sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O SEGREDO DOS TUDOR


Autor: C.W.Gortner

Título original: The Tudor secret



Sinopse: No verão de 1553, Brendan Prescott é chamado à corte inglesa dos Tudor para se tornar escudeiro de Robert Dudley. Na mesma noite em que chega à corte, Lorde Robert encarrega-o de entregar secretamente um anel à princesa Isabel.
Frente a frente com a emblemática princesa, e depois de ela se recusar a aceitar a joia, o jovem escudeiro percebe que se encontra no meio de uma trama de conspirações e mentiras. Os Dudley planeiam uma traição mortal contra o rei Eduardo VI e as suas duas irmãs Maria e Isabel com um único fim: chegar ao trono.
Destemido e convicto de que o que vai fazer é o melhor para Inglaterra, Brendan Prescott alia-se a Isabel e aos seus protetores. Torna-se assim um agente duplo em defesa da coroa, contra a ambição desmedida dos Dudley.
Num enredo misterioso envolto em intrigas, perseguições, assassínios e corrupção, Prescott acaba por descobrir também as suas verdadeiras origens e a sua própria história. Uma história que esconde um segredo muito mais perigoso e mortal do que ele alguma vez poderia imaginar.



A Corte dos Tudors é, certamente, dos temas mais escritos dentro do género "Romance histórico". Época que mudaria a componente política e social da Europa, é famosa pelas intrigas, vinganças, loucuras de amor e traições. É nessa base que assenta o enredo deste livro que é, essencialmente, um livro com um bom rigor histórico.

O que devo destacar no início da leitura é a escrita simples de Gortner que, apesar de formal, encaixando nos padrões da época, é capaz de nos convidar a entrar no enredo com grande facilidade. Todavia, o enredo não me agarrou de imediato, pois tudo parecia demasiado simples, forçado em alguns pormenores que estavam a fazer a diferença. Esta sensação passou quando o autor começa a explorar a intriga, começando a oferecer detalhes, mas as perguntas, derivadas de alguns acontecimentos que pareciam forçados, permaneceram durante muito tempo, levando a que a leitura fosse rápida, mas também "desconfiada" porque sentia que o autor me estava a esconder algo.

E aos poucos tudo começou a fazer sentido. A intriga começa a revelar-se mas, mais importante, o autor consegue criar uma sábia mistura entre ficção e factos que nos levam a ler sem sentirmos que o enredo não encaixa. Este é o ponto alto do livro: o rigor histórico do autor que nos empurra para dentro do enredo sem nos cansar. A isso junta-se um bom conjunto de personagens, grande, por vezes complexo, com algumas personagens que não marcam o livro, mas com outras que o definem, principalmente Isabel.

E é suportado por estas personagens que o enredo começa a ganhar peso, sendo cada vez mais abrangente em relação aos principais temas da sociedade. É verdade que dentro dos temas "política", "religião" ou "tradições sociais", alguns factos são mais explorados do que outros, mas também é verdade que este livro tem continuação, e por isso nem tudo terá de ser demonstrado no primeiro livro. 

No fim a sensação é que tudo encaixou e pormenores que no início não faziam sentido, ou que não tinham sido revelados, no fim conseguem encaixar. É verdade que algumas respostas ficam para o próximo livro e alguns temas estão em aberto, mas no global este é um livro que se aguenta sozinho. O que Gortner tentou criar neste livro foi uma leitura que tem rigor histórico sem perder o ritmo necessário para não ser difícil de ler e o resultado é um romance histórico que não é exaustivo, que poderá não agradar aos leitores que gostem de leituras muito pesadas em termos de detalhes históricos, mas compensa isso com um bom ritmo e no fim ganhamos um livro equilibrado com bom rigor histórico e sem momentos exaustivos. Se gostam do género, este livro pode ser uma boa escolha, porque apesar de não ser do melhor do género, está bem estruturado e pensado ao ponto de não nos largar. Fico à espera para ver como serão os próximos!

Luís Pinto

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Notícia: Porto Editora lança "A Primeira Guerra Mundial" de John Keegan


Porto Editora lança livro de John Keegan sobre a Primeira Guerra Mundial.

A guerra que começou há 100 anos descrita por um dos maiores historiadores militares no nosso tempo. Um acontecimento com a relevância da Primeira Guerra Mundial requer ser retratado por um historiador distinguido e, em A Primeira Guerra Mundial, que a Porto Editora publica a 10 de outubro, Sir John Keegan leva a cabo a missão de escrever para a atual geração sobre a grande guerra que influenciaria todo o século XX. Para além da descrição das batalhas em terra, no ar e no mar, Keegan revela o contexto em que estas acontecem e interpreta de forma fascinante os contornos das estratégias militares. Ao longo de dez capítulos, acompanhados por mapas e fotografias da época, este documento fundamental e de mérito internacionalmente reconhecido permite compreender as vicissitudes dos quatro anos de guerra que mudaram o mundo. A presente edição é enriquecida com um textode Maria Fernanda Rollo e Ana Paula Dias, historiadoras e tradutoras deste livro, em que se analisam a participação portuguesa na guerra e as suas consequências para o futuro de Portugal.

SINOPSE

Há precisamente 100 anos, em 1914, eclodia a Primeira Guerra Mundial. Com ela nascia o mundo moderno e, sem perceber os seus contornos, não se pode ter uma ideia da história do século xx – das origens do nazismo à emergência da Rússia Soviética, do desmembramento da Europa Central ao crescente poderio do movimento operário, dos conflitos no Médio Oriente à consolidação dos Estados Unidos como potência mundial. John Keegan, antigo docente da Academia Militar de Sandhurst e especialista em assuntos de Defesa do The Daily Telegraph, dá-nos neste livro um panorama completo e claro desses quatros anos que transformaram a história do nosso mundo.


IMPRENSA

A melhor e mais acessível introdução à Grande Guerra que até hoje se escreveu.
The Guardian

Escrita elegante, clara, detalhada e omnisciente.
The New York Times

Ninguém descreve as batalhas como Keegan, relatando vivamente os acontecimentos no contexto do campo de combate. Este livro é uma espécie de memorial de guerra. 
Sunday Times

Excelente.
Mail on Sunday

MENTIRAS NO DIVÃ


Autor: Irvin D. Yalom

Título original: Lying on the couch



Sinopse: Depois do sucesso dos best-sellers internacionais Quando Nietzsche Chorou e A Cura de Schopenhauer, Irvim D. Yalom regressa com uma história ambiciosa sobre as virtudes e os princípios da terapia. Neste provocador romance de ideias, Yalom disseca a complexidade das emoções humanas através do relacionamento de três terapeutas e dos seus pacientes. Num romance tocante e angustiante, Yalom estuda as delicadas fronteiras entre terapeuta e inquisidor, confidente e amante.Seymour, um terapeuta de renome e ex-presidente da Associação Psiquiátrica Americana, é adepto de técnicas pouco ortodoxas e inicia um jogo erótico com uma paciente quarenta anos mais nova. Este tratamento alternativo parece tirá-la de uma rotina de promiscuidade e autoflagelação. Lash é um jovem psicanalista com uma fé inabalável na psicanálise e esconde o seu fanatismo sob a máscara da responsabilidade. Na busca do seu caminho, inventa uma radical abordagem para as suas sessões: honestidade brutal entre analista e analisado. Os resultados são tão inesperados como perigosos. E vê-se na situação de ser vitima da sua própria cura. Explorando os jogos de poder, Mentiras no Divã é uma história intensa, eloquente e bem-humorada, em que os dilemas da lealdade se apresentam com clareza e vigor. Um livro brilhante, inteligente e apaixonante. 


Irvin Yalom é um dos escritores mais constantes que já li. Todos os seus livros, sem exceção, são de uma qualidade muito acima da média e mesmo não sendo este um dos seus melhores livros, é mais uma grande leitura. 

Olhando de forma geral para este livro, não ficamos perante um romance dentro do que estamos habituados, mas sim perante uma leitura que, tendo uma história (que é o catalisador e que apresenta muitos diálogos interessantes), tem como objetivo ser didático. Trata-se de um livro para ensinar, que nos faz pensar, e que quase relega para segundo plano o enredo, porque o essencial é o que iremos aprender e o que iremos questionar. O enredo foca-se em duas histórias paralelas, sobre dois casos onde existem três ideias bases: a primeira é que o psicólogo também é um ser humano, a segunda é que nada garante ao psicólogo que esteja a ouvir a verdade do seu paciente, e a terceira prende-se com a questão, que tanto psicólogo como o leitor terão, que é a dúvida se a forma como o psicólogo decide conduzir o tratamento é, ou não, o mais indicado e produtivo.

Olhando primeiro para o facto de o psicólogo, ser, inevitavelmente, um ser humano com os seus próprios problemas pessoais, é preciso louvar a facilidade com o que Yalom expõe as suas personagens. Todas elas com problemas, com segredos, com mentiras e vergonhas, capazes de rivalizar com os problemas dos seus próprios pacientes, tornando este enredo em algo incrivelmente realista. 

Por outro lado temos os pacientes, que de forma consciente, ou não, mentem. Este será, provavelmente (isto vendo de um ponto de vista de quem não percebe nada do assunto, eu), um dos problemas da própria terapia: se um paciente não for sincero, como poderá o psicólogo ter, na fase inicial, a melhor abordagem? E num mundo de mentiras, poderá o psicólogo alcançar, em algum momento, a totalidade do problema do seu paciente? Esta é, inevitavelmente, uma relação de confiança e sinceridade, sem aproveitamentos, sem segundas intenções... Yalom explora aqui essas necessidades e as falhas que podem acontecer nestas relação entre psicólogo e paciente.

Com personagens muito bem construídas, Yalom apresenta o seu estrondoso conhecimento sobre o tema, levando-nos a perceber conceitos com facilidade numa linguagem que por vezes foge da normalmente encontrada num romance, para se tornar numa escrita que é simples, mas também académica em alguns momentos. E aos poucos, sem que tivéssemos conscientes no início, o enredo transforma-se num thriller psicológico sob o olhar do psicólogo para com o paciente, aumentando o ritmo da narrativa, colando-nos às páginas até ao surpreendente final em que o último parágrafo ficará na nossa memória durante algum tempo.

Apesar de não ser, tal como já disse antes, o melhor livro de Yalom (para mim é difícil bater A Cura de Schopenhauer), este é mais um grande livro do autor. Não é para todos os leitores, é preciso gostar do tema, mas aqui Yalom tem um enredo mais abrangente, porque existe uma mistura em que o thriller psicológico ganha peso. Falar mais sobre este enredo, com excelentes diálogos, é retirar à leitura momentos que o leitor deve ter e descobrir, sempre tendo como base que nada impede doutor ou paciente de mentir. Faz parte da natureza humana, e sempre fará, em qualquer momento.

Como sempre, uma leitura muito agradável e muito inteligente.

Luís Pinto


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

MAZE RUNNER - Correr ou morrer


Autor: James Dashner

Título original: The Maze Runner



Finalmente começo a ler a trilogia de que se fala atualmente. Maze Runner é, de forma muito resumida, a história de um grupo de jovens presos numa clareira, rodeada por um labirinto. Não sabem nada do seu passado, nem porque estão naquele local. 

Se tivesse de resumir este livro numa única palavra, seria "Viciante". Maze Runner é impossível de parar de ler se gostarmos do género. Mas vamos por partes...

O autor usa uma estratégia muito comum e que se enquadra perfeitamente nesta base, e a partir daí agarra o leitor. Começamos com um rapaz, com o qual simpatizamos, e logo nas primeiras páginas vemos que não teremos o conhecimento do que está à volta desse rapaz. Que lugar é aquele? Quem o colocou ali? Qual o objetivo? Faz parte de nós, enquanto raça humana, querer conhecer o que nos rodeia, e ao entrarmos num mundo onde as dúvidas aparecem a cada linha, quer seja uma dúvida apresentada pela personagem, ou criada por nós, a verdade é que não vamos parar de ler até termos as respostas. De uma forma simples, Dashner "pega" num género que "está na moda" e junta-lhe os mistérios que nos faz lembrar a série "Lost" que desde o primeiro episódio agarrou à televisão milhões de pessoas. É tudo uma questão de, inteligentemente, criar perguntas, e não dar respostas. O segredo está em, no fim, tudo fazer sentido, e é neste aspeto que muitos falham.

A seguir entra a construção e apresentação das personagens, que passam também por uma estratégia já usada: temos o que imediatamente enfrenta e tenta controlar o personagem principal, e também o rapaz simpático e verdadeiro amigo que é rejeitado por muitos mas que o nosso personagem irá compreender. Tudo isto parece um cliché, mas que aqui funciona e bem. O resultado é, inevitavelmente, um "desenrolar" de enredo em que nos aproximamos de personagens, lemos cada vez mais depressa e vamos criado as nossas questões, sabendo que provavelmente não teremos respostas.

O grande mérito do livro é o seu ritmo, pois Dashner consegue criar um ambiente de tensão que não nos deixa parar. Este é o segredo destes livros: não nos dar tempo para parar e questionar, e assim a base do universo do enredo não cai. Dashner consegue-o de forma quase perfeita para que a falta de respostas do primeiro livro não se sinta, e imediatamente passamos para o próximo livro, sôfregos de respostas.

Para mim, esta foi uma leitura compulsiva. Maze Runner não é uma obra prima, nem o tenta ser, pois para tal teria de construir um universo muito mais complexo, com muito mais detalhe e o ritmo iria perder-se. Este é um livro adolescente que nos agarra pela noite dentro e esse é um dos prazeres da leitura, o de não querermos regressar ao mundo real. Claro que Maze Runner tem falhas, porque não dá respostas e porque não explora certos temas. Se nos próximos livros o autor nos brindar com algumas respostas, a saga pode elevar-se a outro nível, principalmente se sentirmos que toda a trilogia foi estruturada e pensada desde o início, levando a que todos os detalhes batam certo. Provavelmente tal não acontecerá e um leitor mais experiente irá colocar dúvidas que o autor não irá responder, mas esse é o preço a pagar para termos outros prazeres.

No entanto, de todas as distopias adolescentes que li nos últimos tempos (e foram algumas, pois o mercado está inundado pelo género), esta é a que tem o melhor início dentro do que se compromete a ser: viciante, rápido, capaz de nos dar a sensação de urgência que os personagens também têm. Por tudo isto, este é um início recomendado aos leitores que apreciem este género, e provavelmente, tal como eu, quererão ir até ao fim da trilogia e desvendar todos os segredos do labirinto, e não só... Venha rapidamente o próximo!

Luís Pinto

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

OS CRIMES DO MONOGRAMA


Autor: Sophie Hannah

Título original: Monogram murders



Sinopse: Sentado no seu café preferido, Hercule Poirot prepara-se para mais um jantar de quinta-feira quando é surpreendido por uma jovem mulher. Ela chama-se Jennie e diz estar prestes a ser assassinada. Mais insólita do que esta afirmação é a sua súplica para que Poirot não investigue o crime. A sua morte é merecida, afirma Jennie, antes de desaparecer noite dentro, deixando o detective perplexo e ansioso por mais informação. Perto dali, o elegante Hotel Bloxham é palco de três assassinatos. Os crimes têm várias semelhanças entre si: os três corpos estão dispostos em linha reta com os braços junto ao corpo e as palmas das mãos viradas para baixo. E dentro das bocas das vítimas, encontra-se o mais macabro dos pormenores: um botão de punho com o monograma PIJ. Poirot junta-se ao seu amigo Catchpool, detetive da Scotland Yard, na investigação deste estranho caso. Serão os crimes do monograma obra do mesmo assassino? E poderão de alguma forma estar relacionados com a fugidia Jennie que, por uma razão indecifrável, não abandona os pensamentos do detetive belga?



Criar o regresso de Poirot aos livros é, ao mesmo tempo, um motivo de grande excitação mas também de apreensão, pois nunca será fácil, para nenhum autor, conseguir captar a essência e a genialidade de Agatha Christie, falecida em 1976. Mas, quase 40 anos após a morte da sua criadora, Poirot regressa para desvendar mais um caso.

Este é, inevitavelmente, um caso de sucesso imediato mas também que poderá estar condenado ao fracasso, pois os leitores de Poirot, agora mais velhos e maduros, terão graus de exigência muito elevados, ou não estivéssemos a falar de Poirot. Posto isto, será este um livro morto à partida pelas expectativas?

O que mais me agradou no livro foi o seu ritmo, mais elevado do que esperava, e que começa bastante cedo a agarrar o leitor. O caso que nos é apresentado é de tal forma estranho (podem ver pela sinopse) que se torna impossível parar de ler. O resultado é uma leitura que se torna compulsiva até chegarmos ao final com todas as suas revelações. Com uma escrita elegante e objetiva, muito da essência de Christie está aqui presente, principalmente na forma como Poirot está desenvolvido neste livro. Este é, provavelmente, o elemento de maior discórdia, pois uns dirão que o trabalho de Sophie Hannah está fantástico ao "agarrar" o famoso detective, outros dirão que falta o toque de Agatha. Do meu ponto de vista, e tendo em conta que não sou um perito em Poirot mas apenas um leitor que leu alguns livros, parece que o trabalho está muito bem feito. É claro que nunca será igual, nem poderia ser, mas existe a clara noção que este livro foi alvo de um trabalho exaustivo e muito bem pensado.

Poirot está fantástico neste livro e é o que nos agarra, com as suas ideias e interações com outros personagens, principalmente com o narrador, que estão muito bem conseguidas. Pelo meio, a autora explora alguns temas mais sensíveis, mas de forma muito ténue, pois o essencial é o jogo de lógica que nós, a par de Poirot, iremos fazer para chegar às conclusões sobre o caso. Não existindo um momento que nos tente enganar de forma explícita, somos levados num enredo com várias pontas soltas mas que nos dá matéria para avançarmos na nossa própria investigação. 

No final da leitura a única coisa que nos pode levar a não aplaudir o livro é o facto de não apreciarmos a ideia de Poirot voltar sem Christie, ou devido as expectativas demasiado altas. Este é um regresso muito interessante, e apesar de não ser genial como alguns livros do famoso detetive, é bastante bom e um dos melhores policiais que já li este ano. Não é Agatha Christie, não, não é, tal como o filho de Tolkien nunca será Tolkien. Mas é uma leitura muito boa e apenas as expectativas o poderão atingir. Da minha parte, vou ficar atento aos próximos livros!

Luís Pinto