quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O DARDO DE KUSHIEL


Autor: Jacqueline Carey

Título original: Kushiel’s Dart


Sinopse: TERRE D'ANGE é um lugar de beleza sem igual. Diz-se que os anjos deram com a terra e a acharam boa... e que a raça resultante do amor entre anjos e humanos se rege por uma simples regra: ama à tua vontade. Phèdre é uma jovem nascida com uma marca escarlate no olho esquerdo. Vendida para a servidão em criança, é comprada por Delaunay, um fidalgo com uma missão muito especial... Foi, também ele, o primeiro a reconhece-la como a eleita de Kushiel, para toda a vida experimentar a dor e o prazer como uma coisa só. Phèdre é adestrada nas artes palacianas e de alcova, mas, acima de tudo, na habilidade de observar, recordar e analisar. Espia talentosa e cortesã irresistível, Phèdre tropeça numa trama que ameaça os próprios alicerces da sua pátria. A traição põe-na no caminho; o amor e a honra instigam-na a ir mais longe. Mas a crueldade do destino vai levá-la ao limite do desespero... e para além dele. Amiga odiosa, inimiga amorosa, assassina bem-amada; todas elas podem usar a mesma máscara reluzente neste mundo, e Phèdre apenas terá uma oportunidade de salvar tudo o que lhe é mais querido.
 

Quando no início do ano aproveitei a promoção 3=2 do site da editora Saída de Emergência (penso que para comprar os primeiros dois livros da saga O Mago) foi este o livro que recebi de oferta. Porque o escolhi? Achei a capa interessante, li a sinopse e decidi arriscar.
Contudo li o livro sem qualquer expectativa, mas rapidamente comecei a gostar a forma como Carey escreve. Quase como um diário, a história é-nos narrada por Phèdre, uma personagem que se tornou aos poucos mesmo muito interessante. Mas já lá vamos.

Primeiro que tudo devo avisar: se só gostas de fantasia rápida, cheia de acção, em que tudo é lido sem grande esforço mental, então este livro não deverá ser para ti. A verdade é que o início do livro é lido com algum esforço, primeiro porque a escrita de Carey é lenta, e depois porque o universo criado é grande, muito grande, cheio de personagens que “entram” nas páginas como se nós já as conhecêssemos. Resumindo: passamos muito tempo a visitar as páginas que nos indicam quem são as personagens. Obrigado à editora, sem estas páginas tornar-se-ia mesmo muito difícil.
Passadas algumas páginas a ginástica mental, necessária para percebermos o que se passa, diminui, mas nunca se torna num livro fácil de ler, pois o enredo é realmente complexo, sendo algo que ao início pode afastar alguns leitores, mas acreditem que existe muita qualidade neste livro. Lentamente percebemos as movimentações desta vasta corte cheia de intrigas, manipulações, prazeres e a história começa a agarrar-nos.

Sendo um livro de fantasia, a verdade é que essa mesma fantasia é muito mais sugerida do que imposta pelo mundo onde se desenrola, e como tal não se trata de um livro de fantasia puro, sendo muito mais um romance que tem um ou outro toque de fantástico. Mas o que realmente impulsiona a história é muito mais real do que fantástico. Como tal, o que move esta história?
Sexo. Sexo é, sempre foi, e sempre será, uma forma de poder, de persuasão. O sexo, a atracção e desejo consequente são armas poderosas, viciantes, incrivelmente bem usadas pelas personagens deste livro por forma a manipular e usar quem sente esse desejo… e aos poucos entramos neste mundo de intrigas, sedução e luxúria. Vamos lendo e percebendo as teias que prendem algumas personagens, o desejo por Phèdre, por aquilo que apenas ela pode dar. Tal facto, juntando-se a astúcia e a evolução da personagem, tornam Phèdre uma personagem que vale a pena seguir. Rejeitada por uns, usada por outros e desejada por todos, Phèdre é a “voz” de uma história elegantemente narrada, com uma escrita que tenta ser sensual (certamente grande trabalho na tradução) por forma a aproximar-nos na personagem, sua vida e sentimentos. 

O universo criado por Carey, vasto em personagens, é simultaneamente parecido e diferente das culturas europeias de séculos passados, mas nota-se desde o início que se trata de uma criação capaz de sustentar uma história por muitos livros, ficando apenas por saber se a autora terá a arte de usar de forma satisfatória tudo o que criou.
O livro é grande, principalmente porque se trata apenas de metade do original, muito graças à narração pormenorizada, quase um diário, de todos os acontecimentos. A escrita de Carey nunca torna o livro desinteressante, e como já disse, é um livro que tenta seduzir. Visualmente forte, Carey não “censura” nas descrições, sendo muitas as que tornam este livro num romance para adultos, devendo “ficar fora do alcance das crianças”. Também estas descrições podem desagradar a algumas pessoas, mas sinceramente penso que encaixam bem na história, principalmente para sentirmos o que Phèdre sente.
As restantes personagens são boas, bem construídas e a história tem tudo para se tornar em algo que seja realmente bom. Infelizmente este livro sofre do facto de estar dividido. Se por um lado é bom não termos de carregar um livro com mil páginas, por outro senti que este primeiro volume é muito mais introdução do que desenvolvimento, visto que apenas nas últimas páginas (nas últimas 50, ou perto disso) é que os acontecimentos começam a acelerar verdadeiramente, dando a ideia que o próximo livro será mais rápido.

Como tal ainda me falta ler muito desta saga para a recomendar sem hesitar, mas confesso que este primeiro livro foi uma boa surpresa. Quem olhar para a sinopse e achar o tema apelativo, não ficará desiludido nestas quatrocentas páginas. Uma excelente estreia desta escritora, que apesar de não ter uma saga que encaixe no género que mais aprecio, a verdade é que já tenho aqui na estante o próximo livro para ler um dia.

Luis.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Agradecimentos!

 Olá!

Hoje surgiu-me a ideia de criar um pequeno texto de agradecimento a três pessoas que aí pela "net" elogiaram e recomendaram o meu blog! O mínimo que posso fazer é agradecer!
Primeiro um agradecimento à Célia, autora do muito famoso site Estante de Livros e que não precisa de qualquer recomendação da minha parte, por ter sugerido o meu blog quando lhe perguntaram sobre que blogs seguir enquanto ela está no seu muito merecido descanso! Foi ao ler o blog da Célia que decidi fazer o meu, e por isso agradeço-lhe ainda mais a ajuda que me deu.
Outro agradecimento para a Filipa, que para além de muitas vezes me dar a sua opinião a textos que escrevo, decidiu hoje recomendar este blog aos seus leitores. Aproveitem, quem ainda não conhecer, para dar uma olhadela ao seu blog, O Labirinto dos Livros. Certamente irão gostar, com boas opiniões, muitas sugestões e uma gama muito variada de géneros literários.
Por último gostaria de agradecer à Ana Robalo Silva, por ter sugerido as minhas opiniões, num artigo que escreveu no site da Revista Visão. É sempre bom ler opiniões positivas ao que escrevemos, mesmo quando nunca comunicamos com essa pessoa.

Um agradecimento ainda a todos os outros visitantes do meu blog que sempre me apoiaram a continuar, escrevendo comentários, dando também as suas opiniões aos livros que li; aos visitantes anónimos, aos membros do Forum Bang! no Facebook e ainda aos membros do Sopa de Livros também no Facebook. Obrigado!

Luis

O JOGO FINAL


Autor: Orson Scott Card

Título original: Ender’s Game


Sinopse: Prepare-se para a história de um rapaz que com apenas seis anos de idade é retirado à família para ser treinado no espaço e assim tornar-se no melhor comandante que o planeta Terra já conheceu. Este é o programa de defesa dos homens que se baseia no treino rigoroso de crianças sobredotadas com o objectivo de as transformar em indestrutíveis génios militares. A missão? Combater o exército extraterrestre, de insectóides, que visa aniquilar sem piedade toda a humanidade. Um intrigante e vertiginoso primeiro volume que a Presença publica do grande mestre de Science Fiction.



Para quem não conheça este livro, o que em Portugal é frequente, deixo aqui uma pequena introdução histórica: Orson Scott Card lança este primeiro livro da saga Ender em 1985 e de imediato consegue o que muito poucos conseguiram: vencer com o mesmo livro o Hugo e o Nebula Award, os dois conceituados prémios da literatura fantástica. No ano seguinte o autor lançaria o segundo livro da saga e repetiria o feito, tornando-se no único autor em toda a História a vencer estes dois prémios em anos seguidos, feito no mínimo notável.
Mas voltando a Ender's Game, a popularidade dentro dos fãs do género é enorme, e tal nota-se quando vemos, por exemplo, votações de sites da internet: o site Sci-Fi Lists coloca-o em primeiro lugar no top dos melhores livros de FC; e a mega votação do site NPR coloca-o em terceiro no top dos melhores livros de fantástico, deixando para trás clássicos como 1984 ou a saga do momento de George R. R. Martin, Game of Thrones. Procuramos pela internet e este livro aparece sempre nos tops. Juntamos a isto o facto de ser um dos livros com melhor classificação do GoodReads e vemos que estamos perante a saga mais premiada da Ficção-Científica e uma das mais adoradas. Motivos suficientes para a ler.
Mas este livro é muito mais do que FC.

Scott Card tem uma escrita simples, rápida, e que tem como objectivo ajudar-nos a perceber com relativa facilidade a mente prodigiosa da sua personagem principal. Ender, um rapaz genial, tem a capacidade de criar incríveis tácticas em batalhas, e até aqui tudo normal em relação a outros livros, mas Scott Card "mostra-nos" mesmo essas movimentações, essas manobras geniais, não se limitando a escrever "Ender chegou e ganhou". Juntamos a isso o facto de o autor nos dar muitas vezes no início de capítulos, acontecimentos com outras personagens, principalmente aquelas conversas entre os verdadeiros manipuladores da história, aqueles que a fazem avançar, oferecendo a esta obra uma intriga sempre presente e um carácter quase estratégico às suas páginas, pois aos poucos vemos outras movimentações que não as de Ender.
Sendo um livro para qualquer idade, a verdade é que será mais fascinante para um adolescente, pela acção e amizade entre as personagens, mas por outro lado terá uma maior qualidade para um adulto pelas questões que levanta. Os treinos das crianças tornam-se por vezes angustiantes, por serem levadas ao limite, tocando a extrema violência nos seus actos, sem que o autor as descreva com pormenor, dando a oportunidade a uma criança de ler este livro e não ficar impressionada, mas também oferecendo a qualquer adulto uma imagem negra, que nos faz questionar os actos destas crianças, o seu estado psicológico e o que os levou a tal situação.

Precisamos de conhecer e compreender um inimigo para o conseguir derrotar? O tempo em que somos crianças será realmente a idade da inocência, mas também é a criança o ser que muda mais rapidamente de estado, amando e odiando a mesma coisa em poucos minutos de intervalo. Será então uma criança o comandante perfeito? Quente e frio, fácil de manipular? Aos poucos o livro mostra-nos a manipulação, a inveja do ser humano, a ética moral que nos prende e a violenta loucura que nos solta... mas será a sobrevivência da espécie desculpa para qualquer acto? A verdade é que existe sempre algo que consegue destruir a mais forte das determinações, quer seja por termos perdido alguém que amamos e só desejamos desistir, ou porque simplesmente deixámos de ser felizes. Roubaram-nos isso.
Este livro é sobre as motivações das crianças. A capacidade de superação seguida da tentação de simplesmente encolher os ombros e desistir, porque afinal a vida não é justa e a criança que "cresce" mais depressa, também o aprende primeiro. Esta personagem principal é fantástica e realista, porque ser um génio não retira à pessoa nada de humano. Que criança, por mais genial que seja, não se sentiu pelo menos uma vez incompreendida ou inferior? Que criança não desejou pelo menos uma vez ser especial sem perceber que certamente já o é?

Orson Scott Card é fantástico. Se não o fosse não teria ganho todos os prémios que ganhou, não teria feito um Universo tão fácil de se perceber, não teria criado aquela que é para mim, muito provavelmente, a mais incrível raça alienígena que já li... se Card não fosse tão bom, não teria inventado, muito antes de J. K. Rowling, uma escola com equipas, jogos e pontos, e que realmente funciona apesar de não tão detalhado como em Harry Potter.
Um livro com alguns anos e ainda tão actual, basta lermos e percebermos como algumas pessoas neste livro manipulam outras em "redes sociais", e perguntamo-nos se estaremos a caminhar na mesma direcção...
O final, bem, é simplesmente incrível. Alguns poderão não gostar, mas para mim é excelente, pois percebemos que todo o livro nos levou nesta direcção. Agora é esperar até ter nas minhas mãos o próximo da trilogia. Um livro que me deu um verdadeiro prazer, como poucos.
A questão é: se és fã de literatura fantástica, ou se simplesmente és uma pessoa que adora ler, como é possível ainda não teres lido este livro?

Luis.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

HARRY POTTER e o Cálice de Fogo

 
Autor: J. K. Rowling

Título original: Harry Potter and the Goblet of Fire

 
Depois de três livros em que Rowling nos mostra uma criatividade de louvar e nos deixa completamente viciados, chega-nos este quarto livro e dá-se um salto qualitativo na saga, principalmente porque fica para trás a ideia de que HP é para crianças. Agora a história amadureceu, torna-se adulta e fala-nos de outros temas, muito menos infantis.

Sendo um livro muito maior do que os outros (quase o dobro), Rowling ganha com este livro o Hugo Award, o único ganho pela saga HP, e desde cedo percebemos que a história continua a evoluir tal como os leitores que a seguem.
É um livro que começa em grande, tanto pelo capítulo na casa Riddle, como depois na Taça do Mundo de Quiddicth, deixando qualquer leitor empolgado e tal como o próprio Harry, também nós esquecemos as preocupações sobre o que será o futuro. Logo de seguida o torneio dos Três Feiticeiros! Rowling junta magia, torneios, criaturas mágicas, provas dificílimas, pistas que nos deixam a ler a uma velocidade louca… tudo junto? O mais viciante Harry Potter até então!
Mas desenganem-se aqueles que possam achar que este livro é apenas um Torneio. Desde cedo se percebe ligeiramente que agora tudo é mais negro, nós apenas estamos mais interessados no resto! Rowling uma vez mais faz-nos olhar para um lado enquanto no outro é que está o que realmente será importante. A autora mostra ainda mais o seu mundo mágico, muito graças às duas escolas que passamos a conhecer melhor e ainda às intrigas/interesses políticos que se começam a formar. Uma novidade na saga!
De resto Rowling não desilude. Começam-se a sentir os primeiros enredos amorosos; temos a introdução do Pensatório que oferece mais qualidade ao enredo; novas personagens distintas, sendo que algumas conseguimos mesmo odiar, como a Rita Skeeter (grande qualidade por parte de Rowling); temos as aulas de Alastor Moody, excelentes e que nos preparam para o salto de amadurecimento que antes mencionei; entre outros enredos secundários que passaram por Hermione a tentar “salvar” elfos, antigos Devoradores da Morte, etc...
Devo ainda salientar que uma vez mais Rowling consegue reproduzir bastante bem as mentes dos adolescentes, e tal nota-se principalmente nas três personagens principais, nas suas discussões, reacções e nos seus momentos de alegria, mas uma vez mais percebemos lentamente que antes tínhamos mais momentos em que nos riamos, e agora ficamos apreensivos.
Rowling consegue com este livro prender qualquer leitor que ainda não fosse viciado nos três anteriores (também não deveriam ser muitos). Um livro que se lê de seguida, o elevar da qualidade em quase todos os parâmetros do livro, várias surpresas, e ainda uma mão cheia de pistas, dadas em cada página de forma brilhante, e que nós lemos, mas não vemos.
Os diálogos são fantásticos em algumas situações, e pelo menos uma vez roçam a perfeição, num dos capítulos do fim, onde muito acontece. Que grande capítulo, nem tanto pelo que acontece, mas pela forma como acontece e pela qualidade das palavras de uma certa personagem. Excelente!
Uma vez mais um livro imperdível. Quem comece a ler esta saga, tenha a idade que tiver, se quiser ter prazer a ler algo que o faça sentir bem, muito provavelmente não conseguirá parar de ler Harry Potter.

domingo, 27 de novembro de 2011

O EVANGELHO DO ENFORCADO


Autor: David Soares


Sinopse: Nuno Gonçalves, nascido com um dom quase sobrenatural para a pintura, desvia-se dos ensinamentos do mestre flamengo Jan Van Eyck quando perigosas obsessões tomam conta de si. Ao mesmo tempo, na sequência de uma cruzada falhada contra a cidade de Tânger, o Infante D. Henrique deixa para trás o seu irmão D. Fernando, um acto polémico que dividirá a nobreza e inspirará o regente D. Pedro a conceber uma obra única. E que melhor artista para a pintar que Nuno Gonçalves, estrela emergente no círculo artístico da corte? Mas o pintor louco tem outras intenções, e o quadro que sairá das suas mãos manchadas de sangue irá mudar o futuro de Portugal. Entretecendo História e fantasia, O Evangelho do Enforcado é um romance fantástico sobre a mais enigmática obra de arte portuguesa: os Painéis de São Vicente. É, também, um retrato pungente da cobiça pelo poder e da vida em Lisboa no final da Idade Média. Pleno de descrições vívidas como pinturas, torna-se numa viagem poderosa ao luminoso mundo da arte e aos tenebrosos abismos da alienação, servida por uma riquíssima galeria de personagens.


Com o livro Batalha a ser uma enorme surpresa pela sua qualidade (principalmente filosófica), li A Luz Miserável e confirmei o estilo de escrita de David Soares, a qualidade nas suas palavras. Agora faltava confirmar a capacidade de Soares em desenvolver boas historias... confirmado!
O livro Batalha tinha como grande trunfo o que nos transmitia, os diálogos e acções repletos de significado, as questões filosóficas que levantava. A Luz Miserável por seu lado mostrou-se como um livro de contos forte, com uma escrita que nos leva até ao momento singular em que o horror explode, e agradado com a leitura destes dois livros atirei-me a este “O Evangelho do Enforcado” e devo já dizer que Soares consegue com notável mestria, misturar ficção e História, algo que poucos conseguem fazer em Portugal.
Contando a história de Nuno Gonçalves, autor dos Painéis de São Vicente, vamos conhecendo esta personagem desde o seu nascimento até ao feito da sua enigmática obra, e se no início do livro não senti grande entusiasmo nestas páginas, foi sensivelmente a meio que comecei a agarrar-me à história que Soares criou. Com a sua escrita sempre forte, esta leitura mostrou-se mais rápida do que Batalha, sem todas as palavras quase desconhecidas da grande maioria dos leitores, mas devo assinalar que nunca faltou o significado de cada linha. Este é um dos grandes motivos pelos quais gosto deste autor: ele não escreve por escrever. Não escreve para vender ou para encher o livro. O que temos aqui é uma escrita cheia de significados, tanto nas detalhadas descrições como nos inteligentes diálogos, e se em Batalha éramos brindados com mensagens quase “educativas”, filosóficas; aqui vemos em cada linha a criação de personalidades, de movimentações de bastidores pelo poder do Reino e alimentar de medos. Tudo isto tendo como trunfo a força visual do que lemos enquanto somos brindados com os pensamentos das personagens, pensamentos esses que nos ajudam a perceber os motivos, principalmente de Nuno Gonçalves e do Infante D. Henrique, as duas grandes personagens deste livro e que o fazem avançar. E é com estes dois homens, personagens deveras cativantes, que avançamos nesta Lisboa que se viria a tornar no centro do mundo moderno.

O medo e a sede de poder são os grandes catalisadores da acção humana, levando-nos a praticar o impensável, a quebrar as barreiras da sanidade mental... este livro mostra-nos isso. Os jogos de poder estão muito bem encaixados nos factos históricos, e as personagens ganham qualidade com este facto, o que aliado a uma excelente investigação de Soares nos leva a “entrar” no mundo Medieval Português sem grande esforço. Lemos as suas superstições, essa crença que move uns, inspira outros e torna muitos ignorantes. O simbolismo também está presente, e novamente uma excelente investigação do autor, que nos dá uma escrita que não está presa a mitos históricos, a teorias ou a ideias populares que tentam definir personalidades de pessoas há muito mortas. Este não é um livro para nos contar a verdade, é um trabalho de ficção, que não serve para nos empolgar, para nos fazer sorrir ao sentirmos orgulho nos nossos antepassados... serve para pensar e muitas vezes chocar com o detalhe visual do autor. Resultado final: este livro tornou-se viciante e muito graças às duas personagens que antes mencionei. Nuno é uma personagem fascinante!

Biliões de pessoas já viveram e morreram. Caminharam este mundo, respiraram, sofreram, amaram, mas quantas atingiram a imortalidade? O que é realmente tornar-se imortal? Afinal o que vence a morte? Um acto? Uma criação? Pode um pintor imortalizar-se numa obra? Num bocado de madeira, numa tela... por vezes morremos, mas deixamos para trás algo que nem a própria morte consegue destruir.
No fim as últimas páginas são mais do que o terminar de uma história. São o pensar da mesma, dos seus significados, é a rampa para o que virá, com um encontro que eu não esperava... apenas mais um detalhe que nos mostra como David Soares mistura fantasia e realidade de forma magistral.

Olhando para o todo, este livro não tem para mim, a excelente qualidade de Batalha, mas é mesmo assim um bom livro, do melhor que já li do género. Do melhor que se faz no nosso país. Se gostam deste género literário, então este livro é mais do que recomendado! Se não gostarem de descrições fortes, tanto nas acções de algumas personagens como na visão que nos é dada de Lisboa enquanto sociedade, este livro pode não agradar a alguns leitores, mas tal como antes disse, Soares não escreveu este livro para vender, ele escreveu-o para ter qualidade e conseguiu-o! No top dos livros de Língua Portuguesa que li nos últimos anos, David Soares é realmente um dos grandes escritores do fantástico Português!
Deus é uma ideia.  Nada é tão ambíguo quanto uma ideia.

Aproveito ainda para realçar o texto escrito pelo autor nas páginas seguintes ao fim da história. Bastante interessantes, com o objectivo de explicar as motivações e a pesquisa do autor, e convidando-nos a lermos outras obras que tentam descobrir muitos dos factos que se misturam nesta história. Uma adição que ajuda a percebermos melhor onde está a linha que divide ficção e realidade.