domingo, 30 de outubro de 2011

ACÁCIA - Ventos do Norte

Autor: David Anthony Durham

Título original: Acacia – The War with the Mein


Nota: Foram várias as pessoas que me pediram uma opinião a este livro, muitos na dúvida se deveriam "entrar" em mais uma nova saga. Esta minha opinião é certamente extensa, mas tentei falar sobre todos os aspectos fundamentais do livro, para que possam tirar as vossas conclusões sobre a sua aquisição ou não. 


Sinopse: Leodan Akaran, rei soberano do Mundo Conhecido, herdou o trono em aparente paz e prosperidade, conquistadas há gerações pelos seus antepassados. Viúvo, com uma inteligência superior, governa os destinos do reino a partir da ilha idílica de Acácia. O amor profundo que tem pelos seus quatro filhos, obriga-o a ocultar-lhes a realidade sombria do tráfico de droga e de vidas humanas, dos quais depende toda a riqueza do Império. Leodan sonha terminar com esse comércio vil, mas existem forças poderosas que se lhe opõem. Então, um terrível assassino enviado pelo povo dos Mein, exilado há muito numa fortaleza no norte gelado, ataca Leodan no coração de Acácia, enquanto o exército Mein empreende vários ataques por todo o império. Leodan, consegue tempo para colocar em prática um plano secreto que há muito preparara. Haverá esperança para o povo de Acácia? Poderão os seus filhos ser a chave para a redenção?


Numa fase em que o mundo literário devora as páginas de George R. R. Martin (não só por haver uma série televisiva mas também pela enorme qualidade da saga) este autor aparece com uma série que pode levantar comparações. Basta ver as críticas internacionais. Mas existem assim tantas parecenças?
Sinceramente não existem assim tantas e Acácia “sofre” do facto do actual termo de comparação para qualquer livro da fantasia ser a saga de GRRM. Vendo aliás, de um ponto de vista mais amplo, as parecenças com Duna em relação ao enredo inicial, são mais notórias. Um Império dependente de uma droga que alarga os “horizontes” de quem a consome e a moralidade do comércio de escravos, juntamente com a tentativa de assassinato do Rei.
Claro que enquanto lemos o livro percebemos que realmente existem parecenças com a saga Game of Thrones, não só por cada capítulo ser visto pelos olhos de personagens diferentes, mas principalmente na muito falada ambiguidade moral. Mas Acácia consegue uma identidade própria nesta metade do primeiro volume, e que melhor elogio poderia eu fazer?
A também muito falada “brutalidade” não faz grande aparição neste livro, é-nos apenas dada de relance, mas neste aspecto, ao ter como base o que já vi neste livro, estou muito confiante que Durham irá surpreender. Quem o ler perceberá do que falo.
Dentro do género de fantasia este livro não inova, não deslumbra, mas também quantos o fazem actualmente? É tal factor uma necessidade para termos um bom livro de fantasia? Ajuda, mas não é obrigatório e como tal, Acácia tem tudo para se tornar numa excelente série. O primeiro factor positivo é que sendo um primeiro livro, e oferecendo uma quantidade enorme de introduções e explicações, a sua leitura nunca me aborreceu, o que não é fácil sendo um 1º livro que tenta explicar tanto (culturas, raças, mitos, História, religião, etc…). É um início também marcado por diálogos “mornos”, com o objectivo de explicar e não de acelerar a evolução da história, tornando estas primeiras páginas na dúvida moral do Rei Leodan. Sendo das personagens que mais gostei, é esta sua luta interior e o seu objectivo de vida que mais me agradou nas primeiras páginas, tornando este Rei num homem normal, com erros no passado e remorsos adjacentes. No entanto rapidamente percebemos que se trata de uma pessoa presa por correntes que nunca poderá quebrar e tal aspecto é a grande visão deste mundo.
Num mundo onde ainda existe muito pouca “magia”, e com uma História sustentada por mitos, a religião mostra-se forte e é descrita de forma agradável pelo autor, e desde cedo se percebe que terá um papel importante no futuro. As diferenças culturais são assinaláveis e um dos grandes trunfos desta obra até agora. Com os “olhos” de quatro ou cinco personagens, Durham desvenda-nos um mundo multirracial, com todos os factores que distinguem uma população a serem bem descritos e pensados. No fim percebemos que estas civilizações que habitam um mesmo mundo, não deslumbram individualmente, mas enquanto conjunto fazem este livro funcionar.
As personagens são boas e nota-se que têm tudo para evoluírem, permitindo certamente uma leitura mais viciante, no entanto o desenrolar dos acontecimentos não permite um grande aproximar das personagens com o leitor, pois “passamos” pouco tempo com elas. As duas excepções são Leodan, que já mencionei, mas também Hanish Mein, o melhor personagem desta história até agora. Sendo o “mau da fita”, foi a personagem que me deu prazer ler. A outros poderá não agradar, mas pessoalmente gostei de sentir que não é um vilão puro, mas sim um homem revoltado e cruel, moldado pelo mundo, capaz de odiar e quem sabe de amar. É uma personagem a seguir!
Corinn é também uma personagem que gostei, principalmente pela forma negra como vê a vida e espero que assim continue. De realçar ainda que a personagem Thadeus, sendo claramente secundária, mostra uma qualidade de assinalar, e acabamos por ver um homem alimentado pela revolta e remorso.
Resumindo, este livro mostrou-me quatro personagens que realmente gostei, e se o facto de não existirem descrições de batalhas pode afastar alguns leitores, o mundo construído por Durham consegue apagar esse facto, principalmente porque os diferentes olhos espalhados pela história mostram-nos civilizações diferentes e agradáveis, dando a este livro todas as condições para evoluir o meio onde tudo se desenrola. Para já deve-se assinalar que é um livro que tem mais qualidade no mundo que apresenta do que na história, mas estamos demasiado no início para se perceber até onde poderá ir esta saga.
É obviamente um livro que sofre por ser dividido (tal como A Guerra dos Tronos sofreu), mas que faz o que lhe é pedido: introduz e agarra o leitor. Sinceramente penso que quem gostar do género, depois de ler este primeiro livro, certamente irá ler o seguinte.
Durham tem aqui grande oportunidade para criar algo realmente bom. Esperemos para ver se consegue!

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A ESTRADA

Autor: Cormac McCarthy

Título original: The Road

Sinopse: Um pai e um filho caminham sozinhos pela América. Nada se move na paisagem devastada, excepto a cinza no vento. O frio é tanto que é capaz de rachar as pedras. O céu está escuro e a neve, quando cai, é cinzenta. O seu destino é a costa, embora não saibam o que os espera, ou se algo os espera. Nada possuem, apenas uma pistola para se defenderem dos bandidos que assaltam a estrada, as roupas que trazem vestidas, comida que vão encontrando - e um ao outro. 
A Estrada é a história verdadeiramente comovente de uma viagem, que imagina com ousadia um futuro onde não há esperança, mas onde um pai e um filho, "cada qual o mundo inteiro do outro", se vão sustentando através do amor. Impressionante na plenitude da sua visão, esta é uma meditação inabalável sobre o pior e o melhor de que somos capazes: a destruição última, a persistência desesperada e o afecto que mantém duas pessoas vivas enfrentando a devastação total.

Este foi o livro que deu a McCarthy o Prémio Pulitzer e será talvez a sua obra mais aclamada, sendo certamente um dos melhores dentro do género de Ficção-Científica Apocalíptica. Sem nunca percebermos o que aconteceu ao mundo, a bela escrita do autor contrasta com o mundo devastado. As estradas não têm nome, nem os locais. O mundo não tem cor, apenas sangue, cinzas e medo, num cenário de céu e neve cinzenta. Apenas sabemos que as personagens dirigem-se para Sul, e nem elas sabem o que os aguarda nessa costa onde esperam que o mar ainda seja azul.
As personagens, pai e filho, não apresentam nome ou idade, apenas esperança. Este simples facto de nada ser identificado pelo autor aproxima-nos de forma indirecta, permitindo-nos viver estas páginas mais intensamente. É como se fossemos nós ali, e aquelas ruas as do nosso país.
Alguns poderão achar este livro repetitivo, mas apenas porque as rotinas de sobrevivência também as são. Permanentes, repetitivas, tal como o próprio objectivo. Sobreviver. Pessoalmente achei-o aterrador pela imagem forte que o autor nos dá de um mundo onde nada resta. Não há o verde nas árvores, nem o doce das frutas, nem o movimento dos animais, nem a capacidade de ajudar o desconhecido. É um planeta desolado onde grupos tentam sobreviver de comida enlatada, água da chuva… e de carne humana. A comida é o maior dos bens. Gasolina, armas, ferramentas, tudo isso serve para ajudar à derradeira necessidade: encontrar comida.
O canibalismo é o maior medo, acima da tortura ou da violação. É esse medo que faz o pai poupar uma bala para um dia matar o filho, se forem apanhados. E que sensação marcante é. Consegue um pai matar um filho quando o momento chegar? Este pai, desprovido de qualquer objectivo que não seja levar o seu filho até ao Sul, fará tudo para o manter vivo. Ele é a encarnação daquela força que não nos deixa desistir quando todos os outros o fazem. O tempo passa, a sensação de privação também, mas os medos ficam. Este pai desconfia de tudo e de todos, mas até que ponto poderá ele um dia desconfiar da própria esperança?
À sua frente os corpos comidos, as pessoas que se matam para fugirem à dor, à violação e ao canibalismo. Este livro obriga-nos a perguntar: qual é o ponto em que todos perdemos o sentido de humanidade? Até onde vai o Homem que anseia sobreviver? Onde está a linha que separa os bons dos maus se o que está em causa é a sobrevivência do que mais estimamos? Até onde vamos para salvar um filho?
A imaginação do autor para criar situações neste mundo apocalíptico leva-nos simplesmente a perceber que nada nem ninguém poderá estar preparado para uma situação extrema como esta. Quem está acompanhado não está preparado, nem quem está sozinho, ou armado, ou desprovido de medo. Nem quem acredita em Deus está preparado para o que este livro dá às suas personagens.
O filho que deseja uma criança com quem brincar percebe que nos esquecemos do que queremos recordar, e recordamos o que queremos esquecer. O medo e a tristeza depois de instaladas na mente humana podem ser tapadas, mas a recordação permanecerá para sempre. O pai sabe, ou pelo menos tenta mentalizar-se do óbvio: um dia irá deixar o seu filho. Mas estará a criança preparada quando tal acontecer? Estaria qualquer leitor preparado para viver sozinho num mundo desolado que nos deseja devorar?
Este é um excelente livro, com uma força narrativa que nos obriga a continuar a ler, a preocupar-nos com este pai e filho sem nomes. Algumas pessoas poderão odiar o livro, pela sua imagem cinzenta, por ser um conjunto de páginas desprovidas de esperança, ou pelo seu final que marca quem quer que o leia.
No fim pergunta-mos: estará um pai preparado para deixar um filho? E um filho para deixar o pai? E se nunca tiverem de o fazer? Há situações para as quais não estamos preparados e somos atingidas por elas… talvez seja melhor estarmos preparados. Estar sempre preparado. Conseguirá o amor de um pai e filho vencer onde tudo o resto falhou?
Um excelente livro, uma surpresa muito agradável, com uma personagem principal marcante e inspiradora, e que recomendo vivamente a quem gostar do género.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

HARRY POTTER e a Pedra Filosofal

Autor: J. K. Rowling

Título original: Harry Potter and the Philosopher’s Stone


Tinha talvez uns oito anos quando comecei a ler os livros d’Os Cinco. Li-os compulsivamente, os 21 livros das aventuras dos quatro primos e do seu cão. Depois, não sei explicar porquê, estive uns cinco anos sem ler qualquer página. Este foi o livro que me fez ressuscitar o vício da leitura, deveria ter uns 15 anos. Uma amiga da escola, que mais tarde se tornaria na minha namorada, emprestou-me este livro e adorei. Como poderia não adorar? Quantas pessoas no mundo leram este livro com 15 anos e não gostaram? Se calhar contava-os com as duas mãos.
Não há livro deste feiticeiro que não tenha lido pelo menos duas vezes, e alguns casos terão sido umas quatro, mas ainda hoje se voltasse a ler, ficaria tão viciado como fiquei na primeira vez. 

Falando especificamente deste livro, Rowling apresenta-nos um mundo fantástico, envolvente, um mundo no qual gostaríamos de viver. Que adolescente não preferiria estudar magia do que matemática ou biologia? Pois. Para além disto, Rowling junta-lhe ainda uma escola onde há equipas, pontos para dar e retirar aos alunos, um desporto pelo qual todos são fanáticos, fantasmas amigáveis, uma personagem principal que é famosa, etc… Rowling apresentava só e apenas o “mundo” mais lucrativo de sempre (e pensar que tantas editoras rejeitaram este livro). 
Outro ponto muito positivo são as personagens, que não demonstrando uma profundidade neste livro que nos leve a pensar “que personagem bem criada”, a verdade é que encaixam no mundo, falando sobre ele, movimentando-se consoante os condicionalismos deste mundo mágico e no fim percebemos que tudo serviu para afastar este mundo do real, mas tudo o que era necessário e palpável estava ali, para ser lido, tornando-o quase real.  A imaginação de Rowling, quer se goste quer não, é prodigiosa! Claro que termos 15 anos quando o lemos ajudará ao fascínio que adquiri por este mundo, mas o óbvio tem de ser dito: a criação de Rowling tem uma qualidade inegável e que agora, com 26 anos, me é muito mais perceptível do que antes.
A história já é conhecida por todos, afinal de contas este livro “pôs” o mundo a ler e esta geração que agora lê George R. R. Martin e muitos outros autores que agora vendem, é a mesma geração que leu Harry Potter e cresceu com este feiticeiro e seus amigos. 
Sendo o primeiro livro, a introdução ao mundo mágico é incrivelmente bem feita, nunca sendo maçadora, cai-nos à frente com uma naturalidade tal que nos faz sonhar com tal mundo, imaginar como seria se existisse mesmo. As personagens principais são apresentadas e desde cedo percebemos as suas personalidades, começando logo a ser delineado o caminho que nos levará até ao sétimo livro. Para quem como eu, tenha relido estes livros, percebe-se como Rowling desde o início sabia como a história iria acabar. Tal sensação aumentará a cada livro e aqui a autora mostra uma mestria fora do normal. Como história em si, este primeiro livro não deslumbra, pois serve mais como introdução do mundo e do passado de HP do que para desenvolver a história em si, mas será sempre viciante e fundamental para se perceber a história da saga.
Os diálogos são bons, ajudando à exploração do mundo e das personagens, com momentos de humor bem conseguidos e a escrita de Rowling é neste livro mais infantil e evolui juntamente com o próprio Harry Potter, culminando num sétimo livro mais dirigido para adultos do que para adolescentes.
Esta foi a única saga que me dei ao trabalho de ler em inglês simplesmente porque não aguentava a espera da tradução. Esta é a saga que me introduziu ao fantástico, género que nunca mais larguei e tenho perfeita consciência de um simples facto: se daqui a muitos anos voltar a lê-los, mesmo após ter lido os grandes clássicos do género, este feiticeiro e o seu mundo continuarão a viciar-me, fascinar-me e irei certamente dá-los aos meus filhos para o lerem.
  
Uma saga imperdível, um começo excelente neste primeiro livro, que não sendo uma obra-prima, é obrigatório por tudo o que nos oferece. É como se conseguíssemos ser felizes por entrarmos neste mundo, e quem não quer ser feliz? Sendo certamente mais viciante para adolescentes e mais compreendida pelos adultos, os livros merecem ser lidos, esqueçam os filmes! Cada vez que vejo uma adaptação cinematográfica de Harry Potter sinto uma facada nas costas por serem tão más! Se és daqueles fãs de HP que só viram os filmes, lê os livros! Lê os livros!
Poderia estar aqui o dia todo a falar de HP, mas deixarei o resto para os próximos livros, onde falarei mais da história, personagens e sua evolução.
Até lá, obrigado J. K. Rowling.

sábado, 22 de outubro de 2011

DUAS IRMÃS, UM REI

Autor: Philippa Gregory              

Título original: The other Boleyn Girl



Este livro fala-nos de desejo, mas o que é tal “coisa”? Que sentimento é esse que nos rouba a lógica, destrói limites e moral, mudando uma pessoa? Este é um livro que nos mostra que o ser humano vive a desejar o que não tem. Quando o tiver, é provável que deixe de desejar. No fim percebemos, nós não escolhemos o que desejamos. É algo mais forte do que nós, que não controlamos e na nossa falta de lógica não conseguimos explicar. E é isso que acontece ao Rei Henrique VIII.

Este foi o único livro que li desta autora. Li-o porque esta parte da História inglesa sempre me interessou e as críticas do livro foram muito favoráveis. No entanto há dois factores a ter em mente quando agarramos este livro: primeiro que é uma obra de ficção, não um livro para aprendermos o que realmente aconteceu. Segundo, este livro tem 640 páginas, o que a princípio pode desagradar às pessoas que suspeitem que este seja um livro cheio de descrições e com uma leitura lenta.
Mas é a escrita de Philippa que torna este livro em algo agradável a ser lido. Uma escrita fácil, rápida e acessível, sem nunca deixar de descrever a vida da corte de forma surpreendentemente apelativa, o que é raro. É verdade que para mim, este livro terá umas páginas a mais, mas torna-se um pormenor insignificante quando acabamos a sua leitura.
Por vezes, nestes livros de Ficção Histórica, desagrada-me os autores “colocarem” diálogos quase sem conteúdo apenas para “encher” um pouco ou tentar demonstrar um mero ponto de vista de uma personagem. Esta autora não cai nesse erro, e os diálogos são fortes, necessários e muito bem construídos, ajudando sempre à compreensão da intriga e das personagens.
Para quem viu o filme, uma vez mais temos uma adaptação cinematográfica muito distante do livro. O livro, claramente superior, foca-se menos nas duas irmãs, Maria e Ana Bolena e dá-nos outras perspectivas, principalmente do Rei e Rainha. O Rei é a personagem que move este livro, quase indirectamente. Primeiro por sermos hipnotizados com a sua magnificência tal como todas as outras personagens o são, e depois ao percebermos que estamos perante um homem “mimado” que sempre teve tudo o que queria, nunca ninguém o confrontara com nada, e é esse o segredo de Ana, ela percebe-o tal como percebe a natureza do desejo.
No entanto este continua a ser um livro sobre as duas irmãs, e aqui a distinção entre elas é bem construída e coerente, mas a gosto pessoal achei a personagem Maria demasiado “boazinha” e ingénua, uma tentativa talvez demasiado forçada (na minha opinião) de mostrar uma personalidade que seja coerente com as suas acções. Durante toda a história é uma personagem que também se desenvolve, também aprende e confesso que gostei de como se desenrola a relação com o seu futuro marido.
A outra irmã, Ana, é uma personagem fabulosa, tal como o foi na vida real. Uma mulher capaz de tudo, que percebe o que a rodeia e se liberta dos poderes que o homem detinha sobre o sexo oposto, conseguindo alcançar com palavras e olhares aquilo que muitos não conseguiam com milhares de espadas. Mais fascinante ainda é a sua transformação quando consegue o que quer, tornando-se numa pessoa sufocada pelo medo de perder o que ganhara. Ninguém quer perder o poder que tem!
Existem também outras personagens interessantes neste livro, e todas elas lutam pelo mesmo. Numa época onde a posição na corte valia mais do que família ou moral, vemos como a sede de poder move muito mais do que tudo o resto e vemos o que se fazia pelo favor de um Rei, Soberano este que vivia para ser elogiado, sendo tal o seu impulso para as suas acções.
A religião está bem presente tal como a mentalidade do povo e os condicionalismos nos nobres para com a igreja, levando-nos a perceber que quando os interesses supostamente divinos levam a que nem sempre morra o culpado. Talvez o culpado seja realmente culpado de alguma coisa, mas talvez não do que é acusado.
Não sendo dos géneros literários que mais leio, este livro agradou-me imenso, pois tem o que é essencial, bons diálogos, boas descrições que não saturam, uma boa intriga base e personagens que se “movem” de forma coerente numa época histórica que me agrada imenso. Do melhor que já li de Ficção histórica, bem diferente do filme com o mesmo nome.
Fica o resto da saga para ler um dia, sem falta.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A LUZ MISERÁVEL

Autor: David Soares      


Nota: peço desculpa pelo tamanho deste texto, mas falar sobre um livro com três contos não é fácil em poucas palavras. 


Talvez algum observador vigiasse a marcha do mundo, impedindo que ele desaparecesse.

Há poucos meses David Soares era um desconhecido para mim, nunca lera nada seu, mas houve qualquer coisa no seu livro Batalha que me fez agarrá-lo. Talvez tenha sido a capa, ou a ideia base… li-o sem qualquer expectativa, limitei-me a ler. Batalha foi a mais agradável surpresa deste ano até agora. Apareceu como um livro estranho e acabou como um livro que recomendo, muito! Sendo assim seria inevitável voltar a este escritor que tanto me agradou, mas qual seria o livro próximo a ler? Acabei por escolher este, um pequeno livro de contos, três, que escolhi por um simples aspecto: as páginas negras com as letras a branco. Nunca li um livro assim e tal pormenor agradou-me enquanto me senti rapidamente enquadrado com o ambiente do livro. O horror…

Sendo um livro de contos independentes, o primeiro é o mais curto, de longe o mais soft, e também aquele que mais me viciou, não só pelos seus diálogos mas também por ser uma história que tentava mostrar bases científicas que me agradaram e um casal de personagens, onde um é médium e o outro invisível, que me pareceram encaixar bem. Existia uma solidão inerente, uma necessidade de afecto que apreciei. Mas confesso que o fim deste conto me deixou com uma mistura de sabores, por não ser o que esperava, apesar de sentir uma mensagem intrínseca que me agradou.
No segundo conto o horror apresenta-se mais explícito, com um ritmo mais rápido, muito mais negro, quase angustiante em certos momentos. Trata-se da história de três antigos ex-combatentes, os seus traumas e o que farão para fugir do medo dos fantasmas que os perseguem. Gostei  bastante do tema. Nós somos, sem dúvida, o resultado do que vivemos, do que sentimos, do que nos rodeia. Um efeito borboleta de todas as acções, todas as situações desde que nascemos, moldando-nos constantemente. Umas situações marcarão mais que outras. A guerra tocará obrigatoriamente no extremo das situações marcantes, e isso está muito bem vincado neste conto.
O terceiro conto é para mim o melhor, contando a história do Rei Assobio, um velho com uma infância traumatizante que o leva a uma “caça” que acabará num final surpreendente. É para mim o melhor conto pois tem toda a lógica necessária para ser bem sustentado e apresenta-se como o conto onde a personagem principal é melhor construída, levando-nos a perceber o porquê. David Soares apresenta também aqui uma boa capacidade para “entrar” na mente das crianças (suas personagens), quer nas suas acções, quer nos diálogos.E no fim cada pormenor conta.

Em cada conto existe uma ou mais mensagens, e muito sobre qual reflectirmos. Cada pessoa irá certamente encontrar a sua própria mensagem, significados diferentes, sensações distintas, e nesse aspecto David Soares dá-nos liberdade. Já graficamente tal liberdade não existe, pois Soares descreve com pormenor e qualidade aquilo que devemos ver, sendo a sua visão do horror, não o nosso. Tais descrições serão certamente demasiado fortes para alguns, mas também a realidade o é, como tal a sua escrita firme e directa no que devemos ver na nossa mente está muito bem conseguida. No entanto devo dizer que David Soares tem a capacidade, que me agrada, de não chegar ao ridículo que outros autores atingem ao tentarem criar a sensação de horror. Neste livro o horror é promovido com a lógica retirada do contexto da história em si, e para mim é algo que faz a diferença. Não existe o absurdo descontextualizado.
Com as suas páginas pretas, A Luz Miserável dá-nos aquela sensação que vemos nos filmes onde está sempre a chover, algo está mal, mas Soares não promove o suspense, promove antes o horror, aquela sensação que nos percorre o corpo no exacto instante em que o horror ocorre, sem nada que nos prepare para tal. Este tipo de horror é quase a própria vida, a cada instante, estamos bem, estamos mal no instante a seguir. Parece que o livro indirectamente nos tenta acordar desta apatia… mas como disse, cada pessoa criará os seus próprios significados, este é meu.

Não sou, nem de perto, um bom conhecedor deste género, mas um detalhe que me agradou tem a ver com o facto de este autor não centrar o horror nas horas onde não existe luz. Em outros livros ou filmes, muitas vezes me desagrada o facto de quando chega a noite saber que algo vai acontecer. Aqui tal não acontece, porque não existe hora específica para o horror, tal como na vida real. Mas como disse, não sou um conhecedor do género, como tal admito que existirão certamente outros livros que tenham esta particularidade, eu apenas não os conheço.
Este é um livro para pessoas que apreciem descrições fortes, repugnantes, que existem no nosso mundo a cada segundo. Nós apenas temos a sorte de não as ver, ou decidimos não ver. Pessoalmente apreciei, pela sua qualidade, pelo que tenta transmitir. Não gostei tanto deste livro como de Batalha (são géneros diferentes com escrita distinta), mas é a confirmação de que David Soares é um autor para seguir. Irei certamente ler outros livros da sua autoria e quem sabe, talvez um me agrade ainda mais do que a história da ratazana chamada Batalha.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A DANÇA DOS DRAGÕES

Autor: George R. R. Martin

Título original: A Dance with Dragons



Ao contrário de muitos outros fãs desta saga, eu não tive de esperar os vários anos que Martin precisou para escrever este livro, mas talvez contagiado pela excitação daqueles que há mais de 5 anos esperavam, também eu olhei para este livro com expectativas altas, ou não estivéssemos a falar de George R. R. Martin.
Este é um livro que não desilude, mas também não deslumbra, e porquê? Passo a explicar: sendo cronologicamente uma continuação de A Glória dos Traidores e como tal, a sua acção a passar-se ao mesmo tempo de O Festim de Corvos, também este livro apresenta um ritmo mais lento, e uma vez mais vemo-nos rodeados pelos jogos de bastidores onde novas alianças são criadas, agora que a guerra parece esfumar-se. Sendo assim, sentimos a mesma sensação que a ler o Festim, a sensação que estamos a ler um livro que é mais de personagens e suas decisões do que dos acontecimentos propriamente ditos. 
Se nos dois livros anteriores ganhamos os “olhos” de personagens de Dorne e das Ilhas de Ferro, agora ganhamos Melisandre e Cheirete. Começando por Melisandre, o seu único capítulo é muito bem conseguido, não pelo que revela, e é bastante até, mas essencialmente por dar a ideia que há muito mais a revelar sobre esta personagem. Já Cheirete apresenta-se como uma personagem fabulosa e é na minha opinião o grande toque de qualidade deste livro, não só pela personagem, pelos seus pensamentos, mas essencialmente pela forma como esta personagem é construída. Quem ler o livro perceberá o que quero dizer. Desde o início que olhei para Martin como um autor capaz de criar grandes personagens, mas esta realmente deixou-me de boca aberta, pelo inesperado, pela capacidade de transição que Martin faz entre personalidades, e pela crueldade do mundo que rodeia este Cheirete e como este mundo o condiciona a cada instante. Cada capítulo desta personagem é brilhante pois quase cheiramos, não o seu cheiro, de onde vem o seu nome, mas sim do medo que transpira.   
Tal como está escrito no livro : “- Um leitor vive mil vidas, antes de morrer – disse Jojen. – O homem que nunca lê só vive uma.”, e nós vamos vivendo as vidas destas personagens, que cativarão cada leitor de forma diferente, e observamos a evolução das mesmas. Nesse aspecto penso que Daenerys é quem mais evolui, principalmente pela necessidade de ganhar uma maior maturidade devido aos problemas que enfrenta, e tal evolução agradou-me, principalmente porque nunca foi das personagens que mais me cativou. Tyrion e Jon Snow estão presentes com vários capítulos e também não desiludem, mas uma vez mais dentro do ritmo que anteriormente falei, o ritmo de acontecimentos mais lento depois da guerra. No entanto as linhas onde Snow aparece são uma boa mistura de dúvidas interiores e necessidade de responsabilidade, “mata o rapaz”.
De salientar ainda que tal como previsto no livro anterior, Martin fez-nos olhar para um lado quando a verdade está no outro, e se tal poderia ser previsível, já o como seria feito era o que queríamos saber. A questão é: existirá ainda mais alguma coisa que pensámos ter visto e estamos enganados? Espero que sim.
Resumindo esta opinião, que no fundo é apenas metade do original A Dance with Dragons, este livro não é o melhor da saga, mas apresenta um ritmo superior ao O Festim de Corvos, deixando a expectativa que o próximo livro (segunda metade de A Dance with Dragons) poderá desenvolver mais a história para a qual não vemos um fim à vista. 

Existirá certamente alguém que olhe para este livro e o ache abaixo do que desejavam, obviamente nós desejamos sempre mais, principalmente numa saga tão boa. Eu pessoalmente penso que Martin arriscou quando decidiu dividir os livros entre Norte e Sul, e esse risco nota-se agora. Se olharmos para este livro como o completar do livro anterior, certamente encontraremos muito mais qualidade do que à primeira vista, e principalmente encontraremos um trabalho exaustivo, certamente, para que tudo encaixe com tantas personagens a moverem-se.
Mal posso esperar pelo próximo, mas agora também eu estou condenado a esperar um pouco mais pela continuação...
Onde quer que as rameiras vão...

sábado, 15 de outubro de 2011

O FIEL JARDINEIRO

Autor: John le Carré

Título original: The Constant Gardener


Nas margens do lago Turkana, no Quénia, um a mulher jovem e bela, Tessa Quayle, é brutalmente assassinada. O seu suposto amante e companheiro de viagem, um médico sul-africano, desapareceu sem deixar rasto. Justin, o marido de Tessa, ambicioso diplomata da Embaixada Britânica em Nairibi, o grande amante da jardinagem, não aceita a versão oficial do crime e empreende, por sua conta e risco, uma busca pessoal em perseguição dos assassinos de sua mulher.


Quanto vale a vida de uma pessoa? E a de uma pessoa que a estatística diz estar quase a morrer? Pode esse valor ser medido pelos parâmetros que estamos habituados? Dinheiro? Fama? Bem-estar?
Este livro faz-nos estas perguntas indirectamente, não nos dá a reposta, mas dá-nos um caminho para a alcançarmos. A resposta é simples: cada pessoa dá um valor diferente à vida, tanto à sua como à de outras pessoas. algumas, não dão valor.
Num livro bem diferente da atmosfera em que le Carré costuma escrever (deixando para trás a espionagem pura em que o personagem principal é um operacional), este magnífico escritor leva-nos até ao Quénia, e a uma história onde a base é o amor. Mas conseguiria le Carré, o autor de O Espião que saiu do frio ou A Toupeira, escrever um livro onde a base é o amor? A resposta é “sim”. John le Carré é um dos melhores escritores da actualidade, escreve como poucos e sabe o que escreve.
Desta vez encontramo-nos em África e seguimos os passos de Justin Quayle na busca pela verdade da morte da sua mulher. Um livro que começa lentamente, mais do que o normal em le Carré, poderá desanimar alguns leitores, mas para mim o selo de qualidade está no nome do autor, e como tal continuei. No fim o sorriso nos lábios por ler mais um grande livro, com um final arrebatador num romance que não foi feito para ser cor-de-rosa, mas sim realista, duro.
Um dos factores que mais gostei neste livro é a gradual mudança da personagem principal que começa por ser um resignado e acaba um fervoroso lutador pelos direitos humanos. Carré escreve uma obra que consegue mostrar a natureza humana, aquela capacidade que todos tempos de ver a desgraça alheia, sofrer por momentos, olhar para o lado… e já esquecemos. No caso de Justin, a busca pelos culpados da morte da sua mulher leva-o a esta mudança de atitude enquanto se apercebe de como não conhecia a mulher quando esta estava viva, para agora a entender melhor, ao ponto de se tornar mais compreensivo com as suas atitudes passadas, ao ponto de as aceitar e adoptar, e aquele casal insólito com duas personagens tão distintas, afinal não o eram assim tanto, a vida apenas os moldara de formas diferentes.
Este livro marca ainda por conseguir mostrar a frustração de quem tenta ajudar, de quem sacrifica a única vida que tem para ajudar o próximo, e poucos actos poderão ter tamanho valor, mas no fim o que vemos é sacrifício e riscos para quem ajuda e lucro para quem faz de conta que ajuda. Num continente esquecido por Deus, o Homem mata apenas para ter mais (dinheiro, poder ou outra coisa qualquer que para eles tenha valor), mas para quê querer mais se o que tinham já chegava? Natureza Humana…
No fim os olhos fecham-se, a corrupção move tudo, consegue tudo.
Le Carré dá-nos um livro inteligente, e isso nota-se nos diálogos e também por apenas nos dar a conhecer aos poucos, nos momentos certos, o que realmente se está a passar, deixando-nos a princípio tão cegos quanto o personagem principal. Nota-se ainda um enorme estudo por parte do autor sobre África, os interesses de quem tem poder, o que move quem ajuda e quem finge que ajuda apenas para benefício próprio.
Este não será certamente o melhor livro de John le Carré, mas é certamente muito bom. Um livro diferente do que nos habituou mas que não deixará ninguém indiferente, pois consegue ser belo e sonhador, cruel e angustiante.