segunda-feira, 8 de abril de 2013

MENINA DE OURO


Autor: Chris Cleave

Título original: Gold



Este é um livro sobre as batalhas de Zoe e Kate, batalhas essas que poderão ser sociais, profissionais, mentais... rivais desde a adolescência, Kate e Zoe são ciclistas (sprinters) e olham para os Jogos Olímpicos de Londres como a grande hipótese de terminarem a carreira com um glorioso triunfo.

Tal como seria de esperar, o autor cria duas personagens principais que são opostas na grande maioria das características que definem uma personagem, e junta ainda duas história que apesar de convergirem na profissão, se tornam opostas tanto nos resultados, como na vida social. Uma é descontraída, outra é obcecada; uma é trabalhadora, a outra talentosa; uma fará tudo para vencer, a outra percebe que há batalhas mais importantes para se ganharem na vida.

E nestas lutas diárias ficamos a conhecer Sophie, a filha que leva a sua mãe a desistir dos dois anteriores Jogos Olímpicos, e agora Londres é a última hipótese. Sophie é a grande personagem deste livro e a que ficará na memória dos leitores. Criança, sensível, capaz de questionar mas também de compreender e responder com a ingenuidade e sinceridade que as crianças costumam ter, é ela quem vê quais os verdadeiros valores da vida, aqueles valores que alguns adultos esquecem quando condicionados pela sociedade.

Menina de ouro é um livro de ambições, obsessões, decisões impossíveis e o resultado das mesmas. Cleave tem uma escrita forte, que nos dá e nos tira algo a cada página, levando-nos a questionar, mas também a sentirmos o que as personagens sentem, e por isso digo que este livro vos deixará com um nó na garganta num ou noutro momento. As personagens são bem conseguidas, principalmente Sophie, e se por vezes senti que não existiu grande evolução numa ou noutra personagem, Sophie consegue apagar essa falha com uma qualidade que me fez sentir esta criança como se fosse verdadeira.

No enredo Cleave mostra um pouco sobre os treinos da modalidade mas é na psicologia que este livro nos expõe a vida de um atleta de alta competição. Existem sacrifícios, existem momentos em que não podemos fazer o que queremos, e no fim, apenas uma hipótese para triunfar, e ser segundo não chega. E quando acabar, terá compensado? O esforço, as privações, tudo posto de lado por um sonho partilhado por todos os atletas, mas só um leva a medalha. Quanto vale afinal aquela medalha? O que é mais importante do que a glória olímpica?

Existem vários aspetos positivos neste livro, mas o que gostei mais foi a forma como o autor expõe as dificuldades de um atleta de alta competição que pratica uma modalidade muito dependente dos Jogos Olímpicos para se alcançar a glória. Estamos a falar de dez ou vinte anos de trabalho, para depois se jogar tudo num único dia a cada quatro anos. E pelo meio, os atletas também vivem, também têm problemas, e tudo isso ajuda ao resultado final.

O final foi talvez o que gostei menos, mas acredito que muitos leitores gostarão. A crítica internacional considerou-o "obrigatório". Eu não irei tão longe mas digo o seguinte: se gostarem de um livro bem escrito, com momentos de grande emoção, muitos segredos revelados e uma história virada para os sacrifícios do desperto, este livro é uma excelente opção. Chris Cleave é um autor a ter debaixo de olho, e irei ler os seus outros livros.

Luís Pinto

sábado, 6 de abril de 2013

GOD OF WAR


Autor: Matthew Stover & Robert E. Vardeman



Foi com bastante curiosidade que comecei esta leitura, em primeiro lugar porque adoro os jogos, e em segundo porque o único livro que li de um destes dois autores, foi o Revenge of the Sith, escrito por Stover, e que é um excelente trabalho de adaptação de filme para livro.

No geral, podemos dividir quem leia este livro em dois grupos: os que jogaram o jogo, e os que não jogaram. Comecemos por ver o que pode este livro oferecer a uma pessoa que tenha jogador God of War.

Para quem tenha jogado, rapidamente nos apercebemos que este livro terá duas narrativas: a primeira mostra-nos a demanda de Kratos, e aqui as diferenças com o jogo são mínimas. Obviamente o livro retira muita das várias horas de ação que o jogo tem, focando-se nas lutas principais, prescinde de alguns enigmas, mas enquanto história, pouco ou nada se altera, sendo que a diferença estará no aprofundar da personagem. Na outra narrativa teremos os esquemas criados pela Deusa Athena, onde poderemos ver como a Deusa influencia outros Deuses a ajudarem Kratos ou a atrasar os avanços de Ares. E esta é a grande diferença, pois são várias as explicações a que temos direito (desde o acordo entre Kratos e os Deuses, passando pela identidade do coveiro). Para além disso, os autores completam a história com vários pormenores sobre a mitologia grega que o jogo não nos dá.

Para quem não tenha jogado God of War, este livro será uma experiência de momentos altos e baixos. O maior problema que um leitor poderá encontrar prende-se com o facto de o livro necessitar de várias páginas de ação para nos demonstrar a personalidade de Kratos e como a sua sede de vingança o destrói mentalmente. No entanto estas páginas são necessárias para nos mostrar o que também o jogo demonstra: a mentalidade e objetivos de Kratos, quebrando todos os limites, e que é o motor do enredo.
No lado positivo temos a história e a mitologia. God of War é a vingança de Kratos e o seu passado é deveras importante. A história está bem montada, muito parecida à do jogo, e os detalhes são dados no momento certo. O ritmo é alto na grande maioria do livro e os diálogos ajudam a perceber toda a história, sendo simples e diretos. A história tem grande momentos, algumas revelações e prepara-nos muito bem para o próximo livro, que irá em muitos aspetos, completar este enredo.

Qualquer fã dos jogos deverá gostar deste livro. Claro que haverá sempre exceções, mas a grande maioria dos jogadores que viveram com Kratos a sua vingança durante os vários jogos da série, irão apreciar a forma como a personalidade de Kratos está aqui vincada. No entanto, é agradável ver que quem não tenha jogado, não se sentirá deslocado e o livro dá-nos tudo o que é necessário para percebermos o enredo, pois esclarece muito mais do que o jogo.

No geral, God of War é um livro com grandes momentos, grandes cenários, um bom ritmo e uma história muito bem conseguida dentro da mitologia grega. Não é uma obra prima nem os autores arriscaram muito na adaptação, mas é um livro muito agradável, com um final fantástico e uma personagem principal difícil de esquecer. Venha o próximo (que tornará este livro ainda melhor) para se continuar com a história de Kratos!

quinta-feira, 4 de abril de 2013

O TEMPO DOS MILAGRES


Autor: Karen Thompson Walker

Título original: The Age of Miracles



A base deste livro é excelente e original: o planeta Terra está a abrandar, a sua rotação é cada vez mais lenta e os dias e noites são cada vez maiores. 
Com uma base destas, o livro poderia incidir sobre todas as alterações que tudo iria sentir (e quando digo tudo, é realmente tudo o que nos rodeia), ou então centrar-se em alguma personagem e contar apenas a sua história. Este livro fica-se no meio termo, explorando algumas das alterações mais importantes, mas também centrando-se na vida de uma rapariga, Julia, uma adolescente que terá de se adaptar a uma nova realidade enquanto se adapta à própria adolescência.

Com um ritmo sempre elevado e uma escrita que, apesar de simples, tem beleza e conteúdo, a autora leva-nos a descobrir um planeta mudado, onde as alterações da rotação da Terra acabam por influenciar marés, migrações, agricultura, etc...

E aqui aproveito para dizer o seguinte: criar uma história com esta alteração é um desafio enorme, e por mais detalhes que a autora possa dar em relação a alterações no planeta, a verdade é que saberá sempre a pouco e muito poderá ser questionável em termos físicos. Este, no meu entender, poderá ser um erro cometido por um leitor que leve demasiado a sério uma história de ficção. A autora explora bastante o tema, e eu gostava que o explorasse mais, mas isso acabaria por cortar um ritmo elevado e que ajuda a manter o livro interessante, e por isso, não critico que o livro também se centre nesta personagem, Julia.

Em relação a personagens, não há muito a dizer, Julia está bem conseguida e ajuda a história a avançar enquanto ela própria evolui. Trata-se de uma personagem que gostamos com facilidade, tirando um ou outro momento (momentos próprios da adolescência), no geral Julia consegue cativar o leitor com as suas inseguranças e necessidade de descoberta, mas é principalmente o ritmo e a escrita da autora que me prenderam ao livro. A forma como está montado agarra-nos, pois vai revelando aos poucos enquanto vemos uma evolução da sociedade, tanto religiosamente como culturalmente, passando por costumes e rotinas diárias.

Uma das grandes surpresas deste livro está no facto de o enredo ser coerente. Não existem momentos que sejam forçados, e aos poucos percebemos que não estamos perante uma história que nos surpreenda, mas também nunca força um momento para tentar criar uma reação no leitor, e isso foi muito agradável. Aos poucos o livro torna-se mais profundo, mais filosóficos em alguns momentos e começamos a preparar-mo-nos para momentos comoventes, e aos poucos vemos como esta obra nos mostra que alguns problemas que nos inquietam diariamente, são, na realidade, facilmente ultrapassáveis... o problema é que muitas vezes, apenas reparamos nessa facilidade quando ficamos perante um problema maior.

Não querendo revelar mais da história, é importante voltar a dizer que estamos perante um livro de elevado ritmo, muito bem escrito, que agarra o leitor e o comove em certos momentos. Por vezes foi previsível, por vezes não explorou um tema que eu gostava de ver explorado... no global, este livro não é uma obra prima nem redefine o seu género, mas é uma obra com muita qualidade, que nem todos os leitores gostarão, porque muito do que este livro tem para oferecer, cabe ao leitor descobrir. Vale a pena dar uma vista de olhos. 

Luis Pinto

terça-feira, 2 de abril de 2013

Passatempo: Um refúgio para a vida - Vencedor!


PASSATEMPO

Um refúgio para a vida

Vencedor!


Em parceria com a Editorial Presença, chegámos ao fim de mais um passatempo, e desta vez iremos oferecer um exemplar do livro Um refúgio para a vida, que em Portugal já vai na sua 8ª edição e que inspirou o filme que estreou nos cinemas portugueses no dia 28 de março.




Agradeço a todos os que participaram e tornaram este passatempo num sucesso!

E o vencedor é:

Angelina Santos Violante

Parabéns à vencedora!


Katie, uma jovem reservada e bonita, vai viver para a cidade de Southport, na Carolina do Norte, onde todos se interrogam sobre o seu passado. Que mistérios esconderá aquela mulher que parece determinada a encobrir os seus encantos e evitar novos laços afetivos? No entanto, apesar de todas as suas reservas, Katie começa a criar raízes naquela pequena comunidade, à medida que uma nova amizade e um novo amor lhe vão fazendo baixar as defesas. Nicholas Sparks traz-nos uma protagonista fragilizada e que tem de aprender a lidar com os seus mais fundos receios se quiser voltar a amar.



Mais passatempos em breve!

segunda-feira, 1 de abril de 2013

DRAGÕES DE UM CREPÚSCULO DE OUTONO


Autor: Margaret Weis & Tracy Hickman

Título original: Dragons of Autumn Twilight



Este é o primeiro livro da trilogia DragonLance que ganhou um grande número de adeptos nas últimas décadas, e rapidamente encontrei o porquê, ou pelo menos aquilo que me parece ser o melhor do livro: o seu ritmo. Mas já lá vamos. Em primeiro lugar, rapidamente percebemos que a base deste mundo é uma mistura de vários livros, entre os quais, O Senhor dos Anéis. A verdade é esta: este livro traz muitos dos clichés da fantasia que ficou famosa com Tolkien, mas a questão é: quantos livros não usaram a mesma base?

Sinceramente, prefiro encontrar bases parecidas do que histórias parecidas, e esta saga DragonLance dá-nos um mundo de fantasia com as bases que já estamos habituados, mas depois cria a sua própria identidade nas personagens e no enredo. No início, o ritmo elevado parece quase matar o livro, pois tudo é apresentado rapidamente, incluindo as personagens, mas depois vemos como os autores preferem dar a informação aos poucos em vez de tudo de uma vez. E com este ritmo fiquei completamente agarrado ao livro até à última página.

A história em si nunca deslumbra quem já estiver habituado à fantasia e a muitas das reviravoltas que costumam ser feitas, contudo, algumas personagens são realmente interessantes. Tanis e Tas são personagens que facilmente gostamos e a cada página, os elementos do grupo vão-se definindo. E, quase sem darmos por isso, esta história, que basicamente é uma luta pela sobrevivência enquanto se procuram respostas, acaba por ganhar força nas ligações entre personagens, e o livro ganha muito com isso.

Para além disso, a forma como a história está montada, tanto em acontecimentos, como em diálogos, leva-nos a criar muitas perguntas que não terão resposta neste primeiro livro, e são essas questões que nos fazem ler ainda mais depressa. O exemplo mais óbvio é o mago Raistlin, que apresenta uma fragilidade física enorme (cliché da fantasia), mas não cai no erro de ser uma personagem demasiado sábia e compreensiva como estamos habituados com a fantasia mais famosa (Gandalf e Dumbledore, por exemplo). As suas falas são enigmáticas e as suas intenções impossíveis de prever, e ao juntarmos a isso as dúvidas que ficam sobre o seu passado, torna-se impossível parar de ler até sabermos tudo sobre ele. Para além disso, Raistlin é ainda a personagem melhor conseguida se tivermos por base o que torna uma personagem bem construída. 

- Não vês nenhuma esperança? - perguntou Tanis.
- Ter esperança é negar a realidade. É a cenoura pendurada diante do burro para o manter a andar na tentativa vã de a alcançar.
- Estás a dizer que deveríamos simplesmente desistir?
- Estou a dizer que deveríamos remover a cenoura e caminhar para a frente com os olhos bem abertos. - respondeu Raistlin.

Rapidamente percebemos que esta saga DragonLance tem uma identidade muito vincada (se é que podemos dizer isto sobre um livro). O Senhor dos Anéis tem o seu mundo, O Mago tem as suas personagens, A Guerra dos Tronos tem a sua complexidade política, social e humana... DragonLance tem o seu ritmo. A história agarra um leitor com facilidade e as descobertas aguçam o apetite, no entanto, devo dizer que é a segunda metade do livro que aumenta a vontade de ler o próximo, pois fica muito por explorar e esclarecer, e também falta saber muito sobre os "maus da fita" que aparecem nos últimos capítulos, entre os quais, dragões!

Existem muitos fatores sobre os quais gostaria de falar, não só sobre em termos de fantasia mas também de personagens e suas decisões, mas, ao explorar certos temas, poderia retirar algum do entusiasmo que os leitores poderão ter ao lerem o livro, e por isso, irei explorá-los apenas nos próximos livros. Mas, devo salientar que se pudesse, retirava os nomes dos capítulos, que ao revelarem um pouco o que irá acontecer, fez com que os deixasse de os ler.

Resumindo, DragonLance não é original na sua base (para quem já tenha lido muita fantasia), mas é muito viciante. A escrita é simples, não existe dificuldade em percebermos tudo o que o livro nos dá, o seu ritmo é elevado e não se perde em descrições que pouco possam dar ao desenvolvimento do enredo. As personagens cativam, apresentam momentos cómicos, e no fim fica a sensação que não lemos uma pérola da fantasia mas gostamos da história e fica o interesse de saber que segredos estão por desvendar. Gostei bastante!

Não costumo recomendar uma saga logo no primeiro livro, e agora também não o farei, mas neste caso posso dizer o seguinte: este primeiro livro será uma boa escolha para quem goste de fantasia e não tenha problemas com alguns clichés, e também é um bom livro para quem queria começar a ler este género. Venha o próximo, porque agora fiquei com muita vontade de ler o resto e saber mais sobre algumas personagens!

Luis Pinto