Título original: Die Nacht von Lissabon
"O que possuiremos nós realmente nesta vida? Porque será que nos desassossegamos tanto por causa daquilo que, quando muito, nos é meramente emprestado por algum tempo; e qual a razão de tanta conversa sobre graus de posse, quando o carácter ilusório da palavra “possuir” significa meramente abraçar o nada?"
Remarque, autor do famoso "A Oeste nada de novo", leva-nos à Segunda Guerra Mundial, o mais marcante confronto da humanidade, sinónimo de dor, desespero, morte. Lisboa, capital de um pais neutro, é o objetivo de todos os que fogem e sonham com a paz que a América lhes pode oferecer.
A maioria da humanidade anseia por encontrar Deus, mas se realmente o encontrassem, o que fariam? O que perguntariam? O que pediriam?
Com uma narrativa cheia de diálogos e sem um único momento de ritmo baixo, Remarque mostra-nos um homem que regressa a casa, Alemanha, para encontrar a sua mulher. De origem judaica, este homem de vários nomes, dependendo do passaporte, oferece-nos uma história de sobrevivência, medo e incapacidade para perceber como poderá o mundo ter-se tornado no que o rodeia. Este homem, uma personagem excelente, transmite-nos o seu medo e confusão, confusão essa que o faz enfrentar, talvez de forma inconsciente, todos os perigos, apenas para ter a sua mulher a seu lado.
Na noite de Lisboa, já sem esperança, este homem descreve uma vida inteira de luta, alimentada por um sonho, mas destruído pelo mais inesperado inimigo. Uma vida é tudo o que temos, mas, e quando essa noção já não existe? Quando a nossa passagem neste mundo é tão cheia de dor e medo, que valor tem a nossa vida para nós mesmos?
Rodeado por este conflito global, o passaporte é o mais importante para a tua sobrevivência, é o que te pode salvar. Mas o que te define? Vivemos numa civilização regida por leis, e temos orgulho de mostrarmos como somos civilizados dentro dessa visão criada durante anos. Mas seremos civilizados por decisão ou imposição? Se houvesse impunidade para todas as nossas ações, que mundo seria o nosso? Quem é afinal este homem? O que aparece no passaporte, solitário, apreciador de arte; ou será aquele que enfrentou tudo para viver com a sua mulher?
A Segunda Guerra é um tema que me atrai bastante, e este livro está ao nível das minhas expectativas. Rico em sensações e questões marcantes, vemos um homem para o qual já nada tem valor. Vive apenas para matar o inimigo e contar a sua história, e talvez assim, atingir a imortalidade que o seu amor merece. Ou talvez encontre o significado e lógica para tudo o que o rodeia.
A imagem de Lisboa é de uma cidade luminosa, num mundo sombrio, onde reside alguma esperança. Remarque dá-nos um livro que me faz lembrar O Pianista, livro também fantástico e que aconselho.
Não é o melhor livro que li sobre esta época, mas a sua qualidade é inegável e será uma excelente leitura para quem gostar de ler as impressionantes experiências de vida desta época e sobre a qual todos nós devemos saber um pouco mais. Gostei bastante do final, que poderá não agradar a todos, não por ser feliz ou triste, mas porque acaba de forma pouco usual e que me surpreendeu bastante.
Irei, certamente, voltar a este autor, e talvez ler o seu mais famoso trabalho: A Oeste nada de novo. Para todos os que procurem bons livros sobre esta época, sem apresentarem uma grande violência, este livro é uma excelente escolha.



