terça-feira, 9 de maio de 2017

VENTO DE ESPANHA


Autor: João Pedro Marques




Sinopse: Custódio é um camponês beirão que decide vir para Lisboa estudar. Lurdes, uma lisboeta da Mouraria que sempre conseguiu recompor-se dos duros golpes da vida. Quando o caminho dos dois se cruza, a vida de ambos mudará para sempre. A sua história inicia-se em Portugal e estende-se, depois, a uma Espanha mergulhada na Guerra Civil. É aí que Custódio e Lurdes vão entrelaçar os seus destinos com três outros personagens: o violento Zanelli, o tenente fascista para quem o brado ¡Viva la Muerte! é um lema de vida; a corajosa Maria del Carmen, uma madrilena das classes altas que se guia por princípios de humanidade num tempo em que a moderação desapareceu; e o sagaz Vorobiov, coronel soviético profundamente desiludido com os rumos da revolução bolchevique.



Este é o primeiro livro que leio deste famoso autor e foi com alguma curiosidade que viajei por estas páginas até uma época negra em que o autor explora um momento bastante complicado em Espanha. Com uma base focada na guerra civil de Espanha de um ponto de vista mais social, o autor cria uma interessante história que demora a arrancar mas que consegue cativar com personagens coerentes e que me pareceram bastante realistas. A arte do autor está em criar a estrutura necessária a cada personagens, explorando mentalidades, objetivos e traumas passados que nos ajudam a compreender muitas das decisões que as mesmas irão tomar. 

O ritmo é suave, nunca acelerando demasiado, com a narrativa sempre focada em explorar o que é necessário para que o leitor sinta o peso daqueles momentos. Aos poucos torna-se num livro forte, com grande crítica social e política, e que nem sempre é imparcial, muito graças à visão dos seus personagens. Aliás, esse é um ponto a ter em conta, porque este é um romance histórico e não um livro académico. O autor cria um romance parcial, tendencioso em vários momentos, mas que são a visão dos personagens que seguimos. 

Gostei da forma como o autor avançou na história, com uma narrativa bem montada apesar de as decisões finais de algumas personagens serem algo óbvias. Não é um romance feito para nos surpreender, mas sim para nos marcar com uma visão dura de uma época sangrenta. De um ponto de vista crítico, este é um bom livro, apesar de não conseguir marcar da mesma forma que algumas obras primas que exploraram a guerra espanhola, mas foi sempre uma boa leitura. Se gostam do autor, este será mais um livro que irão gostar e que vale a pena ler se gostarem do género e do tema principal.

Luís Pinto

segunda-feira, 8 de maio de 2017

PODER E VINGANÇA


Autor: Jon Skovron

Título original: Hope and Red




Sinopse: Num império fraturado espalhado por mares selvagens, dois jovens de culturas diferentes encontram um objetivo em comum. Uma rapariga sem nome é a única sobrevivente quando a sua aldeia é massacrada por biomantes, servos místicos do imperador. Após receber o nome da sua aldeia devastada, Esperança Negra é treinada pelo mestre Vinchen como uma guerreira e instrumento de vingança. Nas ruas da cidade de Nova Laven, um rapaz torna-se órfão e é adotado por uma das criminosas mais afamadas do submundo.
Recebe o nome de Ruivo e é treinado como ladrão e vigarista. Quando um acordo é feito entre criminosos e os biomantes para governar as ruelas de Nova Laden, os mundos de Esperança e Ruivo acabam por chocar e eles são forçados a uma aliança inevitável…



Regresso à fantasia para começar uma nova saga. Este é um livro com pontos positivos e negativos, mas, acima de tudo, é um livro que tem muito sumo para os próximos. Mas vamos lá por partes.

Com uma escrita única, o autor mistura uma narrativa rápida com um dialeto muito próprio de um povo, dando peso e coerência a este universo. Claro que por um lado é fácil sentir que estamos deslocados e que tal criação pouco oferece ao enredo, mas também é verdade que a identidade do livro e do universo criado ganha com tal introdução, mesmo tendo em conta que o ritmo de leitura tem de baixar ligeiramente.

Focado em duas personagens, é fácil antever o progresso da história, mas não é isso que fará o leitor abrandar a leitura. No meu caso, foi uma leitura bastante rápida e viciante, mesmo percebendo para onde me levava. O autor consegue explorar bem o seu mundo e algumas personagens e apenas não consegue manipular o leitor como era pedido em alguns momentos para criar maior suspense. Apesar de alguns momentos mais óbvios, a estrutura na narrativa funciona bem, com capítulos a saltarem entre os dois personagens e a serem desvendados segredos nos momentos certos.

A criação dos personagens está bem conseguida, sendo fácil percebermos o que os afasta ou une, levando o leitor a criar algum tipo de ligação com um deles. No entanto, o autor ainda deverá explicar alguns dos motivos para as decisões que algumas personagens tiveram. A ação rápida empurra o leitor e pode sempre ficar algo por questionar, mas no fim o autor surpreende com algumas ideias que poderão tornar bastante melhor os próximos livros.

Acima de tudo esta é uma fantasia num mundo coerente. Está bem criado e pensado e as personagens encaixam bem. Em alguns momentos é óbvio e a sensação é que não traz muito de novo à fantasia, mas também é verdade que nos momentos finais demonstra que o autor sabe para onde vai e ficam boas ideias no ar. Da minha parte, fiquei com bastante vontade de ler os próximos. Não é uma obra prima nem revoluciona, mas a verdade é que poucos o conseguem fazer. Viciante e rápido, para já parece uma boa saga a ler. Fico à espera de ver como serão os próximos.

Luís Pinto

AAMIR - Um pária em Lisboa


Autor: Ricardo Gomes




Sinopse: Aamir veio para Lisboa para tentar sair da pobreza a que parecia irremediavelmente condenado. Os anos passaram entre esquemas e uma indigência banhada a álcool na baixa da cidade. Um acaso mudou-lhe a vida, levando o indiano a acreditar que poderia contrariar os deuses, ousando traçar o seu próprio destino.




Este livro, que não chega a ter cem páginas, é um interessante conto sobre Aamir, um personagem que vive em Lisboa e com o qual será difícil, pelo menos numa fase inicial, simpatizar.

Ricardo Gomes estreia-se neste conto e a sua escrita é inteligente e cuidada, focando-se em pontos essenciais que ajudam a explorar o personagem e também a criar alguma crítica social necessária a criar o ambiente que ajuda a desenvolver a personagem. Posto isto, a história desenvolve-se rapidamente, para o bem e para o mal. O facto de ser um conto tem pontos positivos, principalmente no ritmo, mas falha noutros pontos. É fácil querermos ler mais quando o livro acaba, ficando a sensação que esta personagem poderia ter sido mais explorada.

Gostei do ritmo imposto pelo autor e também de algumas personagens criadas, ficando a sensação que este é um livro que poderia ter dado mais, mas que é o suficiente para percebermos que o autor teve um grande cuidado em alguns pormenores que demonstram investigação. e sentido crítico.

Sendo um livro pequeno, sabe a pouco. É um livro com qualidade mas que demonstra também que o autor tem de evoluir em alguns aspetos, principalmente porque escrever um conto adulto não é fácil. No entanto, fiquei curioso para ler os próximos trabalhos do autor.

Luís Pinto

Passatempo: 1924 O ano que criou Hitler - Vencedor


PASSATEMPO

1924
O ano que criou Hitler

Vencedor!


Chegou ao fim mais um passatempo em parceria com a Editorial Presença, à qual agradeço mais esta oportunidade.

Desta vez oferecemos um exemplar do livro "1924 - O ano que criou Hitler", e terei a análise ao livro ainda este mês.

Obrigado a todos os que participaram e que tornaram esta passatempo um sucesso. Aos que não venceram, desejo-vos melhor sorte para a próxima.



Sinopse: O ano de 1924 marcou a vida de Adolf Hitler e o destino da Humanidade. Detido na sequência do putsch em Munique, um golpe falhado, e rodeado pelos seus coconspiradores, Hitler passa na prisão por um período intenso de leitura e escrita enquanto aguarda um julgamento por traição.
Nesse ano sedimenta as bases do que viria a ser a ideologia do Terceiro Reich, arquiteta a então aparentemente impossível subida ao poder e escreve Mein Kampf, o seu manifesto infame. Tudo o que a História presenciou depois - a violência, a ditadura, a guerra mais mortífera de sempre - encontrava-se cristalizado nesse ano paradigmático.
Até agora, tal período ficou por analisar com a devida profundidade. O jornalista Peter Ross Range fá-lo magistralmente, descrevendo os episódios do ano mais importante para perceber a mente de Hitler numa obra pioneira e de leitura empolgante: 1924 - O Ano que criou Hitler.
 
 
E o vencedor é: 


Ana Micaela Marcedo
 
Parabéns à vencedora!
 
Novos passatempos em breve! 


sexta-feira, 5 de maio de 2017

ESCRITO NA ÁGUA


Autor: Paula Hawkins

Título original: Into the water




Sinopse: Nel vivia obcecada com as mortes no rio.
O rio que atravessava aquela vila já levara a vida a demasiadas mulheres ao longo dos tempos, incluindo, recentemente, a melhor amiga da sua filha. Desde então, Nel vivia ainda mais determinada a encontrar respostas. 
Agora, é ela que aparece morta.
Sem vestígios de crime, tudo aponta para que Nel se tenha suicidado no rio. Mas poucos dias antes da sua morte, ela deixara uma mensagem à irmã, Jules, num tom de voz urgente e assustado. Estaria Nel a temer pela sua vida?
Que segredos escondem aquelas águas?
Para descobrir a verdade, Jules ver-se-á forçada a enfrentar recordações e medos terríveis há muito submersos naquele rio de águas calmas, que a morte da irmã vem trazer à superfície.



Paula Hawkins é a autora do estrondoso sucesso que foi A rapariga no Comboio. Posto isto, a questão é saber se consegue vencer a expectativa. De forma objetiva, A rapariga no comboio não é uma obra prima, é um livro com falhas e onde são cometidos erros normais para um autor que está no "início". Todavia, a forma como escreve, a intensidade que cria e como explora as personagens, levou ao sucesso, também muito graças a uma fórmula vencedora que nos agarra e que foi bem usada.

Agora, com Escrito na Água, a autora desvia-se ligeiramente da fórmula base, mas mantém o seu estilo narrativo, levando, novamente, a que o leitor agarre a história e só pare no fim do livro. Uma vez mais o grande trunfo está nas personagens, na forma como a autora explora mentes algo desequilibradas ou com alguma obsessão ou trauma. É dessa obsessão que a intensidade bebe a sua força em cada página, permitindo ao leitor sentir a angustia em certos momentos.

Com um ritmo forte e várias personagens que tornam a história viciante, Hawkins leva-nos por um enredo que começa com uma base interessante. A autora dá os detalhes certos nos momentos certos no início do livro, mas, tal como no livro anterior, comete alguns erros que me levaram a antever o final. O facto de tal acontecer não retira de imediato qualidade ao livro, mas ainda há certos pontos nos quais a autora poderá melhorar.

No entanto, e mesmo tendo percebido o desfecho, nunca deixei de ler a toda a velocidade. Este é, tal como a mente de algumas personagens, compulsivo. Outro aspeto positivo é a forma como a consegue criar um interessante equilíbrio entre o ritmo elevado e as descrições necessárias para nos deixarem baralhados. A forma como os personagens observam e sentem o mundo é aqui aprofundado com inteligência e o leitor fica preso numa espiral que nos faz ler até ao fim.

Uma vez mais Paula Hawkins faz um livro que irá vender. Os leitores irão ler sem parar e irão recomendar o livro. Poderá, provavelmente, não ter o impacto do livro anterior, mas em vários aspetos tem mais qualidade do que A rapariga no comboio, sendo mais inteligente, mais coerente coeso. Existe uma clara evolução da autora na forma como transmite as suas ideias e como explora a mente humana. O resultado é óbvio: este é o seu melhor livro apesar de alguns momentos óbvios para um leitor mais atento. Uma coisa é certa, se gostaram do A rapariga no comboio, então este é um livro a ter este verão e que se lê à velocidade da luz.

Luís Pinto