, sendo o último livro, é também aquele em que as personagens, agora bastante idosas, questionam e vêm o seu próprio fim. Neste aspeto a narrativa é forte ao explorar como pessoas que dedicaram a vida a uma causa, questionam no fim se algo divino está realmente a observar e se eles fizeram a vontade de algo superior.

A autora não se limitou a acabar a história. Deu-lhe um significado profundo sobre o qual todos os leitores devem ponderar, e cada um encontrará a sua explicação. O fim é realmente bom, com uma visão muito própria, mas não é o fim que marca este livro, mas antes o caminho até esse fim. A forma como a autora explora o ódio entre religiões está muito bem conseguida e fez-me ficar cada vez mais envolvido desde o primeiro livro até este, sendo que este último é onde esta raiva é mais explorada e tem resultados mais drásticos.
Com um final onde alguns pontos ficam por explicar, este livro apresenta um ritmo mais lento do que a restante saga, pois é essencialmente um livro sobre reflexão de cada personagem e também sobre a religião. As suas personagens continuam fantásticas e todas elas são movidas pela esperança que a fé oferece, seja qual for a fé. O enredo continua a tocar em pontos "difíceis", como adultério, traição, incesto... mas torna-se um livro muito mais filosófico do que esperava, e gostei muito desse indireto olhar, principalmente porque o próprio livro não obriga a uma reflexão, mas ela está lá.

Numa saga com esta qualidade, as grandes personagens não podem faltar, e aqui há para todos os gostos. Umas que se odeiam, outras que admiramos, outras que nos surpreendem. No meu caso, várias ficam na memória mas nenhuma tem o impacto de Morgaine (Artur, com todos os seus dilemas está muito perto de ser tão memorável). A saga segue a evolução desta mulher, e com ela se desenrola. O seu crescimento enquanto personagem principal é fantástico e coerente (todas as personagens importantes apresentam coerência nesta saga), e é com ela que este livro se torna o meu favorito na saga ao abordarmos o caminho que se percorreu pela religião, e os resultados estão à vista.

MZB criou uma saga diferente e com qualidade. A sua visão singular e a facilidade com que me fez gostar ou odiar uma personagem,  demonstra o talento da autora. A saga é muito equilibrada, o que é raro, e este livro não se limita a explicar como tudo acaba. Dá-nos antes a hipótese de pensarmos sobre ela e de a compararmos à realidade. É verdade que é uma saga mais virada para o público feminino, mas não é exclusiva, e para quem gostar do género, com facilidade irá perceber o porquê do enorme êxito desta saga nos últimos anos. Muito bom!

Luis Pinto

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O REI VEADO


Autor: Marion Zimmer Bradley

Título original: The Mists of Avalon - Book Three: The King Stag



Este terceiro livro da saga As Brumas de Avalon é, provavelmente, o que mais gostei até agora. Em termos de qualidade, está ao nível dos anteriores, e cada vez mais sinto que, ao ler esta saga, estou a ler um único livro, onde a qualidade e ritmo são constantes, a forma narrativa está igual e nada parece forçado ou arrastado.

O que me faz gostar mais deste livro são os temas que agora têm o controlo da história. A autora continua a tocar, sem qualquer receio, em temas controversos, como a religião, a manipulação de massas ou a homossexualidade, tudo isto misturado numa invisível hipocrisia, que por vezes, nem o leitor descortina à primeira. Este é ainda, o livro onde o fanatismo religioso ganha maiores contornos, cegando as personagens e desculpando os seus atos e ignorância. A esta fórmula ganhadora junta-se agora a dúvida de algumas personagens sobre os seus atos e motivos, e por isto tudo, digo que é impossível para mim dizer se este livro é melhor ou pior que os anteriores (pois todos são muitos bons), mas foi o meu favorito.

As personagens continuam fantásticas e Morgaine volta a ser genial, e, para além de nos fazer pensar, também nos ilude, tornando a leitura melhor. No entanto, estes pequenos pormenores ajudam a demonstrar um dos grandes trunfos desta saga: as personagens são reais, têm falhas, têm vergonha e têm medo, e esta história nunca seria tão marcante se não estivéssemos perante um grupo de personagens bastante credível e que nos deixam uma mistura de sentimentos.

Gwen e Arthur são o ponto central deste livro, e facilmente consigo gostar do Rei e detestar a Rainha. Não é difícil perceber no que estas personagens se tornaram, nem porquê. Existe uma forte luta entre religiões que incendeia a política, mas principalmente a mente e os objetivos das pessoas. Fazer a vontade de Deus poderá ser a mais fácil desculpa para muito do que se faz, mas isso dependerá da forma como usamos essa desculpa. Onde está afinal o limite? Será que temos consciência que estamos a usar a religião apenas como uma desculpa para implementar a nossa vontade?
Em termos psicológicos, Arthur é quem demonstra ao autor esse limite, sendo a personagem que questiona a sua vida por não estar preso a fanatismos. E com ele vemos que cada homem, em algum momento da sua vida, questionará o que deixou neste mundo e também as razões para muito do que fez.

Apesar de num ou noutro momento sentir que a autora poderá ter exagerado na forma como o homem é demasiado fraco dentro do jogo de intrigas, e que o seu lugar na corte se deve apenas à força física, percebo que o mundo e todo o seu contexto leve a tal ideia. É verdade que gostava de ver um homem a ter a capacidade de andar pelos bastidores e jogar as suas cartas, mas este é, um livro onde a luta pela moralidade e religião imperam, e um homem que passou uma vida apenas a olhar para a guerra, não consegue criar a teia de interesses para sobreviver neste mundo.

Falta-me apenas um livro para terminar esta fantástica saga e por isso vou deixar uma melhor apreciação para o fim. Para já, vou vendo onde a história me leva, mas novamente a ideia persiste: esta saga é consistente, onde mundo, personagens, diálogos e história, estão ao mesmo nível (altíssimo), dando uma sensação de plenitude que poucas sagas oferecem. E por isso estamos perante uma saga tão famosa no seu género.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

AS BRUMAS DE AVALON - A Rainha Suprema


Autor: Marion Zimmer Bradley

Título original: The Mists of Avalon - Book Two: The High Queen


Após um primeiro livro que serviu para introduzir personagens, religiões e "máquina política", este segundo livro é, tal como o nome indica, marcado pela Rainha Suprema e sua evolução. Gwen, que mostra uma forte transformação durante o livro, é a personagem que faz a história avançar, pois é ela a face da verdadeira batalha deste enredo. Uma batalha que é muito mais do que escudos e espadas.

Como se destrói uma ideia? Como se apaga uma religião, uma fé, uma necessidade de acreditar em algo?
Com uma nova fé? Por palavras ou espada? Com compreensão ou desprezo? Estas perguntas, facilmente identificadas neste livros, foram a realidade (e provavelmente ainda são) do nosso passado, da evolução das civilizações e da manipulação, consciente ou inconsciente, daqueles que tinham a capacidade de argumentar e influenciar... ou simplesmente o poder da decisão. E todas as sociedades do planeta foram limitadas pela sua própria religião.

Gwen, a Rainha Suprema que nunca será feliz por acreditar que transporta dentro de si o verdadeiro pecado, é a fraca e manipulável pessoa com a qual acabamos por sentir simpatia, mas que muitas vezes me deixou de boca aberta pela sua incapacidade de pensar por si mesma e aceitar as diferenças... As pessoas têm medo do que não compreendem e do que é diferente.
E o facto de me ter ligado (para o bem e para o mal) com esta personagem, demonstra a fantástica qualidade da autora em nos levar a atravessar as brumas e entrar nesta história. Um caso raro de qualidade. 

"Mas em perfeita verdade, penso que serão os cristãos a ter a última palavra"

No geral, e olhando apenas à qualidade da obra, este livro está ao nível do primeiro, o que é excelente, com personagens bem construídas e coerentes, com ideais vincados e um mundo que se sente a respirar. Mas o aprofundar da trama e de algumas personagens, torna-o muito mais viciante (também por não necessitar da introdução obrigatória no primeiro livro), e facilmente nos vemos dentro deste mundo.

É verdade que o livro peca por não apresentar nenhum "momento de cortar a respiração", sendo mais uma obra de evolução de personagens, muito graças aos saltos temporais que dá, mas é esta evolução, de todos os seus componentes, que me prende a esta saga. MZB criou um mundo sólido e credível como poucos conseguiram, e em apenas dois livros (que nem sequer são muito grandes).

Morgaine é a minha personagem preferida (apesar de Igraine ter tido o grande momento do livro) e provavelmente terá muito a dizer até ao fim da história, e confesso que me agradou um momento muito particular no qual a autora mostrou que esta mulher também é humana, e como tal, susceptível de errar, tal como todas as outras personagens.

Recomendado? Sim. Ainda estou apenas a meio desta saga, mas a qualidade de MZB está presente desde a primeira linha, e facilmente se percebe o enorme sucesso da saga. Faltam ler dois, e fico à espera de um final arrebatador a esta história sobre a qual não falo para nada revelar.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

AS BRUMAS DE AVALON - A Senhora da Magia


Autor: Marion Zimmer Bradley

Título original: The Mists of Avalon


E finalmente comecei uma das sagas mais marcantes da fantasia. Marion Zimmer Bradley agarra a lenda Arturiana e transforma-a como nenhum outro fez. A linha entre o bem e o mal desaparece e apenas interesses e convicções distinguem a maioria dos objetivos das personagens. Está tudo preparado para um excelente jogo de intrigas "atrás dos bastidores".

Agora, porque revolucionou MZB a fantasia com esta saga? Não me é fácil dizer, porque apenas li o primeiro, mas já há certos fatores que devem ser assinalados. O essencial é simples: o livro é bom em todos os aspetos principais que uma obra de fantasia precisa e é ao mesmo tempo, diferente de todos os outros.

Em primeiro lugar temos de assinalar o poder da mulher nesta história, pois ao ser tão importante e decisiva, altera todo o conceito base das sociedades medievais que costumamos ler, e MZB consegue-o muito bem. Outro ponto interessante é vermos a história pelos olhos de mulheres num mundo onde os homens combatiam e faziam a diferença. Só estes dois fatores chegam para esta obra ser diferente da grande maioria dos livros de fantasia medieval.

Outro aspeto muito bem conseguido é a grande mistura e luta entre religiões, que dá à história uma magnitude notável e ajuda a desenvolver a intriga, tornando-a mais abrangente. Num mundo onde as convicções religiosas manipulavam todas as decisões, MZB consegue criar esse ambiente na perfeição, e muitas vezes reparamos nas limitações que as religiões provocam, ou até, como a partir da religião se criam novas manipulações.

A história é muito diferente dos contos Arturianos que costumamos ouvir, aumentando também a necessidade de ler cada vez mais, procurando por personagens que já conhecemos de outros contos. E é nas personagens que está um dos principais trunfos. Bem vincadas, coerentes e fortes, facilmente marcam a sua posição e tornam-se fáceis de distinguir, ficando apenas o desejo que esta coerência se mantenha nos momentos mais importantes da saga. Para já, foi muito fácil "agarrar-me" a algumas personagens.

Visto que é apenas o primeiro de quatro livros, não consegue arrebatar o leitor com a sua história, pois muito ainda está para vir, sendo este uma extraordinária introdução ao mundo da saga. Mas é notório que se trata de um livro muito consistente, sem falhas, que agarra qualquer leitor que esteja aberto às alterações que a autora fez. MZB é ainda uma exímia escritora, pois a sua escrita é genial em certos momentos, conseguindo agarrar qualquer leitor às sensações que quer transmitir, tornando-se muito fácil entrar dentro da história, quer seja homem ou mulher, provavelmente ficará fascinado com os rituais e a magia de MZB.

Há muito mais para dizer sobre este livro, mas estaria aqui uma eternidade. É o primeiro livro, como tal ainda é cedo para dizer que recomendo a saga. No entanto já percebi o porquê de ser uma saga tão aclamada, porque se a qualidade se mantiver, então será das minhas preferidas. O que posso dizer é só isto: trata-se de um dos melhores inícios de saga que alguma vez li.